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  • Homenagem ao Professor Antônio Ribeiro Neto

    Homenagem ao Professor Antônio Ribeiro Neto


    Por Levon Nascimento

    Com profundo pesar, registro o falecimento do professor Antônio Ribeiro Neto, ocorrido em 11 de julho de 2025. Mestre aposentado de Geografia, ele dedicou anos de sua vida à educação na Escola Estadual Oswaldo Lucas Mendes, em Taiobeiras.

    Foi sob sua orientação, nas salas de aula da 8ª série e do 1º ano do Técnico em Contabilidade, que aprendi não apenas a localizar países no mapa-múndi e seus nomes, mas também a compreender a complexidade do mundo. O professor Antônio nos apresentou conceitos fundamentais: as economias planificadas, a divisão entre Primeiro e Terceiro Mundos, iluminando realidades distantes.

    Seu magistério foi vivido em um período histórico efervescente: o fim da Guerra Fria, a emblemática queda do Muro de Berlim, a dissolução da URSS, a primeira Guerra do Golfo e, no Brasil, a redemocratização com a primeira eleição direta para presidente após o longo período da ditadura militar (1964-1985). Com ele, tive o privilégio de não apenas testemunhar esses fatos marcantes, mas de compreendê-los através da lente precisa de quem dominava profundamente a Geografia e a História.

    Na sala de aula, era conhecido pelo rigor e pela exigência. Nos corredores da escola, revelava-se um companheiro acessível. No trato diário, destacava-se pela fina educação e pela cortesia que lhe eram características.

    A ausência do professor Antônio Ribeiro Neto deixará um vazio. Taiobeiras perde um de seus grandes mestres.

    Que os aplausos ecoem em sua homenagem. Um grande professor, uma memória que permanecerá.

  • A semana que encerra e os desafios do Brasil: soberania, justiça e o futuro da Nação

    A semana que encerra e os desafios do Brasil: soberania, justiça e o futuro da Nação

    O Brasil sob ataque

    A semana que finda em 12 de julho de 2025 entrará para a história como um divisor de águas na trajetória brasileira. Entre ameaças externas, tensões políticas domésticas e desafios econômicos estruturais, o Brasil viu-se diante de uma encruzilhada que testou sua soberania, sua coesão institucional e seu projeto de nação. A imposição de tarifas de 50% por Donald Trump aos produtos brasileiros, justificada como represália às investigações contra Jair Bolsonaro, não foi apenas um ato econômico: foi uma declaração de guerra assimétrica contra a democracia brasileira.


    1. A ingerência externa e a resposta brasileira

    A chantagem como ferramenta geopolítica

    A carta pública de Donald Trump, vinculando tarifas comerciais à interferência no processo judicial contra Bolsonaro, configurou um inédito ataque à soberania nacional. Como destacou José Dirceu, trata-se de uma “conspiração contra o Brasil”, onde o bolsonarismo atuou como vetor de interesses estrangeiros: “Bolsonaro e seus filhos devem ser processados por traição e conspiração contra a segurança nacional”. A reação de Lula foi imediata e contundente: invocou a Lei de Reciprocidade Econômica e afirmou que o Brasil “não aceitará ser tutelado por ninguém”.

    O paradoxo de Trump: um tiro no pé

    Analistas como Juan Pablo Spinetto (Bloomberg) apontam que a medida de Trump pode fortalecer Lula politicamente. Ao unir a opinião pública em torno da defesa da soberania, Trump desvia o foco da oposição e fragiliza aliados de Bolsonaro, como Tarcísio de Freitas, que se alinhou publicamente ao presidente estadunidense.

    “Ao se envolver no caso de Bolsonaro, Trump acaba prejudicando inadvertidamente as melhores chances da direita de derrotar Lula” – JP Spinetto.


    2. As fraturas internas: bolsonarismo e submissão

    Tarcísio e a inversão institucional

    O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, protagonizou um episódio surreal: telefonou a ministros do STF para propor a devolução do passaporte de Bolsonaro, permitindo que ele “negociasse” com Trump o fim das tarifas. Leonardo Sakamoto sintetizou o absurdo: “Tarcísio jogou a institucionalidade no lixo e agiu como office boy de Bolsonaro”. A atitude ignora que o confisco do passaporte visa impedir a fuga de um investigado por tentativa de golpe de Estado.

    A elite conivente e seu despertar tardio

    Dirceu critica a conivência das elites econômicas com o bolsonarismo, que fecharam os olhos ao financiamento do 8 de janeiro e à estadia ilegal de Eduardo Bolsonaro nos EUA. Agora, com perdas concretas – como 58 contêineres de pescados barrados nos EUA –, parte delas reage.


    3. Os desafios estruturais: entre a reindustrialização e a justiça tributária

    A economia fechada e a desindustrialização

    Vitor Lippi (deputado federal) alerta que o Brasil tem “baixa integração às cadeias globais de valor” e é uma “economia fechada”, dependente de commodities. Apesar de cases de sucesso como Embraer e Weg, falta uma estratégia agressiva de inserção internacional.

    A taxação dos super-ricos: uma questão de equidade

    Neste contexto, a defesa da taxação de grandes fortunas por Walter Salles Jr. – ele mesmo herdeiro de uma das 50 maiores fortunas do Brasil – ecoa como um manifesto ético: “É importante corrigir as distorções de um sistema que cobra mais de quem tem menos”. Sua posição simboliza o amadurecimento de setores privilegiados que entendem que a justiça fiscal é um pilar da coesão social.


    4. Geopolítica: BRICS, China e o novo multilateralismo

    A solidariedade dos BRICS

    A resposta de Lula às tarifas não se limitou ao plano bilateral: articulou-se no âmbito dos BRICS. A China já criticou publicamente as tarifas de Trump, afirmando que “não devem ser usadas como instrumentos de coerção”. O bloco representa um contraponto ao unilateralismo estadunidense e um canal para diversificar parcerias.

    A guerra cibernética e a soberania digital

    Celso Amorim (ex-ministro da Defesa e das Relações Exteriores) lembra que o Brasil já sofreu ataques cibernéticos contra empresas e instituições de Estado. Em um mundo onde “a linha entre espionagem e guerra é tênue”, a soberania digital é um novo front de defesa nacional.


    5. Os pilares para reconstrução

    A semana que encerra expôs feridas abertas, mas também apontou caminhos:

    1. Soberania como valor absoluto: A resposta à chantagem de Trump deve ser técnica (Lei de Reciprocidade) e diplomática (articulação com BRICS).
    2. Justiça tributária como projeto nacional: A taxação de grandes fortunas, como defendida por Salles, é um passo para reduzir desigualdades históricas.
    3. Reindustrialização inclusiva: Integrar-se às cadeias globais de valor exige abrir a economia sem abdicar de políticas industriais estratégicas.
    4. Unidade democrática: A defesa das instituições – STF, TSE, Presidência – não é uma bandeira partidária, mas um imperativo cívico.

    “O Brasil é dos brasileiros” – Lula.

    Em um momento onde forças externas e internas buscam fragilizar o projeto nacional, a resposta deve ser a construção de um pacto social pela soberania, envolvendo empresários, trabalhadores e Estado. Como alertou Dirceu: “Hoje parece claro que quem está com Trump está contra o Brasil”. A semana que passou não foi apenas um teste: foi um chamado à reinvenção do Brasil como nação soberana, justa e globalmente relevante.

    REFERÊNCIAS

    DIRCEU, J. “Bolsonarismo e submissão a Trump colocam em risco a soberania nacional”. Brasil 247, 9 jul. 2025. Disponível em: https://www.brasil247.com/brasil/bolsonarismo-e-submissao-a-trump-colocam-em-risco-a-soberania-nacional-alerta-jose-dirceu. Acesso em: 11 jul. 2025.

    LULA, L. I. Reação a anúncio de tarifas de Trump. Twitter, 9 jul. 2025. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/economia/lula-reagem-trump-tarifa-lei-brasileira/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    SAKAMOTO, L. “Tarcísio joga institucionalidade no lixo e age como office boy de Bolsonaro”. UOL, 11 jul. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2025/07/11/tarcisio-joga-institucionalidade-no-lixo-e-age-como-office-boy-de-bolsonaro.htm. Acesso em: 11 jul. 2025.

    SPINETTO, J. P. “Ameaça tarifária de Trump pode fortalecer Lula”. Bloomberg via ICL Notícias, 11 jul. 2025. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/economia/tarifa-trump-fortalecer-lula-spinetto/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    LIPPI, V. “O desafio do Brasil para ser competitivo na produção global”. Poder360, 11 jul. 2022. Disponível em: https://www.poder360.com.br/opiniao/o-desafio-do-brasil-para-ser-competitivo-na-producao-global/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    AMORIM, C. “Segurança Internacional: novos desafios para o Brasil”. Contexto Internacional, v. 35, n. 1, 2013. Disponível em: https://www.scielo.br/j/cint/a/BQqGv36X8LW7CN4tGbBRFrb/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    SALLES, W. Discurso no Prêmio Faz a Diferença. ICL Notícias, 8 jul. 2025. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/walter-salles-defende-taxacao/. Acesso em: 11 jul. 2025.

  • O tarifaço de Trump: agressão econômica e ofensa à soberania brasileira

    O tarifaço de Trump: agressão econômica e ofensa à soberania brasileira

    Segue uma síntese das leituras jornalísticas que fiz no calor da repercussão do injusto e equivocado “tarifaço” de Donald Trump ao Brasil. Compartilho para contribuir na sua formação de opinião.
    Levon Nascimento

    A decisão unilateral de Donald Trump de impor tarifas de 50% sobre exportações brasileiras aos EUA, anunciada em 9 de julho de 2025, transcende uma mera disputa comercial. Trata-se de uma manobra política articulada para interferir nos assuntos internos do Brasil, conforme demonstram as justificativas apresentadas pelo presidente norte-americano. Em sua carta oficial ao governo brasileiro, Trump vinculou explicitamente as tarifas ao processo judicial contra Jair Bolsonaro, classificando as investigações do STF como “caça às bruxas” e exigindo seu fim “IMEDIATAMENTE!” (CARTA CAPITAL, 2025c; BRASIL 247, 2025b). Essa intromissão descarada em nossa soberania judicial foi definida pelo ex-embaixador Rubens Ricupero como “intervenção inaceitável contra a nação brasileira” (CARTA CAPITAL, 2025b).

    A alegação de “déficits comerciais insustentáveis” apresentada por Trump colapsa ante aos dados concretos. Como destacam analistas, os EUA mantêm superávit comercial com o Brasil há 15 anos consecutivos, acumulando US$ 410 bilhões nesse período (BRASIL 247, 2025d). Só em 2025, até maio, esse saldo positivo já atingia US$ 1,6 bilhão. A incoerência revela o verdadeiro propósito: servir de instrumento de pressão para beneficiar politicamente Bolsonaro, cujo filho, Eduardo Bolsonaro, encontrava-se nos EUA durante o anúncio das tarifas (CARTA CAPITAL, 2025a).

    Economicamente, a medida afetará setores estratégicos como café (onde o Brasil fornece 8 milhões de sacas/ano aos EUA), carnes, suco de laranja e aeronaves da Embraer – esta última com 60% de suas vendas atreladas ao mercado norte-americano (CARTA CAPITAL, 2025c). Estimativas do BTG Pactual projetam perdas de US$ 7 bilhões em 2025 (0,3% do PIB), com impacto inflacionário pelo dólar a R$ 5,60 (BRASIL 247, 2025g). Contudo, a capacidade de redirecionar exportações para os BRICS e Ásia atua como amortecedor, reduzindo a vulnerabilidade brasileira.

    A resposta do governo Lula combinou firmeza diplomática e ação prática. O presidente anunciou a Lei de Reciprocidade Econômica, estabelecendo tarifas equivalentes sobre produtos norte-americanos caso a OMC não suspenda a medida trumpista (ICL NOTÍCIAS, 2025a). Paralelamente, criou um comitê empresarial para reestruturar relações comerciais e articula uma frente internacional com parceiros estratégicos (ICL NOTÍCIAS, 2025b; BRASIL 247, 2025a). Como afirmou Lula: “Não aceitamos tutela. Somos um país soberano” (ICL NOTÍCIAS, 2025c), ecoando o sentimento de setores do agronegócio que apoiam a retaliação (BRASIL 247, 2025g).

    Ironicamente, a agressividade de Trump fortaleceu a unidade nacional em torno da soberania. A deputada norte-americana Alexandria Ocasio-Cortez denunciou o ato como “corrupção descarada” ao favorecer Bolsonaro (BRASIL 247, 2025f), enquanto o STF reafirmou sua autoridade ao ignorar as pressões externas (CARTA CAPITAL, 2025d). O episódio expõe a transformação dos EUA, sob a liderança trumpista, em “adversário do Brasil“, nas palavras do ex-embaixador em Washington (CARTA CAPITAL, 2025e).

    O tarifaço consolida-se como um marco geopolítico: demonstra que o Brasil possui instrumentos para defender seus interesses e que o unilateralismo comercial gera reações coordenadas. A articulação com os BRICS e a OMC sinaliza que a era da submissão a decisões extraterritoriais chegou ao fim. Nas palavras de Ricupero, essa “agressão sem precedentes exige resposta no mesmo nível” (CARTA CAPITAL, 2025c) – resposta que o Brasil está construindo com soberania e estratégia.

    REFERÊNCIAS

    BRASIL 247. Bolsonaro se curva a Trump e justifica tarifas contra o Brasil. 2025a. Disponível em: https://www.brasil247.com/regionais/brasilia/bolsonaro-se-curva-a-trump-e-justifica-tarifas-contra-o-brasil. Acesso em: 11 jul. 2025.

    BRASIL 247. Lula critica intromissão de Trump no Brasil: “Desaforo inaceitável e inadmissível”. 2025b. Disponível em: https://www.brasil247.com/brasil/lula-critica-intromissao-de-trump-no-brasil-desaforo-inaceitavel-e-inadmissivel. Acesso em: 11 jul. 2025.

    BRASIL 247. Lula anuncia mobilização internacional para enfrentar tarifaço de Trump. 2025c. Disponível em: https://www.brasil247.com/brasil/lula-anuncia-mobilizacao-internacional-para-enfrentar-tarifaco-de-trump. Acesso em: 11 jul. 2025.

    BRASIL 247. Entidades do agro e de setores empresariais apoiam reação de Lula contra Trump. 2025d. Disponível em: https://www.brasil247.com/economia/entidades-do-agro-e-de-setores-empresariais-apoiam-reacao-de-lula-contra-trump. Acesso em: 11 jul. 2025.

    CARTA CAPITAL. Bolsonaro “sentou na boca do canhão” que apontava para Lula. 2025a. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/mundo/bolsonaro-sentou-se-na-boca-do-canhao-que-apontava-para-lula/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    CARTA CAPITAL. Intromissão de Trump em favor de Bolsonaro é um presente eleitoral para Lula, diz Ricupero. 2025b. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/politica/intromissao-de-trump-em-favor-de-bolsonaro-e-um-presente-eleitoral-para-lula-diz-ricupero/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    CARTA CAPITAL. Tarifa de Trump não tem precedentes e exige reação do Brasil no mesmo nível, diz Ricupero. 2025c. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/economia/tarifa-de-trump-nao-tem-precedentes-e-exige-reacao-do-brasil-no-mesmo-nivel-diz-ricupero/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    CARTA CAPITAL. A reação do STF à defesa de Donald Trump a Jair Bolsonaro. 2025d. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/politica/a-reacao-do-stf-a-defesa-de-donald-trump-a-jair-bolsonaro/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    CARTA CAPITAL. Descontrolado, Trump torna os EUA adversários do Brasil, diz ex-embaixador em Washington. 2025e. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/economia/descontrolado-trump-torna-os-eua-adversarios-do-brasil-diz-ex-embaixador-em-washington/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    ICL NOTÍCIAS. Tarifaco: Lula anuncia lei de reciprocidade se OMC não agir. 2025a. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/tarifaco-lula-lei-reciprocidade-se-omc-nao-agir/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    ICL NOTÍCIAS. Lula anuncia comitê com empresários como resposta a Trump. 2025b. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/lula-anuncia-comite-empresarios-resposta-trump/. Acesso em: 11 jul. 2025.

    ICL NOTÍCIAS. Lula critica tarifacos, exalta multilateralismo e diz que Brasil não aceita tutela. 2025c. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/lula-critica-tarifacos-exalta-multilateralismo/. Acesso em: 11 jul. 2025.

  • Educação popular e resistência no Alto Rio Pardo são tema de tese de doutorado defendida na UFG

    Educação popular e resistência no Alto Rio Pardo são tema de tese de doutorado defendida na UFG

    Tese de Érika Fernanda Pereira de Souza investiga processos formativos populares em territórios do Norte de Minas e revela como a educação foi fundamental na construção da organização social camponesa

    Foi defendida no final de 2024, na Universidade Federal de Goiás (UFG), a tese de doutorado da educadora Érika Fernanda Pereira de Souza, intitulada “Educação Popular e Organização Social: Processos Formativos e Resistência Popular no Território Alto Rio Pardo – MG”. Fruto de uma extensa pesquisa de campo e análise documental, o estudo mostra como, entre os anos 1970 e 2019, diversas experiências de educação popular contribuíram decisivamente para a formação política e a organização coletiva de camponeses, geraizeiros e comunidades tradicionais na região norte-mineira.

    A pesquisa, orientada pelo professor José Paulo Pietrafesa, insere-se na linha de Trabalho, Educação e Movimentos Sociais do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE/UFG). Com base em referenciais teóricos marxistas e freireanos, a tese analisa a constituição histórica dos conflitos no território do Alto Rio Pardo, intensificados pela expansão do capital agrário e da monocultura de eucalipto, e busca compreender de que maneira os processos formativos populares se articularam à resistência social e política das populações locais.

    Dois eixos centrais atravessam o trabalho: a atuação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e o Programa de Formação do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA/NM). Ambas as experiências foram fundamentais para criar espaços de formação política, consciência crítica e engajamento em práticas coletivas de enfrentamento às expropriações de terra, degradação ambiental e às violações de direitos das populações tradicionais.

    A autora propõe o conceito de “Pedagogia do Balaio” como forma de designar a metodologia comunitária adotada pelas CEBs — inspirada em práticas que valorizam a partilha, a escuta e a construção coletiva do saber, em oposição à lógica individualizante do capital. Em contraponto, apresenta também a noção de “Pedagogia da Porrada”, expressão atribuída às formações desenvolvidas em contextos de conflito direto, especialmente sob a mediação da Comissão Pastoral da Terra (CPT), quando comunidades precisavam decidir entre resistir ou recuar frente à ofensiva do agronegócio e da mineração.

    Para construir a narrativa, Érika realizou dezenas de entrevistas com sujeitos que vivenciaram esses processos formativos, como educadores populares, lideranças sindicais, agentes pastorais, membros de comunidades camponesas e egressos do Curso de Formação do CAA/NM. Entre os entrevistados estão nomes como Paulo Faccion (CPT), Mirian Nogueira (CAA/NM), Valdir Dias, Aurindo Ribeiro, Udilésio Oliveira, além do professor e pesquisador Levon Nascimento, que colaborou cedendo parte de seu acervo pessoal de cartilhas usadas nas formações das CEBs. Esses documentos se revelaram fontes preciosas para a reconstituição das metodologias pedagógicas e dos conteúdos debatidos ao longo das décadas.

    A tese apresenta ainda um panorama da história agrária do Norte de Minas, com especial atenção à formação do campesinato geraizeiro, às práticas de solidariedade territorial e às conquistas recentes, como o Projeto de Assentamento Agroextrativista Veredas Vivas e a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Nascentes Geraizeiras, ambas frutos da organização popular. Ao mesmo tempo, evidencia o esvaziamento das práticas formativas nas últimas décadas como um dos entraves à continuidade da ação coletiva no território, em um contexto de avanço da racionalidade neoliberal e desmonte de políticas públicas voltadas para o campo.

    Por fim, a pesquisadora destaca que compreender a história das formações populares no Alto Rio Pardo é essencial para pensar alternativas à crise da democracia e ao modelo predatório de desenvolvimento que marca a região. A tese se soma ao esforço de construção de uma memória social insurgente e de afirmação de práticas educativas comprometidas com a transformação social, a soberania dos povos do Cerrado e a justiça socioambiental.

  • Os párocos de São Sebastião de Taiobeiras

    Os párocos de São Sebastião de Taiobeiras

    1935: Criação da Paróquia e início da presença dos frades franciscanos

    1° Pároco:
    Frei Jucundiano de Kok (1940 – 1974)

    2° Pároco:
    Frei Salésio Heskes (1975 – 1988)

    3° Pároco:
    Frei João José de Jesus (1988 – 1992)

    4° Pároco:
    Frei Ronaldo Zwinkels (1993)

    5° Pároco:
    Frei Feliciano van Sambeek (1994)

    6° Pároco:
    Frei Berardo Kleuskens (1995 – 1998)

    7° Pároco:
    Frei José da Silva Pereira (1999 – 2000)

    8° Pároco:
    Frei Antônio Teófilo da Silva Filho (2001 – 2007)

    2007: Fim da presença dos frades franciscanos e início da presença dos padres diocesanos

    9° Pároco:
    Padre Inivaldo Fernandes de Lima (2007 – 2009)

    2010: Fim da presença dos padres diocesanos e início da presença dos padres Missionários da Sagrada Família

    10° Pároco:
    Padre José Ivan Alckimim (2010 – 2020)

    11° Pároco:
    Padre Vanderlei Souza da Silva (2021)

    2022: Fim da presença dos padres Missionários da Sagrada Família e retorno da presença dos padres diocesanos

    12° Pároco:
    Padre Gilberto Rodrigues dos Santos Júnior
    (2022 – Atual)

  • Lançamento do livro “Quando o chão e o céu se encontram” reúne educadores, agentes culturais e estudantes em noite de emoção e reflexão em Taiobeiras

    Lançamento do livro “Quando o chão e o céu se encontram” reúne educadores, agentes culturais e estudantes em noite de emoção e reflexão em Taiobeiras

    Na noite de 18 de junho de 2025, a Biblioteca Pública Zenilde Mota Maia, em Taiobeiras (MG), foi palco de um encontro que uniu literatura, memória, espiritualidade e compromisso social. Entre 19h e 21h30, aconteceu o lançamento do livro “Quando o chão e o céu se encontram”, de Levon Nascimento, publicado pela 3i Editora, com expressiva participação de educadores, agentes políticos e culturais, jovens, estudantes, amigos e familiares do autor.

    A escolha da data não foi por acaso: o evento celebrou os 10 anos da publicação da encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, um dos principais inspiradores da obra. O apoio cultural veio do coletivo Juntos Para Servir, que congrega os mandatos do Deputado Federal Padre João (PT/MG) e do Deputado Estadual Leleco Pimentel (PT/MG).

    A cerimônia foi conduzida com leveza e emoção pela servidora da própria Biblioteca, Eliana Alves, que atuou como mestre de cerimônias. Diversas homenagens marcaram a noite, entre elas à memória de Anelza Rita de Miranda, bibliotecária que por décadas cuidou com zelo do espaço cultural que agora sediava o lançamento, e a Frei Jucundiano de Kok, primeiro pároco de Taiobeiras e personagem destacado nas páginas do livro. Também foram recordados o Papa Francisco e sua luta por uma Ecologia Integral, uma das linhas centrais da obra.

    O autor, Levon Nascimento, trouxe ao público um discurso marcado pela emoção e pela denúncia social, reforçando o caráter engajado do livro, que transita entre memórias do sertão mineiro, crítica ao modelo econômico destrutivo e reflexões sobre espiritualidade libertadora.

    Durante a cerimônia, convidados fizeram leituras de trechos da obra, apresentando ao público personagens como o próprio Frei Jucundiano, as educadoras Duca Queiroz e Célia Egídio, o escritor Milton Santiago, a declamadora Nair Freitas, o cronista Vlade Patrício, o ativista Uenio Thuary e o padre Júlio Lancellotti, além de reflexões sobre o meio ambiente, a crise climática, os desafios políticos contemporâneos e a resistência dos povos tradicionais do Norte de Minas, como os geraizeiros.

    Com uma linguagem que entrelaça poesia, história, espiritualidade e análise social, Levon propõe em “Quando o chão e o céu se encontram” uma leitura comprometida com a vida, com os pobres e com o futuro da Casa Comum. A obra é um convite ao diálogo entre fé e política, entre o chão sertanejo e o céu das utopias possíveis.

    Ao final do evento, o autor agradeceu aos presentes, aos apoiadores culturais e à equipe da Biblioteca Pública de Taiobeiras, além de reforçar o chamado à esperança, à resistência e ao cuidado com as pessoas e com o planeta.

    Laudato Si’, meu Senhor! — como resumiu Levon, encerrando a noite com um agradecimento coletivo.

  • Água, gente e sabedoria: a lição do sertão que o Papa Francisco aplaudiria

    Água, gente e sabedoria: a lição do sertão que o Papa Francisco aplaudiria

    Por Levon Nascimento

    Imagine um mapa que não mostra só rios e montanhas, mas histórias de resistência. É assim o estudo para criar a Reserva Tamanduá-Poções-Peixe Bravo no Norte de Minas. E ao lê-lo com os olhos da Encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, a gente entende: esse projeto é um retrato vivo do que o Papa chama de “ecologia integral” – onde natureza e cultura se abraçam. 

    No coração do Cerrado mineiro, comunidades geraizeiras e quilombolas vivem há séculos seguindo uma regra sagrada: “cada roda tem seu fuso, cada terra tem seu uso”. Como disse o Papa (LS 63), os saberes tradicionais são “um patrimônio cultural” que protege a terra. Eles sabem que:
    Chapadas guardam água como esponjas; 
    Carrascos (transição entre Cerrado e Caatinga) são farmácias naturais; 
    Vazantes alimentam gente e bicho na seca. 

    Mas essa sabedoria está ameaçada. O estudo do ICMBio mostra o avanço do eucalipto que seca nascentes e da mineração que rasga o solo. É a “cultura do descarte” que o Papa critica (LS 22): tratar a terra como mercadoria, não como lar. 

    A Laudato Si’ é enfática: “O acesso à água potável é direito humano básico” (LS 30). Pois a região da RDS é um berço d’água estratégico: 
    Abastece as bacias do São Francisco e Jequitinhonha; 
    Protege campos ferruginosos – formações raras que filtram e armazenam água; 
    Rios como o Peixe Bravo já sofrem com assoreamento e seca. 

    Sem a RDS, o “paradigma tecnocrático” (LS 109) – que vê a natureza como recurso infinito – continuará sugando a vida do sertão. 
     
    A ideia da Reserva nasceu das comunidades: 
    1. Geraizeiros pediram proteção quando viram seus “gerais” virando desertos verdes de eucalipto; 
    2. Quilombolas do Peixe Bravo uniram-se à luta, fortalecendo o tecido social (LS 149); 
    3. Até pesquisadores que queriam um Parque Nacional entenderam: aqui, gente e natureza são inseparáveis

    Como diz a Laudato Si’ (LS 143): “A ecologia também requer a preservação da cultura dos povos”.

    Criar a RDS Tamanduá, Poções e Peixe Bravo não é só “fazer uma reserva”. É: 
    – Proteger a “casa comum” (LS 3) num bioma que já perdeu 80% de sua vegetação; 
    – Valorizar os “últimos” (LS 158) – geraizeiros e quilombolas que defendem a terra com sabedoria ancestral; 
    – Garantir água para o futuro, numa região onde o clima semiárido se agrava. 

    O estudo técnico do ICMBio e a voz do Papa Francisco concordam: não há justiça ambiental sem justiça social. Neste sertão mineiro, a vida teima em florescer. Cabe a nós regá-la. 

    “Tudo está interligado. Por isso, requer-se uma preocupação pelo meio ambiente unida ao amor sincero pelos seres humanos.” 
    (Laudato Si’, 91) 

    P.S.: Este artigo é um chamado. Apoie a criação da RDS Tamanduá, Poções e Peixe Bravo. É um passo concreto para ouvir “o clamor da terra e o clamor dos pobres” (LS 49). Afinal, como ensina o sertão: “Água parada vira lama, gente unida vira correnteza”.

    Levon Nascimento é doutorando em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável pelo Centro Universitário Dom Helder Câmara.

    Referências

    FRANCISCO. Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum. Vaticano, 24 maio 2015. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html. Acesso em: 3 jun. 2025. 

    MAIA, L. J.; VALARINI FILHO, L.; NOVAES, V. Síntese de estudos técnicos: proposta de criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Córregos Tamanduá-Poções-Peixe Bravo. Brasília: ICMBio, 2025. 39 p. Arquivo PDF. 

  • O que são as Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) e por que incomodam tanto?

    O que são as Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) e por que incomodam tanto?

    Por Levon Nascimento

    As Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) são um tipo de unidade de conservação criado para proteger a natureza sem excluir as populações humanas que dela dependem. Ao contrário de áreas de preservação estrita, as RDS conciliam o uso sustentável dos recursos naturais com o modo de vida de comunidades tradicionais. Previstas pela Lei nº 9.985/2000, que institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), elas representam um modelo alternativo de desenvolvimento: mais ecológico, participativo e descentralizado (BRASIL, 2000).

    1. O que é uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável?

    De acordo com o Art. 20 do SNUC, uma RDS é uma área natural que abriga populações tradicionais cuja sobrevivência depende de formas sustentáveis de uso da natureza, desenvolvidas ao longo de gerações. Essas práticas são adaptadas ao ambiente local e desempenham papel importante na proteção da biodiversidade (BRASIL, 2000).

    As RDS não apenas preservam a fauna e flora, mas também reconhecem o valor dos saberes tradicionais. Cada reserva deve ter um Conselho Deliberativo, formado por representantes das comunidades locais, órgãos públicos e sociedade civil, e ser regida por um Plano de Manejo, que estabelece regras de uso e conservação (MATTOS et al., 2011).

    2. Para que serve uma RDS?

    As RDS têm dois objetivos principais: conservar o meio ambiente e melhorar a qualidade de vida das populações tradicionais (BRASIL, 2000). Em outras palavras, elas funcionam como áreas protegidas que promovem a biodiversidade sem excluir as pessoas, ao contrário do modelo clássico de “florestas intocadas”.

    Como mostram Queiroz e Peralta (2006), as RDS permitem a realização de atividades como pesca artesanal, coleta de frutos, cultivo de roças e até o ecoturismo, desde que essas ações estejam em harmonia com a conservação ambiental. Além disso, elas incentivam a pesquisa científica, a educação ambiental e o uso racional dos recursos naturais, tudo isso com a participação ativa das comunidades (PERALTA, 2002).

    3. Como funcionam os fluxos econômicos em uma RDS?

    Nas RDS, o dinheiro circula a partir de atividades sustentáveis que geram renda sem destruir a natureza. Entre os principais fluxos econômicos estão:

    • Extrativismo vegetal, como a coleta de castanha-do-Brasil, açaí, óleos e fibras, com processamento artesanal e venda por meio de cooperativas;
    • Pesca artesanal, respeitando os períodos de reprodução e as cotas estipuladas pelo plano de manejo;
    • Roças tradicionais, com sistemas de policultura adaptados ao solo e ao clima local;
    • Ecoturismo comunitário, onde visitantes pagam por hospedagem, trilhas, passeios e produtos locais (QUEIROZ & PERALTA, 2006; DIAS et al., 2007).

    Essas atividades geram benefícios econômicos diretos e indiretos, como aponta o estudo de Peralta (2002) sobre a RDS Mamirauá, no Amazonas. Lá, a autogestão comunitária aumentou a renda familiar sem comprometer a floresta.

    4. A importância das RDS para a natureza e as pessoas

    As RDS são espaços de convivência equilibrada entre seres humanos e o meio ambiente. Elas ajudam a proteger espécies ameaçadas, restaurar florestas, manter rios limpos e conservar solos férteis. A RDS Mamirauá, por exemplo, abriga mais de 400 espécies de aves, 45 de mamíferos e cerca de 300 espécies de peixes, além de ser um exemplo de modelo participativo de gestão (WIKIPÉDIA, 2024).

    Além do impacto ecológico, as RDS têm um papel social e cultural importante. Elas valorizam identidades locais, línguas, rituais e práticas tradicionais, protegendo comunidades que muitas vezes sofrem com a exclusão social. Como destacam Lima-Ayres e Alencar (1993), as populações locais passam a ter voz ativa nas decisões sobre o território, o que fortalece a cidadania ambiental.

    Essas reservas também funcionam como barreiras ao desmatamento, controlam queimadas e reduzem o avanço do agronegócio predatório, mantendo corredores ecológicos essenciais para o equilíbrio climático (KITAMURA, 2001).

    5. Por que políticos e empresários resistem às RDS?

    Apesar de seus benefícios, a criação de RDS costuma enfrentar forte resistência de setores políticos e empresariais. Isso ocorre por diversos motivos:

    • Restrição à expansão econômica convencional: a criação de uma RDS impede o avanço de grandes empreendimentos como soja, pecuária ou mineração (MATTOS et al., 2011);
    • Conflitos fundiários e políticos: prefeitos e parlamentares muitas vezes representam interesses de fazendeiros e investidores locais, que temem perder espaço e influência (RIBEIRO, 1994);
    • Lobby empresarial no Congresso: grupos ligados ao agronegócio pressionam por leis que flexibilizem o uso da terra, criando um ambiente de insegurança jurídica para as RDS (MATTOS et al., 2011).

    Esse cenário faz com que a demarcação de novas reservas enfrente atrasos, judicializações e campanhas de desinformação, mesmo quando o território já cumpre função ambiental e social essencial.

    Conclusão

    As Reservas de Desenvolvimento Sustentável representam uma alternativa viável ao modelo predatório de desenvolvimento, pois unem proteção ambiental, valorização cultural e justiça social. No entanto, seu sucesso depende da vontade política e do reconhecimento do direito das comunidades locais de viver com dignidade e autonomia.

    A resistência que enfrentam revela o conflito entre dois projetos: o do lucro rápido, concentrado e destrutivo, e o do futuro comum, sustentável e partilhado.

    Referências

    BRASIL. Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000. Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC).

    DIAS, A. et al. (2007). Aspectos socioeconômicos e ambientais em RDS Ponta do Tubarão. Gaia Scientia.

    KITAMURA, P. C. (2001). Biodiversidade na Amazônia: por uma abordagem regional das unidades de conservação.

    LIMA-AYRES, D.; ALENCAR, E. (1993). Ocupação humana na área da RDS Mamirauá. Anais da ABEP.

    MATTOS, P. P. et al. (2011). Reserva de Desenvolvimento Sustentável: avanço na concepção de áreas protegidas? Sociedade & Natureza.

    PERALTA, N. (2002). Implantação do Programa de Ecoturismo na RDS Mamirauá. OLAM – Ciência e Tecnologia.

    QUEIROZ, H. L.; PERALTA, N. (2006). Manejo integrado e gestão participativa em RDS. Gaia Scientia.

    RIBEIRO, N. F. (1994). Um novo modelo de proteção ambiental para Mamirauá.

    WIKIPÉDIA (2023). Reserva de Desenvolvimento Sustentável.

    WIKIPÉDIA (2024). Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.

  • Sertão: o mito do progresso e a realidade que engole o futuro

    Sertão: o mito do progresso e a realidade que engole o futuro

    Por Levon Nascimento

    Há dez anos, o Papa Francisco lançou a encíclica Laudato Si’, um grito de alerta: o “paradigma tecnocrático” – essa crença cega na tecnologia como solução para tudo – está destruindo o planeta e esmagando comunidades. Hoje, no semiárido brasileiro e em Minas Gerais, essa profecia se realiza diariamente. A mineração, travestida de “progresso” e “eficiência”, impõe uma lógica perversa: natureza é estoque, gente é obstáculo.

    Os desastres de Mariana e Brumadinho não foram acidentes. Foram a materialização desse pensamento. Barragens “estáveis” segundo laudos técnicos viraram túmulos porque ignoraram a vida humana rio abaixo. A técnica, supostamente neutra, serviu ao lucro rápido. O resultado? Lama tóxica, 272 mortos, rios assassinados.

    No semiárido, o drama é mais lento, mas não menos cruel. Empresas perfuram poços profundos com bombas de alta vazão para extrair minério, enquanto comunidades veem suas cacimbas e cisternas secarem. No Vale do Rio Peixe Bravo (Norte de Minas Gerais), a comunidade historicamente enraizada é constrangida por políticos e grandes empresários; seus saberes tradicionais são ridicularizados e desqualificados pelo “paradigma tecnocrático” denunciado pelo Papa Francisco; e o discurso de que “o progresso está chegando” suplanta os princípios de prevenção e precaução para com o frágil ambiente local, um dos últimos ainda razoavelmente preservado. Na Bahia e em Sergipe, o lençol freático baixou, secando fontes essenciais. Aqui, a guerra não é por ouro ou ferro: é por água. Quem perde são quilombolas, geraizeiros, agricultores familiares – tratados como “atraso” ao projeto de “modernidade” das mineradoras e dos políticos de província.

    A tecnocracia tem um rosto concreto:

    • Saberes locais apagados: Conhecimentos ancestrais sobre o manejo da terra e da água são desprezados em audiências públicas cheias de jargões técnicos incompreensíveis.
    • Natureza reduzida a números: Estudos de impacto medem água em “metros cúbicos afetados”, não em vidas humanas ou culturas destruídas.
    • Democracia esvaziada: Licenças são aprovadas em “fast-track”, comunidades são removidas à força ou manipuladas pelo poder do dinheiro, e recursos da CFEM (compensação financeira) desviados da saúde e educação.

    Laudato Si’ não é um tratado teórico. É um chamado à revolução ética: a “ecologia integral”. Isso significa:

    1. Colocar a vida acima do lucro: Proteger nascentes, restringir mineração em áreas frágeis, priorizar água para pessoas, não para britadores.
    2. Ouvir quem sabe cuidar: Incluir comunidades no planejamento, valorizar saberes tradicionais junto ao conhecimento técnico.
    3. Exigir responsabilidade real: Fim da impunidade corporativa. Quem polui, paga e repara. Auditorias independentes e controle público.

    Não basta tecnologia “verde” se a lógica for a mesma: extrair até esgotar. O semiárido clama por um novo paradigma, onde a técnica sirva à vida, não ao mercado. Dez anos depois da Laudato Si’, é hora de escolher: ou rompemos com essa engrenagem que transforma terra em commodity e gente em estorvo, ou seremos cúmplices da próxima tragédia anunciada. A água que falta no sertão hoje é o mesmo futuro que seca para todos nós.

  • Novo livro de Levon e o 10° ano da Laudato Si’, do Papa Francisco

    Novo livro de Levon e o 10° ano da Laudato Si’, do Papa Francisco

    O novo livro de Levon Nascimento, Quando o chão e o céu se encontram (3i Editora, 2025), a ser lançado em 18 de junho, às 19h, na Biblioteca Pública de Taiobeiras, conversa diretamente com os 10 anos da encíclica Laudato Si’ (2015), do Papa Francisco. Mais que uma homenagem, a obra atualiza e encarna os princípios da ecologia integral, conectando fé, justiça e cuidado com a vida em três caminhos principais:

    1. Ecologia integral como base de tudo

    Inspirado na ideia de que tudo está interligado — pessoas, natureza, espiritualidade — Levon propõe uma visão em que cuidar do planeta é também lutar por justiça social. Capítulos como “A Quaresma e a Campanha da Fraternidade 2025: um chamado à conversão ecológica” e “Tudo está interligado” mostram como o consumismo, o agroextrativismo predatório e o descarte de vidas humanas fazem parte do mesmo sistema que destrói a Terra. Aqui, ecoa a crítica do Papa ao “paradigma tecnocrático” e à cultura do descarte.

    2. Espiritualidade que pisa o chão da realidade

    A espiritualidade que o livro propõe não é desconectada da vida real. É encarnada — feita de gestos concretos, como os de Frei Jucundiano de Kok, que dedicou sua vida ao sertão mineiro, e de Padre Júlio Lancellotti, símbolo de resistência nas periferias. A peça sobre Frei Jucundiano, por exemplo, mostra como a simplicidade franciscana e o cuidado com os pobres são formas reais de viver a fé. O livro também provoca: “É possível salvar as almas sem se importar com os corpos?” — uma pergunta que cutuca qualquer fé que fuja da responsabilidade social.

    3. Brasil no centro: denúncia e esperança

    Levon traz a crise climática global para o nosso quintal. Fala das queimadas no cerrado, da violência contra os povos geraizeiros, da exploração do Alto Rio Pardo. E vai além: denuncia o ecofascismo e o tecnofeudalismo, nomes difíceis que representam sistemas que concentram poder e espalham injustiça. O autor mostra que lutar por justiça ambiental no Brasil é também lutar pela vida de quem mais sofre. E reafirma o legado do Papa Francisco: fé, ecologia e fraternidade como farol em tempos sombrios.

    Quando o chão e o céu se encontram é mais do que um livro. É um grito de esperança e um chamado à ação. Dez anos depois da Laudato Si’, Levon Nascimento mostra que os ensinamentos da encíclica estão mais vivos do que nunca — não como teoria, mas como prática que nasce no sertão, nas lutas populares e na coragem de quem insiste em cuidar da Casa Comum.

  • Minha Casa Minha Vida em Rio Pardo

    Minha Casa Minha Vida em Rio Pardo

    Por Levon Nascimento

    Da esquerda para a direita: deputado Leleco Pimentel (PT), eu, vereador Gean Marcos (PT/Rio Pardo de Minas) e Romário Rohm, assessor dos deputados Leleco e Padre João, com a bandeira de Rio Pardo de Minas em destaque.

    Sempre admirei Rio Pardo: povo gentil e guerreiro, cidade-mãe da nossa região. Sem ela, não existiriam Salinas, Taiobeiras, São João do Paraíso e tantos outros.

    Agora, a admiração cresce com esta conquista: 150 famílias assinaram contratos para a construção de moradias rurais (Faixa 1) do Minha Casa Minha Vida, do presidente Lula. Resultado da luta do vereador Gean, do assessor Romário, das lideranças das comunidades de Ilha das Cabras, Raiz e Sobrado, com apoio fundamental dos deputados Padre João e Leleco.

    Na foto, aponto para a bandeira como símbolo da luta coletiva. Não foi presente de prefeito, foi fruto da organização das comunidades e do PT. Um exemplo da importância de eleger vereadores e deputados do PT, comprometidos com o povo.

    As 150 moradias serão na zona rural, e outras 50 já estão previstas para a área urbana. Parabéns, Rio Pardo!

  • A celebração dos 90 anos da Paróquia de Taiobeiras

    A celebração dos 90 anos da Paróquia de Taiobeiras

    Por Levon Nascimento

    A cuidadosa e significativa seleção dos cantos litúrgicos entoados na missa em ação de graças pelo Jubileu de 90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras, realizada na noite de 20 de maio de 2025, merece aplausos. Canções como “Quem disse que não somos nada” (Zé Vicente) e “Se calarem a voz dos profetas” (Cecília Vaz), entre outras, são verdadeiras músicas da caminhada. Elas expressam com profundidade as origens e a trajetória de uma evangelização encarnada, construída com fé e compromisso pelo nosso Povo de Deus em Taiobeiras.

    Outro momento marcante foi a exibição, ao final da celebração, de vídeos com mensagens de ex-párocos e religiosas que exerceram suas vocações e ministérios neste chão. Um gesto simples, mas repleto de memória, gratidão e reverência à história da comunidade.

    De modo especial, foi profundamente comovente para mim ouvir e ver Frei João José de Jesus, OFM, com seu hábito franciscano, e Irmã Nilza Cascaes, vestindo a camiseta que homenageia nossa querida Irmã Neusa Nascimento. Eles me remetem ao tempo precioso do meu chamado vocacional — o ser leigo batizado, engajado na evangelização libertadora, a serviço da vida e da justiça social, no coração do Norte de Minas.

    Viva a Paróquia São Sebastião de Taiobeiras! Viva o Povo de Deus que caminha com esperança e fé pela história!

  • Inédito: Foto da 1ª Coroação de N. Sra. de Fátima em Taiobeiras

    Inédito: Foto da 1ª Coroação de N. Sra. de Fátima em Taiobeiras

    A fotografia, em sépia, foi obtida graças à pesquisa de Levon Nascimento junto ao Arquivo da Província Franciscana de Santa Cruz, em março de 2025, e registra uma grande concentração de fiéis reunidos em frente à Igreja Matriz de São Sebastião de Taiobeiras, MG, no dia 13 de maio de 1957, por ocasião da primeira coroação de Nossa Senhora de Fátima naquele município. Ao centro e em destaque, sobre a carroceria de um caminhão adaptado como andor móvel, ergue-se a imagem de Nossa Senhora de Fátima em tamanho natural, talhada e pintada com vestidos longos e mantos drapeados. Quatro crianças, vestidas de anjos — com túnicas claras e auréolas delicadas — posicionam-se aos pés da estátua, enquanto outras coroam simbolicamente a Virgem com guirlandas de flores ou pequenas coroas.

    Imediatamente atrás do grupo que sustenta a imagem, o altar improvisado exibe toalhas brancas e estandartes; hasteadas, duas bandeiras tremulam levemente ao vento. Atrás do caminhão, logo à entrada da porta principal da matriz, encontra-se Dom José Alves Trindade, bispo de Montes Claros, em sua primeira visita pastoral a Taiobeiras, trajando sua batina escura e a cruz peitoral, em atitude solene e contemplativa, abençoando a assembleia.

    Em primeiro plano, a multidão de homens, mulheres e crianças — muitos vestidos com trajes do cotidiano dos anos 1950, como saias rodadas e camisas sociais — preenche toda a praça em frente ao templo. Observa-se também um grupo de senhoras com vestidos florais e mangas curtas, enquanto acompanham reverentes o rito religioso. Ao longe, casas simples de alvenaria branca com portas e janelas escuras formam o pano de fundo, e algumas árvores esparsas marcam o início da principal praça do pequeno centro urbano, recém-emancipado (1953).

    O registro capta não apenas o momento litúrgico — a coroação sacra de uma devoção mariana que atraiu fiéis de toda a região —, mas também o ambiente festivo e comunitário que deu origem, naquele exato dia, à tradicional Festa de Nossa Senhora de Fátima e, depois, à secular Festa de Maio de Taiobeiras. A cena transpira religiosidade popular, fervor piedoso e o entrelaçamento de fé e identidade cultural local, em plena praça pública diante do edifício-matriz, erguido pela liderança de Frei Jucundiano de Kok, OFM.

    Ficha descritiva
    Identificador: 11869
    Descrição do registro: Primeira Coroação de Nossa Senhora de Fátima, em Taiobeiras, MG, em 13/05/1957
    Data de produção: 13/05/1957
    Lugar de produção: Taiobeiras, MG
    Entidade custodiadora: BR MGOFMPSC – Arquivo da Província Santa Cruz
    Grupo Religioso: OFM ― Ordem dos Frades Menores
    Grupo Religioso – Instituição: OFM – Província Santa Cruz
    Notas sobre este registro fotográfico: Primeira Coroação de Nossa Senhora de Fátima, em Taiobeiras, MG, em 13/05/1957

  • 13 de maio: Por que Maria é importante para a humanidade?

    13 de maio: Por que Maria é importante para a humanidade?

    A figura de Maria, mãe de Jesus, transcende fronteiras religiosas e temporais, consolidando-se como um dos pilares mais complexos e inspiradores da espiritualidade ocidental. Sua relevância histórica não se restringe ao papel biológico de dar à luz o Cristo, mas se expande em camadas teológicas, sociais e culturais que a tornam um arquétipo universal. No contexto do 13 de maio de 2025, data que celebra Nossa Senhora de Fátima, refletir sobre sua importância exige um olhar que integre tradição e contemporaneidade, dogma e humanidade.

    1. A teologia clássica: mãe de Deus e nova Eva

    Na teologia cristã, Maria é definida como Theotokos (Mãe de Deus), título consolidado no Concílio de Éfeso (431 d.C.), que enfatiza sua centralidade no mistério da Encarnação (Arquidiocese de Uberaba). Os Padres da Igreja, como Irineu de Lyon, a viram como a “Nova Eva”, cujo “sim” ao anjo Gabriel reparou a desobediência da primeira mulher (Rosary Center). Essa perspectiva a coloca não apenas como protagonista da salvação, mas como mediadora graciosa, ponte entre o divino e o humano. Dom Leonardo Steiner, citado pelo IHU, reforça que em Maria “encontramos respostas” para inquietações existenciais, pois sua disponibilidade a Deus a torna modelo de fé ativa.

    2. A mariologia feminista: entre a revolução e a tradição

    A teologia feminista, porém, desafia visões tradicionais que reduziram Maria a um ícone passivo de pureza. Analisando criticamente sua figura, teólogas recuperam sua agência: ela foi uma mulher judia que enfrentou riscos sociais ao aceitar uma gravidez fora dos padrões (James Tabor, IHU). Para Michele Giulio Masciarelli (IHU), Maria é “mais jovem do que o pecado”, não por negação da realidade, mas por sua coragem em abraçar um projeto disruptivo. Essa releitura a transforma em símbolo de resistência, especialmente em contextos onde mulheres são marginalizadas. Como afirma o IHU, “num momento da história, o centro de tudo está numa mulher”, ecoando a ideia de que Maria personifica a força do feminino sagrado.

    3. Maria pós-Vaticano II: humanidade e universalidade

    O Concílio Vaticano II (1962-1965) reposicionou Maria como “membro eminente da Igreja”, evitando excessos devocionais que a divinizavam. O Papa Francisco, conforme destacado pelo IHU, lembra que “Maria é mãe, não deusa”, reafirmando sua humanidade. Essa abordagem ressalta sua trajetória terrena: uma mãe judia que viveu dúvidas, dores e alegrias, como qualquer pessoa. Leonardo Boff, em A Porção Feminina de Deus, assinala que Maria revela a face materna do Divino, integrando o feminino na compreensão do sagrado. Sua história, assim, torna-se acessível a todos, independentemente de credo.

    4. Maria na pós-modernidade: respostas a uma crise de sentido

    Em meio à fragmentação pós-moderna, Maria emerge como figura de reconciliação. Artigos do IHU (Instituto Humanitas Unisinos) destacam que sua “glorificação” não a distancia da realidade, mas a aproxima das crises humanas. A poesia de Pedro Casaldáliga, que a transforma em “todas as mulheres”, ilustra como sua imagem transcende o religioso, simbolizando esperança para os oprimidos. Ela é, nas palavras de Casaldáliga, a mãe dos sem-terra, das viúvas, dos excluídos — uma metáfora da compaixão ativa.

    Maria: espelho do humano e do divino

    Maria não é importante apenas por quem gerou, mas por quem ela foi: uma mulher que encarnou paradoxos — humilde e revolucionária, silenciosa e profética, humana e transcendente. Sua história desafia dogmas estéreis e convida a uma espiritualidade encarnada, onde o divino se manifesta no cotidiano. No 13 de maio de 2025, celebrá-la é reconhecer que, em sua trajetória, encontramos um mapa para navegar as complexidades da existência, unindo céu e terra, tradição e renovação. Como síntese do feminino sagrado e da disponibilidade ao mistério, Maria permanece, afinal, uma resposta viva aos anseios mais profundos da humanidade.

    Referências
    ARQUIDIOCESE DE UBERABA. A Virgem Maria na Teologia. Arquidiocese de Uberaba, [s.d.]. Disponível em: https://arquidiocesedeuberaba.org.br/a-virgem-maria-na-teologia/. Acesso em: 12 maio 2025.
    CASALDÁLIGA, Pedro. Poesia de Pedro Casaldáliga transforma Maria em todas as mulheres. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/605492-poesia-de-pedro-casaldaliga-transforma-maria-em-todas-as-mulheres. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Como Maria, a mãe judia de Jesus, se tornou a virgem que deu à luz a Deus. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Entrevista com James D. Tabor. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/602004-como-maria-a-mae-judia-de-jesus-se-tornou-a-virgem-que-deu-a-luz-a-deus-entrevista-com-james-d-tabor. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Contemplação do encontro de Maria com o Ressuscitado. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/597943-contemplacao-do-encontro-de-maria-com-o-ressuscitado. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Dom Leonardo: Em Maria, encontramos respostas; nos tornamos pessoas mais disponíveis. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/categorias/615135-dom-leonardo-em-maria-nos-encontramos-respostas-nos-nos-tornamos-pessoas-mais-disponiveis. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Francisco encerra polêmicas seculares sobre Nossa Senhora: “Maria é mãe, não deusa”. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/607814-francisco-encerra-polemicas-seculares-sobre-nossa-senhora-maria-e-mae-e-nao-deusa-expressoes-as-vezes-exageradas. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Maria, a glorificada, e a crise pós-moderna. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/185-noticias/noticias-2016/559142-maria-a-glorificada-e-a-crise-pos-moderna. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Maria de Nazaré à luz da mariologia desenvolvida a partir do Concílio Vaticano II. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/598632-maria-de-nazare-a-luz-da-mariologia-desenvolvida-a-partir-do-concilio-vaticano-ii. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Maria, a mulher mais jovem do que o pecado. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Artigo de Michele Giulio Masciarelli. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/185-noticias/noticias-2016/563199-maria-a-mulher-mais-jovem-do-que-o-pecado-artigo-de-michele-giulio-masciarelli. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Não façam isso com a mãe de Jesus. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/589385-nao-facam-isso-com-a-mae-de-jesus. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Para Maria, por Jesus: A virgem na teologia feminista. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/categorias/615453-para-maria-por-jesus-a-virgem-na-teologia-feminista. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. “Num momento da história, o centro de tudo está numa mulher”. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/sobre-o-ihu/78-noticias/574634-num-momento-da-historia-o-centro-de-tudo-esta-numa-mulher. Acesso em: 12 maio 2025.
    BOFF, Leonardo. A porção feminina de Deus. Leonardo Boff, 30 ago. 2014. Disponível em: https://leonardoboff.org/2014/08/30/a-porcao-feminina-de-deus/. Acesso em: 12 maio 2025.
    ROSARY CENTER. Maria na Teologia dos Padres – Parte 2. Rosary Center, [s.d.]. Disponível em: https://rosarycenter.org/pt/ll73n2-mary-in-the-theology-of-the-fathers-part-2. Acesso em: 12 maio 2025.
    REVISTA CULTURA TEOLÓGICA. Maria de Nazaré: Perspectivas teológicas. Revista Cultura Teológica, [s.d.]. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/culturateo/article/download/14360/11834/38580. Acesso em: 12 maio 2025.

  • 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial: lições para 2025

    80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial: lições para 2025

    Por Levon Nascimento

    Há oito décadas, em 8 de maio de 1945, o mundo celebrava o fim do conflito mais devastador da história: a Segunda Guerra Mundial. Marcada por mais de 70 milhões de mortos, holocaustos, bombardeios atômicos e a destruição de nações inteiras, a guerra deixou cicatrizes que ainda hoje exigem reflexão. Em 2025, quando completamos 80 anos desse marco, o contexto geopolítico global parece ecoar perigosamente os erros do passado. Diante de tensões bélicas, ascensão de extremismos e crises humanitárias, quais lições podemos resgatar para evitar repetir tragédias?

    A criação da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1945, simbolizou a esperança de que a cooperação internacional impediria novos conflitos em escala global. No entanto, como aponta o artigo “Europa se rearma, mas não se encontra” (BRASIL 247), o continente europeu, outrora pioneiro na integração pós-guerra, enfrenta hoje uma onda de rearmamento e divisões internas. A invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 e as crescentes tensões entre blocos geopolíticos revelam a fragilidade das instituições multilaterais. Como alertou o presidente Lula em discurso recente: “A paz só é possível com diálogo, nunca com mais armas” (VERMELHO, 2025).

    A ordem mundial pós-1945, construída sobre a liderança dos EUA e a cooperação transatlântica, está sob ameaça. Analistas destacam que a política externa de Donald Trump, com sua retórica isolacionista e questionamento da OTAN, desestabiliza alianças históricas. O historiador Norbert Frei afirma que a Europa, dependente da proteção americana por décadas, agora enfrenta um dilema: buscar autonomia militar ou renegociar sua relação com os EUA em bases incertas. A fala do chanceler alemão Friedrich Merz sobre a necessidade de a União Europeia “existir sem os EUA” reflete esse impasse.

    A Alemanha, principal nação responsável pelo conflito, segue lidando com o legado da guerra. Segundo reportagem do Estadão (2024), o país ainda busca restos de soldados mortos, um esforço simbólico que reflete a necessidade de enfrentar o passado. A reconciliação, porém, exige mais que gestos: demanda educação e combate ao revisionismo histórico. Como destacado no evento “80 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial” (JUSGOV, 2025), a distorção de fatos, como a negação do Holocausto ou a glorificação de regimes totalitários, ameaça a coesão social.

    Na Rússia, o “Dia da Vitória” em 9 de maio — diferente do 8 de maio, devido ao fuso horário russo em relação ao horário da rendição alemã de 1945 — é celebrado como um marco da resistência soviética, mas também instrumentalizado para justificar ações geopolíticas atuais. Durante evento na Assembleia Legislativa de São Paulo, o embaixador russo Alexey Labestskiy enfatizou a “missão de glorificar os heróis”, enquanto críticos apontam para o risco de revisionismo que omite os crimes stalinistas.

    O genocídio de seis milhões de judeus durante a guerra permanece como um alerta sobre as consequências da intolerância. Contudo, como questiona o artigo “O Holocausto justifica um novo Holocausto?”, do sociólogo Jessé Souza (ICL NOTÍCIAS, 2024), instrumentalizar essa tragédia para legitimar violências atuais — como o genocídio em Gaza pelo governo sionista de Israel — é um erro grotesco. A lição do Holocausto não é a de que “um povo deve sofrer para que outro sobreviva”, mas sim a de que a desumanização do outro é o primeiro passo para a barbárie.

    Em 2025, essa reflexão é urgente, principalmente diante de discursos que normalizam a violência étnica. A retórica expansionista de Trump, que sugere anexar territórios como a Groenlândia ou o Canadá, e a invasão russa da Ucrânia violam o princípio pós-1945 de integridade territorial. Como alerta Stefan Wolff, da Universidade de Birmingham, a erosão das normas internacionais abre espaço para que potências alterem fronteiras pela força, replicando os erros do passado.

    A Guerra Fria (1947-1991) dividiu o mundo em blocos liderados por EUA e URSS. Hoje, a bipolaridade ressurge com EUA e China, enquanto a Rússia busca reafirmar influência. A guerra comercial de Trump contra a China, porém, paradoxalmente fortalece Pequim como alternativa econômica para aliados europeus e asiáticos. Elisabeth Braw, do Atlantic Council, destaca que a China emerge como “país responsável” em contraste com a política protecionista americana.

    Para o Brasil, a nova ordem traz desafios. Com forças armadas que se deixaram auto-desmoralizar pela tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, e dependência de rotas marítimas controladas por potências, o país enfrenta dilemas sobre sua soberania, especialmente em relação à Amazônia. A pergunta do articulista da DefesaNet — “seremos senhores ou vassalos?” — ecoa a necessidade de uma estratégia clara em um mundo onde “a lei do mais forte” parece retornar.

    Os 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial coincidirão com um cenário de incertezas: guerras na Europa e no Oriente Médio, polarização ideológica e mudanças climáticas. No entanto, a história nos oferece um guia. Como escreveu o filósofo George Santayana, “aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”.

    Além de tudo isso, duas outras guerras são travadas pela humanidade: a degradação ambiental sem precedentes e as mudanças climáticas provocadas pela ação dos sistemas econômicos humanos no chamado antropoceno. Tanto quanto o nazifascismo provocou a Segunda Guerra Mundial, os negacionismos ambientais e climáticos atuais podem ter efeito ainda mais devastadores sobre o planeta.

    A lição central para 2025 é clara: ou investimos em diplomacia, justiça social, preservação da memória e cumprimento das metas ambientais-climáticas, ou permitiremos que o ciclo de violência se perpetue. A ordem pós-1945, embora imperfeita, evitou guerras globais por décadas. Sua erosão, acelerada por nacionalismos e alianças voláteis, nos coloca à beira de um precipício. Como alertam historiadores, a atual turbulência lembra os anos entre 1914 e 1939, quando a incapacidade de diálogo levou ao colapso. A escolha, como em 1945, ainda é nossa.

    Referências citadas

    BBC. As 4 mudanças de Trump que estão criando uma nova ordem mundial. 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cj68rxg28j1o. Acesso em: 7 maio 2025.
    BRASIL 247. Europa se rearma, mas não se encontra. 2025. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/europa-se-rearma-mas-nao-se-encontra. Acesso em: 7 maio 2025.
    DEFESANET. 2025 – o Ano D – Trump, Putin, o Brasil e a nova ordem internacional. 2025. Disponível em: https://www.defesanet.com.br/ecos/apos-80-anos-a-ordem-mundial-do-pos-guerra-esta-desabando/. Acesso em: 7 maio 2025.
    DEUTSCHE WELLE. Ordem mundial do pós-guerra se esfacela, 80 anos depois. 2025. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/ap%C3%B3s-80-anos-a-ordem-mundial-do-p%C3%B3s-guerra-est%C3%A1-desmoronando/a-72416053. Acesso em: 7 maio 2025.
    ESTADÃO. 80 anos após a 2ª Guerra Mundial, Alemanha ainda procura por soldados mortos. 2024. Disponível em: https://www.estadao.com.br/internacional/80-anos-apos-a-2-guerra-mundial-alemanha-ainda-procura-por-soldados-mortos/. Acesso em: 7 maio 2025.
    ICL NOTÍCIAS. O Holocausto justifica um novo Holocausto? 2024. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/o-holocausto-justifica-um-novo-holocausto/. Acesso em: 7 maio 2025.
    JUSGOV. 80 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. 2025. Disponível em: https://www.jusgov.uminho.pt/pt-pt/event/80-anos-depois-do-fim-da-segunda-guerra-mundial/. Acesso em: 7 maio 2025.
    UOL NOTÍCIAS. Ordem mundial do pós-guerra se esfacela 80 anos depois. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2025/05/03/ordem-mundial-do-pos-guerra-se-esfacela-80-anos-depois.htm. Acesso em: 7 maio 2025.
    VERMELHO. Lula, Xi e Putin celebram os 80 anos da vitória na 2ª Guerra Mundial. 2025. Disponível em: https://vermelho.org.br/2025/05/06/lula-xi-e-putin-celebram-os-80-anos-da-vitoria-na-2a-guerra-mundial/. Acesso em: 7 maio 2025.

  • Antiga matriz de Taiobeiras (90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras)

    Antiga matriz de Taiobeiras (90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras)

    Por Levon Nascimento

    A história da presença católica em Taiobeiras remonta ao final do século XIX, quando a região ainda pertencia à Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Rio Pardo de Minas. Em 1897, o pároco daquela cidade, Esperidião Gonçalves dos Santos, benzeu e inaugurou o Santo Cruzeiro dos Martírios, no dia 2 de julho, marco importante da religiosidade local. Nessa época, Taiobeiras era apenas um povoado, mas já contava com uma comunidade católica ativa.

    Foi nesse contexto que surgiu a primeira capela do lugar, construída por Vitoriano Pereira Costa, proprietário do Sítio Bom Jardim. Ela foi erguida no local onde hoje se encontra a Praça Joaquim Teixeira, nos fundos do atual Mercado Municipal. Essa capela simples, mas significativa, seria o embrião da futura Paróquia São Sebastião de Taiobeiras.

    Em 1924, com o distrito já instalado e passado a pertencer ao município e paróquia de Salinas, diante do crescimento da comunidade e da dedicação dos moradores, a capela passou por sua primeira ampliação, graças aos esforços liderados por dona Raquel Torres, que organizou campanhas para arrecadação de recursos. Como era de costume nas capelas particulares da época, pessoas de destaque social eram sepultadas em seu interior. Ainda se viam, no piso da igreja, as lápides de figuras notáveis como Martinho Antônio Rêgo — o primeiro vereador de Taiobeiras para a Câmara de Rio Pardo de Minas, falecido em 1911 —, Aleixo Martins de Oliveira, Conrado José da Rocha e sua esposa, Maria Quintina da Rocha.

    Com o passar dos anos, a população do povoado aumentou e a capela original já não comportava os fiéis. Em 1939, uma segunda ampliação foi realizada, promovida por Frei Acário Heuvel, então administrador da recém-criada paróquia de Taiobeiras, mas ainda residente em Salinas. Essa estrutura permaneceu até 1962, quando foi lamentavelmente demolida.

    A Paróquia São Sebastião de Taiobeiras seria oficialmente criada em 20 de maio de 1935, por decreto do bispo diocesano de Montes Claros, Dom João Antônio Pimenta, sendo desmembrada da Paróquia Santo Antônio de Salinas. Mas foi apenas em 1941, com a chegada de Frei Jucundiano de Kok, primeiro pároco efetivo de Taiobeiras, que se iniciaria a construção da nova e atual matriz de São Sebastião, localizada na praça de mesmo nome.

    Fontes
    1. Taiobeiras: Seus Fatos Históricos. Volumes I e II. Autor: Avay Miranda.
    2. Efemérides Riopardenses. Volumes I e IV. Autor: Cônego Padre Newton de Ângelis.
    3. Arquivo da Arquidiocese de Montes Cla
    ros.

  • Os oito lados da Igrejinha de Taiobeiras (90 anos da Paróquia São Sebastião)

    Os oito lados da Igrejinha de Taiobeiras (90 anos da Paróquia São Sebastião)

    Professor Levon Nascimento

    Em 20 de maio de 2025, a Paróquia São Sebastião de Taiobeiras completa 90 anos de fundação. Um de seus vários patrimônios de espiritualidade e cultura é a Capela Octogonal de Nossa Senhora de Fátima, também chamada de Igrejinha.

    Em setembro de 1954, os missionários capuchinhos Frei Bernardino de Vilas Boas, Frei Lauro de Cacique Doble e Frei Alceu do Paraí passaram pela região do Alto Rio Pardo levando a imagem visitadora de Nossa Senhora de Fátima a várias cidades. O vigário de Salinas, à época, onde a missão passou entre os dias 14 e 19 de setembro, ficou impressionado com a receptividade do povo da região para com a relíquia da mãe de Jesus. Ele anotou no livro do tombo da Paróquia de Santo Antônio de Salinas: “Fátima em Salinas foi um assombro. Tomou de assalto a cidade; [até] o pastor protestante quis receber explicação do imenso acontecimento.”

    Na verdade, essa missão era algo mais amplo. Fora solicitada pelo então bispo de Montes Claros, Dom Luís Victor Sartori, à Província dos Capuchinhos de Caxias do Sul. E, desde abril de 1954, percorrera todas as cidades da diocese montes-clarense. Assim como seu colega de Salinas, o cônego Padre Newton de Ângelis, em seu livro Efemérides Riopardenses, descreve impressionado o sucesso do acontecimento em Rio Pardo de Minas: “A população, num misto de patriotismo e fervor religioso, todos enfim, vibravam de alegria e entusiasmo. [..] A multidão fervorosa, em prantos e alaridos, continua do lado de fora [da igreja], em delírios de aclamação”. A imagem missionária esteve ali entre os dias 5 e 9 de setembro.

    De Rio Pardo, a santa missionária chega a Taiobeiras na noite de 9 de setembro, permanecendo até o dia 13, quando se dirigiu a Salinas, e produziu semelhante ou superior comoção do povo. Foi então que Frei Jucundiano de Kok, já morador da recém-emancipada cidade há 14 anos, mas novato na função oficial de pároco, teve a ideia de adquirir uma réplica da imagem de Nossa Senhora de Fátima e construir um pequeno santuário para resguardá-la.

    Nos dois anos seguintes, 1955 e 1956, muitas quermesses, leilões e atividades diversas foram realizadas para alcançar o sonho, que virou realidade em 13 de maio de 1957, quando foi finalmente inaugurada a “Igrejinha” e coroada a imagem, adquirida em Portugal, já na presença do novo bispo de Montes Claros, Dom José Trindade. Iniciava-se assim a maior tradição religiosa, popular e cultural de Taiobeiras: a já longeva Festa de Nossa Senhora de Fátima, da qual também derivou a festividade social conhecida atualmente como Festa de Maio.

    Mas o projeto da Igrejinha, por si só, é um capítulo à parte e todo especial dessa história. O pequeno templo tem linhas simples, mas se destaca por ser octogonal. Circula uma lenda urbana de que só existem três templos assim em todo o mundo. Não é verdade. Há muitas igrejas de oito lados. É uma arquitetura religiosa muito comum nos países nórdicos, como Noruega e Dinamarca. No Rio de Janeiro, o Outeiro da Glória também é octogonal. Em Belo Horizonte, na Praça da Assembleia Legislativa, há um santuário também dedicado à Virgem de Fátima, com planta em octógono.

    Mas, sem dúvidas, o mais significativo templo cristão de oito lados é a Igreja do Monte das Bem-Aventuranças, na Terra Santa, onde se presume que Jesus pregou o Sermão da Montanha, descrito no Evangelho de São Mateus a partir do capítulo 5. Aliás, segundo Frei Feliciano van Sambeek, OFM, já falecido, que foi pároco de Taiobeiras entre 1994 e 1996, foi nas Bem-Aventuranças que Frei Jucundiano se inspirou para projetar a Igrejinha. Vejamos quais são elas:

    Mateus 5,3-10:

    1. “Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos Céus!
    2. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados!
    3. Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra!
    4. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados!
    5. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia!
    6. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus!
    7. Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus!
    8. Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus!”

    Dessa forma, mais do que um ponto turístico — que por si só é muito bonito —, a Igrejinha Octogonal de Nossa Senhora de Fátima, em Taiobeiras, pode ser um excelente roteiro de itinerário espiritual, onde as pessoas poderão meditar os requisitos necessários para chegarem à beatitude (bem-aventurança) proposta por Jesus.

    A seguir, apresento o caminho…

    • Entre pela porta principal, faça o Sinal da Cruz e recite a primeira bem-aventurança:
      Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos Céus!
      Reze um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
    • Siga para o lado direito, recite a segunda bem-aventurança:
      Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados!
      Reze um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
    • Vá para o terceiro ponto, do lado da porta do velário, e diga a próxima bem-aventurança:
      Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra!
      Reze um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
    • Siga para o quarto ponto, à direita, e recite:
      Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados!
      Reze um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
    • Caminhe para o quinto lugar, atrás da imagem de Nossa Senhora de Fátima, e fale:
      Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia!
      Reze um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
    • Avance para o sexto lado, à direita, e reze:
      Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus!
      Reze um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
    • Direcione-se para o sétimo lugar, junto à porta leste, e fale:
      Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus!
      Reze um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
    • Caminhe para o oitavo e último lugar e recite:
      Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus!
      Reze um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.

    Agora, suba os degraus, vá em frente à imagem de Nossa Senhora de Fátima, apresente suas intenções, ore uma Salve-Rainha e encerre com o Sinal da Cruz.

    P.S.: Após a publicação original deste texto, minha amiga Elizabeth Mendes Corrêa — a Beth Mendes — me contou que, quando era criança, perguntou ao Frei Jucundiano por que a igrejinha tinha oito lados. Ele respondeu que era o formato de uma coroa. Faz sentido. A capela abriga, bem no centro do edifício, a imagem de Nossa Senhora de Fátima. Como Rainha do Céu, o formato octogonal sugere que o templo inteiro a envolve e a coroa com simplicidade e dignidade.

    Fontes consultadas:
    1. Efemérides Riopardenses, Volume III, de autoria do Cônego Newton de Ângelis;
    2. Taiobeiras: Seus Fatos Históricos, Volume II, de autoria de Avay Miranda;
    3. Livro do Tombo da Paróquia Santo Antônio de Salinas;
    4. Relatos populares e memória do autor.

    Leia também:

    90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras: leigos em missão!

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    História de Taiobeiras: As missões franciscanas de 1951 (parte 2)

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  • 90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras: leigos em missão!

    90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras: leigos em missão!

    Em 20 de maio de 1935, 90 anos atrás, nascia em Taiobeiras uma experiência de fé cristã que se tornaria símbolo de resistência, esperança e protagonismo leigo: a Paróquia São Sebastião. Seu jubileu, em 2025, não é apenas uma marca temporal, mas um testemunho vivo de como os batizados, quando assumem sua vocação com ardor missionário, podem transformar a Igreja e o mundo.

    Raízes em um solo fértil: a Igreja pós-Concílio

    A história desta paróquia se entrelaça com os ventos renovadores do Concílio Vaticano II (1962–1965), que desafiou os leigos a saírem da plateia e se tornarem assembleia, para serem “sal da terra e luz do mundo”. Essa chamada ecoou na América Latina por meio dos encontros de Medellín (1968) e Puebla (1979), documentos que denunciaram estruturas de opressão e propuseram uma Igreja encarnada, na qual os pobres são sujeitos de sua própria história.

    Em Montes Claros, esse espírito que já vinha animando a vida da Igreja com Dom José Trindade, que participou do Vaticano II, ganhou corpo na 3ª Assembleia Diocesana de Pastoral (1990), sob o pastoreio de Dom Geraldo Majela de Castro, O.Praem. O documento Compromissos Eclesiais e Diretrizes Pastorais (1990) não foi apenas um texto: tornou-se um grito profético que ressoou em Taiobeiras. Ali, Frei João José de Jesus, OFM, então pároco, no espírito franciscano que já vinha de Frei Jucundiano de Kok e vários outros confrades, compreendeu que a renovação eclesial dependia de descentralizar o poder e confiar aos leigos espaços de participação e decisão.

    Conselheiros Paroquiais: rostos de uma Igreja ministerial

    A história da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras é marcada por leigos que, em diferentes contextos, traduziram sua fé em ação missionária. A seguir, a lista cronológica dos Conselheiros Paroquiais, com suas respectivas vinculações pastorais, representantes dos milhares de leigos e leigas taiobeirenses que, ao longo dessas nove décadas, vivenciaram ardorosamente o seu batismo:

    NomeMandatoGrupo / Comunidade / Pastoral
    Elísio Valter dos Santos1990–1993;
    1998–1999
    Liga Católica Jesus, Maria e José / CEBs
    Vitor Hugo Teixeira1994–1998Legião de Maria
    Neide Ferreira de Souza2000Catequese (1ª Comunhão e Crisma)
    Rosa Croccoli2001–2004Comunidades Eclesiais de Base (CEBs)
    Levon Nascimento2005–2008Pastoral da Juventude / CEBs
    Welton Silveira Mendes2009–2010Catequese (1ª Comunhão e Crisma)
    Jurailde Ferreira de Souza2010–2021Catequese (1ª Comunhão e Crisma)
    José Maria Alves Sucupira2021–2023Renovação Carismática Católica (RCC)
    Edvaldo Nogueira dos Santos2023–atualRCC / Liturgia

    Cada conselheiro, inserido em seu tempo, encarnou a missão de “ser Igreja” além dos muros do templo, conforme as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da CNBB, que destacam a formação integral do leigo nas dimensões humana, sociopolítica e espiritual. “Os leigos, por seu batismo, são chamados a participar da missão sacerdotal, profética e real de Cristo” (Lumen Gentium, 31).

    90 anos: um legado que interpela o futuro

    A lista dos conselheiros não é um arquivo poeirento, mas um mapa vivo da sinodalidade. Ela revela:

    1. Adaptação aos desafios temporais: da implantação do Concílio Vaticano II ao legado do Papa Francisco frente à crise climática;
    2. Continuidade na formação: mantendo viva a transmissão da fé às novas gerações, atendendo ao chamado conciliar por “formação permanente”;
    3. Ecumenismo prático: a presença de movimentos diversos — Liga Católica, Legião de Maria, Vicentinos, RCC, Pastorais Sociais e CEBs — mostra como a paróquia abraçou a pluralidade, antecipando o apelo do Sínodo sobre a Sinodalidade (2021–2024) por “relações autênticas e não tóxicas”.

    Este legado interroga o futuro: como os próximos conselheiros responderão a desafios como a crise ecológica (tema da Campanha da Fraternidade 2025 e da Laudato Si’, do Papa Francisco) ou à crescente secularização? A resposta está na semente plantada por esses leigos: fidelidade criativa, que une tradição e ousadia, tal como propõem as Diretrizes da CNBB ao falar em “traduzir o Evangelho em orientações pastorais ajustadas”.

    Parabéns, Paróquia São Sebastião! Seu jubileu é um convite a continuar escrevendo história — com as mãos dos pequenos, como sempre fez o Deus do Evangelho.

    Fontes:
    – Documentos da 3ª Assembleia Diocesana de Montes Claros (1990)
    – Concílio Vaticano II
    – Documentos de Medellín (1968) e Puebla (1979)
    – Registros paroquiais de Taiobeiras

  • Fátima: “Um verdadeiro assombro” na região!

    Fátima: “Um verdadeiro assombro” na região!

    Em 3 de maio de 2025 tem início mais uma edição da tradicional Festa de Nossa Senhora de Fátima, em Taiobeiras. Essa celebração, tão enraizada na cultura local, teve início em maio de 1957, fruto de dois eventos marcantes.

    Em setembro de 1954, a recém-emancipada cidade recebeu a visita da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, trazida pelos missionários capuchinhos. Segundo relato do então vigário de Salinas, “Fátima […] foi um verdadeiro assombro” na região — passando por Rio Pardo, depois por Taiobeiras e, finalmente, por Salinas.

    Em 1955, tocada pela intensidade daquela missão, a comunidade taiobeirense decidiu manter viva a experiência. Foi então que Frei Jucundiano de Kok idealizou e iniciou a construção da Capela Octogonal, planejada para abrigar a imagem da Virgem que seria adquirida em 1957. Nesse mesmo ano, foi inaugurado o pequeno santuário mariano e realizada a primeira edição da festa, em 13 de maio — data que se tornaria a principal celebração religiosa da cidade.

    A imagem que ilustra esta postagem pertence ao arquivo da Província Franciscana de Santa Cruz, em Belo Horizonte. Trata-se de uma singela homenagem feita pela Paróquia São Sebastião de Taiobeiras ao seu primeiro pároco, um ano após sua morte — o mesmo que lançou as bases da fé e da cultura que hoje marcam profundamente a identidade do nosso povo.

    Gentilmente cedida pela Província Franciscana de Santa Cruz, Belo Horizonte.
  • Domingo de Ramos: a simplicidade do jumentinho também nas relações de consumo

    Domingo de Ramos: a simplicidade do jumentinho também nas relações de consumo

    A Campanha da Fraternidade de 2025 traz um convite urgente: como mudar nossa maneira de pensar e agir para cuidar melhor do planeta, nossa Casa Comum? Inspirados pelas leituras do Domingo de Ramos e pela encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, somos chamados a uma transformação profunda — não só de atitudes externas, mas do nosso coração. É preciso ouvir o grito da Terra e dos mais pobres como um chamado de Deus.

    Escutar para mudar (Isaías 50,4-7) – O profeta Isaías fala de um servo que, mesmo sofrendo, continua ouvindo a voz de Deus. Esse ouvir atento é o primeiro passo para cuidar melhor do mundo. O Papa Francisco lembra: “Esquecemos que também somos Terra”. O servo que acorda todo dia para escutar nos mostra que precisamos estar atentos todos os dias à vida ao nosso redor. Em um mundo onde o consumo e a exploração são comuns, é preciso ter coragem para dizer não à indiferença e sim ao cuidado.

    Humildade que liberta (Filipenses 2,6-11) – São Paulo fala de Jesus, que se esvaziou de todo orgulho para servir. Esse “esvaziamento” é o contrário da ideia de querer dominar tudo, inclusive a natureza. Para cuidar do planeta, precisamos ser humildes, reconhecer que fazemos parte de uma grande rede de vida. Como diz o Papa: “Tudo está conectado”. A verdadeira grandeza está em servir — inclusive a criação.

    Simplicidade que fala alto (Lucas 19,28-40) – Jesus entra em Jerusalém montado num jumento — um símbolo de simplicidade, bem diferente dos cavalos usados por reis e guerreiros. Cuidar do meio ambiente também exige simplicidade: consumir menos, usar energias limpas, viver de forma mais consciente. Quando os fariseus pedem que Jesus mande os discípulos se calarem, ele responde: “Se eles se calarem, as pedras gritarão”. Hoje, quem grita são os rios poluídos, as florestas destruídas, o ar contaminado. A criação está clamando por socorro.

    Da dor à esperança (Salmo 21/22) – O salmo começa com um grito de dor: “Meu Deus, por que me abandonaste?”, mas termina com esperança e louvor. Esse caminho também é o da conversão ecológica: perceber o sofrimento da Terra e, mesmo assim, ter fé e agir. Mesmo em meio a problemas como ganância, poluição e injustiça, Deus não nos abandona. A Páscoa nos lembra que a vida pode renascer — há esperança de renovação.

    A conversão é uma resposta – Cuidar do planeta não é só uma questão técnica, mas espiritual. Converter-se é escutar como o servo, ser humilde como Jesus, viver com simplicidade e transformar a dor em esperança. A Campanha da Fraternidade nos convida a transformar nossa fé em ação. Se ficarmos calados, a própria natureza vai gritar. Mas se respondermos, seremos parte do canto da criação, que proclama: “Jesus Cristo é o Senhor”. Que neste Domingo de Ramos, ao estendermos nossos mantos no caminho, este gesto de partilha nos inspire a construir um mundo onde a paz do céu se reflita aqui na Terra.