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  • A direita católica rejeita o lava-pés

    José Lisboa Moreira de Oliveira*
    Texto de José Lisboa Moreira de Oliveira no site Adital


    A mídia tem noticiado que grupos ultraconservadores da Igreja Católica Romana estão criticando o papa Francisco por ele ter incluído na cerimônia simbólica do Lava-pés, na última quinta-feira santa, duas mulheres, sendo uma delas mulçumana. Tais grupos defendem que neste ritual (que, diga-se claramente, não é sacramental, mas apenas simbólico) só devem ser admitidos “varões”, ou seja, pessoas do sexo masculino. Tal atitude é profundamente lamentável porque rompe clara e diretamente com o profundo significado de toda a simbologia do Lava-pés. Tais pessoas comportam-se como Pedro, o qual, compreendendo bem o que o gesto de Jesus significava, recusou-se terminantemente a ter os pés lavados pelo Mestre (Jo 13,6-8).

    Antes de tudo é preciso dizer que o gesto do lava-pés, que costuma ser repetido na missa da Ceia do Senhor da quinta-feira santa, não é um gesto sacramental, no sentido técnico da expressão, mas apenas algo meramente simbólico, apesar da profundidade do seu significado. Ao lavar os pés de seus discípulos, Jesus entendia comunicar por meio deste gesto uma mensagem profunda acerca da essência do seu seguimento. Ele quis se comportar como um escravo (em grego: doulos) que realizava um serviço (diakonia) considerado dentro do contexto cultural de então como humilhante e indigno de uma pessoa livre. Naquela época somente os escravos e as mulheres faziam esse tipo de serviço. Ao realizar aquele gesto Jesus entende claramente reverter a lógica cultural de então, deixando bem claro que todos aqueles e aquelas que queriam entrar no seu seguimento deviam “lavar os pés uns dos outros” (Jo 13,14). Quem quisesse ser seu discípulo ou discípula devia ser servidor ou servidora (diákonos) de todos os outros (Mc 10,44), de modo particular dos que estavam prostrados, cansados e abatidos (Mt 9,36).

    Dentro deste contexto, os discípulos (o texto não fala de apóstolos) representam a comunidade dos seguidores e das seguidoras de Jesus de todas as épocas e de todos os lugares. Não tem o menor sentido entender a simbologia do lava-pés como sendo um gesto sacramental que instituía naquela ocasião um ministério ordenado hierárquico androcêntrico (formado só por homens) no sentido restrito que se entende atualmente na Igreja Católica Romana. Isso seria violentar o texto e tirar-lhe todo o significado que Jesus quis lhe dar (Jo 13,12-17). A crítica ao papa Francisco não tem sentido, uma vez que a inclusão de duas mulheres (sendo uma mulçumana) na cena do lava-pés ajuda a entender, em pleno século XXI, a profundidade do gesto de Jesus e o que deve significar o cristianismo em nossos dias. O gesto do papa Francisco ajuda-nos a perceber com mais clareza que a Igreja Católica Romana, se quiser ser uma comunidade de discípulos e de discípulas de Jesus, deve inclinar-se diante da humanidade e lavar os pés doloridos e chagados de todos aqueles e de todas aquelas que são mantidos na exclusão, inclusive pelo próprio sistema religioso católico romano.

    Neste sentido o gesto do papa Francisco se conecta com outros gestos de Jesus: a acolhida e inclusão da mulher estrangeira (Mc 7,24-30) e o deixar-se tocar por outra que sofria de sangramento permanente (Mc 5,25-34). Jesus, no seu tempo, rompe com padrões e normas religiosas consideradas sacrossantas e chega a denunciar os chefes religiosos que, para manter leis humanas, deixavam de lado o mandamento divino (Mc 7,9), que pode ser resumido no cuidado com as pessoas sofridas (Mc 3,1-6). Lamentavelmente, vinte séculos depois, ainda existem cristãos que não entendem nada disso e continuam com práticas absurdas excludentes e sem mais nenhum sentido para o cristianismo. Com isso deturpam a verdadeira mensagem de Jesus e impedem à Igreja de anunciar a Boa Notícia do Evangelho.

    A crítica da direita ultraconservadora católica se fundamenta na hipótese, hoje cada vez mais insustentável, de que na última ceia Jesus se reuniu apenas com os doze apóstolos, ou seja, com seus discípulos varões. Digo insustentável porque cada vez mais estudos sérios vão revelando que esta hipótese não tem o menor cabimento e foge inclusive da lógica dos próprios evangelhos. Jesus, contrariando os costumes culturais de seu povo e de sua época, permitiu que no grupo de pessoas que o seguiam existisse certo número de mulheres (Lc 8,1-3). Segundo o relato de Lucas havia inclusive mulheres casadas (Joana, mulher de Cuza, alto funcionário de Herodes), o que era considerado absurdo para os padrões culturais da época. Digo absurdo porque, segundo os costumes de então, a mulher devia permanecer em casa e quando saísse em público devia passar despercebida. Não se admitia, por exemplo, que uma mulher, especialmente se casada, conversasse em público com um homem (Jo 4,27).

    Ora, se Lucas admite a presença de mulheres discípulas no grupo de Jesus e se todos os quatro evangelhos canônicos registram que estas mulheres discípulas estavam em Jerusalém no momento da morte e da ressurreição de Jesus, fica impossível, senão contraditório, afirmar que elas não estavam presentes no momento da última ceia. Não teria o menor sentido Jesus dispensá-las num dos momentos mais significativos de sua vida. Jesus não teria sido coerente com a sua prática subversiva de inclusão se, após utilizar-se do dinheiro das mulheres para montar a ceia (Lc 8,3), as tivesse proibido de sentar-se com ele naquele momento celebrativo tão importante.

    Além disso, sabemos pela história do judaísmo da época de Jesus que as mulheres tinham uma participação significativa na celebração da ceia pascal. Além de preparar as iguarias e as mesas, eram as mulheres que davam início à celebração, acendendo as luzes do ambiente, enquanto o chefe da casa recitava as famosas sete bênçãos. Cabia à mulher do dono da casa acender as luzes do Menorá, o famoso candelabro judaico formado por sete hastes e sete velas. Cabia ainda à mulher do dono da casa passar-lhe as taças de vinho para que o marido rendesse graças a Javé. Lucas, mesmo que indiretamente, acena para uma possível presença de mulheres no recinto da última ceia, pois ao narrar o episódio não diz que Jesus “tomou o cálice”, mas que “recebendo a copa de vinho, deu graças” (Lc 22,17). É lamentável que os tradutores machistas, inclusive da Bíblia Edição Pastoral e da versão protestante conhecida como de João Ferreira de Almeida, continuem usando o verbo “tomar” e não “receber”. A exceção é a Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB) na qual se lê a seguinte versão: “Ele recebeu então uma taça…”.

    A Igreja Católica Romana sempre chegou atrasada em muitas conquistas da humanidade. Ela, até pouco tempo atrás, foi contra a liberdade, a liberdade religiosa, a liberdade de consciência, a autonomia da pessoa etc. E hoje muitos membros da hierarquia aceitam estas conquistas mais por oportunismo do que por fidelidade ao Evangelho. Já está passando da hora de repensar com seriedade o lugar da mulher na Igreja. Continuar a tratá-la como “mão de obra barata”, como “pau para toda obra”, excluindo-a dos ministérios ordenados e dos cargos de coordenação mais altos na Igreja é, antes de tudo, ir na contramão do Evangelho e causar um grande estrago na missão evangelizadora. Não dá, pois, para continuar assim. Já passou da hora de mudar esta situação de exclusão, de discriminação e de preconceito.

    [* Autor de Viver em Comunidade para a Missão. Um chamado à Vida Religiosa Consagrada, por Paulus Editora. Mais informações: http://www.paulus.com.br/viver-em-comunidade-para-a-missao-um-chamado-a-vida-religiosa-consagrada_p_3083.html].
  • Baixa remuneração dos educadores e alienação

    Existe um motivo para a baixa remuneração dos educadores e para o sucateamento da educação: para muitos(as) senhores(as) que detêm o poder, é melhor manter a população alienada, repetindo e elogiando o discurso da opressão.

    Opressão, da qual a própria população é vítima, mas que não tem conhecimento ou, às vezes, até se recusa tomar ciência.

    Eis a nossa missão, educadores: além de lutar por nossas vidas e sobrevivência, contribuir para clarear a mente do “próximo”, ainda que o próximo não nos reconheça como dignos, nem entenda como é digna e útil a luta e a vocação de SER PROFESSOR(A)!

  • Ajude a encontrar criança desaparecida em Rio Pardo de Minas

    Por favor, ajude. Vamos encontrar essa criança que está desaparecida desde sábado, 4 de maio, em Rio Pardo de Minas.

  • Uma discussão menos ideológica sobre a redução da maioridade

    Como uma criança vira monstro
    Por Eduardo Guimarães

    Ao longo dos últimos dias, o país mergulhou em um debate doloroso. Em vez de estarmos nos debruçando sobre como estimular a nossa juventude a crescer do ponto de vista moral e intelectual, estivemos discutindo acaloradamente sobre como mudar as leis para punir com maior rigor os jovens infratores da lei.

    Esse debate, em si, representa o fracasso da geração que comanda os destinos da nação – e esta premissa não se reduz a partidos políticos, mas a cada um de nós, pais, empresários, trabalhadores, políticos, legisladores, magistrados, educadores, religiosos etc.

    O Estado brasileiro, no âmbito dos governos federal, estadual e municipal, de suas Casas Legislativas e do Poder Judiciário, não pode ser responsabilizado unicamente pelo fracasso diante do qual estamos, representado por seres que, até ontem, eram crianças, mas que, hoje, transformaram-se em verdadeiros monstros.

    Os casos da dentista de São Bernardo do Campo (SP) que foi queimada viva por quatro rapazes, sendo um deles menor de idade, ou do rapaz que foi assassinado com um tiro na cabeça por um outro menor ao ter seu celular roubado por ele, chocaram o país e desencadearam, de novo, o debate sobre maioridade penal.

    Não foram só esses casos, por óbvio, que ressuscitaram o debate sobre redução da maioridade penal. Os crimes violentos aterradores que se vê a toda hora neste país, sobretudo os cometidos por menores, fizeram o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, propor mudança no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) a fim de que pessoas de 16 anos sejam tratadas pelas leis penais como adultos.

    Essa é uma discussão dolorosa porque, dado o nível de horror que crimes como o da dentista de São Paulo encerram, pessoas se mostram assustadas a um ponto em que começam a acreditar em “soluções” como a proposta pelo governador de São Paulo.

    O grupo social minoritário que se opõe a esse caminho e o amplamente majoritário que se inclina por ele produziram muitos argumentos. Vale a pena dissecá-los.

    A discussão menos ilógica da redução da maioridade penal nos empurra para a pura e simples extinção de qualquer idade-limite, pois de nada adiantaria reduzi-la para 16 anos já que jovens de idades mais tenras também cometem crimes horrorosos e, assim, não subsiste uma só justificativa que sustente os 16 anos como ponto de inflexão entre adolescência e maturidade.

    Houve propostas dos adeptos da redução da maioridade penal no sentido de esta ser usada apenas para crianças e adolescentes que cometam crimes hediondos como o da dentista, ou mesmo para os que cometam qualquer tipo de assassinato.

    Ainda assim, ficariam de fora os atos de violência que não resultem em perda de vida da vítima. Desse modo, haveria que apenar criminalmente como adultos os menores de qualquer faixa etária que pratiquem crimes violentos.

    Até aí, pulamos da redução da maioridade penal aos 16 anos para a punição como adulto de qualquer adolescente e até de crianças, pois uma criança de 8 ou 10 anos que aborde alguém num semáforo com uma faca nas mãos e, como já ocorreu várias vezes, enfie o instrumento perfurante no pescoço do assaltado, seria vista como “irrecuperável”.

    Neste ponto, vale analisar o quadro da violência e da criminalidade no Brasil para que se possa mensurar se essa discussão sobre maioridade penal faz sentido.

    Segundo o RELATÓRIO NACIONAL DO ESTADO BRASILEIRO apresentado pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos da Presidência da República ao MECANISMO DE REVISÃO PERIÓDICA UNIVERSAL DO CONSELHO DE DIREITOS HUMANOS DAS NAÇÕES UNIDAS em 2012, o Brasil possui cerca de 513.802 pessoas mantidas em unidades do sistema carcerário e da polícia.

    Esse relatório mostra um dado que todos intuem, mas que é pouco difundido: a população carcerária brasileira tem perfil preponderantemente jovem, masculino, negro e de baixa escolaridade.
    Sempre segundo dados oficiais do Brasil, em 2011 53,6% da população no sistema penitenciário tinha entre 18 e 29 anos, 93,6% eram homens, 57,6% eram negros e pardos e 34,8% eram brancos. Além disso, 45,7% da população do sistema penitenciário possuía ensino fundamental incompleto, enquanto apenas 0,4% possuía ensino superior completo.

    Um outro dado importante é o de que, segundo dados da Secretaria Nacional de Direitos Humanoslevantados pelo Globo, há só 60 mil adolescentes cumprindo medidas socioeducativas no Brasil, sendo 14 mil em regime de internação e os demais em regime aberto.

    Ou seja: apenas 14 mil adolescentes cumprem penas de privação de liberdade, contra 513.802 adultos. Toda essa discussão sobre maioridade penal, portanto, está focada em 2,72% do problema da violência e da criminalidade no país.

    Vê-se, assim, que o problema está longe de ser o infrator de 16 anos. E que a redução de idade penal proposta pelo governador de São Paulo é uma quimera, um engodo, uma conversa fiada destinada a dar alguma resposta a uma sociedade acuada por uma situação inacreditavelmente explosiva que está se formando.

    Não há nada demais em discutir o que fazer com uma criança ou um pré-adolescente ou mesmo um adolescente que cometam barbaridades. O problema é que a discussão da maioridade penal aos 16 anos nos levará a outras envolvendo crimes infanto-juvenis e, assim, ficaremos discutindo o problema pelo ângulo errado.

    Até este momento, não discutimos o xis da questão: o que está acontecendo com um país em que crianças e adolescentes se transformam em feras enlouquecidas capazes de uma barbaridade como queimar viva uma mulher que não tinha dinheiro para dar a assaltantes?

    A discussão da maioridade penal nunca vai tão fundo. Fica na superfície da “solução” rápida, mas sem refletir, por um segundo, que depois da redução para 16 anos virá a redução para faixas etárias inferiores e, depois desta, a extinção de idade mínima para ser responsabilizado criminalmente por qualquer tipo de ação infringente da lei.

    Isso mudará o fato de que crianças estão sendo transformadas em monstros por mecanismos sobre os quais quase ninguém quer refletir? É de duvidar que alguém, em sã consciência, acredite que a mudança da lei fará esse processo de criação de aberrações infanto-juvenis ser interrompido por extinção restrita ou irrestrita da maioridade penal.

    Como crianças viram monstros como o garoto que supostamente ateou fogo ao corpo embebido em álcool da dentista de São Bernardo do Campo? Já nasceram assim?

    Não se pode acreditar que no código genético dos brasileiros esteja inscrita uma anomalia que não há em outros países que não têm problemas de menores violentos como os que temos aqui. Afinal, mesmo aqueles que pensam ser de uma “raça” diferente da maioria deveriam saber que todos os brasileiros temos características genéticas em comum, seja o cidadão branco, negro, nordestino ou sulista.

    O fato de alguns poucos terem características físicas diferentes não muda o fato de que somos um país só.
    O perfil do presidiário brasileiro, portanto, explica como uma parte ínfima de nossas crianças pobres é empurrada para o crime e, usando drogas e convivendo com adultos violentos, acaba se convertendo em monstros como os que temos visto.

    Nas comunidades mais pobres, principalmente em favelas dominadas pelo tráfico, gerações de brasileiros cresceram e continuam crescendo tendo como “exemplo” traficantes e bandidos perigosos, que recrutam entre a juventude, inclusive na idade mais tenra, os futuros “soldados do crime”.

    O critério de recrutamento não visa o uso de jovens inimputáveis penalmente. Essa é uma empulhação. Por isso é que só 2,7% dos criminosos encarcerados no Brasil são menores. Afinal, não se pode acreditar que alguém cometa crimes pensando em ser preso.

    O processo de deformação que cria jovens monstros está na desestruturação familiar, na ignorância, na pobreza, nas drogas e, acima de tudo, nos exemplos que crianças recebem enquanto crescem, vendo bandidos nas comunidades pobres saírem da pobreza com essa fórmula “mágica” de tomar dos outros o que não pode conseguir honestamente.

    Afinal, o jovem brasileiro pobre sabe que a escola não irá ensiná-lo, que se for negro ou mestiço não será “bem visto” por um mercado de trabalho que, segundo incontáveis estudos, ainda discrimina os brasileiros de origem africana e com traços africanos mais marcantes. Assim, é tentado pelo crime como forma de ascensão financeira.

    Os adeptos da redução da maioridade penal costumam usar o exemplo dos países ricos. Em países como a Inglaterra, por exemplo, já houve casos de crianças de 8, 10 anos presas por terem cometido crimes violentos. Em muitos desses países a idade de responsabilização penal é menor ou não existe.

    Falta refletirmos sobre as condições das crianças inglesas, por exemplo, e das brasileiras. São as mesmas? Alguém vê hordas de crianças miudinhas espalhadas pelas ruas de Londres fumando crack, dormindo nas ruas, prostituindo-se etc.?

    O que você espera que essas crianças pelas quais passa todo dia nas ruas e vê chafurdando em todos esses dramas se tornem? Cidadãos exemplares? Você já refletiu que essas crianças não nasceram criminosas em potencial, mas que a continuarem nessa situação se tornarão monstros como o que queimou a dentista viva?

  • Mês de maio em Taiobeiras: todos os caminhos levam à Igrejinha!

    Estão às portas a 57ª edição da Festa de Nossa Senhora de Fátima, religiosa, de 3 a 13 de maio de 2013, e da Festa de Maio, comercial, de 16 a 19 de maio de 2013. Um dia, as duas já foram uma, bem menos “capitalista”, muito mais família, fé e cultura!

    Taiobeiras: construção da Igrejinha “de oito lados” de N. Sra. de Fátima
    Igrejinha, ao fundo da Rua Osvaldo Argolo
  • Festa de Maio em Taiobeiras

    Igrejinha durante festa de N. Sra. de Fátima (Taiobeiras, 2012)

    * Por Marileide Alves Pinheiro.

    Cultura, tradição, fé e devoção…

    Tudo isso é retratado na 57ª Festa de Maio – “Festa de Nossa Senhora de Fátima” em Taiobeiras – MG. Cidade que fica a 690 km de Belo Horizonte, no extremo Norte/ Vale do Jequitinhonha de Minas Gerais.

    Pequena cidade que se destaca em sua região, com pouco mais de 30 mil habitantes tem no seu povo simples, a maioria de religião católica, o espírito da esperança renovada na imagem de Nossa Senhora de Fátima. Como essa imagem é vista pelo o povo de Taiobeiras?

    Imagem da Mãe Protetora: “mãe que nos ensina a amar, que nos guia para o caminho da paz, nos liberta de todos os ódios e violência…” (resumo do tema da programação de 2012).

    Dizem os mais antigos que essa história começou em 1955 quando Taiobeiras recebeu uma imagem dessa santa que passava de cidade em cidade. Essa era uma missão realizada pelos padres capuchinhos na recém-emancipada cidade de Taiobeiras, que traziam a imagem visitadora de Nossa Senhora de Fátima aos lugares em que exerciam suas pregações evangelizadoras.

    Naquela época, a santa ficou pela cidade por alguns dias de visita na igreja local para receber os fiéis. Essas pessoas foram se afeiçoando tanto pela santa que quando chegou o dia da sua partida muitas mulheres, crianças e pessoas idosas ficaram aos prantos pela cidade. Diziam também que pelas ruas por onde passava a procissão de despedida da santa sentia-se o aroma das rosas dentro das casas e esse perfume permaneceu por vários dias e muitos acreditavam que a cidade estava abençoada.

    Foi exatamente por isso que Frei Jucundiano de Kok – Foi o frade franciscano e primeiro pároco da Paróquia São Sebastião encomendou uma réplica de Nossa Senhora de Fátima de Portugal para presentear a cidade de Taiobeiras. A mesma chegou aqui setembro de 1956, houve então uma grande recepção na entrada da cidade e desfilaram em um carro de boi pelas ruas. Logo depois a comunidade organiza a primeira Festa de Maio para o ano seguinte.

    Em 1957 foi inaugurada a Capela de Nossa senhora de Fátima, carinhosamente denominada de “Igrejinha”. Essa capela que tem o formato octogonal é uma preciosidade, um dos cartões postais de Taiobeiras, lá se tornou a morada da santa e o principal símbolo da Festa de Maio. Fizeram as atividades típicas religiosas durante a novena, celebrações de missas, coroação da imagem de Nossa Senhora de Fátima: crianças vestidas de anjos, procissões, quermesses, barraquinhas de quitandas, leilões…

    A “Festa de Maio”, por conta do desenvolvimento e da grande expansão, se tornou uma referência da tradição religiosa e cultural da região. Percebe-se então, que houve muita interferência do interesse comercial. Tiveram a necessidade de se refletir sobre os valores religiosos, decidindo que haveria duas datas de comemoração.

    A Festa de Maio: religiosa e tradicional que acontece na 1ª quinzena, até o 2º domingo de maio, comemorando o Dia das Mães.

    A Festa de Maio: comercial, intitulada há 09 anos como FERAP – Feira Regional do Alto do Rio Pardo (microrregião do Norte/Vale do Jequitinhonha) realizada no 3º fim de semana – dias 16 a 19 de maio de 2013.

    Marileide

    Fonte de Pesquisa: Entrevista com pessoas de Taiobeiras; Livro: “TAIOBEIRAS, seus fatos históricos” de Avay Miranda, Volume 02; Professor de história Levon Nascimento, BLOG: http://levontaiobeiras.blogspot.com.br/

    Texto de Marileide Alves Pinheiro: Educadora, estudante universitária do curso de Administração Pública – UFVJM, agente cultural, Delegada Estadual de Cultura – II Conferência Nacional de Cultura – Brasília 2010, Membro do Conselho Municipal de Patrimônio Histórico Cultural de Taiobeiras – Representante da Sociedade civil na gestão: 2012 a 2014 e coordenadora do Cineclube: Arte Em Cena – Associação Companhia Teatral Encena em Taiobeiras – MG.

  • Redução da maioridade é proposta falaciosa, diz especialista

    André Luis Callegari

    Do Blog do jornalista Luis Nassif

    Do IHU Unisinos
    Redução da maioridade penal: uma proposta falaciosa. Entrevista especial com André Luís Callegari 

    “Na América Latina, quando índices de criminalidade de um determinado delito aumentam, a primeira solução do legislador não é verificar o que está acontecendo, mas dar uma resposta ao clamor social”, lamenta o advogado.

    Confira a entrevista.
    Reduzir a maioridade penal para acabar com a violência “é uma falácia”, diz André Luís Callegari à IHU On-Line. Segundo ele, a proposta não é fundamentada empiricamente e a aprovação da maioridade penal “seria uma mera transferência física do lugar de cumprimento da pena. Transferiríamos fisicamente os menores da Fundação de Atendimento Socioeducativo – FASE para o Presídio Central”, adverte em entrevista concedida por telefone.

    Na avaliação dele, a discussão sobre a redução da maioridade penal apresenta algumas preocupações, e entre elas está a criação de casas prisionais para jovens menores de 16 anos. “Por um sistema biológico que o Código Penal adota, consideramos que nessa fase de 16 anos, embora o jovem tenha o direito civil de votar, ele não atingiu a maturidade plena. O que fariam os outros presos em relação a esse jovem? Todo esse aspecto social tem que ser avaliado porque nós não temos, dentro do sistema prisional, as condições de separarmos os presos primários, aqueles que estão ingressando, e os presos provisórios, que estão lá no sistema presos por uma decretação de uma prisão preventiva para uma investigação, dos presos condenados”. E conclui: “A minha pergunta sociológica é: Será que estamos fazendo bem ou mal ao reduzir a maioridade penal? Não estaremos colocando em contato com pessoas de alta periculosidade jovens que ainda têm uma chance de recuperação?”

    André Luís Callegari (foto acima) é graduado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, e doutor em Direito Público e Filosofia Jurídica pela Universidad Autónoma de Madrid. É doutor honoris causa pela Universidad Autónoma de Tlaxcala e pelo Centro Univesitário del Valle del Teotihuacan, do México. Leciona na Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos.

    Confira a entrevista.
    IHU On-Line – Em que contexto histórico, político e social surge a proposta de reduzir a maioridade penal?
    Foto: http://www.cartaforense.com.br
    André Luís Callegari – Essa proposta surge de ondas de populismo penal ou de sentimentos de vingança. Atendendo ao clamor social diante de momentos históricos de aumento de um determinado crime, o legislador pensa que a melhor maneira de solucionar o problema é aumentar a lei penal. Esse é um entendimento histórico na América Latina, onde se legisla com base nos casos de comoção social. Diante do aumento de casos de criminalidade, queremos responder com aumento de pena ou redução da maioridade penal.

    IHU On-Line – Quais são os argumentos favoráveis e contrários à redução da maioridade penal? Como esse tema está sendo discutido na área jurídica?
    André Luís Callegari – Os argumentos favoráveis são mais emotivos e populistas. Temos de recordar que essa discussão voltou à tona por causa do assassinato de um jovem em São Paulo, em que o assaltante completaria 18 anos três dias depois. Isso acontece cotidianamente, mas como esse caso teve grande repercussão, os favoráveis dizem: “Temos de acabar com a violência, e para isso é preciso reduzir a maioridade penal”. Sabemos que essa mensagem é falaciosa, não tendo comprovação empírica. Aprovar a maioridade penal seria uma mera transferência física do lugar de cumprimento da pena. Transferiríamos fisicamente os menores da Fundação de Atendimento Socioeducativo – FASE para o Presídio Central. Temos um sistema penal falido na América Latina; a pena deveria ser ressocializadora e retributiva, mas não cumpre nenhum desses papéis. Hoje existem depósitos de presos e o Rio Grande do Sul é um exemplo disso. O Presídio Central é o novo Carandiru.

    Não nos damos conta, e ninguém faz essa análise, mas muitas vezes o menor de idade cumpre uma medida socioeducativa mais dura do que uma pessoa penalmente responsável. Explico: o menor de 18 anos, quando pratica um delito, recebe a pena máxima de três anos de internação. No caso de um maior praticar um homicídio simples, a pena varia de seis a vinte anos. Se ele for condenado a seis anos e cumprir um sexto da pena, ficará preso por um ano e poderá trocar de regime, ficando no regime aberto. Quer dizer, ele sai mais cedo da prisão. Então, reduzir a maioridade penal é uma alternativa falaciosa porque queremos dar uma resposta à sociedade através do Direito Penal; esse não é o melhor caminho.

    IHU On-Line – Os defensores da redução da maioridade penal argumentam que os jovens de 16 anos devem ser responsáveis pelos seus atos. Considerando a questão da responsabilidade, que alternativas existem diante dessa proposta?
    André Luís Callegari – Onde o Estado não entra se estabelece outro tipo de relação. Estudos sociológicos realizados nas favelas do Rio de Janeiro demonstram por que as milícias tomaram conta. Então, não se pode atribuir tudo aoDireito Penal. Temos de dar oportunidades aos jovens que têm a violência como base de identidade social e cultural. Precisamos de políticas públicas para que eles possam ter educação, alimentação e política social. Essas medidas não são adotadas. Fala-se que o país está erradicando a miséria, mas se vende muita coisa boa e se esconde muita coisa ruim. Volto a insistir que na América Latina, quando índices de criminalidade de um determinado delito aumentam, a primeira solução do legislador não é verificar o que está acontecendo, mas dar uma resposta ao clamor social. Estatisticamente, nunca o aumento da pena ou a redução da idade penal foram a solução para o índice de criminalidade. Se assim fosse, nos países em que há pena de morte não existiriam crimes.

    Há uma proposta em São Paulo de que, caso não se reduza a idade penal, se aumente o tempo de internação dos menores de três para oito anos. Aí eu pergunto: Por que se interna um menor por três anos? Porque se espera ter mais chance de recuperá-lo e reintegrá-lo à sociedade. Isso é mais difícil de acontecer com um regresso. Se aumentar o tempo de ingresso dos menores em um estabelecimento prisional com outro nome, porque a FASE tem as mesmas mazelas e problemas do presídio, a chance de recuperação será cada vez menor.

    IHU On-Line – Qual a eficácia da Fundação de Atendimento Socioeducativo – FASE?
    André Luís Callegari – O sistema que funciona na FASE é o mesmo sistema que funciona dentro do presídio. Existem as mesmas gangues, alguns são submetidos por força à vontade dos outros; há alguns que são forçados a assumir determinados atos infracionais lá dentro em nome dos outros; trata-se de um círculo vicioso.

    Temos de pensar na política do egresso: o que é feito depois da internação? A FASE existe para reeducar e ressocializar os menores, mas muitas vezes eles nem entram socializados lá dentro. Então a proposta acaba sendo uma falácia. Seria preciso pensar num sistema que, após a saída, o menor pudesse de fato ser matriculado numa escola, ter um aprendizado técnico, ter uma oportunidade dentro da sociedade. Isso é muito difícil e esse é um investimento do Estado.

    IHU On-Line – A solução é investir em outras questões, como trabalho e educação?
    André Luís Callegari – Exato! O Estado tem que investir nisso. Há uma eclosão do sistema carcerário; todo mundo sabe disso. O Brasil está sendo condenado pelo Tribunal Internacional de Direitos Humanos, porque os presos estão aglomerados sem as condições mínimas de saúde, de higiene e de possibilidade de reinserção na sociedade.

    É claro que o crime que aconteceu em São Paulo chocou, foi amplamente divulgado e criou essa comoção, essa sensação de impunidade. Isso acontece cotidianamente; uns são mais noticiados, outros menos. Acontece que, quando isso vem à tona com tanta força, a população evidentemente se revolta. E o que ela pede? Vingança através do Estado.

    IHU On-Line – Quais as implicações sociais da redução da maioridade penal?
    André Luís Callegari – A população tem de estar ciente de que todas as medidas endurecedoras que virão, caso a maioridade penal seja reduzida, não serão para casos já praticados. No aspecto sociológico, nós faríamos com que jovens de 16 anos (se fosse esse o limite estabelecido pelo legislador) ingressassem nas casas prisionais.

    Aí vem outra preocupação: criaríamos uma ala especial dentro dessas casas prisionais, com um tratamento diferenciado? Porque por um sistema biológico que o Código Penal adota, consideramos que nessa fase de 16 anos, embora o jovem tenha o direito civil de votar, ele não atingiu a maturidade plena. O que fariam os outros presos em relação a esse jovem?

    Todo esse aspecto social tem que ser avaliado porque nós não temos, dentro do sistema prisional, as condições de separarmos os presos primários, aqueles que estão ingressando, e os presos provisórios, que estão lá no sistema presos por uma decretação de uma prisão preventiva para uma investigação, dos presos condenados. Então, a minha pergunta sociológica é: Será que estamos fazendo bem ou mal ao reduzir a maioridade penal? Não estaremos colocando em contato com pessoas de alta periculosidade, jovens que ainda têm uma chance de recuperação?

    IHU On-Line – Como resolver o problema da criminalidade e da superlotação dos presídios?
    André Luís Callegari – Em primeiro lugar, temos de pensar que o Direito Penal sempre foi pensado como a última justificativa de uma sociedade. Precisamos ter outras medidas, alternativas que visem solucionar os conflitos. O Direito Penal nunca vai deixar de existir, porque é a forma de o Estado intervir na solução de conflitos.

    O problema é que nós temos de ter também políticas públicas fortes nas áreas menos favorecidas e de investimentos para que essas pessoas possam ter as mesmas chances do que os outros em uma sociedade igualitária. Esse é um fato que nós não temos.

    Em segundo lugar, continua existindo aquela ideia de que o Direito Penal atinge as pessoas menos favorecidas. Se fizermos um levantamento no sistema prisional brasileiro, vamos constatar que 1%, e talvez nem chegue a isso, da população carcerária são presos relativos a delitos econômicos, delitos com sistema financeiro nacional, delitos contra a ordem tributária, lavagem de dinheiro etc. 99% dos presos são de classes menos favorecidas. E isso tem uma explicação lógica: não punimos e não temos a força punitiva de atingir as classes mais altas que, também, através do desvio de dinheiro público, de recursos, de medicamentos, acabam matando indiretamente muita gente.

    Acontece que esses delitos não têm repercussão, porque não são delitos de sangue, como nós dizemos, não são delitos de interesse da mídia. O que acaba acontecendo é que nós nos focamos sempre nos delitos com violência ou grave ameaça à pessoa. Como resolver esse problema? Não há uma solução mágica para isso. Efetivamente as penas não vão diminuir a criminalidade. Temos de investir para que essas pessoas saiam da zona de marginalidade e possam conviver socialmente com os mesmos direitos e garantias individuais que as outras pessoas têm.

  • Taiobeiras e o silêncio!

    Av. do Contorno, Taiobeiras, abril/2013.
    Foto: Reidson Miranda

    Às vezes é preciso fazer silêncio para que os entorpecidos pela surdez da alienação escutem…

    Esta é a cidade que emergiu das urnas em outubro de 2012. Logo será maquiada.

    E ainda há os que entendem isso como a continuidade do progresso!

    Silêncio!

  • Taiobeiras: mantendo viva a memória de um belo trabalho!

    Não vencemos as eleições de 2012 em Taiobeiras/MG. Mas as recentes demonstrações da Justiça Eleitoral, reconhecendo que houve inúmeras irregularidades na campanha situacionista, nos demonstra que fomos herois, vitoriosos por lutar a serviço de uma sociedade mais justa, humana, igualitária e honesta.

    Estou feliz pela posição firme e digna, decidida e verdadeira, que eu e muita gente neste município assumimos e vivenciamos. Mesmo com todas as dificuldades e trapaças, vindas até de pessoas e estruturas que admirávamos, valeu a pena lutar pelo que é bom, pelo que é certo, pelo que é justo!

    Sofremos muito com as calúnias, difamações e injustiças. No entanto, contribuímos para fazer Taiobeiras se pensar e repensar! Estes percalços, na vida de quem trabalha pelo bem, são pré-requisitos inevitáveis e necessários para se alcançar o objetivo proposto.

    O tempo, senhor da razão, a cada momento, prova que estávamos certos!

    Para saber mais sobre a recente decisão da Justiça Eleitoral de Taiobeiras, sobre o pleito de 2012, leia a edição impressa do Jornal Folha Regional (Taiobeiras/MG), ano IX, nº 213, página 11.

  • “Maioridade penal aos seis. Afinal, nessa idade, eles já se vestem sozinhos”

    Redução da maioridade penal? O Estado e a sociedade falham retumbantemente em garantir que o Estatuto da Criança e do Adolescente ou mesmo a Constituicão Federal sejam cumpridos

    Leonardo Sakamoto, em seu blog

    redução maioridade penal

    Um dos maiores acertos de nosso sistema legal é que, pelo menos em teoria, protegemos os mais jovens – que ainda não completaram um ciclo de desenvolvimento mínimo, seja físico ou intelectual, a fim de poderem compreender as consequências de seus atos. Completar 18 anos não é uma coisa mágica, não significa que as pessoas já estão formadas e prontas para tudo ao apagarem as 18 velinhas. Mas é uma convenção baseada em alguns fundamentos biológicos e sociais. E, o importante, é que as pessoas se preparam para essa convenção e a sociedade se organiza para essa convenção.

    Redução da maioridade penal está em discussão no Brasil.


    Por necessidade individual e incapacidade coletiva de garantir que essa preparação ocorra de forma protegida, muita gente acaba empurrada para abraçar responsabilidades e emularem uma maturidade que elas não têm. Enfim, se tornam adultos sem ter base para isso.

    Na prática, o Estado e a sociedade falham retumbantemente em garantir que o Estatuto da Criança e do Adolescente ou mesmo a Constituicão Federal sejam cumpridos. Entregamos muitos deles à sua própria sorte – sejam filhos de famílias pobres ou ricas. Porque encher o filho de brinquedos e fazer todas as suas vontades para compensar a ausência por conta de uma roda viva que vai nos tragando também é de uma infelicidade atroz.

    O que fazer com um jovem que ceifa a vida de outro, afinal? Conheço a dor de perder alguém querido de forma estúpida pelas mãos de outro. O espírito de vingança, travestido de uma roupa bonita chamada Justiça, que foi incutido em mim pela sociedade desde pequeno, diz que essa pessoa tem que pagar. Para que aprenda e não faça novamente? Não. Para que sirva de exemplo aos demais? Não. Para retirá-lo do convívio social? Não. Para tentar diminuir a minha dor através da dor dele e da sua família? Não. Não há provas de que nada disso funcione, mas ele tem que pagar. Por que sempre foi assim, porque caso contrário o que fazer?

    A Fundação Casa, do jeito que ela está, não reintegra, apenas destrói. A prisão, então, nem se fala. Também não acho que reduzir a maioridade penal para 16 anos vá resolver algo. Ele só vai aprender mais cedo a se profissionalizar no crime. E se jovens de 14 começarem a roubar e matar, podemos mudar a lei no futuro também. E daí se ousarem começar antes ainda, 12. E por que não dez, se fazem parte de quadrilhas? Aos oito já sabem empunhar uma arma. E, com seis, já se vestem sozinhos.

    A resposta para isso não é fácil. Mas dói chegar à conclusão de que, se um jovem aperta um gatilho, fomos nós que levamos a arma até ele e a carregamos. Então, qual o quinhão de responsabilidade dele? E qual o nosso?

    O certo é que ele irá levar isso a vida inteira – o que não é pouco – e nunca mais será o mesmo, para bem ou para mal. A sociedade está preparada para lidar com ele e outros jovens que cometem crimes, por conta própria ou influência de adultos?

    Ou melhor, a sociedade quer realmente lidar com eles ou prefere jogá-los para baixo do tapete, escondendo os erros que, ao longo do tempo, ela mesma cometeu?

  • Taiobeiras: a melhor cidade para se viver. 1º de abril.

    Taiobeiras, o melhor lugar do mundo para se viver!
    * Água abundante e sem risco de faltar;
    * Justiça eficiente e rápida;
    * Zero de corrupção eleitoral;
    * Ruas limpas e sem buracos;
    * Todo o lixo é reciclado;
    * As estradas rurais estão em perfeito estado de manutenção;
    * Ausência total de violência; crimes cometidos totalmente apurados e punidos conforme a lei;
    * Todos os que precisam são prontamente atendidos nos serviços de saúde;
    * A educação atinge os índices mais altos em todos os sistemas de avaliação;
    * E tudo o mais de super, mega, hiper bom!!!
    1º de abril de 2013.
  • Artigo do Levon: Uma mensagem de Páscoa contra o racismo e o fundamentalismo

    ” – Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra.”

    Em meio a uma sociedade cada vez mais individualista, egoísta e mercantilizada, ainda se vêem muitas pessoas à procura do sagrado ou buscando a participação em algum tipo de grupo religioso. A ciência moderna, com todas as suas certezas, não deu conta de explicar todo o “mistério” ao ser humano, não ocupando dentro do coração das pessoas o espaço da fé e da admiração e reverência pelo infinito.

    Porém, como diz o teólogo Leonardo Boff, “numa sociedade de mercado, a religião e a espiritualidade se transformaram também em mercadorias à disposição do consumo geral”. Assim, vemos pessoas se aproximando das experiências místicas como se estivessem empurrando um carrinho de supermercado. Nas prateleiras espirituais, procuram milagres, curas, contatos “pirotécnicos” com Deus, respostas para os problemas imediatos e individuais. Até aí, no universo da fé, o individualismo impera, onde deveria haver fraternidade. Muitos imaginam que, ao pagar os intermediários de Deus, com promessas ou dinheiro em espécie, fazem jus às benesses celestiais, tal e qual nos caixas de bancos e nas boutiques sortidas do modo de produção capitalista. Capitalismo tão entranhado em suas vidas, que a consciência já o toma por natural, imutável e permanente em toda a História. Não conseguem enxergar a contradição entre o capital e o Deus a quem procuram. Cria-se o terreno propício para que os “mercadores e mercenários dos templos modernos” realizem seus “negócios”.

    Outros, de tão envolvidos com os grupos religiosos, tornam-se sectários, fechados à inteligência e à iluminação do próprio Espírito divino a quem dizem seguir.

    Quero falar de minha experiência com a religião. Nasci numa família católica, fui batizado ainda no primeiro ano de vida, fiz primeira comunhão aos 12 anos, mas somente considero que comecei a participar ativamente da vida da instituição religiosa aos 16. Não sem antes ter aprendido a ser crítico com a história da Igreja. O que mais me chamou a atenção, ao contrário do que parece ser o “normal” para muita gente, não foram os milagres, as curas, as músicas açucaradas dos grupos religiosos ou o medo da morte e a incerteza do céu ou do inferno. Tampouco o fundamentalismo de quem acha que somente os dogmas bíblicos ou a doutrina ensinada pelo Magistério (caso da Igreja Católica) constituem a única verdade em que se deve crer e obedecer. Encantou-me as palavras e, mais do que elas, as atitudes concretas de Jesus de Nazaré, em seu tempo e em sua localidade. Exemplos que, passados 2000 anos, continuam a ser impressionantemente atuais e radicais, sobretudo quando colocados em contraste com as normas e os padrões em uso no nosso tempo. Vamos a alguns deles.

    Em nossas sociedades, ainda que muito disfarçadamente, valoriza-se a origem social e a posse de bens econômicos. Ao contrário disso, Jesus nasceu numa família da classe trabalhadora (cf. Mt 13,55), em uma estrebaria (cf. Lc 2,7) e, visivelmente, não viveu na opulência (cf. Mt 8,20). Ainda, propunha a quem queria segui-lo que se livrasse do excesso de bens materiais, distribuindo-os aos necessitados e assumindo uma vida de simplicidade, para assim alcançar a eternidade (cf Mt 19,21).

    Também me impressiono com o trato de Jesus para com as pessoas. Não eram atitudes de um rei arrogante para com os seus súditos. Eram ações de um irmão mais velho, solícito e cuidadoso. Amou a todos, mas especialmente deu atenção aos mais mal-tratados pela sociedade e pelas leis severas de sua época, “passou a vida fazendo o bem” (cf At 10,38). No caso da mulher adúltera, para a qual a lei recomendava pena de morte a pedradas, solicitou aos irados homens que atirassem-lhe as pedras caso não tivessem pecados (cf Jo 8,7). Com os famintos, mais do que o milagre da multiplicação de peixes e pães (cf Mt 14,15-21), o que mais chama a atenção é, que, num tempo de falta de generosidade com o próximo, ele se preocupou com a fome de uma multidão. Poderia ter muito bem acatado a proposta dos discípulos e mandado o povo embora, buscar comida em casa ou nos vilarejos próximos. Não fez assim. Pediu aos seus colaboradores que organizassem grupos e, só então, partilhou o alimento com os famintos. Multiplicou, organizou, dividiu (partilha). Mais do que um milagre, uma atitude pedagógica e solidária.

    Jesus também não se preocupou com os preconceitos e fofocas da sociedade da época. Andou com cobradores de impostos (cf Mt 10,3) e conversou com a samaritana (cf Jo 4,6-21), duas categorias muito mal-vistas pelos judeus; perdoou prostitutas. Praticou a justiça, entrou na casa dos necessitados sem se importar se eram judeus ou pagãos (romanos). Foi firme na denúncia da maldade e da injustiça expulsando os vendilhões do templo, denunciando os fariseus hipócritas, que conheciam a lei, mas não a praticavam. Era solícito e amável com todos; firme e rigoroso quando necessário. Não hesitou em morrer numa cruz, sem nada dever, porque esta era a sua missão.

    Não cobrou pelo que fez. Não praticou lavagem cerebral. Não foi preconceituoso ou racista como alguns que se dizem pastores de “seu” rebanho. Não excluiu um gênero em detrimento de outro. Abraçou a causa dos humilhados, sofredores e injustiçados. Enfrentou serenamente os que detinham poder político e econômico em sua época.

    Amou, ao invés de estabelecer dogmas. Reuniu, não criou instituições. Doou, não tomou. Dialogou, não impôs. Defendeu a vida incondicionalmente, não matou. Separou Estado e Religião. Mandou dar a César o que era dele; e a Deus o que pertencia à divindade.

    Foi humilde até a morte; e pena de morte sem ter cometido crime algum! E voltou a viver. E vive sempre!

    Por isso, não entendo como a religião de alguns se torna fundamentalismo, preconceito, intolerância, falta de diálogo, desrespeito com o próximo, teologia da prosperidade (“Deus ama quem doa mais”), avidez por dinheiro e status, sarcasmo com os diferentes ou racismo explícito. Não provém de Jesus de Nazaré essas atitudes, pelo contrário, deve vir do seu rival, aquele que, em latim, diabolus, tudo divide, arruína e destrói.

    Mais do que conseguir milagres, a religião nos deve levar a “praticar pequenos milagres”, um deles, por exemplo, sair de nossa mesquinhez e egoísmo, e partir para o encontro de Deus no rosto dos demais seres humanos, sem importar sua cor, sua orientação sexual ou sua condição econômica. Especialmente, pessoas religiosas devem segurar na mão e ajudar a erguer os que caem pelo caminho que nos separa do céu, aquele “estado” onde para sempre reinará o amor fraterno e a face brilhante de Deus eternamente nos iluminará.

  • A oposição ‘silenciosa’ ao Papa Bergoglio

    Humildade: marca do Papa Francisco

    Do site IHU Unisinos

    A Cúria e os movimentos conservadores temem que Francisco “enterre” a involução pós-conciliar.

    A reportagem é de Jesús Bastante, publicada no sítio Religión Digital, 23-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

    Ele é papa há apenas uma semana, e parece que a história fez uma reviravolta. Francisco é o pontífice de que a Igreja precisava? Além disso, é o pontífice de que a sociedade globalizada do século XXI precisa? Em um mundo cada vez menor, onde qualquer notícia chega imediatamente aos lugares mais remotos do globo, os primeiros gestos e decisões de Bergoglio geraram uma onda de otimismo e apoio sem precedentes nos últimos pontífices. E, paralelamente, embora em silêncio ou sob o amparo do anonimato, começam a surgir as críticas à “humildade” do novo papa, que é acusado de querer “enterrar” a involução pós-conciliar desejada pelos dois pontífices anteriores.

    O chamado de Francisco a uma maior austeridade, seu sonho de que esta seja uma “Igreja pobre e para os pobres”, a ausência de enfeites em sua vestimenta e gestos como o de pedir a bênção do povo ou de ficar à porta da paróquia de Santa Ana para se despedir dos seus fiéis são gestos certamente revolucionários. E também indicativos de que certas coisas estão mudando. Para o desgosto de alguns. De quem?

    Em primeiro lugar, da Cúria. Jorge Mario Bergoglio não é o papa que eles elegeriam a partir da estrutura. Scola ou Scherer eram os homens destinados a uma “reforma tranquila”, que não tocaria no essencial e manteria o mistério em torno da figura papal e do papel dos órgãos vaticanos. Dar por encerrado o Vatileaks e aceitar pequenas mudanças, mas sem tocar no essencial: o poder nas mãos de alguns poucos.

    No entanto, Francisco foi claro. “O verdadeiro poder está no serviço”, afirmou, na linha das últimas palavras de Bento XVI, com quem irá almoçar neste sábado e que quis, em seus últimos dias, denunciar as tramoias de uma estrutura que ele não conseguiu ou não soube pôr na linha.

    Em segundo lugar, os novos movimentos. Viu-se isso na missa de início de pontificado de Bergoglio, por outro lado muito numerosa. Ali cabiam todos na Igreja. Não só os Kikos [membros do Caminho Neocatecumenal], o Comunhão e Libertação, os Legionários de Cristo e afins, cujas bandeiras, certamente, praticamente desapareceram da outrora conquistada Praça de São Pedro.

    Os “apóstolos da nova evangelização”, a quem João Paulo II havia conferido exclusivamente a capacidade de se considerarem Igreja, têm que se relocalizar e buscar o seu lugar em uma instituição em que parece que, finalmente, todos podem entrar. As congregações religiosas, autênticas vilipendiadas durante os últimos 30 anos, voltam a respirar e se sentem com a liberdade e a confiança para continuar realizando o seu trabalho, em alguns casos milenar. Também os fiéis “a pé”, que consideram o novo papa muito mais próximo em seus gestos e atitudes do que os papas anteriores.

    Em terceiro lugar, os apologetas. Muitos representantes da “caverna” eclesial, midiática, social e política se encontram diante da tessitura da obediência cega à figura papal e da sensação de que o novo pontífice pode “trair” alguns princípios irrenunciáveis. Se já foram muitos os que, mais ou menos abertamente, criticaram a renúncia de Bento XVI por ter “descido da cruz”, eles temem que a abertura sugerida por Bergoglio “acabe quebrando a Igreja”.

    De fato, os últimos cismas na Igreja Católica quase sempre ocorreram do lado dos ortodoxos, em momentos de papados reformistas. Os “progressistas” simplesmente se tornam indiferentes, não com relação ao fato religioso nem com relação à fé, mas sim com o funcionamento das estruturas.

    Em quarto lugar, muitos bispos, principalmente nos países da “velha Europa“, especialmente a Espanha, aos quais a nomeação pegou-os “no contrapé” e que, por enquanto, optaram por esperar para ver se Francisco freia os passos que está dando ou que o tempo passe e a Cúria consiga “atar” alguns dos seus movimentos. Em todo caso, essa estrutura está disposta a “morrer matando”.

    O prestigioso vaticanista Marco Politi (do jornal Il Fatto Quotidiano) também alertou para as resistências internas ao “papa dos pobres”, que provêm de setores tradicionalistas e conservadores da Cúria Romana e que já começaram.

    Para Politi, é precisamente a determinação mostrada por Francisco que gerou essas reações subterrâneas internas à estrutura eclesiástica. “Exigir uma Igreja pobre e eclesiásticos irrepreensíveis significa pôr em contradição estilos de vida e comportamentos, que envolvem milhares de ‘hierarquias’ grandes e pequenas”, escreveu.

    Essa exigência também pressupõe, nas palavras do vaticanista, “pôr em discussão palácios, carros, servidões, consumismo, carreirismo que proliferam no mundo eclesiástico, assim como em qualquer organismo social, convivendo lado a lado com existências totalmente desinteressadas dedicadas à missão”.

    Para Politi, pôr a pobreza no primeiro lugar da agenda “não equivale apenas a viver em duas peças como o Bergoglio arcebispo em Buenos Aires. Implica a impossibilidade para a hierarquia eclesiástica de negar a transparência”. Além disso, poderia significar também tornar público o próprio patrimônio imobiliário, estimado pelo jornal econômico Il Sole 24 Ore em 1 bilhão de euros somente na Itália; publicar, como fazem na Alemanha, os balanços das dioceses italianas, normalmente contrárias a isso; reformar drasticamente o IOR (Instituto para as Obras de Religião, o Banco do Vaticano), recentemente acusado de ter lavado dinheiro em operações pouco transparentes. O IOR poderia ser diretamente abolido e substituído por um banco ético, em conformidade com as normas internacionais.

    A resistência ao primeiro papa que se chama Francisco começa a ser percebida também entre algumas das penas de renome da Itália. Assim, Giuliano Ferrara, diretor do jornal Il Foglio, considerado um “ateu devoto”, que passou de jovem comunista a liberal de direita, escreveu uma carta aberta diretamente a Francisco, intitulada “Padre, tenho medo da ternura”, jogando com a homilia que o papa pronunciou na missa de inauguração do pontificado, em que convidou a não ter medo da ternura e da bondade.

    “Eu estou entre aqueles poucos que têm medo da ternura, e digo-o sem muita ostentação, e entre aqueles pouquíssimos que consideram parte da misericórdia divina também o juízo e o exercício da autoridade”, escreveu Ferrara, paladino da luta contra o aborto, que é legal na Itália dentro dos 90 dias de gravidez.

    “Para mim, seria instintivo escrever-lhe agora, com pouca humildade, que ‘bom almoço’ não é uma teologia, que o perdão, a paciência e a amizade de Deus pelo homem fazem parte de um projeto da criação […] iluminado por ingovernáveis liberdades que é preciso disciplinar severamente”, escreveu.

    Ferrara, que lembra que Bergoglio disse uma vez que “abortar é matar a quem não pode se defender”, afirmou ter ouvido de sua boca essas mesmas palavras, em uma atitude de “linearidade, clareza e verdade”.

    “Esperemos que o deixem trabalhar e que ele não acabe como o pobre João Paulo I“, é o desejo que se escuta em muitos âmbitos eclesiais, tanto em Roma quanto em Madri. Palavras que denotam uma certa intranquilidade diante das reservas que o “tsunami Bergoglio” despertou nos setores mais ultraconservadores. O tempo lhes dará ou não razão.

  • Ateus devotos e apologistas de palácio

    José Lisboa Moreira de Oliveira, filósofo, doutor em teologia, ex-assessor do Setor Vocações e Ministérios/CNBB. Ex-Presidente do Inst. de Past. Vocacional. É gestor e professor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília.

    De vez em quando, na mídia católica, alguns apresentadores se atrevem a falar mal de ilustres prelados brasileiros, conhecidos por sua santidade, retidão de vida e doação total ao povo de Deus. Chegam mesmo a postar suas falas nas redes sociais com a clara intenção de divulgar suas calúnias difamatórias. Entre os mais caluniados estão Dom Pedro Casaldáliga, Dom Luciano Mendes de Almeida e Dom Paulo Evaristo Arns. Diante disso, muitos católicos sérios, dotados de consciência crítica e profunda sensibilidade cristã, ficam se perguntando como é possível que este tipo de coisa aconteça em redes televisivas católicas, sem que nenhuma autoridade seja capaz de intervir para pelos menos pedir um pouco de respeito por estas ilustres pessoas.

    Diante de um fato tão degradante como esse resta-nos fazer algumas observações. Antes de tudo cabe dizer que este comportamento é a negação total do cristianismo. Quem assim se comporta não vive o cristianismo na sua essência, pois, segundo a Carta de Tiago, a língua dessas pessoas está “cheia de veneno mortal” (Tg 3,8) e não impregnada de ternura (Tg 3,13). Não cabe, pois, ao cristão, especialmente quem apresenta um programa televisivo católico, difamar publicamente os outros, especialmente pessoas honestas, conhecidas por suas vidas íntegras e éticas. “Tu, quem és para julgar o próximo?” (Tg 3,12).

    Em segundo lugar, é preciso lembrar que é normal a perseguição e a calúnia contra as pessoas santas. O próprio Jesus previu isso: “Felizes sois vós quando os homens vos odeiam, quando vos rejeitam, e quando insultam e proscrevem vosso nome como infame por causa do Filho do Homem” (Lc 6,22). Quando um cristão é elogiado por todo mundo é preciso tomar muito cuidado. Geralmente é um falso profeta, afirma Jesus de maneira categórica (Lc 6,26). Portanto, o sinal de que estes bispos foram ou são pessoas santas é o fato de serem caluniados pelos próprios irmãos e irmãs de comunidade (Mt 10,34-36). Foram ou são pessoas que, com seu exemplo de vida e com a palavra, incomodam e denunciam um cristianismo frouxo, comprometido com as injustiças e a corrupção; um cristianismo que faz pactos com os ricos, com os saciados, com os que oprimem os pobres (Lc 6,24-25).

    Tomemos como exemplo Dom Pedro Casaldáliga, recentemente ameaçado de morte. Desde que foi nomeado bispo por Paulo VI em 1971, se posicionou claramente do lado dos pobres e sofredores, defendendo índios e posseiros contra a ganância de fazendeiros. Recentemente Dom Pedro recusou uma homenagem que queria lhe fazer a Comissão Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo de Mato Grosso. O motivo da recusa foi saber que a mulher do presidente da Assembleia Legislativa do Estado, também secretária de Cultura, é uma latifundiária, cujo nome consta na lista suja de pessoas que praticam o trabalho escravo em nosso país. Esta ilustre escravocrata é a pessoa que costuma organizar festas e eventos como aquele que a Comissão Estadual queria oferecer para Dom Pedro Casaldáliga. Dom Pedro recusou o convite com uma simples nota protocolada junto a Casa Civil do Mato Grosso, na qual diz o motivo de sua atitude. Como o apóstolo Tiago pôs o dedo na ferida dos exploradores dos pobres (Tg 5,1-6). Cristãos deste porte são odiados, especialmente por aqueles que na Igreja estão comprometidos com a corrupção, a ladroeira e a sem-vergonhice.

    Além disso, convém esclarecer ainda que toda esta campanha difamatória contra lideranças, bispos, padres, teólogos da libertação, não acontece por acaso. Anos atrás Délcio Monteiro de Lima, no seu livro que tem o sugestivo título Os demônios descem do norte (Editora Francisco Alves, 1987), mostrou que esta campanha foi bem pensada e bem planejada pelos governos conservadores dos Estados Unidos da América (EUA). Vendo que a Igreja na América Latina estava realizando uma evangelização libertadora, que daria aos nossos povos mais autonomia e independência, o governo dos EUA resolveu intervir secretamente, financiando grupos evangélicos alienados e a ala ultraconservadora da Igreja Católica. O objetivo era atenuar ou até mesmo eliminar a ação libertadora da evangelização, de modo que o povo continuasse sem consciência crítica e submisso aos governos locais de direita, totalmente aliados aos interesses norte-americanos.

    Estas ações dos governos Nixon e Reagan, embora secretas, terminaram por vir a público e ficaram conhecidas como Relatório Rockfeller e Comitê de Santa Fé. Além do financiamento de grupos evangélicos, previa-se apoio moral e financeiro aos movimentos católicos ultraconservadores, de modo que pudessem agir de maneira agressiva, influenciando inclusive o próprio Vaticano em decisões como a escolha de bispos, a punição de teólogos, a abertura de redes de televisão e assim por diante. A partir do estudo feito por Délcio Lima se pode afirmar que os programas alienados das televisões católicas respondem a este projeto do governo dos EUA. As calúnias contra nossos pastores, feitas por apresentadores católicos, são, pois, pensadas e planejadas de forma consciente para deixar o povo alienado. Povo esse que, aliás, é continuamente explorado pelo peditório constante dessas televisões católicas que trabalham contra a gente sofrida e oprimida.

    Pode-se, então, concluir que as pessoas que estão por trás destes programas alienadores e os seus apresentadores são pessoas sem fé. São “lobos vorazes” que se vestem de ovelhas (Mt 7,15) para enganar o povo. Utilizam-se da religiosidade para enganar os mais simples e defender os interesses dos ricos, dos poderosos, das multinacionais. São no dizer do teólogo e filósofo italiano Vito Mancuso, “ateus devotos”: pregam em nome do Evangelho, mostram-se bastante devotos, mas não acreditam na Palavra de Deus. Seus interesses são bem outros. Alguns deles se apresentam como professores de teologia, canonistas, biblistas. Na verdade, porém, não passam de simples “apologistas de palácio”, definição dada por Vito Mancuso a gente deste tipo. Tais pessoas não fazem teologia, tentando aprofundar a doutrina católica com a ajuda da inteligência e a iluminação da fé. Devido aos interesses escusos que estão por trás de suas falas, se recusam a fazer um confronto crítico entre o que é pregado e a verdade que liberta. Não querem que a verdade prevaleça (Jo 8,32). Limitam-se a ler o Catecismo da Igreja e a comentá-los repetindo suas frases. Não acrescentam nada. Na linguagem filosófica trata-se de uma péssima tautologia: explicar algo repetindo a mesma coisa que se disse antes. Tudo para enganar o povo.
  • Patrus Ananias em Taiobeiras

    O ex-Ministro do Desenvolvimento Social do Governo Lula, Patrus Ananias (PT-MG), esteve em Taiobeiras nesta quinta, 21 de março, a serviço da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, da qual é servidor, assessorando um encontro de vereadores da região Alto Rio Pardo, ocorrido na Câmara Municipal taiobeirense.

    Já em Taiobeiras desde a noite da quarta, 20 de março, encontrei-me com ele, juntamente com o presidente do PT de Taiobeiras, Nilson José de Oliveira, para uma conversa informal no Restaurante Vintém, centro da cidade.

    Como sempre, muito bem disposto e de fácil acesso, além de muito ético, Patrus conversou conosco sobre diversos assuntos. Elogiou a beleza de Taiobeiras e a boa receptividade das pessoas com quem estava tendo acesso e, perguntado por nós, contou-nos que não pretende participar de prévias para a definição do candidato petista ao Governo de Minas. Não porque é contra as prévias, em suas palavras, mas porque entende “que o momento agora é de unidade do PT mineiro” – disse.

    Afirmou, ainda, que o candidato a governador de Minas pelo PT, muito provavelmente, será o ex-Prefeito de BH e agora Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel. Patrus acredita, também, que o PT de Minas deve se organizar o mais rápido possível para a disputa de 2014, evitando, dessa forma, se tornar “moeda de troca” a serviço dos planos nacionais do partido, como ocorreu em 2010.

    Patrus, também, disse confiar no amplo favoritismo da Presidenta Dilma Rousseff (PT) para a reeleição no ano que vem.

    Ao final, pedimos a Patrus que retornasse outras vezes a Taiobeiras, no que ele nos disse que terá imenso prazer, pois gostou muito do clima acolhedor da cidade.

  • Leco Damião: Abram suas janelas, libertem Verônica!

    Leco Damião

    * Por Leco Damião, taiobeirense, publicitário formado pela Faculdade Paulus de Comunicação, na Revista Artigo.

    Certa vez li uma fábula, passada há mais de 2000 anos, tal estória serviu-me de incentivo para escrever sobre o dilema de Verônica, uma grande amiga, que pretendo lhes apresentar em algumas linhas. Voltando à fábula, trata-se da vida de um garoto que crescia numa terra bem distante, um menino que sempre chamou a atenção de todos ao seu redor, figura popular, simpática, que costumava acumular amigos por onde quer que passasse. Esse menino era diferente dos demais de sua idade, ele tinha o poder de cativar as pessoas, em tempos atuais seria um grande comunicador. O carisma que trazia consigo era capaz de unir legiões apenas para escutá-lo, não bastasse, conseguia exercer influência grande sobre massas, tanto que sua popularidade atravessou os muros do vilarejo onde vivia e chegou aos ouvidos de pessoas muito poderosas, que se sentiram incomodadas ao perceberem a ameaça que esse jovem representava.

    O jovem foi morto algum tempo depois, porque pensava diferente daqueles que estavam no poder e começava a colocar o povo contra os mesmos. O menino morreu, mas sua trajetória se perpetuou juntamente com a força de atrair olhares para as coisas incríveis que ele fazia, após inúmeras releituras desta fábula, muito se acrescentou e mais ainda se retirou, tanto que este jovem, a princípio um revolucionário anárquico, tornou-se um mártir do bom “mocismo”, modelo de comportamento e elemento fundamental do estado na contenção das massas, e assim foi de anarquista à moralista em questão de tempos.

    Os pais de Verônica contavam-na esta estória desde que ela se entendia por gente. Eles sempre participaram de grupos que visam discutir a “genialidade” deste menino, o que os fizeram tomá-lo como modelo de vida, não o modelo anárquico, ou do livre pensamento, mas o modelo baseado na moral, advindo de uma normativa social considerada “correta”. Desde então, muitas regras foram instituídas na casa de Verônica, mulheres sempre usaram roupas cor de rosa e homens sempre vestiram azul, tudo que fugia desse parâmetro era considerado anormal dentro daquele lar. Esta era a maneira, baseada na estória “reescrita” do menino, para obter-se uma família feliz e bem estruturada.

    Verônica nunca gostou de rosa, muito menos de azul, sua cor favorita era o verde. Passou toda a infância com a cara emburrada, sempre de mau humor por ser obrigada a usar roupas que não combinavam com ela. Entretanto, não contestava a atitude dos pais por saber que esta era a forma “correta” de meninas se vestirem, mesmo gostando de verde Verônica não tinha referenciais de meninas usando verde, era algo inato. Certo dia resolveu aparecer toda de verde em casa, era apenas um teste com seus pais, que não funcionou muito bem.

    Após inúmeras represálias sofridas por meio dos pais – que chegaram a contratar uma “profissional” especialista em moda para tentar convencê-la de que meninas só poderiam usar rosa – Verônica abriu todas as janelas de casa e começou a observar a vida lá fora, a natureza daquela parte privilegiada da cidade com tantas árvores, folhas, flores e até mesmo alguns pássaros cada um com sua cor e todos convivendo em perfeita harmonia.

    Verônica tirou sua roupa verde do armário e saiu batendo a porta, ela não levava mochila bastava uma cabeça, começando a ficar cheia de ideias. Quando chegaram a casa, seus pais encontraram sob a cômoda as roupas rosas e um bilhete, que dizia:

    “Fui ganhar o mundo, ser eu mesma. Desculpe por não ser cor de rosa como vocês queriam, não quero mais envergonhá-los. Deixem-me ser verde, livre, quero voar! Ainda amo muito vocês. Beijos, Verônica!”

    Gostaria muito de dizer que Verônica saiu de casa com sua roupa verde e foi feliz e aceita para sempre. Infelizmente, inúmeras pessoas ainda acreditam em fábulas mal contadas e usam-nas como modelos em suas vidas. Essas pessoas vivem em casas onde não há janelas, o que as impossibilita de terem conseguido ver o mesmo horizonte que Verônica avistou, são pessoas que não entendem a natureza de fato, não podem reconhecer quão belas são as cores e quão lindas ficam se colocadas lado a lado.

    Há uma semana estamos sem o verde de Verônica, ainda temos muitas cores e se quisermos que elas continuem a iluminar nosso cotidiano livrando-nos de um mundo monocromático é preciso que abramos nossas janelas. A cada janela aberta uma Verônica é salva de ser o que não é.

    Por hoje é isso, até a próxima!

  • Francisco: reconstrói a Igreja junto aos que sofrem

    Aproveitando a deixa do nome do novo Papa, Francisco, aqui destaco o Cântico das Criaturas, de Francisco de Assis, escrito há 800 anos, mesmo assim, ainda urgente e ainda atual. Na versão do poeta católico popular brasileiro, Zé Vicente.



    Onipotente e bom senhor
    A ti a honra, glória e louvor
    Todas as bençãos de ti nos vêm
    E todo o povo te diz amém
    Louvado sejas nas criaturas
    Primeiro o sol lá nas alturas
    Clareia o dia, grande esplendor
    Radiante imagem de ti, Senhor

    Louvado sejas, pela irmã lua
    No céu criaste, é obra tua
    Pelas estrelas, claras e belas
    Tu és a fonte do brilho delas


    Louvado sejas pelo irmão vento
    E pelas nuvens, o ar e o tempo
    E pela chuva que cai no chão
    Nos dás sustento, Deus da criação
    Louvado sejas, meu bom Senhor
    Pela irmã água e seu valor
    Preciosa e casta, humilde e boa
    Se corre, um canto, a ti entoa

    Louvado sejas, ó meu Senhor
    Pelo irmão fogo e seu calor
    Clareia a noite, robusto e forte
    Belo e alegre, bendita sorte

    Sejas louvado, pela irmã terra
    Mãe que sustenta e nos governa
    Produz os frutos, nos dá o pão
    Com flores e ervas sorri o chão

    Louvado sejas, ó meu Senhor
    Pelas pessoas que em teu amor
    Perdoam, sofrem tribulação
    Felicidade em ti encontrarão

    Louvado sejas, pela irmã morte
    Que vem a todos, ao fraco e ao forte
    Feliz aquele que em ti amar
    A morte eterna não o matará

    Bem-aventurado quem guarda a paz
    Pois o Altíssimo satisfaz
    Vamos louvar e agradecer
    Com humildade ao Senhor bendizer

  • Boff: esperança na restauração da Igreja com o Papa Francisco

    Francisco de Assis, santo.

    O Papa Francisco, chamado a restaurar a Igreja
    * Leonardo Boff, teólogo de origem franciscana.

    Nas redes sociais havia anunciado que o futuro Papa iria se chamar Francisco. E não me enganei. Por que Francisco? Porque São Francisco começou sua conversão ao ouvir o Crucifixo da capelinha de São Damião lhe dizer: ”Francisco, vai e restaura a minha casa; olhe que ela está em ruinas” (S.Boaventura, Legenda MaiorII,1).

    Francisco tomou ao pé da letra estas palavras e reconstruíu a igrejinha da Porciúncula que existe ainda em Assis dentro de uma imensa catedral. Depois entendeu que se tratava de algo espiritual: restaurar a “Igreja que Cristo resgatara com seu sangue” (op.cit). Foi então que começou seu movimento de renovação da Igreja que era presidida pelo Papa mais poderoso da história, Inocêncio III. Começou morando com os hansenianos e de braço com um deles ia pelos caminhos pregando o evangelho em língua popular e não em latim.

    É bom que se saiba que Francisco nunca foi padre mas apenas leigo. Só no final da vida, quando os Papas proibiram que os leigos pregassem, aceitou ser diácono à condição de não receber nenhuma remuneração pelo cargo.

    Por que o Card. Jorge Mario Bergoglio escolheu o nome de Francisco? A meu ver foi exatamente porque se deu conta de que a Igreja está em ruinas pela desmoralização dos vários escândalos  que atingiram o que ela tinha de mais precioso: a moralidade e a credibilidade.

    Francisco não é um nome. É um projeto de Igreja, pobre, simples, evangélica e destituída de todo o poder. É uma Igreja que anda pelos caminhos, junto com os últimos; que cria as primeiras comunidades de irmãos que rezam o breviário debaixo de árvores junto com os passarinhos. É uma Igreja ecológica que chama a todos os seres com a doce palavra de “irmãos e irmãs”. Francisco se mostrou obediente à Igreja dos Papas e, ao mesmo tempo, seguiu seu próprio caminho com o evangelho da pobreza na mão. Escreveu o então teólogo Joseph Ratzinger: ”O não de Francisco àquele tipo de Igreja não poderia ser mais radical, é o que chamaríamos de protesto profético”(em Zeit Jesu, Herder 1970, 269). Ele não fala, simplesmente inaugura o novo.

    Creio que o Papa Francisco tem em mente uma Igreja assim, fora dos palácios e dos símbolos do poder. Mostrou-o ao aparecer em público. Normalmente os Papas e Ratizinger principalmente punham sobre os ombros a mozeta aquela capinha, cheia de brocados e ouro que só os imperadores podiam usar. O Papa Francisco veio simplesmente vestido de branco e com a cruz de bispo. Três pontos são de ressaltar em sua fala e são de grande significação simbólica.

    O primeiro: disse que quer “presidir na caridade”. Isso desde a Reforma e nos melhores teólogos do ecumenismo era cobrado. O Papa não deve presidir com como um monarca absoluto, revestido de poder sagrado como o prevê o direito canônico. Segundo Jesus, deve presidir no amor e fortalecer a fé dos irmãos e irmãs.

    O segundo: deu centralidade ao Povo de Deus, tão realçada pelo Vaticano II e posta de lado pelos dois Papas anteriores em favor da Hierarquia. O Papa Francisco, humildemente, pede que o Povo de Deus reze por ele e o abençoe. Somente depois, ele abençoará o Povo de Deus. Isto significa: ele está ai para servir e não par ser servido. Pede que o ajudem a construir um caminho juntos. E clama por fraternidade para toda a humanidade onde os seres humanos não se reconhecem como irmãos e irmãs mas reféns dos mecanismos da economia.

    Por fim, evitou toda a espetacularização da figura do Papa. Não estendeu os braços para saudar o povo. Ficou parado, imóvel, sério e sóbrio, diria, quase assustado. Apenas se via a figura branca que olhava com carinho para a multidão. Mas irradiava paz e confiança. Usou de humor falando sem uma retórica oficialista. Como um pastor fala aos seus fiéis.

    Cabe por último ressaltar que é um Papa que vem do Grande Sul, onde estão os pobres da Terra e onde vivem 60% dos católicos. Com sua experiência de pastor, com uma nova visão das coisas, a partir de baixo, poderá reformar a Cúria, descentralizar a administração e conferir um rosto novo e crível à Igreja.

    Leonardo Boff é autor de São Francisco de Assis: ternura e vigor, Vozes 1999.

    Comentário a este artigo de Leonardo Boff por Severino Fernandes, no Blog do Luis Nassif.

    Papa Francisco, eleito em 13/03/2013.

    Confesso que não compartilho do mesmo otimismo do irmão em Cristo e Francisco, o teólogo Leonardo Boff. Mas compartilho de sua esperança de que a Igreja sob o papado de Francisco I tome novos rumos, e que esses rumos se deem em torno de uma Igreja cuja centralidade não se dê em torno de um grupo de cardeais, mas sim em torno do Povo de Deus.

    Embora ressabiado com o passado ainda dúbio do cardeal Bergoglio e sua possível (espero que não) ligação com a cruel e desumana ditadura militar argentina, confesso que a humildade do novo papa chamou-me muito a atenção, lembrou-me a apresentação do papa João Paulo I, em 1978. O papa cujo sorriso irradiava esperança e que infelizmente morreu 33 dias depois, uma morte infelizmente até aqui mal esclarecida e sob circunstâncias pra lá de duvidosas, sabendo-se que João Paulo I apontava para a continuidade dos ventos liberalizantes do Concílio Vaticano II, ainda de forma mais radical e profunda.

    Depois vieram João Paulo II e Bento XVI, que ao contrário de seus antecessores (João XXIII, Paulo VI e o próprio João Paulo I) não deram continuidade ao espírito transformador do Vaticano II e das Conferências Episcopais de Puebla e Medellin.

    João Paulo II, carismático, mas ultra-conservador, tratou de esmagar a Teologia da Libertação e sua “opção preferencial pelos pobres”, em nome de um combate ao marxismo que tinha raízes na sua Polônia, então um satélite do bloco comunista liderado pela antiga União Soviética. Ao esmagar a TL, o papa polonês ajudou a perseguir todos os teólogos e religiosos comprometidos com as Comunidades Eclesiais de Base e com uma Igreja feita a partir da base e que apontava para o enfrentamento contra ditaduras de direita e modelos econômicos que condenavam milhões de seres humanos à fome e à miséria na América Latina, África e outros pontos do chamado Terceiro Mundo.

    O próprio Boff foi vítima dessa perseguição. O então religioso da Ordem dos Frades Menores de São Francisco de Assis se viu cara a cara com o cardeal alemão Joseph Ratzinger, que foi inflexível diante da teologia libertária e comprometida com os pobres do jovem frade franciscano.

    Boff acabou silenciado, e mais tarde teve que deixar o exercício do ministério sacerdotal para, como ele mesmo disse, continuar “católico” e “comprometido com os pobres” e não com a hierarquia da Igreja de Roma.

    Ratzinger, que comandou com mão de ferro a Congregação para a Doutrina da Fé (o antigo Santo Ofício ou Inquisição Católica), como sabemos, acabou sendo eleito papa, assumindo-se como Bento XVI. E deu continuidade ao ultra-conservadorismo pró-Curia Romana de seu antecessor (João Paulo II), de quem era braço direito em questões doutrinárias e dogmáticas.

    De qualquer forma como cristão e franciscano tenho esperança que Francisco I retome o caminho de onde ele foi paralisado no distante 1978, com o papa do sorriso, e aprofunde as mudanças necessárias para a construção de uma verdadeira Igreja Povo de Deus, e que seu destino não seja o desse papa do sorriso  (João Paulo I), de morte precoce (e suspeita para muitos).

    Que o Espírito Santo lhe ilumine e lhe dê forças e coragem para enfrentar a Curia Romana e todos os desvios doutrinários e morais que tem acometido a Igreja nos tempos atuais.

    Que ele, no espírito de São Francisco de Assis, seja de fato aquele que irá reconstruir a Igreja no momento em que ela precisa dessa reconstrução, que não será fácil, mas será tanto melhor, maior e mais efetiva, se ele alicerçar-se no Povo de Deus. O mesmo Povo de Deus para o qual ele humildemente pediu a benção e as orações no  momento de sua apresentação como Sumo Pontífice.

    Que as sandálias humildes do pescador Pedro lhe caibam nos pés, mais do que a pompa e antiga e pesada coroa que antigamente ornava a cabeça de poderosos e por vezes nada pios e muito menos cristãos papas.

  • Bem vindo, Papa Francisco!

    Argentino, Jorge Bergoglio, Papa Francisco,
    eleito bispo de Roma em 13/03/2013

    Um Papa que, ainda quando cardeal, andava de ônibus e metrô, no meio de seus fiéis, ou que preparava a própria comida, me anima e me dá esperanças de um reencontro salutar de nossa Igreja com o Nazareno, seu fundador e Mestre, que não titubeava de andar com agricultores, pescadores, mulheres, cobradores de impostos e outras pessoas de classe humilde da sua época.

    “Hoje temos padres de Fórmula 1, que celebram missa com carrão e voltam logo para casa. Quem sabe o novo papa vai animá-los a deixar de fazer pit stop nas bases para ficar uma semana no interior, na “aldeia indígena’ (na comunidade rural, na favela, na periferia, na família desestabilizada) onde pregam”. Teólogo Pe. Paulo Suess (Cimi).

    O Espírito Santo não se cansa de me surpreender! Graças a Deus! Bem vindo, Papa Francisco! Venha ajudar a reconstruir a Igreja de Jesus no coração das pessoas, especialmente dos mais necessitados!