Autor: Levon Nascimento

  • Frei Feliciano e o ato de ler

    Frei Feliciano e o ato de ler

    Na manhã de 30 de abril de 2023, um dia raramente nublado e fresco em Montes Claros – cidade costumeiramente quente, como o sol do Norte de Minas – resolvi bater perna pelo centro. Domingo e em véspera de feriado, tudo totalmente esvaziado e com lojas fechadas, por óbvio. Passei em frente ao local de uma antiga loja de livros (este ponto pintado de verde, na foto que acompanha o texto). Não sei o que funciona ali agora. Mas a história que vou contar a seguir me veio à memória de imediato.

    Em novembro de 1994, fui eleito delegado-jovem da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras para a 4ª Assembleia de Pastoral da então Diocese de Montes Claros. Era um evento grande, que durava quatro dias, no qual eram decididos os compromissos da Igreja e as diretrizes pastorais católicas para o Norte de Minas.

    Fomos para a assembleia no carro da paróquia. Dirigindo, o próprio pároco, Frei Feliciano van Sambeek, um franciscano holandês, bonachão, gente muito boa, alto, cabelos branquíssimos, bochechas rosadas, como é comum aos nativos dos Países Baixos, riso fácil, que falava num sotaque engraçado, meio que assoviando ao final das frases. Ele gostava de tocar teclado e cantar. Até que tentou isso durante as missas, mas era difícil conciliar a presidência da celebração e a atividade musical. Além de nós, iam também a Irmã Laudeci, representando as religiosas da paróquia; Vitor Hugo, conselheiro paroquial; e mais outras duas pessoas, também escolhidas para a delegação taiobeirense em Montes Claros.

    O evento começaria à noite, com missa solene na Catedral. No restante dos dias, a programação seguiria na Casa de Pastoral do bairro Santo Antônio. Como chegamos no início da tarde, fomos caminhar pelo centro de Montes Claros.

    No “Quarteirão do Povo Simeão Ribeiro”, rua transformada em galeria comercial, onde o trânsito de veículos automotores é impedido até a atualidade, que leva até a praça da primeira Matriz montes-clarense, entramos numa livraria.

    Distraidamente, todos nós a observarmos os produtos à venda, assistimos ao Frei Feliciano pegar um livro e dizer: – “Este foi o primeiro que li, ainda jovem, quando estava aprendendo português para vir em missão ao Brasil”. Era “Dom Casmurro”, originalmente lançado em 1899, de Machado de Assis. – “Muito bom! Muito bom! É o maior autor da sua língua”. O frade tinha o hábito de repetir duplicadamente as expressões de exclamação.

    Todo esse rodeio, até aqui, para eu revelar que senti vergonha naquele momento. Envergonhado pelo motivo de que ali eu era um jovem que cursava o 3º ano Técnico em Contabilidade, equivalente ao 3º ano do Ensino Médio, e jamais lera Machado de Assis. Já ouvira falar, mas jamais tivera a iniciativa de conhecer. Nem a ele, como a nenhum de tantos outros e outras, da honorável galeria de escritores nacionais.

    Senti-me acanhado, pois um estrangeiro conhecia melhor a literatura do meu país, mais do que eu, brasileiro, estudante, jovem, liderança dos grupos da minha cidade, blá, blá, blá, etc. Quando a gente é novo se acha, né?

    Eu até que lia. O primeiro que consumi inteiramente foi “O Burrinho Alpinista” (de Iêda Dias da Silva), na 2ª série. Mas era o indicado pela escola. O zero-um, de fato, que considero, foi “A Ilha Perdida” (de Maria José Dupré), na 4ª série, que me abriu as portas para a Coleção Vaga-Lume, da Editora Ática. Também os clássicos, como “A Escrava Isaura” e “O Seminarista”, ambos de Bernardo Guimarães, eu já tinha lido naquela ocasião. O Pequeno Príncipe (Antoine de Saint-Exupéry), O menino do dedo verde (Maurice Druon), Os meninos da Rua Paulo (Ferenc Molnár), também já constavam do meu currículo. Mas era pouco. Muito Pouco! Muito Pouco! – parafraseando Frei Feliciano. Faltava o “bruxo do Cosme Velho”, como alcunhavam ao Joaquim.

    Joaquim Maria Machado de Assis nasceu e viveu a maior parte da vida no século XIX. Filho de um “mulato” (palavra racista usada aqui para destacar o quanto o racismo é insidioso, inclusive na cultura) brasileiro com uma mulher branca, imigrante portuguesa.

    Escritor brilhante e fundador da Academia Brasileira de Letras, fez sucesso justamente no momento em que a recém-nascida República buscava branquear o Brasil através da política de importação de imigrantes brancos famintos, que viviam na miséria da Europa industrializada, doando-lhes terras e recursos no Sul do país, enquanto empurrava os negros recentemente alforriados para morros e favelas; e defenestrava os poucos povos indígenas que sobraram dos tempos coloniais.

    Machado foi “clareado” nas fotos e nos livros. Não era suportável para as classes dirigentes racistas brasileiras, que o maior escritor das Américas, do hemisfério Sul e, quiçá, da própria língua portuguesa, fosse um pardo.

    Sentir vergonha da própria ignorância, longe de baixa autoestima, num tempo como agora em que muitos se orgulham do próprio desconhecimento e se proclamam “coaches do abstrato”, deveria ser prática comum para quem deseja “superar os desafios” e “vencer na vida”, se é que isto é possível (muita ironia envolvida).

    Vergonha na cara não mata. No mínimo, melhora o vocabulário.

    Frei Feliciano, que foi pároco de Taiobeiras entre 1993 e 1995, partiu para a morada eterna em 2 de junho de 2021, aos 92 anos de idade, e eu, hoje, pelo menos sei quem são Capitu e Bentinho.

  • 97 anos da passagem dos “revoltosos” da Coluna Prestes em Taiobeiras

    97 anos da passagem dos “revoltosos” da Coluna Prestes em Taiobeiras

    Exatos 97 anos atrás, era uma segunda-feira, dia 26 de abril de 1926. Naquela manhã, o grupo de cerca de 1.500 combatentes da coluna revoltosa tenentista liderada pelo capitão Luís Carlos Prestes adentrou o pequeno distrito de Bom Jardim de Taiobeiras, vindo da região de Serra Nova, município de Rio Pardo de Minas, onde empreendera a famosa manobra do “laço húngaro”.

    Os soldados foram bem recebidos por Teófilo Rêgo, comerciante do povoado que não fugira para os matos do Grama.

    Único evento da história nacional que tem um pequeno capítulo desenrolado em Taiobeiras, a Coluna Prestes foi uma rebelião contra o governo oligárquico do presidente Arthur Bernardes (1922-1926).

    Em pouco menos de três anos, percorreu cerca de 25 mil quilômetros pelo Brasil, lutando contra – e vencendo na maioria das vezes – as tropas oficiais e mercenárias contratadas pelos coronéis aliados do Governo Federal.

    Em nossa região, seu tempo é conhecido como a época dos revoltosos. Muitas das atrocidades atribuídas ao grupo, na verdade, foram praticadas pelas hostes oficiais que, sem escrúpulos, punham a culpa nos combatentes invictos.

    Entre os objetivos da gloriosa coluna, estavam o de banir a oligarquia e industrializar o país.

    Teófilo Rêgo atendeu às demandas de Luís Carlos Prestes que, ao sair de Taiobeiras rumo à Bahia, entregou ao estalajadeiro um coturno cheio de moedas, que somavam valor suficiente para cobrir os custos da estadia.

    Que tal em 2026, aos cem anos dessa epopeia, Taiobeiras erguer um monumento celebrativo desse fato histórico?

    Levon Nascimento

  • Livro Acepção Levon Nascimento

    Livro Acepção Levon Nascimento

    Acepção foi composto em março de 2020, quando o autor (Levon Nascimento) experimentou uma modalidade de deserto pós-moderno. Inicialmente, pela greve dos trabalhadores em educação de Minas Gerais; em seguida, no isolamento social provocado pela pandemia da COVID-19. Os poemas sinalizam as luzes de duas virtudes que são muito caras ao autor: a esperança e a fé. Esperar o que há de vir, a ansiar pelo bem maior; e acreditar sempre no amor eterno, mesmo quando não há os primeiros raios de sol da aurora.

  • Livro Vidas Interrompidas Juventude Violência e Políticas Públicas Taiobeiras Levon Nascimento

    Livro Vidas Interrompidas Juventude Violência e Políticas Públicas Taiobeiras Levon Nascimento

    A sociedade se acostumou à tragédia. Antes era a notícia de televisão, relacionada aos grandes centros, atualmente é realidade pelas ruas: balas perdidas, juras de morte, vidas interrompidas, inocentes atingidos. Jovens executados pelo que se convencionou chamar de guerra do tráfico. São os inconvenientes e os excluídos. Suas mortes, assim como suas vidas, demandam apuração dos diversos campos do conhecimento. As políticas públicas que acessaram (ou não) são chaves para o início da investigação.

  • Livro Crer e Lutar Levon Nascimento

    Livro Crer e Lutar Levon Nascimento

    Num tempo em que os grandes deste mundo voltam a construir muros para separar os filhos de Deus e em que outros sentem imenso prazer por espalhar ódio na velocidade da luz pelas redes sociais, entrego as palavras e os pensamentos de Crer e Lutar a você. Como ensina o poeta Dom Pedro Casaldáliga, bispo da Igreja, que elas lhe sirvam para… “Combater amando, Combater amando, Morrer pela vida, Lutando na paz”.

  • Livro Sexagenarius 60 anos de Taiobeiras

    Livro Sexagenarius 60 anos de Taiobeiras

    “É necessário construir uma Taiobeiras que vá além das beleza terna de suas praças e avenidas ou da alegria vibrante de suas festas. Um lugar onde as pessoas, especialmente aquelas que estão segregadas pela pobreza, pelas drogas ou pelo baixo conhecimento cultural, sejam humanamente integradas ao pleno convívio da cidadania.”

    • Levon Nascimento, em Sexagenarius.
  • Livro Memorial da Juventude de Taiobeiras Levon Nascimento

    Livro Memorial da Juventude de Taiobeiras Levon Nascimento

    Este “Memorial da Juventude de Taiobeiras” é uma janela por onde os jovens de todos os tempos poderão mirar seus sonhos, suas lutas, seus valores, sua dedicação e, assim, reencontrarem-se consigo mesmos e, mais uma vez, com alegria juvenil, assumir suas vocações para o bem comum, para a vida em comunidade, para a transformação do mundo em uma sociedade mais justa, humana e fraterna.

    • Levon Nascimento e Flaviana Costa Sena Nascimento, em Memorial da Juventude de Taiobeiras.
  • Livro Blogosfera dos Gerais Levon Nascimento

    Livro Blogosfera dos Gerais Levon Nascimento

    Com este livro, a minha opinião e o meu testemunho de luta chegam às mãos, aos olhos, aos corações e às mentes dos leitores e da leitoras, saindo da virtualidade fria da internet para o calor da ação humana. concectando-se à realidade cálida dos Gerais da vida.

    • Levon Nascimento, em Blogosfera dos Gerais.
  • Livro Palavras da caminhada Levon Nascimento

    Livro Palavras da caminhada Levon Nascimento

    Ler “Palavras da caminhada” é crer na jornada dessa município (Taiobeiras) apenas quinquagenário que, contra todas as intempéries político-sócio-econômicas, vem escrevendo a sua história, ora rasgando a sua integridade, ora costurando os retalhos dos seus costumes, seus hábitos, suas tradições.

    O teor destes artigos e ensaios fará com que você, leitor, revigore a sua fé na juventude, na educação, na transformação, na reconstrução, na cidadania.

    Ao terminar a leitura, verá, como eu, que ler Levon é ser premiado.

    • Nair Marques Freitas, no prefácio de Palavras da caminhada.
  • Artigo: Uenio, o caos e o cosmos: uma homenagem ao ser humano

    Artigo: Uenio, o caos e o cosmos: uma homenagem ao ser humano

    * Levon Nascimento

    Nosso ocidentalismo helênico e cristão incutiu-nos uma visão cósmica da existência. Tudo é ordenado, tem começo, meio, fim e propósito. Ficamos atordoados quando o caos invade as nossas vidas e nada parece ter razão.

    Uenio, a pessoa humana, não está mais em nosso meio. Voltou ao útero da Criação.

    Uenio, o ser social afrobrasileiro, lgbtquia+, artista e filho da classe trabalhadora, que buscou um lugar ao sol onde a areia é privatizada por poucos, cumpriu o papel de incomodar os instalados e de desinstalar os cômodos. Semelhantes, que mais se insurjam e invadam a Casa Grande, irreverentes e insubmissos, tal e qual.

    Uenio Thuary, a personagem emblemática, habitará por tempos sucessivos a história de Taiobeiras. A memória e os modernos meios de comunicação social se encarregarão de sua presença estendida no tecido social.

    A partida precoce é uma dramática demonstração teatral do poder do caos sobre o cosmos. Já não há mais limiar entre o protagonista e o palco, a imagem e o som, o ser e o estar.

    Cessaram-se os sentidos. Fecharam-se as cortinas. Aplaudam de pé.

    * Levon Nascimento é professor de História e autor de sete livros.

  • Artigo do Levon: Brasil infernal

    Artigo do Levon: Brasil infernal

    * Levon Nascimento

    O Brasil de hoje, para quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir, é como as cenas descritas por Dante Alighieri, literata renascentista italiano, que escreveu a Divina Comédia.

    Bolsonaro governa pelo bem dos ricos e para o mal dos pobres. Sem tirar dos ricos nem por aos pobres.

    Tudo piorou em seu governo.

    Órgãos de combate à corrupção foram desmontados e/ou cooptados.

    O Auxílio-Brasil, apresentado com pompa e circunstância como substituto do Bolsa-Família, é uma armadilha para os pobres, pois o decreto presidencial que o estabeleceu acrescenta seu fim para 31 de dezembro de 2022; além de permitir a consignação de empréstimos bancários, a promover uma escravização bancária futura da população vulnerável após o término da vigência.

    A única casa de moradia do pobre, por iniciativa de Bolsonaro, poderá ser tomada da família pelos banqueiros multibilionários, em caso de inadimplência do trabalhador. Espera-se que os senadores derrotem essa crueldade, já aprovada pela base bolsonarista na Câmara dos Deputados.

    Produzidos em real, ao custo dos baixíssimos salários nacionais, os combustíveis e os alimentos são cotados em dólar, quintuplicando de preço. Abastecer e comer agora são situações de escolha vital para os brasileiros.

    Trinta e três milhões estão a passar fome, e mais de 60% com algum tipo de dificuldade para conseguir a cesta básica, gerando famílias vulneráveis e sem segurança alimentar. Nisso, percebe-se que nunca houve um governo que investiu tanto contra a família quanto o de Bolsonaro. É falso-moralista, defende a instituição familiar da boca para a fora, mas na hora do vamos ver, deixa-a à própria sorte (ou azar).

    O desemprego é assustador e o endividamento das famílias é recorde.

    Não houve atuação do presidente para conter a pandemia, só estímulo à contaminação em massa. Ele não quis confinamento sanitário e tampouco cuidou da economia, como sempre regurgitava no cercadinho do Alvorada. Terceirizou sua responsabilidade para as costas de governadores, prefeitos e da oposição. Nada era consigo. Perguntado sobre as centenas de milhares de mortes por Covid-19, zombou: “E daí? Não sou coveiro”. Psicopata?

    As intolerâncias patriarcal, religiosa e policial, especialmente contra mulheres, pobres, pretos, indígenas e LGBTQIA+, subiram exponencialmente. E o governo não implementa políticas públicas de redução e erradicação.

    Órgãos de defesa do meio ambiente e de apoio aos povos indígenas desmontados, desautorizados e invadidos, justamente por aqueles que são os vilões do desmatamento ilegal, do genocídio indígena e do narco-garimpo.

    As gastanças desregradas nas FFAA, no cartão corporativo presidencial e na família do presidente correm soltas, além do orçamento secreto que compra os deputados e senadores do centrão, ao passo que os instrumentos legais de combate à corrupção criados pelos governos do PT foram aposentados, calados ou ignorados. Para tudo, sigilo. Corrupção como nunca antes em nossa história e, pior, sem investigação e punição.

    Ainda assim, conforme a Bloomberg, rede de TV a cabo estadunidense, durante a Cúpula das Américas, em Los Angeles (Califórnia, EUA), na segunda semana de junho de 2022, o presidente brasileiro pediu ajuda ao colega Joe Biden, presidente ianque, para derrotar Lula na eleição de 2022.

    Se alguém tinha dúvidas das intenções golpistas e antidemocráticas do genocida, não as tenha mais. Esse apelo vexatório a um presidente estrangeiro – da maior potência militar do planeta – é crime de lesa-pátria, alta traição à Constituição e à República brasileiras.

    Também na Cúpula das Américas, Bolsonaro afirmou a Joe Biden que a produção do agronegócio do Brasil alimenta um bilhão de pessoas ao redor do mundo. Só não corrigiu que essa mesma produtividade exclui de comer 60% dos próprios brasileiros, abandonados por ele à insegurança alimentar, devido à inflação, ao desemprego e ao desmonte dos estoques reguladores de preços de alimentos, por sua própria ordem.

    Você deve ser lembrar de quando os bolsonaristas mandavam quem discordava deles para Cuba, Venezuela e Argentina. Gritavam com a certeza de quem nunca leu um livro inteiro que o povo desses países vizinhos vivia a passar fome por conta de um comunismo imaginário, chegando até mesmo a devorar cachorros por falta de mantimentos.

    No entanto, quando se sabe que mais da metade dos brasileiros (60%, de acordo com a pesquisa PENSSAN, divulgada em 08/06/2022) tem passado algum perrengue para conseguir comprar comida e que 33,1 milhões de compatriotas estão à mercê da fome, os ditos fanáticos por Bolsonaro fingem que não é com eles. Nem um pio. Quando muito, põem à culpa nos próprios famintos. Imitam Maria Antonieta de França: “Se não têm pão, que comam brioches, ora!”

    A violência contra os povos indígenas, sobretudo na região amazônica, atinge níveis escandalosos de crueldade e absurdo. E há a omissão proposital da presença do Estado nacional, como que uma autorização velada (ou propriamente explícita) para que criminosos do agro, do garimpo e do desmatamento atuem como aliados do governo de plantão.

    As mortes do jornalista inglês Dom Phillips, brasilianista que escrevia matérias sobre os dramas amazônicos para meios de comunicação europeus e estadunidenses, e de Bruno Pereira, sertanista demitido de cargo de chefia da FUNAI pelo ex-ministro Sérgio Moro (o grande responsável pela eleição de Bolsonaro em 2018), justamente porque fazia bem o seu trabalho, são símbolos inequívocos da inversão moral e criminosa dos papéis: o Estado que deveria dar proteção a quem tenta aplicar a lei é o mesmo que se move vagarosíssimo nas buscas e na segurança das vítimas. E ainda as criminaliza.

    Todos os governos e governantes pertencem a estruturas humanas, portanto falíveis, corruptíveis e ao mesmo tempo passíveis de acertos, empatia e vitórias civilizatórias. No entanto, para além da debilidade e/ou ventura humana, o governo Bolsonaro é também um projeto maléfico, anti-humano, diabólico e cruel.

    Apoiar esse governo é comprometer mais do que a vontade política pessoal, mas a própria integridade da alma imortal. Quem defende Bolsonaro precisa se converter, de corpo e alma.

    Alighieri, certa vez escreveu: “No inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempos de crise”.

    * Levon Nascimento é professor e escritor. Este é um artigo de opinião.

  • Sobre drones, excrementos e  civilidade no Brasil

    Sobre drones, excrementos e civilidade no Brasil

    Madrinha Donila morreu aos 104 anos de idade, em 2011, lúcida.

    Embora não tivéssemos parentesco genético, para mim ela foi como avó e, mais do que isso, referência moral, ética, espiritual e civilizatória.

    Ela jamais teve acesso à escola formal. Mesmo assim, foi uma grande professora e contadora de histórias (com “h”, factuais, reais…).

    Dela ouvi o relato de que lá pelos anos 30, 40 e 50 do século passado, em Mortugaba/BA, onde viveu, que as campanhas políticas locais eram absurdamente intoleráveis e abjetas.

    Inclusive, correligionários mais exaltados, de um lado, atiravam fezes e urina nas casas e manifestações políticas de adversários.

    E madrinha Donila, que nasceu em 1907, no sertão baiano, que nunca estudou a alta cultura, já me relatava isso em posição de indignação e de lamento à baixaria, à intolerância e à falta de apreço civilizatório daquela época.

    Agora, em pleno 2022, vemos o mesmo se repetir, mas em escala nacional, a utilizar da mais alta tecnologia desenvolvida, um drone, em Uberlândia/MG, para a prática daquilo que é mais pré-histórico e atrasado em política e democracia, em civilidade e humanidade: jogar fezes e urina sobre uma manifestação política da esquerda.

    Os responsáveis, presos na hora, seguidores do atual presidente da República, gente que se intitula “de bem”, “defensora da família como Deus criou” e “conservadores”.

    Prefiro a simplicidade de madrinha Donila do que a sofisticação demoníaca do bolsonarismo.

    Quem ainda defende Bolsonaro e a barbárie, envergonhe-se e converta-se.

  • Morre Mario Schmidt, autor de livros de história perseguido por Globo e Veja

    Morre Mario Schmidt, autor de livros de história perseguido por Globo e Veja

    Meu primeiro ano como professor foi 2001. Em junho daquele ano, participei pela primeira vez da escolha do livro didático do PNLD (MEC), que seria adotado no triênio seguinte (2002/2003/2004).

    Entre as várias coleções enviadas pelo MEC, selecionamos “Nova História Crítica”, de Mario Schmidt, Editora Nova Geração. A escolha sempre é coletiva, de todos os professores de uma mesma área, tipo História, das escolas de um município.

    Texto em linguagem acessível a alunos dos anos finais do Ensino Fundamental (na época, 5ª à 8ª séries) e uma diagramação digna das melhores revistas. Simplesmente fantástico!

    Em 2007, a obra e o autor sofreram imensa perseguição da Globo e da Veja, pretendentes a entrar no mercado editorial de livros didáticos, acusando-os de “doutrinação comunista”.

    Selecionaram trechos onde supostamente o autor elogiava as ditaduras do socialismo real (URSS, China e Cuba) e divulgaram com estardalhaço. Porém, como início da era das fake news que alimentaram o nascente ódio da extrema-direita (hoje no poder), publicavam apenas partes de texto que lhes interessavam, sem mostrar as críticas e as consequências desses regimes, que ocupavam igual destaque na coleção.

    Resultado: Nova História Crítica foi banido da lista do MEC e um dos melhores autores de didáticos do Brasil saiu profundamente estigmatizado.

    Apenas o jornalista Luís Nassif foi a fundo na história e desmontou a tese mentirosa de que se tratava de um livro de propaganda política.

    Hoje, pelo mesmo Nassif, tomei conhecimento de que Mario Schmidt, o autor, faleceu em 9 de janeiro deste 2022.RIP Mario Schmidt. Presente!

    Confira matéria de Luis Nassif: https://jornalggn.com.br/…/morre-mario-schmidt-autor…/

  • Crônica: Tem dois anos que o mundo acabou, por Levon Nascimento

    Crônica: Tem dois anos que o mundo acabou, por Levon Nascimento

    Dá uma tristeza danada quando me recordo de que em janeiro de 2020 minha filha me chamou a atenção para uma pequena nota na imprensa que informava de um surto na China, causado por um novo vírus.

    Lembro-me de minha reação despreocupada e xenofóbica – sim, eu confesso – ao proferir, em tom de pilhéria, a seguinte frase:

    – Ah, mas esses ‘trem’ só acontecem lá do outro lado do mundo!

    O fato é que a potência emergente oriental controlou rapidamente a epidemia, que virou pandemia e se espalhou como rastilho de pólvora pelo pedante Ocidente.

    Economias faliram, escolas, igrejas e cidades se fecharam. O virtual substituiu o presencial e as máscaras subiram às faces assombradas.

    Mais de 600 mil brasileiros morreram em decorrência da patologia derivada do novo coronavírus, em pouco menos de dois anos.

    Nos Estados Unidos, até então donos do mundo, o estrago se somou à irradiação do negacionismo trumpista, que também fez escola por aqui, decorrente de nossa tragédia nacional, de eleger um governo irracional e miliciano em 2018.

    Pessoas conhecidas se foram e muitos amigos sofreram pessoalmente de internações e/ou intubações dolorosas. Eu mesmo experimentei dias difíceis patrocinados pela COVID-19, mas sem necessidade de leito hospitalar.

    Vacina virou palavra de ordem e conceito em disputa. Quem jamais questionara de que era feito o azulinho da Pfizer, de repente virou especialista em nano-chipes da besta, peremptoriamente contidos nos imunizantes, a fim de por a perder as pias almas cristãs.

    A nova peste é sem dúvidas um dos três grandes pesadelos da contemporaneidade, em nada devendo à crise climática e à escandalosa desigualdade econômica que perpetua pouquíssimos ricos e reproduz bilhões de miseráveis mundo a fora. Aliás, as três são amazonas do apocalipse civilizatório da sociedade do capital, parceiras na insensatez e na morte.

    Que 2022 não seja um 2020.3!

  • Vacina: sinônimo de cidadania (Levon Nascimento)

    Vacina: sinônimo de cidadania (Levon Nascimento)

    Nasci numa família muito humilde. Meus pais não tiveram acesso à escola no tempo certo, muito menos à certidão de nascimento e a programas de imunizações em sua infância. Eles nasceram no Brasil da década de 50 do século XX.

    Então, desde muito cedo, ao contemplar meu registo civil e minha carteira de vacinação, e sempre atento às histórias legadas pela família, sobre o quanto tudo fora e era difícil para se alcançar, entendi que aqueles dois documentos eram símbolos de um novo tempo. Por menor que fossem, eram sinais de que aquele núcleo familiar brasileiro adentrava ao até então restrito círculo da cidadania.

    Sim! Era uma riqueza! Ter data de nascimento anotada, nomes de pai e mãe, teto e vacina tomada para impedir a paralisia infantil, a varíola, a febre tifoide e o sarampo. Mais: um verdadeiro acerto na loteria poder frequentar a escola pública e gratuita.

    Hoje, quando vejo o irresponsável-mor da República, aquele ser inominável que nos presidente, espalhando mentiras e acumpliciando-se ao assassinato do povo, por dificultar o acesso às vacinas anti-covid e também desacreditá-las junto à massa ignara, pela divulgação de bizarras teorias de conspiração, sinto asco, nojo e repulsa!

    Como pode alguém que se diz cristão ser tão mentiroso e sórdido?

    É muito atraso o que este triste país vivencia desde o Golpe de 2016:

    1. Reforma Trabalhista com promessa de gerar mais postos de trabalho, mas que fez explodir o desemprego;
    2. Reforma Previdenciária que diminuiria o rombo na previdência, mas que não atingiu as castas judiciárias, políticas e militares;
    3. Um Ministério da Saúde que promove fake news, espalha teorias da conspiração, ignora a ciência médica, desmonta os históricos programas nacionais de imunização, etc.

    Enfim, o Brasil do presente quer a todo custo interromper o acesso à cidadania que a minha geração timidamente alcançou.

    A pretensão desse (des)presidente é retroceder mais de que aos anos 50, mas à Idade das Trevas.

    É matematicamente óbvio que as vacinas reduzem mortes e internações graves. Só não vê quem está “drogado” pelas mentiras do nazifascismo.

    Vacinemo-nos! Vacinas para nossas crianças!

  • Chove, chuva! por Levon Nascimento

    Chove, chuva! por Levon Nascimento

    A última vez que vi tanta chuva aqui no Alto Rio Pardo (Norte de Minas Gerais) foi há 30 anos, entre 1991 e 1992. Naquela época, pontes caíram, barragens se romperam, os rios Salinas e Pardo invadiram suas respectivas cidades homônimas, casas e muros das pessoas mais pobres tombaram em toda a região. Idem no Sudoeste e Sul da Bahia.

    Três décadas depois, com tantos sofrimentos e secas nesse intermédio, ainda não aprendemos a nos preparar para receber este bem tão precioso.

    É fato que o sertão ressequido pela própria natureza e, agora, pela ganância e imprudência humanas, precisa de chuva, muita chuva! Tanto que ao período das águas, diferentemente de outros lugares, chamamos de “tempo bom”.

    Porém, é evidente que é necessário frear o desmatamento, desassorear o leito dos rios, investir nas barraginhas de contenção, construir reservatórios sustentáveis, melhorar a qualidade das residências de baixa renda e promover uma urbanização que comporte as águas pluviais.

    O que se vê no Sul e Sudoeste da Bahia, Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha, é uma benção convertendo-se em tragédia. Isso desnuda a crônica falta de planejamento estratégico dos diferentes níveis do Estado brasileiro e a inexistência de políticas públicas de contenção de desastres naturais.

    Precisamos de chuvas, sempre! Mas necessitamos também de planejamento e gestão, de modo a recebê-las como a dádiva que realmente são.

  • Artigo: Vacina

    Artigo: Vacina

    Antes do bolsonarismo e da extrema-direita espalhar estrume pelo Brasil, alguém duvidava das vacinas?

    Inclusive, os primeiros programas de vacinação em massa do Brasil ocorreram na ditadura militar, tão reverenciada pelos seguidores do capitão expulso do Exército.

    As vacinas, por exemplo, nos livraram de morrer de sarampo, varíola ou de ficarmos fisicamente incapacitados pela paralisia infantil.

    Anteriormente à “praga egípcia” que atende pelo sobrenome Bolsonaro, o Brasil era modelo mundial em vacinação.

    Agora, pessoas que não compreendem nem mesmo como a água evapora e volta a ser chuva, são “especialistas” em vacina.

    Usam de tudo, inclusive a religião, para justificar o injustificável: que não vão se vacinar.

    “Líquido experimental”, “ativadora de bluetooth humano”, “inoculadora do chip da besta”, “esterilizador em massa”, etc.: são inúmeras as besteiras tiradas de fontes anais para fugir da agulha.

    Em nome de Deus, ajoelham-se para a “Besta Bolsonaro” e acreditam em suas mentiras como se fossem a máxima expressão da verdade.

    Já tive raiva. Em seguida, pena. Hoje, rogo a Deus que tenha misericórdia para com essas almas alucinadas e enredadas pela extrema-direita mortal.

  • Você já ouviu falar da Campanha da Carriola?

    Você já ouviu falar da Campanha da Carriola?

    De acordo com o livro “Memorial da Juventude de Taiobeiras” (2010), “a Campanha da Carriola – alusão ao carrinho popularmente conhecido como carriola – foi uma ação anual de arrecadação de alimentos não perecíveis, roupas e brinquedos, organizada pela Pastoral da Juventude de Taiobeiras, que envolvia todos os grupos de jovens da cidade. É importante ressaltar que a Pastoral da Juventude sempre realizou a Campanha da Carriola como uma forma complementar à sua ação cidadã e social. Havia a compreensão de que o importante mesmo era lutar por mudanças na política local e nacional, a fim de que políticas públicas fossem implementadas para suprir as necessidades de alimentos, cultura, trabalho e educação da população mais carente” (NASCIMENTO & NASCIMENTO, 2010, p. 73).

    Campanha da Carriola, 1995.
  • Taiobeiras: entenda o porquê da hashtag #ficapadrevanderlei

    Taiobeiras: entenda o porquê da hashtag #ficapadrevanderlei

    Amigos e amigas de fora de Taiobeiras estão me perguntando sobre o porquê de tanta comoção em torno da saída do Padre Vanderlei da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras. Alegam que é comum e natural que os padres sejam transferidos de tempos em tempos. Estão espantados com tantas manifestações e sem entender o que ocorre.

    De fato, é normal a transferência regular; e até saudável para a vida dos sacerdotes e das paróquias essa movimentação.

    Porém, o caso específico de Taiobeiras está relacionado com a rapidez com que o padre está sendo transferido. Não tem nem um ano que ele chegou aqui.

    E, também, com o fato de que os católicos taiobeirenses entendem que nos últimos anos a Igreja local estava pastoralmente parada, perdendo gradativamente a importância no contexto evangelizador e social, e em franca decadência. Com a chegada do Padre Vanderlei, em pouquíssimos meses, essa situação se reverteu. Foi como a chegada da chuva ao sertão, sucedendo a uma longa e rigorosa estiagem.

    Então, há um estranhamento profundo no laicato católico e um clima de suspeição, de que algo obscuro e oculto está tramando para essa saída repentina. Isso explica o porquê das redes e da vida concreta terem sido tomadas pela hashtag #ficapadrevanderlei.

    Para além disso, o episódio desnuda o quanto de autocracia e surdez hierárquica ainda corroem as artérias do catolicismo, mesmo depois de mais de cinquenta anos do Concílio Vaticano II (que modernizou a relação clero-laicato), de inúmeros documentos dos pontífices e do próprio exemplo colegial do Papa Francisco.

    Fala-se muito na responsabilidade que os leigos devem assumir para com a Igreja, mas o clero continua a não conversar, a não ouvir e a mandar como antigos senhores feudais. Não é esta última a sua vocação e cabe aos irmãos leigos auxiliá-los nesse discernimento.

    E, aqui, não discuto as boas intenções de bispos e provinciais. Não duvido que eles trabalham para o bem da Igreja e da evangelização. Não duvidamos de sua boa fé. Critico o método e a estrutura engessada.

    Transferências e nomeações realmente são naturais. Não é por causa do padre que se deve frequentar ou não as celebrações, o templo e as atividades pastorais. Mas, conhecer a história, o contexto e a realidade do laicato, bem como sua opinião, pouparia a Igreja de muitos problemas.

    Fica aqui um fraterno e filial apelo ao Provincial dos Missionários da Sagrada Família, Padre Itacir Brassiani, e ao Sr. Arcebispo Metropolitano de Montes Claros, Dom João Justino de Medeiros Silva, para que, no uso caridoso de suas respectivas autoridades, não tomem a manifestação do povo católico de Taiobeiras como desaforo ou desobediência.

    Como o próprio Senhor Deus, Nosso Pai, fez no Egito, “ouçam o clamor do povo e desçam para libertá-lo”.