Autor: Levon Nascimento

  • Análise: Por que Bolsonaro é réu e deve ser preso?

    Análise: Por que Bolsonaro é réu e deve ser preso?

    A decisão unânime do Supremo Tribunal Federal (STF) de tornar Jair Bolsonaro réu por tentativa de golpe de Estado, organização criminosa e atentado à democracia não é um capricho político. Trata-se do resultado de uma investigação com provas sólidas, que revelam um plano estruturado para desestabilizar as instituições. O ex-presidente não apenas levantou dúvidas sobre as urnas eletrônicas, mas também incentivou e coordenou ações para alimentar insurreições e dificultar a transição de poder após sua derrota em 2022.

    Os documentos analisados pelo STF e pela Procuradoria-Geral da República (PGR) mostram que Bolsonaro e aliados promoveram reuniões com militares para espalhar a falsa narrativa de fraude eleitoral, sem apresentar qualquer evidência. O ministro Alexandre de Moraes, ao aceitar a denúncia, foi direto: havia uma “intenção explícita de golpe”. Isso incluiu um “decreto ilegal” para interferir no processo eleitoral e a mobilização de grupos radicais, culminando nos ataques de 8 de janeiro de 2023.

    A CPMI dos Atos Golpistas reforçou essa tese, apontando que o objetivo era criar um clima de caos para justificar uma intervenção militar. Como explicou o jurista Carlos Ari Sundfeld ao ICL Notícias, “as provas são contundentes: há registros de reuniões, mensagens e documentos que comprovam a coordenação entre o núcleo bolsonarista e grupos que vandalizaram as sedes dos Três Poderes”.

    A Primeira Turma do STF, composta por ministros de diferentes perfis ideológicos, tomou uma decisão unânime, o que mostra a força do caso. Em seu voto, a ministra Cármen Lúcia ressaltou que “a democracia não se negocia: ou se defende ou se perde”. Já Flávio Dino, ao apoiar a denúncia, lembrou que “golpe de Estado mata”, alertando para os riscos da violência política.

    A unanimidade também desmonta a tese de “perseguição”. Como destacou a CartaCapital, Bolsonaro passou de “incentivador de golpistas a réu” em 838 dias, um percurso traçado por suas próprias escolhas. Até mesmo antigos aliados, segundo o Brasil 247, admitiram em delações que a intenção era “criar condições para uma ruptura”.

    Curiosamente, algumas defesas dos acusados já não negam a existência de um plano golpista. Advogados citados pelo Brasil 247 reconhecem que “houve articulação, mas não consumação”, tentando minimizar as penas. Esse argumento, no entanto, só reforça a tese da acusação: a tentativa de golpe já configura crime.

    Lá fora, a repercussão tem sido intensa. Bolsonaro buscava apoio de figuras como Donald Trump, mas acabou constrangido. Em artigo no UOL, Leonardo Sakamoto lembrou que Trump “constrangeu Bolsonaro ao validar as urnas que ele tanto atacou”, esvaziando o principal argumento da suposta fraude.

    A questão agora não é apenas jurídica, mas também ética e política. Se a Justiça reconhece que um ex-presidente atentou contra a democracia, permitir sua impunidade abriria um precedente perigoso. Como alertou o ministro Alexandre de Moraes, “a organização criminosa não se dissolve sozinha”. A prisão de Bolsonaro não seria uma vingança, mas uma forma de garantir que novos ataques à ordem constitucional não se repitam.

    Além disso, a sociedade brasileira, que viu tanques nas ruas e discursos inflamados, precisa acreditar que a lei se aplica a todos. Como escreveu Reinaldo Azevedo no UOL, “Bolsonaro encontrou o destino que escolheu”. Se a democracia deve ser protegida, isso inclui consequências para quem tentou destruí-la.

    Num país com um passado marcado por autoritarismo, prender um ex-presidente golpista não é apenas uma questão de justiça, mas um sinal claro de que o Brasil não aceita mais aventuras contra a Constituição. O STF, ao menos desta vez, parece disposto a deixar esse recado na história.

  • Quem cuida de Francisco não dorme

    Quem cuida de Francisco não dorme

    A escalada do extremismo de direita entre católicos, em objetiva contradição com Jesus e o Evangelho, e também com o Concílio Vaticano II, a Doutrina Social da Igreja e o pontificado de Francisco, é uma chaga dolorosa no corpo místico de Cristo.

    Preferem seguir ídolos autodenomidados “influencers” em vez dos planos pastorais tão teologicamente bem engendrados pela colegialidade da Igreja.

    Cegam-se para a palavra e os exemplos de coragem e profetismo do Papa Francisco, negando-lhe até mesmo a caridade da oração pela cura na internação recente.

    Outros, avançam no mar das trevas, enquanto oram o rosário sem meditar nas palavras de Maria no Magnificat (Lucas 1,46-55). Com desassombro, chegam a desejar a morte do vigário de Cristo na Terra.

    Perseguem ao Padre Júlio Lancellotti, que acode o povo em situação de rua de São Paulo; difamam ao Frei Lorrane, que testemunha Francisco de Assis na prática pelas ruas de Salvador; renegam ao Frei Sérgio Görgen, que ensina teologia nos fazeres da lida diária; e tentam apagar a memória do martírio de Irmã Dorothy Stang.

    Estão doentes de ódio. Trocaram o verdadeiro Messias por aquele outro, de pés de barro.

    O que me anima, como disse um amigo que nem católico é, ao comentar minha postagem de felicidade no dia em que o papa recebeu alta hospitalar, é que “para tristeza de muitos, quem cuida da vida de Francisco não dorme nunca”.

    “Coragem, eu venci o mundo” (João 16,33b) – disse-nos Jesus.

  • História: o 1º Concílio Paroquial de Taiobeiras

    História: o 1º Concílio Paroquial de Taiobeiras

    Em 2025, celebramos os 90 anos de fundação da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras, um marco significativo na história da Igreja Católica no Norte de Minas Gerais. Dentro dessa trajetória, um dos momentos mais relevantes foi o 1º Concílio Paroquial de Taiobeiras, realizado entre os dias 30 de novembro e 2 de dezembro de 2007. Essa grande assembleia foi fruto de um extenso processo de discernimento que envolveu todas as comunidades eclesiais ao longo daquele ano. O evento aconteceu em um momento de transição importante, com a saída da Ordem dos Frades Menores (franciscanos), após 72 anos de presença, e a chegada dos sacerdotes diocesanos da Arquidiocese de Montes Claros à administração da paróquia.

    O 1º Concílio Paroquial de Taiobeiras, até hoje o único realizado, teve um papel inovador ao produzir um documento pastoral abrangente, que consolidou uma avaliação profunda da realidade local e estabeleceu diretrizes e compromissos pastorais fundamentais para a caminhada da paróquia. Na época, eu integrei a equipe de coordenação e, no atual momento celebrativo e jubilar, entrego esta síntese daquele documento, que foi estruturado em duas grandes partes:

    1. Caracterização da Paróquia e Desafios Sociais:

    • A Paróquia São Sebastião abrange 35 comunidades rurais e seis comunidades urbanas, todas organizadas em núcleos para facilitar a ação pastoral.
    • Foi destacada a importância do compromisso dos leigos e leigas em diversos serviços e ministérios da Igreja, reforçando a unidade eclesial.
    • A Igreja em Taiobeiras também se posicionou sobre desafios sociais, como a pobreza, a prostituição infantil e a necessidade de maior participação dos fiéis na vida política com base nos valores do Evangelho.
    • Incentivou-se a valorização da educação como instrumento de transformação social, recomendando-se a criação de uma Pastoral da Educação.

    2. Diretrizes Pastorais e Evangelizadoras:

    • A catequese foi apontada como um pilar essencial da formação cristã, destacando-se a necessidade de torná-la mais dinâmica e ligada à realidade dos fiéis.
    • A juventude recebeu atenção especial, com o reconhecimento de que era preciso uma abordagem mais atrativa para os jovens, utilizando linguagem acessível e promovendo eventos voltados para essa faixa etária.
    • A Pastoral Familiar foi fortalecida para acolher realidades como casais em segunda união e mães chefes de família, promovendo um trabalho pastoral mais inclusivo.
    • Houve também a reafirmação do compromisso com os mais pobres, reforçando a “opção preferencial pelos pobres” e buscando ações concretas para melhorar a qualidade de vida da população local.
    • A gestão financeira da paróquia foi discutida, enfatizando a importância do dízimo para a sustentabilidade das ações pastorais.
    • A liturgia foi avaliada e houve um apelo para maior zelo na preparação das celebrações, garantindo que fossem momentos vivos de encontro com Deus.

    Ao final do Concílio, foram elencadas prioridades para o biênio 2008-2009, incluindo o fortalecimento da Pastoral da Juventude, a reestruturação da Pastoral Familiar, o retorno das Irmãs da Divina Providência e a criação da Paróquia de Santo Antônio de Taiobeiras.

    O 1º Concílio Paroquial de Taiobeiras foi um marco na história da paróquia, consolidando diretrizes que continuam inspirando a caminhada pastoral até os dias de hoje. A celebração dos 90 anos da Paróquia São Sebastião é uma oportunidade para recordar esse momento histórico e reafirmar o compromisso com uma Igreja mais unida, evangelizadora e presente na vida da comunidade. Que o espírito de comunhão e missão, fortalecido naquele Concílio, continue guiando os passos da Igreja em Taiobeiras nos anos vindouros.

  • Célia Egídio

    Célia Egídio

    Alguns poderiam, em tom de desaprovação, chamá-la de “irreverente”. No entanto, não me agrada esse adjetivo, cujo antônimo implicaria prestar reverência, curvar-se em rapapés e riquififes, entregar-se a veleidades e puxassaquismos ou sucumbir à subserviência e à submissão. Mas, seria Célia Egídio reverente? É justamente em se opor a essa mediocridade que reside o seu valor.

    Célia Egídio, a educadora de Rio Pardo de Minas, vai muito além da irreverência; ela é inteligente, dotada de uma inteligência orgânica. É inconformada com a pasmaceira, a mesmice e o pensamento tacanho — um verdadeiro orgulho para qualquer sociedade que deseje transcender a hipocrisia.

    Ela preenche a lacuna que se nota no sertão, onde a crítica cultural se faz ausente, ao se fazer presente para apontar as contradições dos costumes conservadores. É a voz solitária que orienta o caminho para os anseios de uma vida mais legítima.

    Inconformada, ela sente, tanto no corpo quanto no espírito, as dores de não se encaixar na pequenez do conformismo. Está à frente de seu tempo, definindo os critérios de justiça em uma época marcada por contínuas injustiças, e sinaliza os ponteiros de uma nova era de empoderamento dos historicamente marginalizados, em meio a um ambiente que insiste em regredir para um patriarcado sufocante.

    Célia Egídio é gigante! Merece um respeito que os tempos atuais ainda não conseguiram delinear; seu valor é atemporal, pois o tempo, por si só, não pode medir a sua existência.

    Ao contrário de seus detratores, que agem com ruindade e inveja, o que ela possui de mais marcante é acuidade — uma notável capacidade de percepção, finura e sutileza, que intimida aqueles que se opõem a ela.

    Cuide-se, amiga Célia Egídio. Você é grandiosa e essencial demais para a boa luta! Estamos com você.

  • Sarça e Figueira: sinais de uma conversão que renova o coração e a Terra (3° Dom/Quaresma 2025)

    Sarça e Figueira: sinais de uma conversão que renova o coração e a Terra (3° Dom/Quaresma 2025)

    A Quaresma deste ano é um convite para redescobrirmos a mão de Deus agindo na natureza. Não se trata apenas de um momento de oração, mas de um chamado para vivermos uma fé que abraça não só o espírito, mas também o chão que pisamos, o ar que respiramos e todas as formas de vida que nos rodeiam. A Campanha da Fraternidade 2025, com seu tema Ecologia Integral, chega como um lembrete urgente: como estamos cuidando da nossa Casa Comum?

    Vamos mergulhar nas leituras do Terceiro Domingo da Quaresma (23/03/2025) para encontrar respostas que unem céu e terra.

    Na passagem da sarça ardente (Êxodo 3,1-8.13-15), Moisés se surpreende com um mistério divino que arde no meio do deserto. A sarça não é consumida pelo fogo, revelando um Deus que está presente na vida que persiste, mesmo em meio à aridez. Não é bonito pensar que o Criador escolheu uma planta para revelar seu nome? Isso nos desafia: será que hoje reconhecemos Sua voz nos rios, nas florestas e até nas pequenas ações de cuidado com a criação?

    Já São Paulo, em 1 Coríntios 10,1-6.10-12, nos alerta com a força de quem conhece as fraquezas humanas. Ele lembra que uma fé desconectada da prática vira algo vazio, como água que escorre sem nutrir a terra. Quantas vezes caímos na armadilha de rezar sem agir, de criticar sem cuidar, de consumir sem pensar nas consequências? O apóstolo nos sacode: não basta crer; é preciso transformar.

    O Evangelho de Lucas 13,1-9 traz a parábola da figueira estéril. Imagine a cena: uma árvore que não dá frutos está prestes a ser cortada, mas ganha uma última chance. O agricultor pede tempo para cavar a terra, adubá-la, dar-lhe atenção. Essa é a paciência de Deus conosco! Ele não desiste de nós, mas nos chama a dar frutos de justiça e cuidado. A pergunta é: o que estamos fazendo com o “tempo extra” que recebemos para mudar nossos hábitos, reduzir desperdícios ou defender os mais vulneráveis?

    Quando unimos essas lições bíblicas aos ensinamentos da Doutrina Social da Igreja e da encíclica Laudato Si’, vemos que a Ecologia Integral não é só um conceito, mas um estilo de vida. O Papa Francisco nos lembra que “tudo está interligado”. Não há amor a Deus sem respeito à Sua criação, nem justiça social sem equilíbrio ambiental.

    Que tal começar hoje? Pequenos gestos contam: evitar o plástico descartável, apoiar projetos comunitários, ou simplesmente contemplar um pôr do sol com gratidão. A conversão ecológica não é um peso, mas um caminho de esperança — porque, assim como a sarça ardente e a figueira renovada, nós também podemos ser sinais de que um mundo mais fraterno e verde é possível.

    E você? Qual “terra seca” em sua vida precisa ser adubada para florescer? 🌱

  • Estado e Sociedade: os limites do iluminismo diante da crise climática

    Estado e Sociedade: os limites do iluminismo diante da crise climática

    Vivemos tempos em que a sensação de desconforto e insegurança, tão bem descrita por Freud, parece se espalhar pelas nossas instituições e pela sociedade. Hoje, nos perguntamos: serão os modelos políticos e jurídicos, forjados nos ideais do Iluminismo e do liberalismo clássico, capazes de enfrentar desafios tão enormes como as mudanças climáticas? Para responder, precisamos olhar criticamente para as estruturas que moldaram o mundo moderno e questionar se elas estão preparadas para transformar-se diante dessa crise global.

    O Estado moderno surgiu no século XVIII, fundamentado em ideias iluministas como a racionalidade, os direitos individuais e o contrato social. Para John Locke, por exemplo, a propriedade privada era um direito natural, e o papel do Estado era justamente protegê-la. Já Jean-Jacques Rousseau defendia a ideia de soberania popular, mas sempre em uma escala mais próxima e local. Como aponta o historiador Dipesh Chakrabarty, “a crise climática força a humanidade a pensar como espécie, não como indivíduos ou nações” (The Climate of History in the Anthropocene, 2009). Essa ênfase no indivíduo e na soberania nacional, base do liberalismo, acaba colidindo com a necessidade urgente de ações coletivas para, por exemplo, reduzir emissões de carbono e proteger áreas naturais que ultrapassam fronteiras.

    O modelo de acumulação capitalista, tão central ao projeto liberal, tem contribuído para agravar a crise ambiental. Naomi Klein defende que “o sistema econômico baseado em extração ilimitada e crescimento perpétuo é incompatível com a sustentabilidade ecológica” (This Changes Everything, 2014). Relatórios do IPCC (2022) mostram que, mesmo para manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C, precisamos de reduções drásticas nas emissões, algo que vai de encontro à lógica de mercados desregulados. Enquanto muitos Estados continuam priorizando o crescimento do PIB em detrimento dos ecossistemas, Kate Raworth propõe a ideia da “economia donut” como uma alternativa para repensar o progresso (Doughnut Economics, 2017).

    A democracia representativa, uma herança valiosa do Iluminismo, enfrenta grandes desafios diante da complexidade dos problemas ambientais. Colin Crouch, em Post-Democracy (2004), observa como os interesses corporativos conseguem, muitas vezes, dominar as decisões governamentais, reduzindo a participação popular. Nos EUA, por exemplo, a influência da indústria de combustíveis fósseis tem sido apontada como um fator que bloqueia políticas climáticas mais ambiciosas (Harvard Kennedy School, 2020). Além disso, a ativista Vanessa Nakate ressalta que “as vozes mais afetadas pelas mudanças climáticas — comunidades periféricas e países pobres — são as menos ouvidas nas conferências globais” (A Bigger Picture, 2021).

    O direito internacional, estruturado em torno dos Estados-nações, luta para encontrar formas eficazes de lidar com problemas que ultrapassam fronteiras. David Boyd, relator da ONU para Direitos Humanos e Meio Ambiente, afirma que “reconhecer o direito a um ambiente saudável é um primeiro passo, mas é insuficiente sem mecanismos coercitivos” (2021). Embora iniciativas pontuais, como a inclusão dos direitos da natureza na Constituição do Equador (2008) e a sentença STC4360-2018 da Corte Suprema da Colômbia, que reforça a proteção ambiental, sejam importantes, elas ainda são exceções em um cenário mais amplo.

    Repensar o modelo liberal, para muitos, passa por reavaliar a relação entre seres humanos e natureza. O jurista Jedediah Purdy propõe que é necessário “repensar a relação entre humanos e natureza no direito constitucional” (After Nature, 2015). Ao mesmo tempo, propostas como o Green New Deal, tanto nos EUA quanto na UE, buscam unir justiça social e ambiental. Movimentos como o Buen Vivir na América Latina também oferecem visões alternativas, que se distanciam do capitalismo tradicional. Ulrich Beck, em Sociedade de Risco (1986), já alertava para a necessidade de uma “política cosmopolita” que vá além das fronteiras nacionais diante dos riscos ambientais.

    A encíclica Laudato Si’ (2015), do Papa Francisco, nos convida a ver a Terra como nossa casa comum, um lar compartilhado que exige cuidado, respeito e solidariedade. Essa perspectiva reforça a ideia de que os problemas ambientais não são apenas questões técnicas ou econômicas, mas também éticas e espirituais. Ao enxergar a Terra como Casa Comum, somos chamados a repensar nosso modo de viver, a reconhecer a interconexão entre todas as formas de vida e a assumir a responsabilidade de proteger nosso planeta para as futuras gerações.

    O mal-estar que sentimos nas instituições não é acidental. Ele reflete a persistência de modelos que valorizam o indivíduo em detrimento do coletivo, o crescimento econômico em vez da sustentabilidade e a soberania nacional em vez de uma responsabilidade compartilhada com o planeta. Como Bruno Latour coloca, “precisamos de novas instituições para habitar a Terra” (Down to Earth, 2018). Isso não significa rejeitar os ideais do Iluminismo, mas sim superar seu antropocentrismo e nacionalismo. Enfrentar a crise climática exige um novo contrato social que reconheça a profunda interdependência entre humanos e ecossistemas, uma ideia que ressoa com o chamado de ver a Terra como nossa Casa Comum. Caso contrário, continuaremos presos a estruturas que, infelizmente, se mostram incapazes de evitar o desastre iminente.

  • Fiasco do ato pela anistia aos terroristas do 8 de janeiro

    Fiasco do ato pela anistia aos terroristas do 8 de janeiro

    Até a tentativa de inflar os números revelou desespero. O UOL citou que PMs teriam sido orientados a “aumentar artificialmente” a presença, evitando “frustrar” a expectativa de força. Já o ICL Notícias lembrou que o governo federal, hoje sob outras lideranças, ignora as pautas bolsonaristas. A manipulação de imagens e a insistência em narrativas conspiratórias só ampliam o descrédito.Os atos de 2025 comprovam que Bolsonaro deixou de ser um ator central na política nacional. Sem apoio popular maciço, sem respaldo institucional e com uma agenda que não dialoga com urgências sociais, seu projeto reduz-se a um eco do passado. Resta saber se ele aceitará esse lugar marginal ou seguirá alimentando crises que, cada vez mais, só interessam a uma minoria.

    Os recentes atos públicos convocados por Jair Bolsonaro, em São Paulo e no Rio de Janeiro, confirmaram uma crise de apoio que vai além da queda nas ruas. Com público estimado em 3 mil pessoas na Avenida Paulista e metade do comparecimento de 2024 no Rio, os eventos foram definidos como “fiasco” por veículos como Brasil 247 e Cartacapital. O objetivo de pressionar por uma anistia a processos contra o ex-presidente fracassou, evidenciando a perda de relevância de sua narrativa.

    A deserção do Centrão explica parte do colapso. Como aponta o ICL Notícias, lideranças dessa base evitaram aderir ao projeto de anistia, temendo associar-se a um “projeto derrotado”. Sem o respaldo de partidos-chave, Bolsonaro ficou isolado. “Não existe frente ampla pela anistia”, resumiu o UOL, destacando que até aliados históricos preferiram distância. A estratégia de usar o Congresso como escudo mostrou-se inviável.

    O discurso de “perseguição do STF”, repetido em Copacabana, já não mobiliza como antes. A Revista Fórum destacou que o ex-presidente segue “com explicito medo da prisão”, mas sua retórica soa anacrônica. Para o público geral, a insistência em vitimismo não esconde a falta de autocrítica sobre erros passados. Como observou a Cartacapital, o tema da anistia interessa mais a bolhas ideológicas do que ao eleitorado médio.Até a tentativa de inflar os números revelou desespero. O UOL citou que PMs teriam sido orientados a “aumentar artificialmente” a presença, evitando “frustrar” a expectativa de força. Já o ICL Notícias lembrou que o governo federal, hoje sob outras lideranças, ignora as pautas bolsonaristas. A manipulação de imagens e a insistência em narrativas conspiratórias só ampliam o descrédito.

    Os atos de 2025 comprovam que Bolsonaro deixou de ser um ator central na política nacional. Sem apoio popular maciço, sem respaldo institucional e com uma agenda que não dialoga com urgências sociais, seu projeto reduz-se a um eco do passado. Resta saber se ele aceitará esse lugar marginal ou seguirá alimentando crises que, cada vez mais, só interessam a uma minoria.

  • Terra Transfigurada: aliança e esperança na Ecologia Integral (2° Dom/Quaresma)

    Terra Transfigurada: aliança e esperança na Ecologia Integral (2° Dom/Quaresma)

    Por Levon Nascimento

    A Quaresma não é só um tempo de mudança interior, mas também de transformação do mundo ao nosso redor. Em 2025, a Campanha da Fraternidade traz o tema Ecologia Integral, nos convidando a olhar para as leituras do segundo domingo da Quaresma e perceber a conexão profunda entre humanidade e criação. Nos textos de Gênesis 15, Filipenses 3-4 e Lucas 9, há um chamado claro para reconciliarmos nossa relação com a Terra, ecoando a mensagem do Papa Francisco na Laudato Si’: “Tudo está interligado”.

    A aliança da Terra (Gênesis 15,5-12.17-18). Deus leva Abrão para a Terra Prometida, um lugar fértil e cheio de vida, a “Casa Comum” de nossos primitivos pais na fé, onde sua descendência poderá viver (Gn 15,5-7). Mas essa promessa não se limita a um povo — ela inclui a própria terra como um dom para todos. O ritual dos animais partidos (Gn 15,9-10) sela uma aliança firme: a Terra é presente de Deus, não um recurso para exploração desenfreada. No entanto, hoje quebramos esse pacto quando desmatamos florestas e poluímos rios. A Ecologia Integral nos lembra que cuidar da criação não é uma escolha opcional, mas um compromisso sagrado.

    Cidadania celeste e responsabilidade na Terra (Filipenses 3,17–4,1). Paulo alerta: “O destino deles é a perdição; o deus deles é o ventre” (Fl 3,19). Quando transformamos a natureza em simples mercadoria, perdemos de vista nossa verdadeira missão. Nossa cidadania está no céu (Fl 3,20), mas isso não significa que devemos ignorar a Terra — pelo contrário, somos chamados a cuidar dela. A esperança na ressurreição inclui também a “libertação da criação” (Rm 8,21). Por isso, a Ecologia Integral é um ato de fé: protegemos a Terra porque esperamos “um Salvador que transformará nosso corpo” (Fl 3,21) e renovará toda a criação.

    A glória que transforma o mundo (Lucas 9,28-36). No Monte Tabor, Jesus se transfigura diante dos discípulos, e Moisés e Elias falam sobre seu sacrifício, que trará redenção a toda a criação (Lc 9,31). A voz do Pai ordena: “Escutai-o!” (Lc 9,35). E o que Jesus faz depois? Ele desce da montanha para alimentar multidões (Lc 9,10-17), curar os doentes e lutar contra a injustiça. A Transfiguração não é uma fuga da realidade, mas um convite a enxergar que o mundo pode ser transformado. A Ecologia Integral nos desafia a ouvir esse chamado e buscar mudanças reais, adotando modelos econômicos e sociais que promovam a vida, não a destruição.

    A Quaresma de 2025 nos propõe um jejum diferente: abrir mão da ganância para que a Terra possa respirar. A Campanha da Fraternidade, à luz dessas leituras, nos convida a sair do egoísmo e abraçar uma aliança de cuidado com a criação. Que a promessa feita a Abrão (Abraão) — uma Terra onde corre leite e mel — nos inspire a construir, hoje, um mundo onde a glória de Deus se manifeste em cada gesto de justiça e cuidado com a vida.

  • Vlade Patrício: o contador de histórias do Alto Rio Pardo

    Vlade Patrício: o contador de histórias do Alto Rio Pardo

    Em um mundo onde tudo corre depressa e as memórias parecem escorregar pelo tempo, surge um contador de histórias que faz questão de resgatar e eternizar as lembranças do seu povo. Esse é Vlade Patrício, um mineiro de Rio Pardo de Minas, que transforma o cotidiano em literatura e nos convida a mergulhar no universo rico e simples do Norte de Minas Gerais.

    Com dois livros na bagagem – “Um olhar no passado” e “Retalhos de Prosas” – Vlade se firma como um verdadeiro artesão das palavras. Ele não apenas escreve, mas transporta o leitor para um tempo em que as histórias eram contadas ao redor do fogão a lenha, passadas de geração em geração. Seu olhar sensível para as pessoas e os detalhes transforma cada cena em um retrato vivo da cultura popular.

    Seus textos são um convite para conhecer figuras pitorescas, reviver tradições e se encantar com a simplicidade cheia de significados da vida interiorana. O humor e a poesia caminham lado a lado em sua escrita, criando um equilíbrio entre o real e o imaginário. Ele nos faz rir, refletir e, acima de tudo, sentir.

    Em “Um olhar no passado”, Vlade nos presenteia com crônicas que capturam a essência de Rio Pardo de Minas, retratando personagens e situações que marcam a história local. Já em “Retalhos de Prosas”, ele afina ainda mais sua arte, costurando lembranças e ficção de maneira tão realista que quase podemos ouvir as vozes dos personagens. Sua escrita é cinematográfica: quem lê, enxerga, sente, vive.

    O grande trunfo de Vlade é dar alma às suas histórias. Seus personagens são gente de verdade, com alegrias e dilemas, virtudes e defeitos. Nada é idealizado, tudo é profundamente humano. Além disso, ele desempenha um papel essencial na preservação da memória cultural de sua terra, garantindo que essas histórias não se percam no tempo.

    Vlade Patrício é um tesouro da literatura do Norte de Minas. Seu trabalho é um presente para quem aprecia boas histórias, cheias de alma e identidade. Que suas palavras continuem ecoando, levando consigo o calor, a sabedoria e o encanto do nosso povo.

    Disponível também em https://levonnascimento.blogspot.com/2025/03/vlade-patricio-o-contador-de-historias.html

  • Ecologia Integral: cuidar dos idosos é dever das gerações mais novas

    Ecologia Integral: cuidar dos idosos é dever das gerações mais novas

    A família, núcleo fundamental da sociedade, carrega consigo uma responsabilidade ética e afetiva para com seus membros mais vulneráveis: os idosos e aqueles adoecidos. Essa responsabilidade transcende obrigações legais ou culturais; trata-se de uma questão de dignidade humana e justiça intergeracional. A “Ecologia Integral”, conceito proposto pelo Papa Francisco na encíclica Laudato Si’, reforça essa ideia ao defender que todas as dimensões da vida — social, ambiental, econômica e humana — estão interligadas. Assim, cuidar dos idosos não é apenas um ato individual, mas parte de um ecossistema relacional que sustenta a vida em comunidade.

    A dignidade humana dos idosos está intrinsecamente ligada ao modo como são acolhidos e valorizados. Em uma sociedade que muitas vezes idolatra a produtividade e a juventude, idosos e enfermos podem ser marginalizados, como se sua existência perdesse valor. Cabe à família, como primeiro espaço de pertencimento, garantir que esses indivíduos não sejam reduzidos a “custos” ou “problemas”. Isso inclui oferecer apoio emocional, acesso a cuidados médicos adequados e, sobretudo, preservar sua autonomia e voz. A Ecologia Integral nos lembra que negligenciar essa responsabilidade é romper o tecido social, gerando uma “cultura do descarte” que desumaniza tanto quem é abandonado quanto quem abandona.

    É urgente repensar o cuidado familiar sob uma perspectiva integral. Isso significa combater o individualismo e reorganizar prioridades, seja dividindo tarefas entre familiares, buscando políticas públicas de apoio ou simplesmente cultivando a presença afetiva. Cuidar de quem cuidou de nós não é um favor, mas um compromisso com a justiça e a compaixão. Afinal, uma sociedade só é verdadeiramente sustentável quando reconhece que a dignidade dos idosos é reflexo direto de sua própria humanidade.

  • A religião pode cegar tanto quanto pode libertar? Análise histórica e não teológica

    A religião pode cegar tanto quanto pode libertar? Análise histórica e não teológica

    Ao longo da história, a religião tem sido uma força paradoxal: enquanto em alguns contextos serviu como instrumento de dominação e segregação, em outros foi catalisadora de avanços sociais e culturais. Essa dualidade não reside na essência do sagrado, mas na forma como as estruturas de poder manipularam suas narrativas. Analisando exemplos históricos, é possível identificar como a fé tanto cegou sociedades a aceitarem opressões quanto libertou-as para construir legados humanistas.

    A religião, quando institucionalizada, frequentemente legitimou hierarquias e justificou violências. Na Mesopotâmia, por exemplo, os governantes eram vistos como intermediários diretos dos deuses, consolidando um poder absoluto. Como apontam estudos, “o rei geralmente atuava como agente da divindade”, e questionar sua autoridade equivalia a desafiar o próprio sagrado. Esse mecanismo de controle perpetuou desigualdades, como na sociedade egípcia, onde a religião moldou até mesmo a arquitetura e as leis para reforçar a centralização faraônica.

    Na Europa medieval, a Igreja Católica utilizou seu poder espiritual para silenciar dissidências. A Inquisição (séculos XII–XV) perseguiu hereges, mulheres acusadas de bruxaria e minorias, usando a fé como justificativa para torturas e execuções. A imposição de dogmas, como destacado por teóricos, transformou a religião em “um fenômeno social coercitivo”, onde a obediência era imposta pela ameaça de condenação eterna. No Brasil, a intolerância religiosa contra cultos afro-brasileiros, como o candomblé, persiste até hoje, reflexo de um passado colonial que associou tais práticas ao “mal”, conforme registrado em debates sobre a Lei nº 11.635/2007, que instituiu o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa.

    Atualmente, cresce o fundamentalismo religioso amparado pelas tecnológicas ferramentas de comunicação, como a internet, demonstrando que os interesses do megacapitalismo mundial das big techs se utiliza da religião para ampliar o seu poder político e econômico.

    Por outro lado, a religião também foi veículo para transformações positivas. Na Idade Média, os mosteiros cristãos preservaram manuscritos antigos e fundaram as primeiras universidades, como a de Bolonha (1088), tornando-se “reservatórios culturais e intelectuais” . A caridade religiosa, inspirada em preceitos como “amar ao próximo”, deu origem a hospitais e sistemas de assistência social, antecedentes diretos de instituições modernas como o SUS.

    No segundo milênio cristão, Francisco de Assis, imitando Jesus Cristo, instituiu o pensamento de defesa da natureza dentro dos princípios religiosos do cristianismo, inaugurando o que hoje é chamado de Ecologia Integral.

    Movimentos de resistência também se apoiaram na fé. O budismo, por exemplo, na Índia antiga, desafiava o sistema de castas ao pregar a igualdade espiritual. Já o cristianismo primitivo, embora posteriormente cooptado pelo Império Romano, inicialmente congregou escravos e marginalizados, oferecendo-lhes uma comunidade baseada na dignidade humana. Como observa Clifford Geertz, a religião pode ser um “sistema de símbolos que estabelece motivações poderosas”, capazes de unir grupos em torno de ideais emancipatórios.

    A secularização, teorizada por Max Weber como o “desencantamento do mundo”, prometeu reduzir a influência religiosa nas estruturas de poder. No entanto, o século XXI testemunhou o ressurgimento de fundamentalismos, como o Estado Islâmico, que distorce textos sagrados do islamismo para legitimar terrorismo, e o neopentecostalismo protestante e católico, que no Brasil manipula política e religião para ampliar influência ideológica. Paralelamente, a religião segue sendo ferramenta de resistência: as comunidades indígenas latino-americanas, por exemplo, revitalizam tradições espirituais para defender seus territórios contra a exploração capitalista. A teologia da libertação, com teólogos católicos e protestantes, ensina a “evangélica opção preferencial pelos pobres”. O Papa Francisco tem se tornado um ícone da Ecologia Integral.

    A religião, como produto humano, reflete as contradições de suas sociedades. Seu potencial para “cegar” ou “libertar” depende de quem detém seu controle e de como suas narrativas são instrumentalizadas. Como escreveu Marc Bloch, “tudo que o homem toca pode informar sobre ele” — inclusive sua espiritualidade. Cabe às sociedades modernas resgatar o aspecto ético das tradições religiosas, como a defesa da dignidade humana, enquanto rejeitam seu uso como arma de opressão. A história nos ensina que, quando a fé se alia à razão crítica, ela pode iluminar caminhos para a justiça; quando se entrega ao dogmatismo, torna-se sombra que obscurece a liberdade.

    Levon Nascimento é professor de História e Sociologia, mestre em Estado, Governo e Políticas Públicas e doutorando em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável

  • Dia Internacional da Mulher 2025

    Dia Internacional da Mulher 2025

    Em um mundo marcado por guerras, como em Gaza, na Palestina, na República Democrática do Congo (RDC), e pelo avanço de governos de extrema-direita que ameaçam direitos femininos, o Dia Internacional da Mulher ganha um significado urgente: não é apenas sobre celebrar conquistas, mas sobre reafirmar a luta coletiva pela dignidade.

    Mulheres em zonas de guerra enfrentam violências específicas: estupros como arma de conflito (como na RDC), deslocamentos forçados (em Gaza) e a perda de redes de apoio. Celebrar, hoje, é amplificar suas vozes. Doar para organizações locais lideradas por mulheres ou pressionar governos por políticas humanitárias, são gestos concretos. A solidariedade global fortalece a ideia de que nenhuma mulher está isolada.

    A extrema-direita ataca direitos reprodutivos, igualdade no trabalho e a própria noção de autonomia feminina. Combater isso exige união entre movimentos sociais. Vote em candidatas que defendam pautas feministas, participe de protestos e use as redes sociais para denunciar discursos de ódio. Lembre-se: a Marcha das Mulheres de 2017, contra Trump, mostrou que ocupar espaços públicos ainda é uma arma poderosa.

    Não há feminismo universal. Mulheres negras, refugiadas, indígenas ou LGBTQIA+ enfrentam opressões distintas. Incluir suas demandas é essencial. No Brasil, por exemplo, a luta de lideranças como Maria da Penha ou Sônia Guajajara ilustra como justiça de gênero se conecta a combates raciais e ambientais.

    Em tempos de polarização, informação é resistência. Promova debates em escolas, comunidades ou online sobre como guerras e autoritarismos afetam mulheres. Histórias como a da ativista palestina Ahed Tamimi ou das congolesas que criam cooperativas em meio à guerra revelam coragem e inspiram ação.Celebrar o 8 de Março, hoje, é honrar as que resistem nos escombros e as que combatem o fascismo cotidiano. É reconhecer que, mesmo na escuridão, a luta feminina acende fogueiras. Como escreveu a poeta palestina Najwan Darwish: “Não há vitória sem que o chão inteiro se torne nossa pátria”. Que nossa pátria seja a justiça — e que nenhuma mulher fique para trás.

    Celebrar o 8 de Março, hoje, é honrar as que resistem nos escombros e as que combatem o fascismo cotidiano. É reconhecer que, mesmo na escuridão, a luta feminina acende fogueiras. Como escreveu a poeta palestina Najwan Darwish: “Não há vitória sem que o chão inteiro se torne nossa pátria”. Que nossa pátria seja a justiça — e que nenhuma mulher fique para trás.

  • Antítese

    Antítese


    Primeiro Dia
    “No princípio, Deus criou os céus e a terra. […] Deus disse: ‘Haja luz’, e houve luz. […] E Deus chamou à luz Dia, e às trevas chamou Noite. […] E houve tarde e manhã, o primeiro dia” (Gn 1,1-5).
    …e a ambição pairou sobre o vazio das consciências. E os humanos disseram: “Façamos da Terra nossa serva”. E assim, em vez de luz, ergueu-se a fumaça das chaminés, e as trevas cobriram o céu de partículas que sufocam as estrelas.


    Segundo Dia
    “Depois Deus disse: ‘Haja um firmamento entre as águas, separando umas das outras’. […] E Deus chamou ao firmamento Céu. […] E houve tarde e manhã, o segundo dia” (Gn 1,6-8).
    …os rios, outrora límpidos, foram trespassados por venenos. Agrotóxicos escorreram como sangue envenenado sobre o solo, e as águas, que um dia geraram vida, tornaram-se cemitérios líquidos. Os peixes boiaram de barriga para cima, e as crianças já não puderam beber das fontes que seus avós cantavam.


    Terceiro Dia
    “Então Deus disse: ‘Ajuntem-se as águas debaixo do céu num só lugar, e apareça a parte seca’. […] A terra fez brotar vegetação: plantas […] e árvores frutíferas. […] E houve tarde e manhã, o terceiro dia” (Gn 1,9-13).
    …as florestas gemeram. Motosserras substituíram o sopro da criação, e os biomas — Amazônia, Cerrado, Pantanal, Caatinga — foram reduzidos a desertos de tocos e cinzas. As queimadas, como dragões modernos, cuspiram fogo sobre o verde, e o ar carregou o luto das árvores em forma de carbono. As sementes, que um dia prometiam frutos, agora germinam plástico.


    Quarto Dia
    “Disse também Deus: ‘Haja luminares no firmamento do céu […] para governar o dia e a noite’. […] Deus fez os dois grandes luminares: o Sol e a Lua. […] E houve tarde e manhã, o quarto dia” (Gn 1,14-19).
    …os montes foram trespassados. A mineração escavou entranhas, despejando lama tóxica sobre vilas e rios. Barragens romperam-se, engolindo sonhos e histórias, enquanto o ouro extraído brilhou nos palácios de poucos, manchado do sangue de muitos. Nas crateras abertas, a terra chora ferida, e ninguém ouve.


    Quinto Dia
    “E disse Deus: ‘Povoem-se as águas de seres vivos, e voem as aves sobre a terra’. […] Criou […] todos os seres que povoam as águas e todas as aves. […] E houve tarde e manhã, o quinto dia” (Gênesis 1,20-23).
    …os céus e os mares empobreceram. As aves, outrora livres, caíram sob redes de caça e céus intoxicados. Nos oceanos, ilhas de lixo sufocaram tartarugas, e os corais, palácios submersos, branquearam-se em agonia. A cada hora, espécies são apagadas do livro da vida, e seus nomes viram poeira em arquivos esquecidos.


    Sexto Dia
    “Disse ainda Deus: ‘Produza a terra seres vivos […] e animais selvagens!’ […] Então Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem’. […] E Deus os abençoou, dizendo: ‘Sede fecundos e enchei a terra’. […] E houve tarde e manhã, o sexto dia” (Gn 1,24-31).
    …os povos originários clamaram. Suas terras sagradas foram invadidas por tratores e cercas, seus cantos abafados pelo rugido das máquinas. Enquanto isso, nas cidades de concreto, multidões marcharam sob máscaras, engolindo fumaça, e os filhos dos pobres herdaram desertos onde antes havia jardins. A fome, irmã da ganância, espalhou-se como praga.


    Sétimo Dia
    “No sétimo dia, Deus já havia concluído a obra que realizara […] e nesse dia descansou de toda a obra que tinha feito. Abençoou Deus o sétimo dia e o santificou” (Gn 2,2-3).
    …os humanos não descansaram. Seguiram cavando, queimando, poluindo, até que a Terra, exaurida, começou a tremer. Os mares subiram, as tempestades rugiram, e o clima, outrora estável, enlouqueceu. E os que diziam “dominar” o planeta viram-se reféns de sua própria insensatez.


    E assim, a criação tornou-se maldição. Onde havia harmonia, ergueu-se o caos; onde havia abundância, brotou a escassez; onde havia vida, multiplicou-se o luto. E os humanos, ao espelho de sua obra,
    perguntaram-se: “O que fizemos?” Mas já era tarde — o Éden fora vendido a preço de ferro, fogo e lucro.

    Eis o relato da anti-criação: uma narrativa escrita não pela mão divina, mas pela ganância que transformou paraísos em infernos. Que este texto não seja profecia, senão um alerta — enquanto há tempo de reescrevê-lo.

  • É possível salvar as almas sem se preocupar com os corpos?

    É possível salvar as almas sem se preocupar com os corpos?

    Sabe aquela expressão “salvar almas”? Parece resumir tudo o que o cristianismo prega, né? Mas, na real, essa ideia pode ser bem perigosa se a gente não prestar atenção. Imagina uma fé que só se preocupa com o espírito, ignorando o que acontece com o corpo e o mundo ao nosso redor. Isso não só distorce o Evangelho, como também ajuda a manter as coisas ruins do jeito que estão.

    A fé de verdade precisa enxergar o ser humano por inteiro: corpo e alma caminhando juntos. E a Igreja, seguindo os ensinamentos da Doutrina Social e se preocupando com os mais pobres, tem que lutar por uma vida digna para todos, aqui e agora.

    A Bíblia e a Igreja sempre ensinaram que corpo e alma não se separam. São Paulo fala da ressurreição do corpo (1Cor 15), e o Catecismo diz que somos “unos” (CIC §362). Reduzir a salvação a uma conquista espiritual é negar que Jesus veio ao mundo e se fez carne. Como disse São João Crisóstomo: “Honre Cristo nos pobres; não adore seu corpo na igreja enquanto o negligencia faminto na rua”.

    Essa ideia de “salvar almas” cria uma divisão cruel: prega o céu enquanto fecha os olhos para a fome, gasta dinheiro em templos luxuosos e se cala diante da injustiça. Transforma a fé em um negócio, como se Deus fosse um contador de almas, e não um Pai que ouve o sofrimento dos filhos oprimidos (Ex 3,7).

    A Doutrina Social da Igreja (DSI), desde o século XIX (Rerum Novarum), nos lembra que lutar por justiça social não é opcional, é parte fundamental do Evangelho. As alegrias e tristezas da humanidade são também as da Igreja (Gaudium et Spes). E a opção preferencial pelos pobres (Medellín), defendida pelo Papa Francisco, nos chama a priorizar quem mais sofre, porque Jesus se identificou com eles: “Tudo o que fizestes a um destes pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25,40).

    Como falar de “salvação” para quem morre de fome ou violência? Santo Oscar Romero, arcebispo mártir de San Salvador (El Salvador), que deu a vida para defender os pobres, disse: “A glória de Deus é o pobre vivo”. Sua morte mostra a diferença entre uma Igreja que vende milagres e uma Igreja que luta contra a opressão.

    Muitas vezes, a ideia de “salvar almas” vira um mercado religioso. Cultos emocionantes “arrebatam” fiéis, e líderes vendem “graça” como mercadoria, ignorando os problemas do mundo (capitalismo, racismo, destruição ambiental). Essa lógica distorce o Evangelho: em vez de libertar, aprisiona; em vez de unir, divide.

    Jesus foi claro: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lc 16,13).Sacramentos celebrados em altares de ouro, enquanto pessoas passam fome, viram uma piada da Eucaristia. Como escreveu Dorothy Day: “Nenhum homem pode ser considerado salvo enquanto viver em um barraco” em seu livro “Encontrei Deus através de seus pobres. Do ateísmo à fé: o meu caminho interior” (Livraria Editora Vaticana).

    Os sacramentos não são rituais mágicos, mas gestos de rebeldia contra a desumanização:

     * Eucaristia: Lembrança da Paixão e luta contra a fome. Na Igreja primitiva, a partilha do pão incluía dividir os bens (At 2,44-45).

     * Batismo: Mergulho na morte do egoísmo e renascimento para a comunhão, onde “não há judeu nem grego, escravo ou livre” (Gl 3,28).

    Celebrar a missa em um mundo tão desigual só faz sentido se a liturgia for acompanhada da luta por justiça.

    Essa ideia de “salvar almas” separada do corpo é um erro grave. A fé verdadeira exige uma Igreja que se envolva com a realidade, que lute por:

     * Salários justos;

     * Fim do racismo;

     * Proteção da Amazônia e seus povos.

    Como diz o Papa Francisco: “Não podemos mostrar-nos solidários com o mundo só rezando” (Fratelli Tutti). A salvação que Jesus prometeu é um banquete onde todos têm lugar (Lc 14,15-24). Se queremos “salvar almas”, precisamos garantir que todos os corpos vivam com dignidade.

    No final das contas, só haverá almas salvas se houver, primeiro, corpos libertos.

  • As letras de Milton Santiago e o Alto Rio Pardo

    As letras de Milton Santiago e o Alto Rio Pardo

    Milton Santiago, escritor e colunista natural de Salinas, autor de vários livros, dente eles “Miltonalidades” (O Lutador, 2014) e “A menina e o poeta” (O Lutador, 2017), tem desempenhado um papel fundamental na valorização e divulgação da cultura e das particularidades do Alto Rio Pardo, no Norte de Minas Gerais. Através de suas colunas no WebTerra, ele compartilha reflexões que entrelaçam memória, identidade e a riqueza do cerrado mineiro.

    Em “Forjando a harmonia” (23 de outubro de 2024), Santiago revela sua admiração pela linguagem poética e pelos grandes escritores que o influenciaram, destacando como suas experiências moldaram sua escrita.

    Na coluna “Conexão com o Cerrado” (16 de outubro de 2024), ele revisita memórias de infância, ressaltando a importância de manter um olhar encantado sobre o mundo e a natureza ao nosso redor.

    Em “Incompletude de um poeta” (9 de outubro de 2024), Santiago aborda a ideia de que o ser humano está em constante evolução, inspirando-se nos ensinamentos de Paulo Freire sobre a educação como ferramenta de transformação.

    A preocupação ambiental é evidente em “Queimadas: arde a mãe terra e matam os bichinhos” (2 de outubro de 2024), onde o autor alerta sobre os impactos das queimadas no cerrado e a necessidade de uma relação mais harmoniosa entre homem e natureza.

    Em “Precisamos reencantar com a vida, seguindo o exemplo das crianças” (25 de setembro de 2024), Santiago enfatiza a importância de resgatar o encantamento e a simplicidade presentes na visão infantil, tanto na vida cotidiana quanto na escrita.

    A coluna “Contexto ampliado da BR-251” (18 de setembro de 2024) traz uma reflexão sobre a evolução das estradas no Norte de Minas, desde os caminhos dos tropeiros até as atuais rodovias, e seu impacto na região.

    Em “Minha realidade, meu melhor argumento” (11 de setembro de 2024), o autor destaca a importância de escrever sobre o cotidiano e como suas experiências pessoais enriquecem suas colunas.

    Na coluna “Guimarães Rosa deu voz ao povo do sertão e eu dou voz ao povo do cerrado” (4 de setembro de 2024), Santiago traça um paralelo entre sua escrita e a de Guimarães Rosa, ressaltando a missão de dar voz às histórias e culturas locais.

    “A Travessia pelo Sertão de Guimarães Rosa continua” (28 de agosto de 2024) celebra os 70 anos da jornada de Rosa pelo sertão, conectando-a com as próprias travessias de Santiago pelo cerrado e suas influências literárias.

    Por fim, em “Sertão, savana e cerrado são mundos parecidos” (21 de agosto de 2024), o autor explora as semelhanças entre essas regiões e como elas servem de inspiração para sua escrita poética.

    Através dessas colunas e inúmeros outros textos, tanto no WebTerra, quanto em sua obra poética diversificada, Milton Santiago não apenas compartilha suas vivências e reflexões, mas também enriquece a identidade cultural do Alto Rio Pardo, do Vale do Jequitinhonha e do Norte de Minas Gerais, promovendo um olhar atento e sensível sobre o locus e seus habitantes.

  • A Quaresma e a Campanha da Fraternidade 2025: um chamado à conversão ecológica

    A Quaresma e a Campanha da Fraternidade 2025: um chamado à conversão ecológica

    A Quaresma é um período de 40 dias na liturgia católica que antecede a Páscoa, celebrando a ressurreição de Jesus Cristo. É um tempo de reflexão, penitência, oração e conversão, no qual os fiéis são convidados a se aproximar de Deus por meio do jejum, da caridade e da oração. A Quaresma é um momento propício para renovar a fé e viver uma vida mais alinhada com os valores do Evangelho.

    A Campanha da Fraternidade (CF) é uma iniciativa da Igreja Católica no Brasil, realizada anualmente durante a Quaresma, com o objetivo de promover a solidariedade, a justiça social e a conversão pessoal e comunitária. Desde 1964, a CF aborda temas relevantes para a sociedade, convidando os fiéis a refletir e agir em prol do bem comum.

    Em 2025, a Campanha da Fraternidade terá como tema “Fraternidade e Ecologia Integral” e o lema “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31). O tema chama a atenção para a necessidade de cuidar da criação, reconhecendo que tudo o que Deus criou é bom e que o ser humano tem a responsabilidade de proteger e preservar a natureza. A ecologia integral, proposta pelo Papa Francisco na encíclica Laudato Si’, vai além do cuidado com o meio ambiente, abrangendo também as dimensões sociais, econômicas e espirituais da vida humana.

    O lema “Deus viu que tudo era muito bom” remete ao relato bíblico da criação, no qual Deus contempla sua obra e a declara boa. Esse versículo nos convida a reconhecer a beleza e a bondade da criação, mas também a refletir sobre como o pecado humano tem ferido essa harmonia. A CF 2025 nos desafia a viver uma conversão ecológica, mudando nossos hábitos e atitudes para cuidar da “Casa Comum”, o planeta Terra.

    A vivência da Campanha da Fraternidade durante a Quaresma é profundamente significativa. A Quaresma é um tempo de conversão, e a CF 2025 nos convida a uma conversão integral, que inclui o cuidado com o meio ambiente. A ecologia integral não se limita à preservação da natureza, mas também envolve a justiça social, o respeito aos povos indígenas e tradicionais, e a busca por um modelo de desenvolvimento mais sustentável.

    Ao unir a Quaresma e a Campanha da Fraternidade, a Igreja nos convida a viver um tempo de profunda reflexão e ação. A Quaresma nos prepara para a Páscoa, celebrando a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, enquanto a CF 2025 nos desafia a ser agentes de transformação no mundo, cuidando da criação e promovendo a fraternidade universal.

    Portanto, a Campanha da Fraternidade 2025, com seu tema e lema, nos convida a viver a Quaresma de forma mais consciente e comprometida, reconhecendo que a conversão ecológica é um caminho essencial para a construção de um mundo mais justo, solidário e sustentável. Que este tempo quaresmal seja uma oportunidade para renovarmos nosso compromisso com Deus, com o próximo e com a criação.

  • HISTÓRIA/Novo Capitalismo ou Feudalismo 2.0? O Tecnofeudalismo

    HISTÓRIA/Novo Capitalismo ou Feudalismo 2.0? O Tecnofeudalismo

    Em um mundo onde gigantes como Amazon, Google e Meta ditam as regras do jogo econômico, um termo vem ganhando força nos debates acadêmicos e midiáticos: tecnofeudalismo. Cunhado pelo economista grego Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia, o conceito foi ampliado por pensadores como Aaron Bastani, autor de “Fully Automated Luxury Communism”, e Evgeny Morozov, crítico ferrenho do poder das Big Techs. A teoria propõe uma analogia histórica ousada: as plataformas digitais operariam como senhores feudais, substituindo a lógica produtiva do capitalismo por um sistema baseado em extração de renda e controle de territórios virtuais. Mas será que o capitalismo realmente morreu? E o que define essa suposta nova era?

    No feudalismo medieval, os senhores de terra cobravam tributos (como uma parte da colheita) dos camponeses, que dependiam do acesso ao solo para sobreviver. No tecnofeudalismo, as plataformas digitais funcionariam como os novos castelos, e os usuários, criadores de conteúdo e até pequenas empresas são os “servos” que pagam com dados, atenção e taxas pelo direito de existir nesses espaços.

    Varoufakis argumenta, em entrevistas e obras citadas pelos portais Brasil247 e Outras Palavras, que o capitalismo tradicional, baseado na produção de bens e na relação entre capital e trabalho, foi substituído por um modelo em que a riqueza não vem da manufatura, mas da extração de renda digital. Plataformas como Amazon e Airbnb, por exemplo, não produzem mercadorias, mas controlam mercados inteiros, cobrando comissões e monopolizando a intermediação.

    A ideia ganhou reforço de autores como Nick Srnicek, economista britânico e coautor de “Inventing the Future”, que descreve as Big Techs como “monopólios de infraestrutura”, e Timothy Brennan, teórico marxista que vê nas plataformas uma reconfiguração radical da acumulação capitalista.

    A matéria do Blog da Boitempo, assinada pelo sociólogo Ruy Braga, destaca que, assim como a terra era o principal ativo feudal, os dados são o recurso central do tecnofeudalismo. Ao usar serviços “gratuitos” como Google ou Facebook, os usuários trabalham involuntariamente para essas empresas, gerando informações valiosas que são monetizadas via publicidade. O DIAP (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar) alerta, em análise do pesquisador José Álvaro de Lima Cardoso, que esse processo concentra poder em poucas mãos, criando monopólios que sufocam a concorrência.

    Para piorar, até capitalistas tradicionais — como donos de fábricas ou lojas — tornaram-se dependentes dessas plataformas. Um exemplo é a Amazon: pequenos comerciantes precisam pagar para ter visibilidade no marketplace, invertendo a lógica clássica em que o capitalista controlava sua cadeia produtiva. “Somos todos vassalos das Big Techs”, resume Varoufakis em entrevista à Focus Poder.

    A tese do tecnofeudalismo divide especialistas. Para seus defensores, como o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, citado pela Gazeta do Povo, há uma ruptura histórica: o capitalismo morreu, e vivemos uma transição para um sistema híbrido, onde a renda predatória substitui o lucro industrial. A matéria de O Globo ressalta que, em 2023, mais de 60% do valor das bolsas globais vinha de empresas de tecnologia, sinalizando a primazia do setor.

    Já os críticos, como aponta o economista Luiz Gonzaga Belluzzo em entrevista ao EM.com.br, veem o fenômeno como uma mutação do capitalismo, não seu fim. Eles argumentam que as Big Techs ainda operam sob lógicas de acumulação de capital, mesmo que por meio de monopólios. Outros, como a pesquisadora Virginia Eubanks, autora de “Automating Inequality” e citada pelo Outras Palavras, lembram que o Estado mantém papel crucial — seja regulando (como na UE) ou sendo cúmplice, a exemplo de subsídios a empresas nos EUA.

    Se o tecnofeudalismo é real, suas consequências são profundas. A Agência DIAP destaca a precarização do trabalho via apps como Uber, onde motoristas são “servos modernos” sem direitos, tema explorado pelo sociólogo Ricardo Antunes em estudos sobre uberização. Já o Blog da Boitempo enfatiza riscos à democracia: o controle de dados permite influenciar eleições e comportamentos, como no escândalo da Cambridge Analytica, analisado pela jornalista Carole Cadwalladr.

    Mas há esperanças. Varoufakis sugere, em entrevista à Focus Poder, que a resposta está em bens comuns digitais — plataformas públicas e cooperativas que quebrem a hegemonia das corporações. Regulações antitruste, como as leis europeias, também são apontadas como caminhos, ideia endossada pela eurodeputada Eva Kaili, citada pelo Brasil247.

    O tecnofeudalismo não é apenas um termo provocativo. Ele sintetiza inquietações sobre poder, desigualdade e liberdade na era digital, articuladas por vozes como Varoufakis, Bastani e Morozov. Se aceitarmos a analogia, precisamos repensar como distribuir renda, dados e oportunidades. Se rejeitarmos, ainda é urgente domar os monopólios que definem nosso acesso ao mundo. Como ensina a história, toda transição econômica traz crises — e escolhas. Cabe a nós decidir se seremos servos ou senhores desse novo feudo.

    Fontes consultadas: O Globo, Outras Palavras, Blog da Boitempo, EM.com.br, Brasil247, DIAP, Gazeta do Povo, Focus Poder.

  • Ainda Estou Aqui: o Oscar que ilumina a memória e resiste ao esquecimento

    Ainda Estou Aqui: o Oscar que ilumina a memória e resiste ao esquecimento

    A vitória do filme “Ainda Estou Aqui” no Oscar, como Melhor Filme Internacional, não é apenas uma conquista histórica para o cinema brasileiro. É um ato político. A obra, adaptada do livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, filho de Eunice Paiva e do deputado Rubens Paiva, vítima emblemática da ditadura militar, resgata uma narrativa de dor, resistência e luta contra o apagamento. Num momento em que setores da extrema-direita brasileira tentam reescrever a história, negando os crimes da ditadura (1964-1985), o reconhecimento internacional do filme é um recado poderoso: a arte não se cala diante do fascismo.

    A história do filme se entrelaça com a trajetória da família Paiva, cujo destino foi atravessado pelo golpe de 1964, financiado e apoiado pelos Estados Unidos. Como destacado pelo Brasil 247, o governo de João Goulart (Jango) foi derrubado não apenas por suas “reformas de base”, mas também por sua “política externa independente”, que desafiou a hegemonia norte-americana na América Latina. Rubens Paiva, deputado federal cassado e torturado até a morte em 1971, denunciou em vida a ingerência estrangeira: documentos revelam que ele alertou sobre “a participação dos Estados Unidos no golpe militar de 1964”, conforme registrado em investigações posteriores.

    Sua esposa, Eunice Paiva, interpretada de forma sublime por Fernanda Torres, tornou-se símbolo de resistência. Após o desaparecimento do marido, ela enfrentou anos de perseguição, sem nunca aceitar a versão oficial de que Rubens havia “fugido”. Eunice manteve viva a chama da memória, recusando-se a assinar atestados de óbito falsos e exigindo respostas em um país onde a justiça estava sequestrada pela caserna. Fernanda Torres, ao incorporar Eunice, não apenas revive sua dignidade, mas também traduz para as telas a força silenciosa de quem enfrenta a máquina do terror de Estado sem perder a humanidade.

    O filme chega em um contexto global onde discursos autoritários, revisionismos históricos e ataques à democracia ganham terreno. Como observa Jamil Chade, do UOL, o Oscar “manda um recado poderoso de defesa da democracia”, especialmente em um Brasil onde o legado da ditadura ainda assombra, seja na violência policial, seja na romantização do regime por parte de líderes da extrema-direita.

    “Ainda Estou Aqui” desmonta a narrativa de que o golpe foi um “movimento redentor”. Ele expõe a violência sistemática, o silêncio cúmplice de setores da sociedade e a destruição de projetos progressistas. Marcelo Rubens Paiva, ao transformar sua história familiar em literatura e, posteriormente, em roteiro, cumpre um papel essencial: o de lembrar que por trás de cada número de mortos e desaparecidos há rostos, sonhos e famílias dilaceradas.

    Eunice Paiva, retratada com maestria por Fernanda Torres, é a personificação da resistência que se recusa ao apagamento. Como destaca o Brasil 247, ela “não se curvou” mesmo após ser presa, perseguida e ter sua família vigiada. Sua luta ecoa hoje, quando sobreviventes do regime e jovens ativistas buscam justiça de transição, ainda inexistente no Brasil, onde torturadores seguem impunes e novas tentativas de golpe de Estado, como a de Bolsonaro e do 8 de janeiro, pedem anistia (perdão) antes mesmo de serem condenadas.

    A homenagem do Oscar, portanto, não é apenas ao mérito artístico. É um reconhecimento de que a memória é um campo de batalha. Celebrar “Ainda Estou Aqui” é celebrar todos que, como Eunice, dizem: “Ainda estou aqui” — mesmo quando o Estado tenta apagar suas existências.

    Em tempos de fake news e negacionismo, o filme lembra que a arte pode ser trincheira. A estatueta dourada ganha contornos de um grito: contra a ditadura do passado e contra os autoritarismos do presente. Que a luz projetada sobre Eunice Paiva e Fernanda Torres ilumine também os que hoje lutam por justiça — para que nunca mais se repita.

    Como escreveu Marcelo Rubens Paiva, a dor de sua família “é a dor do Brasil”. E é essa dor, transformada em arte e resistência, que o mundo aplaude hoje. O Oscar não é só do cinema. É de todos que acreditam que a memória é o primeiro passo para a liberdade.

    Sites consultados

    https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2025/03/02/com-filme-brasileiro-oscar-manda-recado-poderoso-de-defesa-da-democracia.htm

    https://www.brasil247.com/cultura/brasil-foi-golpeado-em-1964-para-frear-as-reformas-de-base-de-jango-e-tambem-a-politica-externa-independente

    https://www.brasil247.com/cultura/rubens-paiva-denunciou-a-participacao-dos-estados-unidos-no-golpe-militar-de-1964-dluqvfrd

    https://www.brasil247.com/cultura/saiba-quem-foi-eunice-paiva-retratada-por-fernanda-torres-em-ainda-estou-aqui

    Créditos da imagem ilustrativa: rede social Facebook.

  • Você reza pela saúde do Papa Francisco?

    Você reza pela saúde do Papa Francisco?

    Em tempos de incerteza e angústia, a fé tem o poder de unir corações ao redor do mundo. A presente internação do Papa Francisco, que enfrenta complicações decorrentes de uma pneumonia dupla, tem mobilizado fiéis, líderes religiosos e instituições, tanto no Brasil quanto no exterior, para uma corrente de oração e esperança. Essa mobilização não apenas evidencia a relevância do pontífice da “Casa Comum” para milhões de pessoas, mas também ressalta como momentos de fragilidade podem fortalecer a comunhão e a solidariedade entre os cristãos e não-cristãos.

    Na Catedral de Buenos Aires, antiga sede do então Cardeal Bergoglio (Francisco), fiéis se reuniram em uma vigília de oração no domingo, 23. Esse gesto manifesta a devoção que move aqueles que, com fé, desejam a recuperação do Santo Padre argentino, reafirmando que a esperança é coletiva.

    No Brasil, a mobilização é ainda mais intensa e diversificada. De Norte a Sul, inúmeras iniciativas foram organizadas para interceder a Deus pela saúde do Papa. Há relatos de orações diárias em várias dioceses e paróquias de todos os cantos do país. Líderes religiosos enfatizam a importância de se unir em prece, recordando momentos bíblicos, como a libertação de Pedro, primeiro papa segundo os católicos, nos Atos dos Apóstolos, e comparando-os à situação atual do pontífice, cuja recuperação é esperada pelos que se acostumaram à sua autenticidade evangélica.

    Enquanto muitos fiéis se dedicam às orações locais, a iniciativa dos cardeais residentes em Roma destaca um movimento de união em nível global. Na Praça São Pedro, os purpurados, acompanhados por colaboradores da Cúria Romana e da Diocese de Roma, reúnem-se todas as noites, às 21 h locais (17 h no horário de Brasília), para rezar o terço em favor do Papa.

    Além das iniciativas promovidas pelas hierarquias e comunidades locais, organizações como a Sociedade São Vicente de Paulo (SSVP Brasil) organizaram uma semana inteira de oração dedicada à recuperação do Papa. A programação especial tem momentos de reflexão, missa e preces coletivas.

    Por fim, a convocação dos bispos de todo o Brasil reforça que essa é uma causa que vai muito além dos muros da Igreja. O apelo por orações evidencia não só o profundo respeito e carinho que o Papa Francisco desperta, mas também a responsabilidade dos líderes da Igreja em estimular uma atitude solidária em um momento tão delicado.

    A pergunta “Você reza pela saúde do Papa Francisco?” vai além de um mero ato religioso; ela é um convite para refletir sobre a importância da fé, da união e da esperança em tempos de crise, em favor de um gigante do nosso tempo. Independentemente das crenças pessoais, esse momento nos relembra que, muitas vezes, o que nos une é maior do que qualquer diferença – e que a oração, como expressão de solidariedade, tem o poder de transformar as circunstâncias mais difíceis em oportunidades de renovação e comunhão.

  • Há quem queira mal ao Papa Francisco? Entenda o contexto

    Há quem queira mal ao Papa Francisco? Entenda o contexto

    Em meio à recente internação do Papa Francisco, que desperta preocupação global, emerge nas sombras um fenômeno perturbador: campanhas de ódio e especulações prematuras lideradas por setores da extrema-direita, tanto dentro quanto fora da Igreja Católica. Enquanto fiéis ao redor do mundo oram por sua recuperação, grupos conservadores e figuras políticas aproveitam o momento para atacar seu legado, revelando não apenas uma divergência ideológica, mas uma rejeição aos princípios cristãos que Francisco encarna.

    Como destacado pelo site UOL, há uma “torcida pela morte do Papa Francisco nas redes”, um reflexo da “escalada do ódio” em tempos de polarização (Sakamoto, 2025). Esse comportamento, que transforma a fragilidade humana em espetáculo macabro, contrasta radicalmente com a mensagem de compaixão e misericórdia que o pontífice defende. Não se tratam apenas de críticas políticas, mas de um ataque à própria essência do cristianismo, que Francisco busca revitalizar: um compromisso com os pobres, a justiça social e a ecologia integral.

    A oposição ao Papa frequentemente se disfarça de zelo doutrinário, mas esconde interesses escusos. Phyllis Zagano, citada no site do Instituto Humanitas Unisinos (IHU), aponta que, embora figuras como Donald Trump contratem católicos para sua base, “suas ações não refletem em nada a doutrina social católica” (Zagano, 2024). Essa contradição expõe como setores conservadores instrumentalizam a religião para fins de poder, ignorando ensinamentos centrais como o acolhimento a migrantes e a denúncia da desigualdade.

    Francisco, ao contrário, insiste em temas incômodos para elites políticas e econômicas. Seu apelo por “uma Igreja pobre para os pobres” e suas críticas ao “capitalismo selvagem” desestabilizam alianças entre religiosos e poderosos. Não é casual que, como revela o IHU, haja suspeitas de que um futuro conclave esteja sendo “organizado com dólares estadunidenses” para enfraquecer seu legado (IHU, 2023). A batalha é também financeira: setores conservadores, muitas vezes apoiados por magnatas, buscam o retorno a uma Igreja mais dogmática e menos envolvida com causas sociais.

    Dentro da Cúria, cardeais alinhados à direita já sinalizam movimentos para influenciar o próximo conclave. Jean-Claude Hollerich, arcebispo de Luxemburgo, denuncia: “É horrível que os cardeais já estejam trabalhando no conclave” enquanto o Papa vive (IHU, 2023). A pressa em enterrar seu pontificado revela o medo de que suas reformas, como a descentralização do poder (sinodalidade) e a abertura a divorciados e LGBTQ+, se tornem irreversíveis.

    Contudo, como argumenta outro artigo do IHU, “se o conclave quiser um segundo Francisco, eis o nome e o programa” (IHU, 2023). A resistência à sua agenda é, paradoxalmente, um sinal de seu êxito. Seu estilo pastoral, marcado pelo diálogo e pela simplicidade, resgata o núcleo do Evangelho, frequentemente obscurecido por disputas teológicas. Francisco lembra que “alguém rezou para que eu fosse para o paraíso, mas o Senhor da colheita decidiu me deixar aqui por um tempo” (IHU, 2024). Sua permanência é um convite à Igreja para não fugir de sua missão profética.

    A aversão da extrema-direita ao Papa Francisco não é mera disputa eclesiástica. É a rejeição de um cristianismo que desafia estruturas de opressão. Seus críticos preferem uma fé ornamental, alheia aos gritos dos marginalizados. Francisco, porém, insiste que a autenticidade cristã está no serviço, não no poder.

    Enquanto especulações e ódio tentam silenciar sua voz, seu exemplo persiste: uma Igreja que cheira às ovelhas feridas, não aos palácios. Em tempos de cinismo, Francisco é um lembrete de que o Evangelho, quando vivido radicalmente, ainda pode incomodar e transformar o mundo.

    Links dos artigos citados:

    1. https://www.ihu.unisinos.br/648740-o-papa-a-meloni-alguem-rezou-para-que-eu-fosse-para-o-paraiso-mas-o-senhor-da-colheita-decidiu-me-deixar-aqui-por-um-tempo
    2. https://www.ihu.unisinos.br/648985-enquanto-trump-contrata-catolicos-suas-acoes-nao-refletem-em-nada-a-doutrina-social-catolica-artigo-de-phyllis-zagano
    3. https://ihu.unisinos.br/648950-chega-de-especulacoes-e-horrivel-que-os-cardeais-ja-estejam-trabalhando-no-conclave-entrevista-com-jean-claude-hollerich
    4. https://www.ihu.unisinos.br/categorias/636720-um-conclave-organizado-com-dolares-estadunidenses
    5. https://www.ihu.unisinos.br/categorias/616172-se-o-conclave-quiser-um-segundo-francisco-eis-o-nome-e-o-programa
    6. https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2025/02/23/torcida-pela-morte-do-papa-francisco-nas-redes-mostra-escalada-do-odio.htm