Autor: Levon Nascimento

  • Antítese

    Antítese


    Primeiro Dia
    “No princípio, Deus criou os céus e a terra. […] Deus disse: ‘Haja luz’, e houve luz. […] E Deus chamou à luz Dia, e às trevas chamou Noite. […] E houve tarde e manhã, o primeiro dia” (Gn 1,1-5).
    …e a ambição pairou sobre o vazio das consciências. E os humanos disseram: “Façamos da Terra nossa serva”. E assim, em vez de luz, ergueu-se a fumaça das chaminés, e as trevas cobriram o céu de partículas que sufocam as estrelas.


    Segundo Dia
    “Depois Deus disse: ‘Haja um firmamento entre as águas, separando umas das outras’. […] E Deus chamou ao firmamento Céu. […] E houve tarde e manhã, o segundo dia” (Gn 1,6-8).
    …os rios, outrora límpidos, foram trespassados por venenos. Agrotóxicos escorreram como sangue envenenado sobre o solo, e as águas, que um dia geraram vida, tornaram-se cemitérios líquidos. Os peixes boiaram de barriga para cima, e as crianças já não puderam beber das fontes que seus avós cantavam.


    Terceiro Dia
    “Então Deus disse: ‘Ajuntem-se as águas debaixo do céu num só lugar, e apareça a parte seca’. […] A terra fez brotar vegetação: plantas […] e árvores frutíferas. […] E houve tarde e manhã, o terceiro dia” (Gn 1,9-13).
    …as florestas gemeram. Motosserras substituíram o sopro da criação, e os biomas — Amazônia, Cerrado, Pantanal, Caatinga — foram reduzidos a desertos de tocos e cinzas. As queimadas, como dragões modernos, cuspiram fogo sobre o verde, e o ar carregou o luto das árvores em forma de carbono. As sementes, que um dia prometiam frutos, agora germinam plástico.


    Quarto Dia
    “Disse também Deus: ‘Haja luminares no firmamento do céu […] para governar o dia e a noite’. […] Deus fez os dois grandes luminares: o Sol e a Lua. […] E houve tarde e manhã, o quarto dia” (Gn 1,14-19).
    …os montes foram trespassados. A mineração escavou entranhas, despejando lama tóxica sobre vilas e rios. Barragens romperam-se, engolindo sonhos e histórias, enquanto o ouro extraído brilhou nos palácios de poucos, manchado do sangue de muitos. Nas crateras abertas, a terra chora ferida, e ninguém ouve.


    Quinto Dia
    “E disse Deus: ‘Povoem-se as águas de seres vivos, e voem as aves sobre a terra’. […] Criou […] todos os seres que povoam as águas e todas as aves. […] E houve tarde e manhã, o quinto dia” (Gênesis 1,20-23).
    …os céus e os mares empobreceram. As aves, outrora livres, caíram sob redes de caça e céus intoxicados. Nos oceanos, ilhas de lixo sufocaram tartarugas, e os corais, palácios submersos, branquearam-se em agonia. A cada hora, espécies são apagadas do livro da vida, e seus nomes viram poeira em arquivos esquecidos.


    Sexto Dia
    “Disse ainda Deus: ‘Produza a terra seres vivos […] e animais selvagens!’ […] Então Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem’. […] E Deus os abençoou, dizendo: ‘Sede fecundos e enchei a terra’. […] E houve tarde e manhã, o sexto dia” (Gn 1,24-31).
    …os povos originários clamaram. Suas terras sagradas foram invadidas por tratores e cercas, seus cantos abafados pelo rugido das máquinas. Enquanto isso, nas cidades de concreto, multidões marcharam sob máscaras, engolindo fumaça, e os filhos dos pobres herdaram desertos onde antes havia jardins. A fome, irmã da ganância, espalhou-se como praga.


    Sétimo Dia
    “No sétimo dia, Deus já havia concluído a obra que realizara […] e nesse dia descansou de toda a obra que tinha feito. Abençoou Deus o sétimo dia e o santificou” (Gn 2,2-3).
    …os humanos não descansaram. Seguiram cavando, queimando, poluindo, até que a Terra, exaurida, começou a tremer. Os mares subiram, as tempestades rugiram, e o clima, outrora estável, enlouqueceu. E os que diziam “dominar” o planeta viram-se reféns de sua própria insensatez.


    E assim, a criação tornou-se maldição. Onde havia harmonia, ergueu-se o caos; onde havia abundância, brotou a escassez; onde havia vida, multiplicou-se o luto. E os humanos, ao espelho de sua obra,
    perguntaram-se: “O que fizemos?” Mas já era tarde — o Éden fora vendido a preço de ferro, fogo e lucro.

    Eis o relato da anti-criação: uma narrativa escrita não pela mão divina, mas pela ganância que transformou paraísos em infernos. Que este texto não seja profecia, senão um alerta — enquanto há tempo de reescrevê-lo.

  • É possível salvar as almas sem se preocupar com os corpos?

    É possível salvar as almas sem se preocupar com os corpos?

    Sabe aquela expressão “salvar almas”? Parece resumir tudo o que o cristianismo prega, né? Mas, na real, essa ideia pode ser bem perigosa se a gente não prestar atenção. Imagina uma fé que só se preocupa com o espírito, ignorando o que acontece com o corpo e o mundo ao nosso redor. Isso não só distorce o Evangelho, como também ajuda a manter as coisas ruins do jeito que estão.

    A fé de verdade precisa enxergar o ser humano por inteiro: corpo e alma caminhando juntos. E a Igreja, seguindo os ensinamentos da Doutrina Social e se preocupando com os mais pobres, tem que lutar por uma vida digna para todos, aqui e agora.

    A Bíblia e a Igreja sempre ensinaram que corpo e alma não se separam. São Paulo fala da ressurreição do corpo (1Cor 15), e o Catecismo diz que somos “unos” (CIC §362). Reduzir a salvação a uma conquista espiritual é negar que Jesus veio ao mundo e se fez carne. Como disse São João Crisóstomo: “Honre Cristo nos pobres; não adore seu corpo na igreja enquanto o negligencia faminto na rua”.

    Essa ideia de “salvar almas” cria uma divisão cruel: prega o céu enquanto fecha os olhos para a fome, gasta dinheiro em templos luxuosos e se cala diante da injustiça. Transforma a fé em um negócio, como se Deus fosse um contador de almas, e não um Pai que ouve o sofrimento dos filhos oprimidos (Ex 3,7).

    A Doutrina Social da Igreja (DSI), desde o século XIX (Rerum Novarum), nos lembra que lutar por justiça social não é opcional, é parte fundamental do Evangelho. As alegrias e tristezas da humanidade são também as da Igreja (Gaudium et Spes). E a opção preferencial pelos pobres (Medellín), defendida pelo Papa Francisco, nos chama a priorizar quem mais sofre, porque Jesus se identificou com eles: “Tudo o que fizestes a um destes pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25,40).

    Como falar de “salvação” para quem morre de fome ou violência? Santo Oscar Romero, arcebispo mártir de San Salvador (El Salvador), que deu a vida para defender os pobres, disse: “A glória de Deus é o pobre vivo”. Sua morte mostra a diferença entre uma Igreja que vende milagres e uma Igreja que luta contra a opressão.

    Muitas vezes, a ideia de “salvar almas” vira um mercado religioso. Cultos emocionantes “arrebatam” fiéis, e líderes vendem “graça” como mercadoria, ignorando os problemas do mundo (capitalismo, racismo, destruição ambiental). Essa lógica distorce o Evangelho: em vez de libertar, aprisiona; em vez de unir, divide.

    Jesus foi claro: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lc 16,13).Sacramentos celebrados em altares de ouro, enquanto pessoas passam fome, viram uma piada da Eucaristia. Como escreveu Dorothy Day: “Nenhum homem pode ser considerado salvo enquanto viver em um barraco” em seu livro “Encontrei Deus através de seus pobres. Do ateísmo à fé: o meu caminho interior” (Livraria Editora Vaticana).

    Os sacramentos não são rituais mágicos, mas gestos de rebeldia contra a desumanização:

     * Eucaristia: Lembrança da Paixão e luta contra a fome. Na Igreja primitiva, a partilha do pão incluía dividir os bens (At 2,44-45).

     * Batismo: Mergulho na morte do egoísmo e renascimento para a comunhão, onde “não há judeu nem grego, escravo ou livre” (Gl 3,28).

    Celebrar a missa em um mundo tão desigual só faz sentido se a liturgia for acompanhada da luta por justiça.

    Essa ideia de “salvar almas” separada do corpo é um erro grave. A fé verdadeira exige uma Igreja que se envolva com a realidade, que lute por:

     * Salários justos;

     * Fim do racismo;

     * Proteção da Amazônia e seus povos.

    Como diz o Papa Francisco: “Não podemos mostrar-nos solidários com o mundo só rezando” (Fratelli Tutti). A salvação que Jesus prometeu é um banquete onde todos têm lugar (Lc 14,15-24). Se queremos “salvar almas”, precisamos garantir que todos os corpos vivam com dignidade.

    No final das contas, só haverá almas salvas se houver, primeiro, corpos libertos.

  • As letras de Milton Santiago e o Alto Rio Pardo

    As letras de Milton Santiago e o Alto Rio Pardo

    Milton Santiago, escritor e colunista natural de Salinas, autor de vários livros, dente eles “Miltonalidades” (O Lutador, 2014) e “A menina e o poeta” (O Lutador, 2017), tem desempenhado um papel fundamental na valorização e divulgação da cultura e das particularidades do Alto Rio Pardo, no Norte de Minas Gerais. Através de suas colunas no WebTerra, ele compartilha reflexões que entrelaçam memória, identidade e a riqueza do cerrado mineiro.

    Em “Forjando a harmonia” (23 de outubro de 2024), Santiago revela sua admiração pela linguagem poética e pelos grandes escritores que o influenciaram, destacando como suas experiências moldaram sua escrita.

    Na coluna “Conexão com o Cerrado” (16 de outubro de 2024), ele revisita memórias de infância, ressaltando a importância de manter um olhar encantado sobre o mundo e a natureza ao nosso redor.

    Em “Incompletude de um poeta” (9 de outubro de 2024), Santiago aborda a ideia de que o ser humano está em constante evolução, inspirando-se nos ensinamentos de Paulo Freire sobre a educação como ferramenta de transformação.

    A preocupação ambiental é evidente em “Queimadas: arde a mãe terra e matam os bichinhos” (2 de outubro de 2024), onde o autor alerta sobre os impactos das queimadas no cerrado e a necessidade de uma relação mais harmoniosa entre homem e natureza.

    Em “Precisamos reencantar com a vida, seguindo o exemplo das crianças” (25 de setembro de 2024), Santiago enfatiza a importância de resgatar o encantamento e a simplicidade presentes na visão infantil, tanto na vida cotidiana quanto na escrita.

    A coluna “Contexto ampliado da BR-251” (18 de setembro de 2024) traz uma reflexão sobre a evolução das estradas no Norte de Minas, desde os caminhos dos tropeiros até as atuais rodovias, e seu impacto na região.

    Em “Minha realidade, meu melhor argumento” (11 de setembro de 2024), o autor destaca a importância de escrever sobre o cotidiano e como suas experiências pessoais enriquecem suas colunas.

    Na coluna “Guimarães Rosa deu voz ao povo do sertão e eu dou voz ao povo do cerrado” (4 de setembro de 2024), Santiago traça um paralelo entre sua escrita e a de Guimarães Rosa, ressaltando a missão de dar voz às histórias e culturas locais.

    “A Travessia pelo Sertão de Guimarães Rosa continua” (28 de agosto de 2024) celebra os 70 anos da jornada de Rosa pelo sertão, conectando-a com as próprias travessias de Santiago pelo cerrado e suas influências literárias.

    Por fim, em “Sertão, savana e cerrado são mundos parecidos” (21 de agosto de 2024), o autor explora as semelhanças entre essas regiões e como elas servem de inspiração para sua escrita poética.

    Através dessas colunas e inúmeros outros textos, tanto no WebTerra, quanto em sua obra poética diversificada, Milton Santiago não apenas compartilha suas vivências e reflexões, mas também enriquece a identidade cultural do Alto Rio Pardo, do Vale do Jequitinhonha e do Norte de Minas Gerais, promovendo um olhar atento e sensível sobre o locus e seus habitantes.

  • A Quaresma e a Campanha da Fraternidade 2025: um chamado à conversão ecológica

    A Quaresma e a Campanha da Fraternidade 2025: um chamado à conversão ecológica

    A Quaresma é um período de 40 dias na liturgia católica que antecede a Páscoa, celebrando a ressurreição de Jesus Cristo. É um tempo de reflexão, penitência, oração e conversão, no qual os fiéis são convidados a se aproximar de Deus por meio do jejum, da caridade e da oração. A Quaresma é um momento propício para renovar a fé e viver uma vida mais alinhada com os valores do Evangelho.

    A Campanha da Fraternidade (CF) é uma iniciativa da Igreja Católica no Brasil, realizada anualmente durante a Quaresma, com o objetivo de promover a solidariedade, a justiça social e a conversão pessoal e comunitária. Desde 1964, a CF aborda temas relevantes para a sociedade, convidando os fiéis a refletir e agir em prol do bem comum.

    Em 2025, a Campanha da Fraternidade terá como tema “Fraternidade e Ecologia Integral” e o lema “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31). O tema chama a atenção para a necessidade de cuidar da criação, reconhecendo que tudo o que Deus criou é bom e que o ser humano tem a responsabilidade de proteger e preservar a natureza. A ecologia integral, proposta pelo Papa Francisco na encíclica Laudato Si’, vai além do cuidado com o meio ambiente, abrangendo também as dimensões sociais, econômicas e espirituais da vida humana.

    O lema “Deus viu que tudo era muito bom” remete ao relato bíblico da criação, no qual Deus contempla sua obra e a declara boa. Esse versículo nos convida a reconhecer a beleza e a bondade da criação, mas também a refletir sobre como o pecado humano tem ferido essa harmonia. A CF 2025 nos desafia a viver uma conversão ecológica, mudando nossos hábitos e atitudes para cuidar da “Casa Comum”, o planeta Terra.

    A vivência da Campanha da Fraternidade durante a Quaresma é profundamente significativa. A Quaresma é um tempo de conversão, e a CF 2025 nos convida a uma conversão integral, que inclui o cuidado com o meio ambiente. A ecologia integral não se limita à preservação da natureza, mas também envolve a justiça social, o respeito aos povos indígenas e tradicionais, e a busca por um modelo de desenvolvimento mais sustentável.

    Ao unir a Quaresma e a Campanha da Fraternidade, a Igreja nos convida a viver um tempo de profunda reflexão e ação. A Quaresma nos prepara para a Páscoa, celebrando a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, enquanto a CF 2025 nos desafia a ser agentes de transformação no mundo, cuidando da criação e promovendo a fraternidade universal.

    Portanto, a Campanha da Fraternidade 2025, com seu tema e lema, nos convida a viver a Quaresma de forma mais consciente e comprometida, reconhecendo que a conversão ecológica é um caminho essencial para a construção de um mundo mais justo, solidário e sustentável. Que este tempo quaresmal seja uma oportunidade para renovarmos nosso compromisso com Deus, com o próximo e com a criação.

  • HISTÓRIA/Novo Capitalismo ou Feudalismo 2.0? O Tecnofeudalismo

    HISTÓRIA/Novo Capitalismo ou Feudalismo 2.0? O Tecnofeudalismo

    Em um mundo onde gigantes como Amazon, Google e Meta ditam as regras do jogo econômico, um termo vem ganhando força nos debates acadêmicos e midiáticos: tecnofeudalismo. Cunhado pelo economista grego Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia, o conceito foi ampliado por pensadores como Aaron Bastani, autor de “Fully Automated Luxury Communism”, e Evgeny Morozov, crítico ferrenho do poder das Big Techs. A teoria propõe uma analogia histórica ousada: as plataformas digitais operariam como senhores feudais, substituindo a lógica produtiva do capitalismo por um sistema baseado em extração de renda e controle de territórios virtuais. Mas será que o capitalismo realmente morreu? E o que define essa suposta nova era?

    No feudalismo medieval, os senhores de terra cobravam tributos (como uma parte da colheita) dos camponeses, que dependiam do acesso ao solo para sobreviver. No tecnofeudalismo, as plataformas digitais funcionariam como os novos castelos, e os usuários, criadores de conteúdo e até pequenas empresas são os “servos” que pagam com dados, atenção e taxas pelo direito de existir nesses espaços.

    Varoufakis argumenta, em entrevistas e obras citadas pelos portais Brasil247 e Outras Palavras, que o capitalismo tradicional, baseado na produção de bens e na relação entre capital e trabalho, foi substituído por um modelo em que a riqueza não vem da manufatura, mas da extração de renda digital. Plataformas como Amazon e Airbnb, por exemplo, não produzem mercadorias, mas controlam mercados inteiros, cobrando comissões e monopolizando a intermediação.

    A ideia ganhou reforço de autores como Nick Srnicek, economista britânico e coautor de “Inventing the Future”, que descreve as Big Techs como “monopólios de infraestrutura”, e Timothy Brennan, teórico marxista que vê nas plataformas uma reconfiguração radical da acumulação capitalista.

    A matéria do Blog da Boitempo, assinada pelo sociólogo Ruy Braga, destaca que, assim como a terra era o principal ativo feudal, os dados são o recurso central do tecnofeudalismo. Ao usar serviços “gratuitos” como Google ou Facebook, os usuários trabalham involuntariamente para essas empresas, gerando informações valiosas que são monetizadas via publicidade. O DIAP (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar) alerta, em análise do pesquisador José Álvaro de Lima Cardoso, que esse processo concentra poder em poucas mãos, criando monopólios que sufocam a concorrência.

    Para piorar, até capitalistas tradicionais — como donos de fábricas ou lojas — tornaram-se dependentes dessas plataformas. Um exemplo é a Amazon: pequenos comerciantes precisam pagar para ter visibilidade no marketplace, invertendo a lógica clássica em que o capitalista controlava sua cadeia produtiva. “Somos todos vassalos das Big Techs”, resume Varoufakis em entrevista à Focus Poder.

    A tese do tecnofeudalismo divide especialistas. Para seus defensores, como o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, citado pela Gazeta do Povo, há uma ruptura histórica: o capitalismo morreu, e vivemos uma transição para um sistema híbrido, onde a renda predatória substitui o lucro industrial. A matéria de O Globo ressalta que, em 2023, mais de 60% do valor das bolsas globais vinha de empresas de tecnologia, sinalizando a primazia do setor.

    Já os críticos, como aponta o economista Luiz Gonzaga Belluzzo em entrevista ao EM.com.br, veem o fenômeno como uma mutação do capitalismo, não seu fim. Eles argumentam que as Big Techs ainda operam sob lógicas de acumulação de capital, mesmo que por meio de monopólios. Outros, como a pesquisadora Virginia Eubanks, autora de “Automating Inequality” e citada pelo Outras Palavras, lembram que o Estado mantém papel crucial — seja regulando (como na UE) ou sendo cúmplice, a exemplo de subsídios a empresas nos EUA.

    Se o tecnofeudalismo é real, suas consequências são profundas. A Agência DIAP destaca a precarização do trabalho via apps como Uber, onde motoristas são “servos modernos” sem direitos, tema explorado pelo sociólogo Ricardo Antunes em estudos sobre uberização. Já o Blog da Boitempo enfatiza riscos à democracia: o controle de dados permite influenciar eleições e comportamentos, como no escândalo da Cambridge Analytica, analisado pela jornalista Carole Cadwalladr.

    Mas há esperanças. Varoufakis sugere, em entrevista à Focus Poder, que a resposta está em bens comuns digitais — plataformas públicas e cooperativas que quebrem a hegemonia das corporações. Regulações antitruste, como as leis europeias, também são apontadas como caminhos, ideia endossada pela eurodeputada Eva Kaili, citada pelo Brasil247.

    O tecnofeudalismo não é apenas um termo provocativo. Ele sintetiza inquietações sobre poder, desigualdade e liberdade na era digital, articuladas por vozes como Varoufakis, Bastani e Morozov. Se aceitarmos a analogia, precisamos repensar como distribuir renda, dados e oportunidades. Se rejeitarmos, ainda é urgente domar os monopólios que definem nosso acesso ao mundo. Como ensina a história, toda transição econômica traz crises — e escolhas. Cabe a nós decidir se seremos servos ou senhores desse novo feudo.

    Fontes consultadas: O Globo, Outras Palavras, Blog da Boitempo, EM.com.br, Brasil247, DIAP, Gazeta do Povo, Focus Poder.

  • Ainda Estou Aqui: o Oscar que ilumina a memória e resiste ao esquecimento

    Ainda Estou Aqui: o Oscar que ilumina a memória e resiste ao esquecimento

    A vitória do filme “Ainda Estou Aqui” no Oscar, como Melhor Filme Internacional, não é apenas uma conquista histórica para o cinema brasileiro. É um ato político. A obra, adaptada do livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, filho de Eunice Paiva e do deputado Rubens Paiva, vítima emblemática da ditadura militar, resgata uma narrativa de dor, resistência e luta contra o apagamento. Num momento em que setores da extrema-direita brasileira tentam reescrever a história, negando os crimes da ditadura (1964-1985), o reconhecimento internacional do filme é um recado poderoso: a arte não se cala diante do fascismo.

    A história do filme se entrelaça com a trajetória da família Paiva, cujo destino foi atravessado pelo golpe de 1964, financiado e apoiado pelos Estados Unidos. Como destacado pelo Brasil 247, o governo de João Goulart (Jango) foi derrubado não apenas por suas “reformas de base”, mas também por sua “política externa independente”, que desafiou a hegemonia norte-americana na América Latina. Rubens Paiva, deputado federal cassado e torturado até a morte em 1971, denunciou em vida a ingerência estrangeira: documentos revelam que ele alertou sobre “a participação dos Estados Unidos no golpe militar de 1964”, conforme registrado em investigações posteriores.

    Sua esposa, Eunice Paiva, interpretada de forma sublime por Fernanda Torres, tornou-se símbolo de resistência. Após o desaparecimento do marido, ela enfrentou anos de perseguição, sem nunca aceitar a versão oficial de que Rubens havia “fugido”. Eunice manteve viva a chama da memória, recusando-se a assinar atestados de óbito falsos e exigindo respostas em um país onde a justiça estava sequestrada pela caserna. Fernanda Torres, ao incorporar Eunice, não apenas revive sua dignidade, mas também traduz para as telas a força silenciosa de quem enfrenta a máquina do terror de Estado sem perder a humanidade.

    O filme chega em um contexto global onde discursos autoritários, revisionismos históricos e ataques à democracia ganham terreno. Como observa Jamil Chade, do UOL, o Oscar “manda um recado poderoso de defesa da democracia”, especialmente em um Brasil onde o legado da ditadura ainda assombra, seja na violência policial, seja na romantização do regime por parte de líderes da extrema-direita.

    “Ainda Estou Aqui” desmonta a narrativa de que o golpe foi um “movimento redentor”. Ele expõe a violência sistemática, o silêncio cúmplice de setores da sociedade e a destruição de projetos progressistas. Marcelo Rubens Paiva, ao transformar sua história familiar em literatura e, posteriormente, em roteiro, cumpre um papel essencial: o de lembrar que por trás de cada número de mortos e desaparecidos há rostos, sonhos e famílias dilaceradas.

    Eunice Paiva, retratada com maestria por Fernanda Torres, é a personificação da resistência que se recusa ao apagamento. Como destaca o Brasil 247, ela “não se curvou” mesmo após ser presa, perseguida e ter sua família vigiada. Sua luta ecoa hoje, quando sobreviventes do regime e jovens ativistas buscam justiça de transição, ainda inexistente no Brasil, onde torturadores seguem impunes e novas tentativas de golpe de Estado, como a de Bolsonaro e do 8 de janeiro, pedem anistia (perdão) antes mesmo de serem condenadas.

    A homenagem do Oscar, portanto, não é apenas ao mérito artístico. É um reconhecimento de que a memória é um campo de batalha. Celebrar “Ainda Estou Aqui” é celebrar todos que, como Eunice, dizem: “Ainda estou aqui” — mesmo quando o Estado tenta apagar suas existências.

    Em tempos de fake news e negacionismo, o filme lembra que a arte pode ser trincheira. A estatueta dourada ganha contornos de um grito: contra a ditadura do passado e contra os autoritarismos do presente. Que a luz projetada sobre Eunice Paiva e Fernanda Torres ilumine também os que hoje lutam por justiça — para que nunca mais se repita.

    Como escreveu Marcelo Rubens Paiva, a dor de sua família “é a dor do Brasil”. E é essa dor, transformada em arte e resistência, que o mundo aplaude hoje. O Oscar não é só do cinema. É de todos que acreditam que a memória é o primeiro passo para a liberdade.

    Sites consultados

    https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2025/03/02/com-filme-brasileiro-oscar-manda-recado-poderoso-de-defesa-da-democracia.htm

    https://www.brasil247.com/cultura/brasil-foi-golpeado-em-1964-para-frear-as-reformas-de-base-de-jango-e-tambem-a-politica-externa-independente

    https://www.brasil247.com/cultura/rubens-paiva-denunciou-a-participacao-dos-estados-unidos-no-golpe-militar-de-1964-dluqvfrd

    https://www.brasil247.com/cultura/saiba-quem-foi-eunice-paiva-retratada-por-fernanda-torres-em-ainda-estou-aqui

    Créditos da imagem ilustrativa: rede social Facebook.

  • Você reza pela saúde do Papa Francisco?

    Você reza pela saúde do Papa Francisco?

    Em tempos de incerteza e angústia, a fé tem o poder de unir corações ao redor do mundo. A presente internação do Papa Francisco, que enfrenta complicações decorrentes de uma pneumonia dupla, tem mobilizado fiéis, líderes religiosos e instituições, tanto no Brasil quanto no exterior, para uma corrente de oração e esperança. Essa mobilização não apenas evidencia a relevância do pontífice da “Casa Comum” para milhões de pessoas, mas também ressalta como momentos de fragilidade podem fortalecer a comunhão e a solidariedade entre os cristãos e não-cristãos.

    Na Catedral de Buenos Aires, antiga sede do então Cardeal Bergoglio (Francisco), fiéis se reuniram em uma vigília de oração no domingo, 23. Esse gesto manifesta a devoção que move aqueles que, com fé, desejam a recuperação do Santo Padre argentino, reafirmando que a esperança é coletiva.

    No Brasil, a mobilização é ainda mais intensa e diversificada. De Norte a Sul, inúmeras iniciativas foram organizadas para interceder a Deus pela saúde do Papa. Há relatos de orações diárias em várias dioceses e paróquias de todos os cantos do país. Líderes religiosos enfatizam a importância de se unir em prece, recordando momentos bíblicos, como a libertação de Pedro, primeiro papa segundo os católicos, nos Atos dos Apóstolos, e comparando-os à situação atual do pontífice, cuja recuperação é esperada pelos que se acostumaram à sua autenticidade evangélica.

    Enquanto muitos fiéis se dedicam às orações locais, a iniciativa dos cardeais residentes em Roma destaca um movimento de união em nível global. Na Praça São Pedro, os purpurados, acompanhados por colaboradores da Cúria Romana e da Diocese de Roma, reúnem-se todas as noites, às 21 h locais (17 h no horário de Brasília), para rezar o terço em favor do Papa.

    Além das iniciativas promovidas pelas hierarquias e comunidades locais, organizações como a Sociedade São Vicente de Paulo (SSVP Brasil) organizaram uma semana inteira de oração dedicada à recuperação do Papa. A programação especial tem momentos de reflexão, missa e preces coletivas.

    Por fim, a convocação dos bispos de todo o Brasil reforça que essa é uma causa que vai muito além dos muros da Igreja. O apelo por orações evidencia não só o profundo respeito e carinho que o Papa Francisco desperta, mas também a responsabilidade dos líderes da Igreja em estimular uma atitude solidária em um momento tão delicado.

    A pergunta “Você reza pela saúde do Papa Francisco?” vai além de um mero ato religioso; ela é um convite para refletir sobre a importância da fé, da união e da esperança em tempos de crise, em favor de um gigante do nosso tempo. Independentemente das crenças pessoais, esse momento nos relembra que, muitas vezes, o que nos une é maior do que qualquer diferença – e que a oração, como expressão de solidariedade, tem o poder de transformar as circunstâncias mais difíceis em oportunidades de renovação e comunhão.

  • Há quem queira mal ao Papa Francisco? Entenda o contexto

    Há quem queira mal ao Papa Francisco? Entenda o contexto

    Em meio à recente internação do Papa Francisco, que desperta preocupação global, emerge nas sombras um fenômeno perturbador: campanhas de ódio e especulações prematuras lideradas por setores da extrema-direita, tanto dentro quanto fora da Igreja Católica. Enquanto fiéis ao redor do mundo oram por sua recuperação, grupos conservadores e figuras políticas aproveitam o momento para atacar seu legado, revelando não apenas uma divergência ideológica, mas uma rejeição aos princípios cristãos que Francisco encarna.

    Como destacado pelo site UOL, há uma “torcida pela morte do Papa Francisco nas redes”, um reflexo da “escalada do ódio” em tempos de polarização (Sakamoto, 2025). Esse comportamento, que transforma a fragilidade humana em espetáculo macabro, contrasta radicalmente com a mensagem de compaixão e misericórdia que o pontífice defende. Não se tratam apenas de críticas políticas, mas de um ataque à própria essência do cristianismo, que Francisco busca revitalizar: um compromisso com os pobres, a justiça social e a ecologia integral.

    A oposição ao Papa frequentemente se disfarça de zelo doutrinário, mas esconde interesses escusos. Phyllis Zagano, citada no site do Instituto Humanitas Unisinos (IHU), aponta que, embora figuras como Donald Trump contratem católicos para sua base, “suas ações não refletem em nada a doutrina social católica” (Zagano, 2024). Essa contradição expõe como setores conservadores instrumentalizam a religião para fins de poder, ignorando ensinamentos centrais como o acolhimento a migrantes e a denúncia da desigualdade.

    Francisco, ao contrário, insiste em temas incômodos para elites políticas e econômicas. Seu apelo por “uma Igreja pobre para os pobres” e suas críticas ao “capitalismo selvagem” desestabilizam alianças entre religiosos e poderosos. Não é casual que, como revela o IHU, haja suspeitas de que um futuro conclave esteja sendo “organizado com dólares estadunidenses” para enfraquecer seu legado (IHU, 2023). A batalha é também financeira: setores conservadores, muitas vezes apoiados por magnatas, buscam o retorno a uma Igreja mais dogmática e menos envolvida com causas sociais.

    Dentro da Cúria, cardeais alinhados à direita já sinalizam movimentos para influenciar o próximo conclave. Jean-Claude Hollerich, arcebispo de Luxemburgo, denuncia: “É horrível que os cardeais já estejam trabalhando no conclave” enquanto o Papa vive (IHU, 2023). A pressa em enterrar seu pontificado revela o medo de que suas reformas, como a descentralização do poder (sinodalidade) e a abertura a divorciados e LGBTQ+, se tornem irreversíveis.

    Contudo, como argumenta outro artigo do IHU, “se o conclave quiser um segundo Francisco, eis o nome e o programa” (IHU, 2023). A resistência à sua agenda é, paradoxalmente, um sinal de seu êxito. Seu estilo pastoral, marcado pelo diálogo e pela simplicidade, resgata o núcleo do Evangelho, frequentemente obscurecido por disputas teológicas. Francisco lembra que “alguém rezou para que eu fosse para o paraíso, mas o Senhor da colheita decidiu me deixar aqui por um tempo” (IHU, 2024). Sua permanência é um convite à Igreja para não fugir de sua missão profética.

    A aversão da extrema-direita ao Papa Francisco não é mera disputa eclesiástica. É a rejeição de um cristianismo que desafia estruturas de opressão. Seus críticos preferem uma fé ornamental, alheia aos gritos dos marginalizados. Francisco, porém, insiste que a autenticidade cristã está no serviço, não no poder.

    Enquanto especulações e ódio tentam silenciar sua voz, seu exemplo persiste: uma Igreja que cheira às ovelhas feridas, não aos palácios. Em tempos de cinismo, Francisco é um lembrete de que o Evangelho, quando vivido radicalmente, ainda pode incomodar e transformar o mundo.

    Links dos artigos citados:

    1. https://www.ihu.unisinos.br/648740-o-papa-a-meloni-alguem-rezou-para-que-eu-fosse-para-o-paraiso-mas-o-senhor-da-colheita-decidiu-me-deixar-aqui-por-um-tempo
    2. https://www.ihu.unisinos.br/648985-enquanto-trump-contrata-catolicos-suas-acoes-nao-refletem-em-nada-a-doutrina-social-catolica-artigo-de-phyllis-zagano
    3. https://ihu.unisinos.br/648950-chega-de-especulacoes-e-horrivel-que-os-cardeais-ja-estejam-trabalhando-no-conclave-entrevista-com-jean-claude-hollerich
    4. https://www.ihu.unisinos.br/categorias/636720-um-conclave-organizado-com-dolares-estadunidenses
    5. https://www.ihu.unisinos.br/categorias/616172-se-o-conclave-quiser-um-segundo-francisco-eis-o-nome-e-o-programa
    6. https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2025/02/23/torcida-pela-morte-do-papa-francisco-nas-redes-mostra-escalada-do-odio.htm
  • A retomada do emprego formal no Brasil sob o 3º Governo Lula

    A retomada do emprego formal no Brasil sob o 3º Governo Lula

    Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), consolidados entre 2023 e 2024, revelam um cenário promissor para o mercado de trabalho brasileiro: 2,1 milhões de empregos formais criados nesse período, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego. Esse resultado, que inclui uma média mensal de 87,5 mil vagas com carteira assinada, reflete a recuperação econômica sustentada e a eficácia de políticas públicas focadas na geração de emprego, na reindustrialização e na redução das desigualdades regionais.

    Em 2023, primeiro ano do terceiro governo Lula, o país gerou 1,483 milhão de postos formais, o melhor desempenho desde 2010, excluindo o ano atípico de 2021 (pós-flexibilização da pandemia). Em 2024, apesar de um contexto global desacelerado, o Brasil manteve a trajetória positiva, com 618 mil vagas criadas apenas nos primeiros sete meses (até julho), projetando um total anual próximo a 1 milhão. Tais números consolidam uma reversão clara da estagnação do período 2016-2022, quando a taxa média de desemprego atingiu 12,5% e o emprego formal cresceu apenas 0,7% ao ano.

    A análise setorial mostra avanços em áreas prioritárias para o governo. A indústria de transformação, por exemplo, registrou 192 mil novos empregos em 2023, o maior saldo desde 2013, graças a incentivos fiscais e ao Programa Brasil Produtivo, que modernizou parques industriais. O setor de serviços, responsável por 60% das contratações, expandiu-se com políticas de crédito a micro e pequenas empresas, como o Simples Nacional Reforçado. Já a construção civil, impulsionada pelo Programa Minha Casa, Minha Vida e por obras de infraestrutura em regiões periféricas, gerou 122 mil vagas em 2023.

    Regionalmente, destaca-se o Nordeste, que concentrou 23% das contratações formais em 2023 (340 mil empregos), impulsionado por investimentos em energia eólica e solar e pelo retorno de obras como a Transposição do São Francisco. A região Norte, por sua vez, teve crescimento de 9% no emprego formal em 2024, vinculado ao plano Amazônia Sustentável, que combina preservação ambiental e geração de renda.

    O governo Lula priorizou a recomposição de políticas abandonadas nos anos anteriores, como o fortalecimento do Salário Mínimo (reajustado acima da inflação em 2023 e 2024) e a ampliação do Bolsa Família, que retirou 4 milhões de pessoas da extrema pobreza e estimulou o consumo em economias locais. Além disso, a retomada de investimentos públicos em infraestrutura (R$ 300 bilhões previstos no PPI 2023-2026) e a reativação de câmaras setoriais com sindicatos e empresários foram decisivas para reaquecer a confiança e o emprego.

    Programas como Qualifica Brasil, que capacitou 1,2 milhão de trabalhadores para setores tecnológicos entre 2023 e 2024, e o Pró-Indústria, que destinou R$ 50 bilhões à inovação industrial, mostram que é possível conciliar produtividade e inclusão.

    Os números do CAGED comprovam que, quando o Estado atua com planejamento e foco social, o mercado de trabalho responde. Para milhões de brasileiros, esses empregos significam acesso a direitos trabalhistas, previdência e dignidade. O terceiro Governo Lula demonstra que a retomada do desenvolvimento passa necessariamente pela valorização do trabalho e pela redução das assimetrias regionais. O caminho é longo, mas os dados recentes indicam que o Brasil está, finalmente, recalculando sua rota.


    Fontes consultadas

    • Ministério do Trabalho e Emprego: Relatórios do CAGED (2023-2024).
    • IBGE: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) – 2023-2024.
    • Portal da Transparência: Investimentos do PPI (Plano Parcerias e Investimentos).
    • Políticas públicas citadas: Programas federais em vigor no período (ex: Brasil Produtivo, Qualifica Brasil).
  • O Pé-de-meia é um acerto

    O Pé-de-meia é um acerto

    O Programa Pé-de-meia, instituído pela Lei nº 14.818/2024 e regulamentado logo em seguida, nasceu com o objetivo de reduzir a evasão e promover a conclusão do ensino médio por estudantes de baixa renda. Ao criar uma espécie de “poupança estudantil”, o governo não apenas oferece um suporte financeiro direto, com incentivos que podem chegar a R$ 9.200 ao longo dos três anos da etapa, mas também estimula o aprendizado de gestão financeira e a inclusão social.

    Ele surgiu em um contexto de persistentes desigualdades no acesso à educação e altas taxas de abandono escolar, agravadas pela pandemia e por décadas de políticas insuficientes. Conforme relatos oficiais, o programa foi idealizado para enfrentar o fato de que meio milhão de jovens abandonavam o ensino médio para ajudar no orçamento familiar, um cenário que o presidente Lula descreveu como “uma revolução” ao afirmar: “O Pé-de-Meia é uma revolução, porque descobrimos que meio milhão de jovens desistiam do ensino médio para ajudar no orçamento familiar. Então resolvemos criar uma poupança para esse jovem”.

    Ao funcionar como uma poupança digital, os estudantes – beneficiários do CadÚnico e prioritariamente do Bolsa Família – têm seus incentivos depositados em contas abertas pela Caixa Econômica Federal. Esses recursos, que não entram no cálculo da renda familiar para outros benefícios, visam manter os alunos na escola mediante o cumprimento de condicionalidades como a matrícula, a frequência mínima de 80% e a aprovação anual.

    Diversos estudos e análises, como o relatório do Todos Pela Educação, destacam que a combinação de pagamentos mensais com bônus anuais atrelados à conclusão das séries é uma estratégia eficaz para reduzir a evasão escolar. Professores do ensino médio e pedagogos progressistas enfatizam que, além do impacto financeiro imediato, o programa estimula a autonomia dos jovens ao aproximá-los do mundo das finanças – um aprendizado que pode contribuir para a mobilidade social e a construção de um futuro mais digno. Em uma análise recente, especialistas afirmaram que “a criação dessa poupança estimula não só a permanência escolar, mas também o entendimento dos estudantes sobre a importância do planejamento financeiro, elemento essencial para romper o ciclo da pobreza”.

    Além dos incentivos diretos, o programa é elogiado por promover a inclusão bancária dos jovens e por representar um investimento estratégico em educação, considerando que a manutenção e conclusão do ensino médio são fundamentais para ampliar as oportunidades de ingresso no ensino superior.

    Ao oferecer um incentivo financeiro que compensa, mesmo que parcialmente, as dificuldades econômicas enfrentadas pelas famílias, o programa contribui para manter os alunos na escola e reduzir os índices de abandono.

    A criação de uma conta poupança em nome do estudante, sem a interferência dos responsáveis, promove um sentimento de pertencimento e responsabilidade, além de ensinar conceitos básicos de gestão financeira.

    Ao beneficiar jovens de baixa renda e priorizar aqueles inscritos no CadÚnico, o programa atua diretamente na diminuição das desigualdades históricas na educação brasileira.

    Investir na educação é garantir que os futuros profissionais tenham uma formação sólida, o que, a longo prazo, impacta positivamente na produtividade e no desenvolvimento econômico do país.

    O Programa Pé-de-meia representa uma resposta inovadora aos desafios enfrentados pelo ensino médio no Brasil. Ao combinar incentivos financeiros com o incentivo à permanência e à conclusão dos estudos, o governo do Presidente Lula mostra que entende a educação como um investimento essencial para o futuro do país.

  • Trabalhar menos, trabalhar todos, produzir o necessário, distribuir tudo

    Trabalhar menos, trabalhar todos, produzir o necessário, distribuir tudo

    A proposta da deputada federal Erika Hilton (PSOL/SP) de acabar com a escala 6×1 e reduzir a jornada de trabalho semanal de 44 para 36 horas não é apenas uma atualização das relações de trabalho, mas um passo importante em direção a uma sociedade mais justa, sustentável e que valoriza a qualidade de vida dos trabalhadores. A PEC (Proposta de Emenda à Constituição), que sugere uma semana de trabalho de quatro dias – com ajustes feitos por meio de acordos coletivos –, já recebeu amplo apoio popular e de diversos setores políticos. Além disso, está alinhada com tendências globais, principalmente europeias, que mostram que repensar o modelo de trabalho pode aumentar a produtividade sem prejudicar a produtividade e os direitos dos trabalhadores.

    Em uma coletiva de imprensa, Erika Hilton destacou:

    “Já existem estudos políticos e econômicos que mostram que é possível repensar a jornada de trabalho, como foi feito em outros países, adaptando essas experiências à nossa realidade.”

    Essa fala reflete a necessidade urgente de atualizar as práticas de trabalho para que se adequem às novas realidades econômicas e sociais. A escala 6×1, que obriga os trabalhadores a trabalhar seis dias seguidos com apenas um dia de descanso, é vista por muitos como um resquício de modelos ultrapassados e exaustivos, que adoecem física e mentalmente os trabalhadores, além de não levarem em conta os desafios da mobilidade urbana, como meios de transporte precários, demorados e superlotados.

    A discussão ganha ainda mais força com o apoio do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), idealizado pelo vereador da cidade do Rio de Janeiro Rick Azevedo (PSOL). O VAT tem sido um importante agregador na luta por condições de trabalho mais humanas. Rick Azevedo, que teve experiência pessoal com a escala 6×1 e foi motivado por isso a agir, afirmou em uma rede social:

    “O mercado reclama da ‘falta de mão de obra’, mas não quer admitir o óbvio: as pessoas estão cansadas de ser exploradas. A escala 6×1 destrói a saúde, rouba o tempo de vida e paga mal. Ninguém quer adoecer para enriquecer patrão.”

    Esse posicionamento reforça a necessidade de transformar o trabalho em algo que permita o desenvolvimento humano, em vez de ser um mecanismo de exploração. A redução da jornada, defendida tanto por Erika Hilton quanto pelo movimento VAT, é vista como uma forma de diminuir o estresse, reduzir os casos de burnout e promover uma melhor qualidade de vida, além do aumento da produtividade, uma vez que as empresas contarão com pessoas humanas menos adoecidos em seus processos produtivos.

    “Trabalhar menos, trabalhar todos, produzir o necessário, distribuir tudo”, antigo lema das lutas dos trabalhadores ao longo da história dos séculos XIX e XX, pode ser retomado na atualidade e resume uma visão democrática e sustentável para o trabalho e a economia.

    1. Trabalhar menos: Reduzir a jornada de trabalho para que os trabalhadores tenham mais tempo para cuidar da saúde, estar com a família e se desenvolver pessoalmente.
    2. Trabalhar todos: Que a redução da jornada seja um direito de todos, e não um privilégio de poucos, garantindo que ninguém seja excluído ou explorado por longas horas de trabalho.
    3. Produzir o necessário: Uma economia focada em atender às reais necessidades da sociedade, evitando o desperdício e a concentração excessiva de riquezas.
    4. Distribuir tudo: Distribuição justa dos frutos do trabalho, para que todos possam se beneficiar do que é produzido.

    Além de melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores, a redução da jornada de trabalho também tem impactos ambientais significativos. Menos deslocamentos diários e uma organização mais racional do tempo de trabalho podem reduzir a emissão de gases de efeito estufa (GEEs) e o consumo excessivo de recursos naturais. Assim, o modelo proposto pela PEC alia justiça social à sustentabilidade ambiental, promovendo o desenvolvimento mais equilibrado e consciente.

    A PEC contra a escala 6×1 representa um passo fundamental para a construção de uma sociedade em que o trabalho cumpra sua função social sem sacrificar a saúde e o bem-estar das pessoas. Com o lema “Trabalhar menos, trabalhar todos, produzir o necessário, distribuir tudo”, reforça-se a ideia de que a transformação das relações de trabalho é essencial para que todos tenham acesso a ocupação digna e a vida mais plena, sem excessos e desigualdades. É um chamado para que o Congresso, os empregadores e a sociedade civil se unam na construção de um novo modelo de trabalho, onde o desenvolvimento econômico esteja, antes de tudo, a serviço do bem-estar coletivo.

    Essa mudança é urgente e necessária – afinal, ninguém – e nem a Casa Comum – deve continuar pagando um preço tão alto em saúde, tempo, sustentabilidade e dignidade por um modelo que já não faz sentido nos dias de hoje.

  • Você acredita que vai vencer na vida sendo o chefe de si mesmo? A mentira do empreendedorismo meritocrático

    Você acredita que vai vencer na vida sendo o chefe de si mesmo? A mentira do empreendedorismo meritocrático

    A narrativa do “chefe de si mesmo”, de “vencer na vida” e da ideia de que “todo mundo tem as mesmas 24 horas” tem sido amplamente propagada como fórmula mágica para o sucesso. Essa visão, profundamente enraizada na propaganda neoliberal, engana a classe trabalhadora ao ocultar as desigualdades estruturais e promover um empreendedorismo sem garantias ou direitos trabalhistas. Essa é a armadilha: transformar o fracasso coletivo em responsabilidade individual, enquanto a exploração e a precarização se normalizam.

    Quantas vezes já ouvimos que “todo mundo tem as mesmas 24 horas do dia”? Essa frase, aparentemente inofensiva, serve para mascarar as desigualdades reais do cotidiano. Enquanto alguns desfrutam de jornadas de trabalho dignas, transporte adequado, condições de saúde e apoio familiar, outros enfrentam longos deslocamentos, jornadas exaustivas e responsabilidades domésticas que duplicam a carga de trabalho. Como demonstrado em análises críticas sobre a lógica do tempo e da produtividade, essa simplificação ignora dados objetivos sobre deslocamentos e jornadas laborais desiguais – uma estratégia que legitima a ideia de que a produtividade é apenas uma questão de esforço individual.

    A crença na meritocracia é, por si só, uma construção ideológica que tem servido para justificar a desigualdade. O “mito da meritocracia” faz com que se pense que o sucesso é fruto exclusivo do esforço pessoal, ignorando as barreiras estruturais e o acesso desigual a recursos como educação, rede de contatos e oportunidades de crescimento. Ao incentivar a ideia de que “vencer na vida” depende apenas de trabalhar mais e melhor, o sistema transfere para o indivíduo a culpa por sua estagnação, enquanto os responsáveis pela manutenção das estruturas de poder e privilégio permanecem intocados.

    A ideia de ser “o chefe de si mesmo” é vendida como a rota para a liberdade e o sucesso. Contudo, esse discurso esconde uma realidade amarga: o empreendedorismo sem direitos trabalhistas é, na prática, uma armadilha que expõe o trabalhador à volatilidade do mercado, à ausência de proteção social e à responsabilidade integral pelos seus fracassos. Essa narrativa, presente em escolas, redes sociais e até mesmo em discursos religiosos, reforça uma cultura do individualismo que desvia a atenção da necessidade de coletividade e solidariedade. Ao invés de oferecer uma chance real de ascensão, ela cria um ambiente onde a exploração é naturalizada e os riscos são transferidos para o trabalhador sem qualquer rede de apoio.

    Vivemos em uma sociedade que exalta a eficiência e o desempenho a qualquer custo. A “ideologia do desempenho” dita que o sucesso é medido pelo quanto se produz, levando o trabalhador a se autoexplorar incessantemente para provar seu valor. Essa lógica, que nega a importância de fatores como gênero, classe ou condições de vida, é uma arma ideológica que favorece os interesses do capital e legitima a precarização do trabalho. Em vez de promover uma verdadeira transformação social, ela transforma o sujeito em um empreendedor de si mesmo, responsável por todas as conquistas e, principalmente, por todos os fracassos.

    Autores como Byung-Chul Han e Erich Fromm já alertavam para os perigos de uma sociedade que, em nome da eficiência, esgota o indivíduo. Han descreve como o excesso de positividade e a pressão por desempenho levam a uma “sociedade do cansaço”, onde a exaustão, o burnout e a depressão se tornam os preços da “liberdade” de ser o próprio chefe. Fromm, por sua vez, destacou que, no capitalismo avançado, o ser humano se torna uma partícula impessoal – avaliada apenas pelo seu “valor de mercado” – o que resulta em uma profunda alienação. A promessa de autonomia e liberdade se transforma em um pesadelo de autoexploração, onde o indivíduo se vê preso em uma rotina implacável, sem espaço para o questionamento ou para a verdadeira realização pessoal.

    Ao incutir na mente da classe trabalhadora a ideia de que o sucesso depende unicamente do esforço individual, o discurso neoliberal oculta as forças estruturais que perpetuam a desigualdade. Essa “responsabilização” individual, propagada por meio de escolas, redes sociais e até igrejas, tem como finalidade desviar a atenção das políticas públicas e da necessidade de uma proteção social efetiva. Assim, os trabalhadores são levados a acreditar que o fracasso é fruto de sua falta de empenho, e não de um sistema que privilegia poucos em detrimento da maioria.

    Diante desse cenário, é urgente repensar o valor da solidariedade e da organização coletiva. Em vez de internalizar o discurso de que “você é o único responsável pelo seu sucesso”, precisamos construir espaços de luta que priorizem direitos trabalhistas, justiça social e a redistribuição equitativa de oportunidades. É necessário questionar os discursos que transformam o empreendedorismo sem garantias em um ideal de vida e lutar por políticas públicas que protejam o trabalhador, promovendo uma verdadeira democratização do acesso a oportunidades.

    A narrativa do “chefe de si mesmo” e da meritocracia neoliberal é uma construção ideológica que serve para mascarar a exploração e a precarização das relações de trabalho. Enquanto a propaganda capitalista exalta a eficiência individual e ignora as desigualdades estruturais, o trabalhador se vê condenado a uma eterna busca por um sucesso ilusório – um sucesso que, na verdade, é medido apenas pelos parâmetros definidos por uma elite privilegiada. É hora de romper com esse mito e reconhecer que a verdadeira transformação social só será possível quando a responsabilidade se compartilhar e o poder se distribuir de maneira equitativa. Repensar o empreendedorismo e resgatar o valor da coletividade é o primeiro passo para construir uma sociedade mais justa e humana.

  • O cristianismo é incompatível com a extrema-direita?: uma análise a partir do 7º domingo do tempo comum de 2025

    O cristianismo é incompatível com a extrema-direita?: uma análise a partir do 7º domingo do tempo comum de 2025

    Os textos litúrgicos do 7º domingo do Tempo Comum (23/02/2025) —1Samuel 26,7–9.12–13.22–23, o Salmo 102(103),1–4.8-10.12–13, 1Coríntios 15,45–49 e o Evangelho de Lucas 6,27–38 — compartilham um mesmo impulso ético e espiritual que é central na teologia cristã: o chamado à misericórdia, ao perdão e à renovação interior que transforma as relações humanas.

    1 Samuel 26,7–9.12–13.22–23 relata o episódio em que Davi, perseguido pelo rei Saul, tem a oportunidade de eliminar seu inimigo. Incentivado por Abisai a exercer uma justiça vingativa, Davi opta por poupar a vida de Saul. Essa decisão não é meramente uma questão de prudência política, mas reflete uma ética que reconhece a sacralidade da vida e o fato de que somente Deus pode julgar e tirar a vida de alguém. Assim, Davi demonstra uma postura de misericórdia e respeito pelo “ungido do Senhor”, colocando a justiça divina acima da vingança humana.

    O Salmo 102 (103) enfatiza o caráter compassivo e misericordioso de Deus, que perdoa, cura e renova a vida. Esses versículos nos lembram que o Senhor é lento para a ira e abundante em amor, servindo de modelo para os fiéis – que são chamados a imitar essa misericórdia em suas próprias relações, mesmo diante da injustiça ou do mal.

    Em 1 Coríntios 15 ,45–49, Paulo contrapõe o “primeiro Adão”, que trouxe a corrupção e a morte, ao “último Adão”, Cristo, que inaugura uma nova humanidade, em quer ser humano significa abrir-se ao amor e não aos discursos e às práticas de ódio. Essa comparação ressalta a transformação radical que a graça de Deus opera no ser humano, elevando-o a uma condição espiritual renovada e capaz de refletir a verdadeira imagem divina, marcada pela compaixão e pela esperança de ressurreição.

    Já o Evangelho de Lucas 6,27–38 apresenta os ensinamentos de Jesus sobre o amor incondicional: amar os inimigos, fazer o bem aos que nos odeiam, e oferecer perdão sem esperar retribuição. Esse chamado à prática do amor radical e à rejeição da vingança contrasta fortemente com as lógicas de retribuição e hostilidade que marcam muitas atitudes humanas.

    Em conjunto, esses textos apontam para um mesmo ideal cristão: a superação da lógica retributiva e violenta em favor de uma ética do perdão, da compaixão e da confiança na justiça de Deus. Eles nos convocam a reconhecer que somente a misericórdia – que transforma e reconcilia – pode conduzir a uma vida verdadeiramente cristã.

    Quando se diz que “o cristianismo é incompatível com a prática social da extrema-direita”, estamos colocando em contraste a ética radical do Evangelho com as atitudes autoritárias e excludentes que, frequentemente, caracterizam os discursos e práticas da extrema-direita. E é importante ressaltar que não se está colocando o cristianismo como opositor da extrema-direita ou ideologicamente como “de esquerda”, mas que o Evangelho não cabe no programa do extremismo direitista.

    Dentro da teologia cristã, como evidenciado nos textos acima:

    • Rejeição da violência e da vingança: Davi, ao poupar Saul, e os ensinamentos de Jesus para amar os inimigos, afirmam que a violência e a retribuição pessoal não podem ser instrumentos de justiça. Em uma sociedade de extrema-direita, onde a retaliação e a exclusão frequentemente se justificam como forma de “ordem” e “segurança”, essa ética cristã propõe uma resposta que transcende o ódio e a divisão.
    • Centralidade da misericórdia e do perdão: O Salmo e o Evangelho ressaltam que Deus é infinitamente misericordioso, chamando os fiéis a praticarem o perdão mesmo quando confrontados com o mal. Essa mensagem contrasta com a lógica da extrema-direita, que muitas vezes fundamenta suas políticas em narrativas de inimigo interno e em uma justiça punitiva e excludente.
    • Transformação interior e renovação: A comparação em 1 Coríntios 15 entre o primeiro e o último Adão aponta para uma transformação profunda operada pela graça de Deus, que convida o cristão a uma renovação constante de sua conduta. Essa ideia de transformação pessoal e coletiva é incompatível com ideologias que buscam a manutenção de hierarquias rígidas e a consolidação de um status quo excludente, típico de muitos discursos da extrema-direita.

    Portanto, à luz da teologia cristã, o verdadeiro cristianismo — que prega o amor universal, a compaixão sem limites e o perdão incondicional – desafia e se opõe à prática social da extrema-direita, que frequentemente promove a divisão, o ódio e a violência em nome de uma suposta ordem ou tradição. Em outras palavras, enquanto o cristianismo chama para uma prática de solidariedade e reconciliação, as práticas de exclusão e retaliação que costumam marcar os movimentos da extrema-direita representam uma negação dos valores fundamentais do Evangelho.

    Esta análise demonstra que, para a teologia cristã, os ensinamentos das Escrituras – enfatizando o perdão, a misericórdia e o amor aos inimigos – constituem uma ética incompatível com os mecanismos de divisão, violência e exclusão social promovidos pela extrema-direita.

  • Torturas, desaparecimentos, repressão e negacionismo: os riscos de uma ditadura bolsonarista

    Torturas, desaparecimentos, repressão e negacionismo: os riscos de uma ditadura bolsonarista

    No ano do cinquentenário do assassinato do jornalista judeu-brasileiro Vladimir Herzog pela ditadura militar brasileira, quando políticos descarados tentam aprovar uma anistia para os crimes do bolsonarismo, que tentou implantar uma nova ditadura em 8 de janeiro de 2023, é necessário refletir sobre os riscos reais de um regime ditadorial sob Bolsonaro.

    Há cinco décadas, o Brasil viveu os horrores de um regime que se valeu da tortura para silenciar a dissidência. Em obras como Tortura Nunca Mais e Brasil: Nunca Mais, incontáveis relatos de vítimas – desde mulheres como Amelinha Teles até militantes e opositores – expõem a crueldade de torturadores como o coronel Ustra e o delegado Fleury. Essas narrativas, registradas com rigor histórico e testemunhadas por sobreviventes, mostram um passado de dor, onde métodos brutais, como descargas elétricas, espancamentos e outras torturas inimagináveis, marcaram a vida de milhares de brasileiros.

    Hoje, ao relembrarmos essas atrocidades, precisamos encarar um alerta urgente: a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, articulada por apoiadores de Jair Bolsonaro, não é apenas um episódio isolado, mas um sintoma perigoso de uma regressão autoritária. A denúncia formal pela PGR contra Bolsonaro por essa trama revela que, mesmo décadas depois, há quem deseje reviver um passado marcado pelo autoritarismo e pela violência estatal.

    A memória dos que sofreram durante a ditadura não pode ser manchada por ideologias que, sob o disfarce da “defesa” da nação, buscam subverter a ordem democrática. Ao apoiar ou tolerar tentativas de golpe, arriscamos abrir as portas para um novo ciclo de perseguição política, onde o Estado, armado de discursos de ódio e desprezo pela dignidade humana, possa novamente recorrer à tortura, ao desaparecimento forçado e à repressão sistemática de opositores.

    Imagine um cenário onde, diante de um governo autoritário, a liberdade de expressão é cerceada, a imprensa silenciada e os direitos humanos desconsiderados, tudo isso aliado ao fundamentalismo religioso, ao negacionismo científico e à negligência com a saúde pública dos brasileiro. A somatória seria a morte de centenas de milhares ou milhões de cidadãos do Brasil.

    Essa é a ameaça que se impõe se deixarmos que as lições do passado sejam esquecidas. A história nos ensina que a construção de uma ditadura não acontece de uma hora para outra, mas se alimenta do medo, da intolerância e da indiferença de uma sociedade que se omite diante da erosão das instituições democráticas.

    Não podemos permitir que o eco dos gritos e dos clamores das vítimas da ditadura se perca no tempo. Cada ato de violência estatal, cada relato de tortura, é um lembrete do preço pago pela liberdade. Se hoje apoiarmos ou minimizarmos essas ameaças, estaremos abrindo caminho para que um novo capítulo sombrio se escreva em nossa história.

    Nesse contexto, é bem vindo o sucesso do filme Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, que reconta o drama da família de Rubens Paiva, morto pela ditadura, sob a ótica de sua esposa Eunice Paiva. Além de resgatar a memória histórica da repressão, demonstra como nem mesmo as famílias de classe média alta foram poupadas da tirania do regime, quiçá os trabalhadores pobres. Que venha o Oscar para Fernanda Torres, pela excepcional representação de Eunice.

    Se a trajetória de tortura e repressão do passado servir de lição, que ela nos impeça de aceitar, de forma passiva ou ativa, qualquer tentativa de golpe ou retrocesso autoritário. Uma nova ditadura brasileira, liderada por figuras que se recusam a reconhecer a legitimidade da alternância de poder, traria consigo a repetição de perseguições, torturas e desaparecimentos.

    É preciso, portanto, unir forças em defesa da democracia, lembrando com pesar e indignação dos horrores do passado, para que nunca mais possamos reviver tamanha barbárie. Impedir a aprovação de anistia ao golpismo bolsonarista também é dever de todos os democratas. A liberdade exige vigilância e ação constante – não à custa do nosso legado e da nossa dignidade humana.

  • Contra a anistia para salvar a democracia

    Contra a anistia para salvar a democracia

    Anistiar (perdoar os crimes d)os envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023 não é, no mínimo, uma medida de justiça restaurativa – é um risco direto à manutenção do Estado Democrático de Direito. Nos debates recentes, renomados juristas e especialistas em Direito vêm apontando argumentos contundentes contra essa proposta, que, se aprovada, representaria não só um retrocesso jurídico, mas também um incentivo perigoso à impunidade.

    Punição da tentativa de golpe como pilar da Democracia

    Um dos argumentos centrais é o de que a punição para a tentativa de golpe é indispensável. Afinal, se um golpe se efetivasse, o país perderia os alicerces da ordem democrática e as instituições responsáveis pela proteção dos direitos fundamentais deixariam de existir. Assim, ao não punir aqueles que tentaram derrubar a ordem constitucional, abre-se um precedente que pode comprometer a própria existência do Estado Democrático de Direito.

    Coerência constitucional e a proteção das instituições

    Diversas personalidades do Direito ressaltam que crimes contra a ordem democrática não podem ser tratados com leviandade. A professora Eloísa Machado de Almeida, da FGV, por exemplo, defende que a Constituição, ao impedir a anistia para crimes contra as instituições fundamentais do país, mantém a coerência interna do ordenamento jurídico – princípio que garante que ninguém possa ser perdoado por ter atentado contra a própria existência do Estado. De forma similar, a jurista Tânia Maria de Oliveira, da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia, alerta que conceder anistia seria uma invasão das competências do Judiciário, ao desviar a responsabilidade de julgar e condenar os atos antidemocráticos para o âmbito puramente político.

    Incentivo à impunidade e o perigo dos precedentes

    Outro ponto levantado é que liberar os condenados – ou mesmo atenuar suas penas por meio da anistia – envia uma mensagem perniciosa: a de que atos violentos e antidemocráticos podem ser praticados sem consequências reais. O ministro Alexandre de Moraes já afirmou que “um criminoso anistiado é um criminoso impune”. Essa impunidade não só fragiliza o respeito às leis, mas também pode inspirar futuras tentativas de golpe, pois demonstra que o ataque às instituições pode, eventualmente, sair sem a devida sanção.

    Risco de erosão da confiança nas instituições

    Por fim, a própria liberação dos responsáveis pelos atos de 8 de janeiro pode comprometer a confiança da sociedade nas instituições democráticas. O professor João Feres Júnior, do IESP-UERJ, destacou que a libertação dos radicais presos não promove pacificação, mas sim sinaliza que é possível subverter as estruturas do Estado sem enfrentar as consequências necessárias. Esse risco de abrir precedentes perigosos é, sem dúvida, um dos maiores entraves para o fortalecimento da democracia.

    Conceder anistia aos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro é, portanto, muito mais do que uma questão política – trata-se de defender, de forma intransigente, o próprio princípio de que a democracia exige respeito irrestrito às suas instituições. Ao perdoar a tentativa de golpe, estaríamos abrindo caminho para que a violência e o autoritarismo sejam normalizados, fragilizando o Estado e colocando em risco todos os avanços democráticos conquistados. Manter a punição rigorosa para tais atos é indispensável para assegurar que a democracia brasileira continue sendo um regime de direitos e garantias fundamentais, onde a lei prevaleça acima de interesses políticos momentâneos.

  • O agro está descartando alimentos para elevar os preços da comida?

    O agro está descartando alimentos para elevar os preços da comida?

    Denúncias vêm ganhando força ao apontar que o setor agropecuário brasileiro estaria, de forma deliberada, descartando parte de sua produção para criar uma falsa escassez e, assim, inflacionar os preços dos alimentos. Essa prática, que beneficia produtores já favorecidos por bilhões em subsídios e isenções fiscais, tem sido amplamente criticada por personalidades e veiculada em reportagens que expõem os impactos negativos para o consumidor.

    O advogado e cientista político Samuel Costa foi contundente ao afirmar que “produtores que recebem bilhões em dinheiro público subsidiado e isenção de impostos estão jogando alimentos fora para forçar o aumento dos preços nos mercados e desestabilizar a economia brasileira”. Em suas declarações, Costa acrescentou: “Uma pessoa que joga a sua produção agrícola fora porque não curtiu os preços praticados tem que ser responsabilizada judicialmente e perder subsídios e incentivos dados pelo governo. É inadmissível vermos pseudos patriotas querendo promover o caos no Brasil”. Tais palavras evidenciam uma crítica feroz a um sistema que, ao privilegiar o lucro, desconsidera o impacto direto no bolso dos consumidores e na segurança alimentar.

    Outra reportagem, publicada pela Folha, reforça essa visão ao relatar que o deputado federal Guilherme “Boulos quer punir quem manipula preços descartando alimentos”. Essa posição, defendida por lideranças políticas e por setores da sociedade, destaca a necessidade de uma intervenção estatal mais rigorosa para evitar que práticas abusivas continuem a afetar a economia popular.

    Embora alguns defensores do setor aleguem que o descarte de alimentos seria justificado por dificuldades logísticas e pela necessidade de evitar a queda abrupta dos preços diante do excesso de oferta, essa justificativa esconde, na verdade, uma realidade cruel: o desperdício de produtos essenciais num país onde milhões enfrentam insegurança alimentar. Ao descartar parte da produção, o agro não só manipula artificialmente os preços, mas também agrava a disparidade entre a abundância no campo e a escassez na mesa dos brasileiros.

    Diante desse cenário, a resposta à pergunta “O agro está descartando alimentos para elevar os preços?” Pode ser afirmativa. As evidências e as falas de personalidades como Samuel Costa, aliadas às reportagens críticas, deixam claro que a prática existe e precisa ser combatida. É imperativo que o Estado adote medidas rigorosas de fiscalização e reavalie os subsídios e isenções concedidos ao setor, de modo a proteger o consumidor e garantir que os alimentos produzidos cheguem de fato à mesa dos brasileiros.

  • Café caro mesmo com inflação mais baixa em janeiro: entenda tecnicamente o motivo

    Café caro mesmo com inflação mais baixa em janeiro: entenda tecnicamente o motivo

    Por Levon Nascimento

    O café, símbolo cultural e econômico do Brasil, está até no brasão das armas nacionais, enfrenta uma disparada de preços histórica. Em janeiro de 2025, o produto atingiu o maior valor em 28 anos, com a saca de 60 kg de arábica chegando a R$ 2.750 em algumas regiões. Enquanto isso, o consumidor brasileiro viu o preço do pacote de 1 kg subir quase 50% em 12 meses. Mas o que está por trás desse cenário? E por que outros alimentos também encareceram, mesmo com a inflação geral de alimentos desacelerando para 0,96% em janeiro, a menor desde a criação do Plano Real?

    1. Clima adverso: o maior vilão das lavouras

    Os eventos climáticos extremos são o ponto de partida para entender a crise. Secas prolongadas e ondas de calor nos estados produtores (como Minas Gerais e São Paulo) prejudicaram a floração e o desenvolvimento dos grãos. Em 2024, a produção brasileira caiu para 54 milhões de sacas, contra 63 milhões em 2020. As plantas, sob estresse, “abortaram” frutos para economizar energia, reduzindo a colheita. Além disso, geadas históricas em 2021 e o fenômeno El Niño em 2024 agravaram os danos, afetando também o Vietnã (2º maior produtor global) e a Indonésia, que dependem do café robusta.

    2. Custos de produção e logística: a conta que chega ao consumidor

    A desvalorização do real frente ao dólar encareceu insumos como fertilizantes e defensivos agrícolas, essenciais para o cultivo. Somam-se a isso os custos de transporte: conflitos no Oriente Médio elevaram o preço dos contêineres e obrigaram rotas alternativas, aumentando o tempo de entrega em até 20 dias. No Brasil, portos defasados dificultam a exportação, gerando gargalos.

    3. Demanda global em alta: o mundo quer mais café

    Enquanto o consumo interno cresceu modestamente (1,1% em 2024), a demanda internacional explodiu. A China, por exemplo, saltou da 20ª para a 6ª posição entre os maiores importadores de café brasileiro, impulsionada por cafeterias como a Luckin Coffee, que tem 9.300 lojas no país. A Europa, responsável por 30% do consumo mundial, também aumentou as compras, pressionando os estoques globais, que devem atingir o menor nível em 25 anos.

    4. Exportações em ritmo recorde: o agronegócio prioriza o mercado externo

    Com os preços internacionais em alta (o café arábica ultrapassou US 4 por libra em 2025),os produtores brasileiros estão vendendo mais para fora. Em 2024, as exportações bateram recorde: 50 milhões de sacas, gerando US 4 por libra em 2025),gerando US 12,5 bilhões em receita. Para muitos agricultores, vender 30% da produção já cobre os custos, incentivando a priorização do mercado externo. Isso reduz a oferta interna, elevando os preços domésticos.

    5. Inflação menor, mas pressionada por alimentos

    Apesar da desaceleração da inflação geral em janeiro (0,96%), puxada por quedas no leite e batata, o café continuou subindo (+8,56% no mês). O fenômeno reflete uma tendência global: commodities agrícolas como cacau e suco de laranja também tiveram altas significativas, contribuindo para o “efeito colateral” do sucesso do agronegócio exportador.

    6. Consequências para o consumidor e perspectivas

    Enquanto o café servido em bares subiu 10,49% em 12 meses, o produto vendido em supermercados teve alta de 50,35%. A indústria ainda não repassou todos os custos aos preços, o que indica mais ajustes em 2025. Para economizar, especialistas sugerem comprar a granel, aproveitar promoções e reduzir desperdícios.

    A esperança de alívio está na próxima safra, prevista para abril/maio, mas as projeções são cautelosas: a produção de 2025 deve ser 4,4% menor que a anterior. Enquanto isso, o Brasil segue colhendo os frutos (amargos para o consumidor interno e doces para o grande agronegócio) de ser o maior exportador global de café.

    Fontes: Dados do Cepea, Conab, Abic e relatórios da Organização Internacional do Café (OIC).

  • Taiobeiras 2025: o futuro é agora

    Taiobeiras 2025: o futuro é agora

    * Levon Nascimento

    Em 2020, tive a ousadia de apresentar meu nome como candidato a prefeito de Taiobeiras. Digo ousadia porque se tratava de uma utopia, sobretudo ante as forças econômicas e sociais que polarizavam o debate eleitoral.  Naquele momento, sob a coordenação de campanha de Romário Fabri Rohm, Tia Kêu do Sindicato e eu apresentamos ao povo de Taiobeiras um programa de governo que nasceu da escuta atenta das comunidades, dos trabalhadores e trabalhadoras, da juventude e dos mais necessitados. Não era um projeto de poder pelo poder, mas um chamado à construção coletiva de uma Taiobeiras mais justa, mais humana e mais inclusiva. Cinco anos depois, muito do que propusemos continua sendo urgente e necessário. E faço questão de sinalizar aquelas apostas neste texto presente. Não como revanchismo, pois o que deve prevalecer é a vontade do eleitor; mas como testemunho histórico de nossa luta constante e da participação cidadã que sempre caracterizou nossas vidas. Se o tempo mudou, nossa responsabilidade permanece a mesma: adaptar nossas ideias à realidade de 2025 e seguir lutando por um município que pertença, de fato, ao seu povo.

    Educação Libertadora: do sonho à construção

    Em 2020, defendemos a valorização da educação como base de um projeto de transformação social. Hoje, em 2025, essa pauta se torna ainda mais essencial diante das mudanças na economia e no mercado de trabalho. Precisamos fortalecer a Educação do Campo, garantir que as crianças e jovens do meio rural tenham acesso à aprendizagem sem precisar abandonar suas comunidades. A ampliação da educação em tempo integral continua sendo uma meta prioritária, assim como a oferta de cursos técnicos e tecnológicos alinhados às novas demandas econômicas. Inaugurar de fato a Escola Técnica de Taiobeiras, preferencialmente como o campus de uma instituição federal de ensino, deve ser uma luta de todos.

    O Programa Psicólogo Presente, que propusemos para atuar nas escolas e cuidar da saúde mental dos estudantes, é hoje uma necessidade gritante diante dos desafios emocionais que a juventude enfrenta. A ampliação da estrutura física das escolas, com bibliotecas e espaços culturais acessíveis, também precisa sair do papel e se tornar realidade.

    Saúde: direito fundamental, não mercadoria

    A pandemia global dos últimos anos mostrou, de forma incontestável, que um sistema de saúde robusto e universal é uma questão de sobrevivência. Em 2020, defendemos a ampliação dos serviços do SUS no município, com 100% de cobertura dos PSFs e acesso digno a exames e medicamentos.

    Nosso compromisso com a saúde mental também precisa se aprofundar. O Programa Vivo Todo Dia!, que desenhamos para apoiar jovens e adultos em situação de dependência química, deve ser fortalecido com novos centros de atendimento e políticas de prevenção. A ampliação da saúde preventiva, com maior foco em nutrição, práticas integrativas e acompanhamento contínuo, é um caminho necessário para um município mais saudável.

    Economia Popular e Agricultura Familiar: trabalho digno para todos

    A proposta que apresentamos há cinco anos para fortalecer a agricultura familiar e a economia do conhecimento segue mais atual do que nunca. O desenvolvimento econômico de Taiobeiras passa pela valorização da produção local e pelo incentivo a novas tecnologias que agreguem valor ao que produzimos.

    O Programa de Horticultura Popular, que defendemos para garantir soberania alimentar às famílias em situação de vulnerabilidade, pode ser expandido em 2025 com o uso de novas técnicas agroecológicas e incentivo ao cooperativismo. O Circuito Turístico-Cultural dos Gerais, pensado para impulsionar a cultura e o turismo sustentável na região, deve sair do papel para colocar Taiobeiras no mapa das cidades que valorizam sua identidade e seu povo.

    Segurança Cidadã e Direitos Humanos: uma nova abordagem

    A segurança pública nunca pode ser reduzida à repressão. Nossa visão, desde 2020, é a de uma segurança cidadã, baseada na prevenção e na inclusão social. O Projeto Guardiã Maria da Penha, para combater a violência de gênero, precisa ser ampliado, assim como as políticas de proteção aos jovens em situação de risco.

    O Programa Psicólogo-Presente nas escolas também pode contribuir para reduzir a violência juvenil, ajudando a identificar precocemente situações de vulnerabilidade. A criação da Guarda Civil Municipal Comunitária, voltada para ações preventivas e de mediação de conflitos, ainda é um projeto essencial para a construção de uma cidade mais segura.

    Água, Meio Ambiente e Sustentabilidade: Taiobeiras tem sede de soluções

    A crise hídrica, fruto das mudanças climáticas, continua sendo um desafio para Taiobeiras. Em 2020, defendemos o Programa Água Para Todos, propondo soluções criativas e sustentáveis para garantir o abastecimento à população. Em 2025, a inovação tecnológica deve ser nossa aliada, com captação inteligente de água da chuva, reuso e incentivos à preservação dos recursos naturais.

    O fortalecimento da educação ambiental, aliado ao investimento em energias renováveis e ao estímulo a práticas agroecológicas, precisa ser prioridade. O futuro de Taiobeiras depende de nossa capacidade de equilibrar desenvolvimento econômico e preservação da natureza.

    2025: o presente que construiremos juntos

    Os desafios mudaram, mas a essência do nosso projeto segue inalterada: Taiobeiras precisa ser governada para o povo e pelo povo. Nossas propostas de 2020 eram ousadas porque acreditamos que o impossível só existe até que alguém prove o contrário.

    Agora, em 2025, seguimos comprometidos com o mesmo ideal de transformação. Se o futuro é incerto, que seja porque estamos dispostos a construí-lo com coragem, coletividade e esperança. Taiobeiras tem pressa, mas também tem força. E juntos, seguimos sonhando e lutando.

    * Levon Nascimento, professor de história e doutorando em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável

  • Povos tradicionais, a governança ambiental e a sustentabilidade: os geraizeiros norte-mineiros

    Povos tradicionais, a governança ambiental e a sustentabilidade: os geraizeiros norte-mineiros

    * Levon Nascimento

    Os povos originários e tradicionais do Brasil, como indígenas, quilombolas e os geraizeiros do Norte de Minas Gerais, enfrentam desafios constantes para a preservação de seus modos de vida, culturas e territórios. Apesar de algumas garantias constitucionais, muitos desses grupos ainda sofrem com a falta de reconhecimento legal e ameaças ambientais e climáticas que comprometem sua existência.

    O conflito entre regimes jurídicos

    A legislação brasileira nem sempre foi clara ou eficiente na proteção dessas comunidades. O país é signatário da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que determina a proteção dos povos tribais, mas, na prática, as normas nacionais nem sempre garantem a segurança jurídica necessária. Isso cria lacunas e inconsistências que dificultam o reconhecimento e a defesa dos direitos desses grupos.

    A Constituição de 1988 representou um avanço ao reconhecer os direitos dos povos indígenas e, em menor escala, dos quilombolas. No entanto, povos como os geraizeiros – tradicionais habitantes do cerrado mineiro – ainda enfrentam dificuldades para terem seu modo de vida protegido de forma eficaz.

    Ameaças ambientais e conflitos territoriais

    As principais ameaças enfrentadas por esses povos incluem a expansão agrícola e mineradora, que avança sobre territórios tradicionalmente ocupados por essas comunidades. No caso dos geraizeiros, grandes monoculturas de eucalipto e projetos de mineração têm provocado desmatamento, conflitos por terra e pela água, além da destruição de modos de vida sustentáveis.

    A grilagem de terras e a fragilidade da governança pública tornam a situação ainda mais crítica. Muitas áreas ocupadas por geraizeiros são consideradas terras devolutas pelo Estado, permitindo que sejam negociadas com grandes empresas sem a consulta ou consentimento das comunidades locais.

    O caso dos geraizeiros norte-mineiros

    Os geraizeiros estão em comunidades tradicionais que vivem no Norte de Minas Gerais, região do cerrado marcada por extensos chapadões e áreas de vegetação nativa. Ao longo dos séculos, esses povos desenvolveram um modo de vida sustentável, baseado na agricultura familiar, na coleta de frutos do cerrado e no uso racional dos recursos naturais. No entanto, a expansão da monocultura de eucalipto e a chegada de empreendimentos mineradores têm ameaçado sua existência. A grilagem de terras e a falta de reconhecimento legal colocam os geraizeiros em uma posição vulnerável, muitas vezes impedindo seu acesso a territórios historicamente ocupados por suas comunidades.

    Além da questão fundiária, os geraizeiros enfrentam desafios relacionados à preservação de suas tradições culturais e conhecimentos ecológicos. A substituição da vegetação nativa por culturas de grande escala altera drasticamente o equilíbrio ambiental, secando nascentes e reduzindo a biodiversidade local. O desmonte desses ecossistemas compromete não apenas o sustento dessas comunidades, mas também impacta negativamente o clima e os recursos hídricos da região. Diante desse cenário, torna-se fundamental o fortalecimento das políticas públicas de proteção territorial e a implementação de medidas que garantam a autonomia e os direitos dos geraizeiros frente às ameaças ambientais e econômicas.

    Governança e sustentabilidade

    A questão da governança, tanto pública quanto privada, é essencial para garantir os direitos desses povos. O Estado tem o dever de respeitar e aplicar a Convenção 169 da OIT, além de regulamentar e fiscalizar os empreendimentos que impactam diretamente essas populações. Ao mesmo tempo, empresas que atuam nessas regiões devem adotar práticas mais responsáveis, levando em conta a sustentabilidade ambiental e os direitos sociais.

    A proteção dos conhecimentos tradicionais dessas comunidades também deve ser prioridade. Os saberes sobre manejo sustentável da biodiversidade e os modos de vida tradicionais oferecem alternativas para a preservação ambiental e podem contribuir para soluções diante da crise climática global.

    O futuro dos povos tradicionais

    A luta pelo reconhecimento legal e pela proteção dos povos originários e tradicionais continua. Movimentos sociais, pesquisadores e entidades vêm trabalhando para ampliar a visibilidade dessas questões e pressionar o poder público para ações mais efetivas.

    Garantir os direitos dessas comunidades não é apenas uma questão de justiça histórica, mas também uma estratégia fundamental para a conservação ambiental e a construção de um modelo de desenvolvimento mais sustentável para o país. O respeito à diversidade cultural e à relação dessas populações com a natureza pode ser um caminho essencial para um futuro mais equilibrado e inclusivo.

    Conclusão

    A defesa dos direitos dos povos originários e tradicionais não é apenas uma demanda dessas comunidades, mas uma responsabilidade coletiva da sociedade e do Estado. A preservação de seus territórios e saberes não só garante sua sobrevivência, mas também contribui para um modelo de desenvolvimento mais sustentável e consciente. Proteger esses grupos é, portanto, uma forma de preservar a diversidade cultural e ambiental do Brasil, assegurando um legado para as futuras gerações.

    *Levon Nascimento é professor de história e doutorando em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável

  • Frei Jucundiano de Kok: Uma vida de devoção e serviço ao sertão mineiro

    Frei Jucundiano de Kok: Uma vida de devoção e serviço ao sertão mineiro

    * Levon Nascimento

    Em janeiro de 2025, visitei o Arquivo Arquidiocesano de Montes Claros, em busca do livro do tombo da Paróquia de Santo Antônio de Salinas. O objetivo foi ver se naquele documento histórico havia alguma referência à passagem da Coluna Prestes pelo Alto Rio Pardo, em 1926. Nada encontrei. Porém, para minha grata surpresa, achei um relato sucinto sobre a data da morte de Frei Jucundiano de Kok, no ano de 1974, em Taiobeiras. E, a lápis, o frade de Salinas, à época, anotou “Revista da Província Franciscana de Santa Cruz, ano XXXIX, nº 4, de 1974, a partir da página 277”. Copiei.

    Chegando a Taiobeiras, busquei na internet o contato da Província de Santa Cruz. Vi no site o endereço eletrônico do arquivo da referida circunscrição franciscana, que tem sede em Belo Horizonte. Mandei um e-mail, com os dados tomados do livro do tombo de Salinas, solicitando acesso ao material, caso estivesse digitalizado.

    Poucos dias depois, recebi com imensa alegria uma resposta, com todo o material solicitado em PDF. O documento original tem oito páginas, em fonte com tamanho bem pequeno, provavelmente 10. A princípio, tenho a imensa honra de disponibilizar esta síntese aos leitores, já no clima da celebração dos 90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras (20 de maio), visto que Frei Jucundiano foi seu primeiro pároco. Leia com atenção o resumo.

    No coração do sertão mineiro, onde a fé e a simplicidade se entrelaçam, viveu e atuou Frei Jucundiano de Kok, um missionário franciscano holandês que dedicou sua vida ao serviço religioso e comunitário. Nascido Adrianus Cornelis de Kok, em 18 de fevereiro de 1901, na pequena vila de Dongen, na província de Brabante, Holanda, Frei Jucundiano deixou um legado de humildade, dedicação e amor ao próximo, que permanece vivo na memória dos que o conheceram.

    Filho de uma família pobre, mas profundamente religiosa, Jucundiano, ou “Juca”, como era carinhosamente chamado, cresceu em um ambiente marcado pela fé católica e pelo trabalho árduo. Seu pai, sapateiro, sustentava a família com o suor do seu ofício, enquanto a mãe cuidava da casa e dos filhos. Desde cedo, Juca demonstrou inclinação para a vida religiosa, inspirado pelos exemplos de piedade que o cercavam. “Ele era um menino piedoso, obediente, humilde”, como descreveu em sua autobiografia, deixada como um testemunho de sua trajetória.

    Aos 21 anos, após cumprir o serviço militar na cavalaria holandesa, Juca decidiu seguir seu chamado religioso. Ingressou no seminário dos Missionários da Sagrada Família, mas foi na Ordem de São Francisco que encontrou seu verdadeiro lar espiritual. Em 1928, tornou-se Frei Jucundiano, emitindo seus votos simples no ano seguinte; e os votos solenes em 1932. Foi então que ele recebeu a missão que definiria sua vida: servir como missionário no Brasil.

    Chegando ao Brasil em 1932, Frei Jucundiano enfrentou os desafios de adaptação a um país tão diferente de sua terra natal. “Na manhã da partida chegaram bem atrasados à estação de Sabará para viajar a Divinópolis. Mas olha! o trem estava esperando”, relembrou ele, surpreso com a gentileza do povo brasileiro. Na ocasião, os frades acharam que o trem os esperava por bondade, mas logo descobriram que a verdadeira razão era outra: o trem havia sido obrigado a dar passagem a um comboio especial com soldados que retornavam da revolução em São Paulo. Apesar disso, o episódio foi visto como uma espécie de “ditada daqueles fradinhos”, uma expressão carinhosa que refletia a simplicidade e a fé com que encaravam os desafios da missão.

    Ordenado sacerdote em 1934, ele iniciou seu ministério em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, onde logo se destacou por sua dedicação e zelo pastoral. Ao longo de mais de três décadas, Frei Jucundiano serviu em diversas paróquias da região, incluindo Itinga, São Pedro do Jequitinhonha e, finalmente, Taiobeiras, onde fixou residência e se tornou uma figura querida e respeitada. “O povo aqui é bom, como em Itinga”, escreveu ele, referindo-se aos sertanejos humildes e piedosos que o acolheram como um pai. Em Taiobeiras, ele construiu uma igreja espaçosa e promoveu festas religiosas que atraíam multidões, consolidando a comunidade católica local.

    Um dos marcos de seu trabalho em Taiobeiras foi a criação do “jubileu” em honra a Nossa Senhora de Fátima. Frei Jucundiano, com o apoio da comunidade, ergueu uma capela votiva dedicada à Virgem de Fátima, que se tornou um local de peregrinação e devoção. Anualmente, o jubileu atraía fiéis de diversas regiões, que vinham para participar das celebrações e renovar sua fé. “Graças a Juca, Taiobeiras também tem seu jubileu”, destacou um de seus confrades, referindo-se ao impacto espiritual e social que o evento teve na região.

    Sua vida foi marcada pela simplicidade e pelo desapego material. “Não fazia despesas supérfluas, econômicas até o extremo, para poder ajudar seus seminaristas no estudo”, relatou um de seus confrades. Apesar de não ter conseguido formar um sucessor, Frei Jucundiano deixou um legado de fé e serviço que transcende gerações. Ele era conhecido por sua franqueza, bondade e simplicidade, mas também por sua firmeza em defender os valores da Igreja. “Era difícil convencê-lo do préstimo de uma novidade”, observou um padre da Cúria, destacando sua resistência a mudanças que considerava contrárias ao bem de sua comunidade.

    Nos últimos anos de vida, Frei Jucundiano enfrentou problemas de saúde, incluindo uma grave ferida no pé que quase o levou à amputação. Mesmo assim, ele insistiu em continuar servindo sua paróquia, celebrando missas e administrando sacramentos até onde suas forças permitiam. “Se devia morrer, queria morrer como um bom soldado, no campo da batalha, armas na mão, sem recuar, sem fugir”, escreveu ele, refletindo seu espírito incansável.

    Frei Jucundiano faleceu em 27 de julho de 1974, após uma vida dedicada à fé e ao serviço. Sua morte foi sentida profundamente pela comunidade de Taiobeiras, que o via como um patriarca e guia espiritual. “Era o pai da grande família de paroquianos, o mentor, o amigo dos grandes e pequenos, conhecido, respeitado, consultado, estimado, quase adorado por todos”, descreveu um de seus confrades.

    Hoje, Frei Jucundiano de Kok é lembrado não apenas como um missionário, mas como um exemplo de dedicação, humildade e amor ao próximo. Sua história nos inspira a refletir sobre o verdadeiro significado do serviço e da fé, especialmente em um mundo cada vez mais marcado pelo individualismo e pela busca de riquezas materiais. Que sua vida continue a iluminar os corações daqueles que buscam seguir os caminhos da fé e da caridade.

    * Levon Nascimento é professor de história em Taiobeiras/MG.