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  • Água, gente e sabedoria: a lição do sertão que o Papa Francisco aplaudiria

    Água, gente e sabedoria: a lição do sertão que o Papa Francisco aplaudiria

    Por Levon Nascimento

    Imagine um mapa que não mostra só rios e montanhas, mas histórias de resistência. É assim o estudo para criar a Reserva Tamanduá-Poções-Peixe Bravo no Norte de Minas. E ao lê-lo com os olhos da Encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, a gente entende: esse projeto é um retrato vivo do que o Papa chama de “ecologia integral” – onde natureza e cultura se abraçam. 

    No coração do Cerrado mineiro, comunidades geraizeiras e quilombolas vivem há séculos seguindo uma regra sagrada: “cada roda tem seu fuso, cada terra tem seu uso”. Como disse o Papa (LS 63), os saberes tradicionais são “um patrimônio cultural” que protege a terra. Eles sabem que:
    Chapadas guardam água como esponjas; 
    Carrascos (transição entre Cerrado e Caatinga) são farmácias naturais; 
    Vazantes alimentam gente e bicho na seca. 

    Mas essa sabedoria está ameaçada. O estudo do ICMBio mostra o avanço do eucalipto que seca nascentes e da mineração que rasga o solo. É a “cultura do descarte” que o Papa critica (LS 22): tratar a terra como mercadoria, não como lar. 

    A Laudato Si’ é enfática: “O acesso à água potável é direito humano básico” (LS 30). Pois a região da RDS é um berço d’água estratégico: 
    Abastece as bacias do São Francisco e Jequitinhonha; 
    Protege campos ferruginosos – formações raras que filtram e armazenam água; 
    Rios como o Peixe Bravo já sofrem com assoreamento e seca. 

    Sem a RDS, o “paradigma tecnocrático” (LS 109) – que vê a natureza como recurso infinito – continuará sugando a vida do sertão. 
     
    A ideia da Reserva nasceu das comunidades: 
    1. Geraizeiros pediram proteção quando viram seus “gerais” virando desertos verdes de eucalipto; 
    2. Quilombolas do Peixe Bravo uniram-se à luta, fortalecendo o tecido social (LS 149); 
    3. Até pesquisadores que queriam um Parque Nacional entenderam: aqui, gente e natureza são inseparáveis

    Como diz a Laudato Si’ (LS 143): “A ecologia também requer a preservação da cultura dos povos”.

    Criar a RDS Tamanduá, Poções e Peixe Bravo não é só “fazer uma reserva”. É: 
    – Proteger a “casa comum” (LS 3) num bioma que já perdeu 80% de sua vegetação; 
    – Valorizar os “últimos” (LS 158) – geraizeiros e quilombolas que defendem a terra com sabedoria ancestral; 
    – Garantir água para o futuro, numa região onde o clima semiárido se agrava. 

    O estudo técnico do ICMBio e a voz do Papa Francisco concordam: não há justiça ambiental sem justiça social. Neste sertão mineiro, a vida teima em florescer. Cabe a nós regá-la. 

    “Tudo está interligado. Por isso, requer-se uma preocupação pelo meio ambiente unida ao amor sincero pelos seres humanos.” 
    (Laudato Si’, 91) 

    P.S.: Este artigo é um chamado. Apoie a criação da RDS Tamanduá, Poções e Peixe Bravo. É um passo concreto para ouvir “o clamor da terra e o clamor dos pobres” (LS 49). Afinal, como ensina o sertão: “Água parada vira lama, gente unida vira correnteza”.

    Levon Nascimento é doutorando em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável pelo Centro Universitário Dom Helder Câmara.

    Referências

    FRANCISCO. Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum. Vaticano, 24 maio 2015. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html. Acesso em: 3 jun. 2025. 

    MAIA, L. J.; VALARINI FILHO, L.; NOVAES, V. Síntese de estudos técnicos: proposta de criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Córregos Tamanduá-Poções-Peixe Bravo. Brasília: ICMBio, 2025. 39 p. Arquivo PDF. 

  • O que são as Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) e por que incomodam tanto?

    O que são as Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) e por que incomodam tanto?

    Por Levon Nascimento

    As Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) são um tipo de unidade de conservação criado para proteger a natureza sem excluir as populações humanas que dela dependem. Ao contrário de áreas de preservação estrita, as RDS conciliam o uso sustentável dos recursos naturais com o modo de vida de comunidades tradicionais. Previstas pela Lei nº 9.985/2000, que institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), elas representam um modelo alternativo de desenvolvimento: mais ecológico, participativo e descentralizado (BRASIL, 2000).

    1. O que é uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável?

    De acordo com o Art. 20 do SNUC, uma RDS é uma área natural que abriga populações tradicionais cuja sobrevivência depende de formas sustentáveis de uso da natureza, desenvolvidas ao longo de gerações. Essas práticas são adaptadas ao ambiente local e desempenham papel importante na proteção da biodiversidade (BRASIL, 2000).

    As RDS não apenas preservam a fauna e flora, mas também reconhecem o valor dos saberes tradicionais. Cada reserva deve ter um Conselho Deliberativo, formado por representantes das comunidades locais, órgãos públicos e sociedade civil, e ser regida por um Plano de Manejo, que estabelece regras de uso e conservação (MATTOS et al., 2011).

    2. Para que serve uma RDS?

    As RDS têm dois objetivos principais: conservar o meio ambiente e melhorar a qualidade de vida das populações tradicionais (BRASIL, 2000). Em outras palavras, elas funcionam como áreas protegidas que promovem a biodiversidade sem excluir as pessoas, ao contrário do modelo clássico de “florestas intocadas”.

    Como mostram Queiroz e Peralta (2006), as RDS permitem a realização de atividades como pesca artesanal, coleta de frutos, cultivo de roças e até o ecoturismo, desde que essas ações estejam em harmonia com a conservação ambiental. Além disso, elas incentivam a pesquisa científica, a educação ambiental e o uso racional dos recursos naturais, tudo isso com a participação ativa das comunidades (PERALTA, 2002).

    3. Como funcionam os fluxos econômicos em uma RDS?

    Nas RDS, o dinheiro circula a partir de atividades sustentáveis que geram renda sem destruir a natureza. Entre os principais fluxos econômicos estão:

    • Extrativismo vegetal, como a coleta de castanha-do-Brasil, açaí, óleos e fibras, com processamento artesanal e venda por meio de cooperativas;
    • Pesca artesanal, respeitando os períodos de reprodução e as cotas estipuladas pelo plano de manejo;
    • Roças tradicionais, com sistemas de policultura adaptados ao solo e ao clima local;
    • Ecoturismo comunitário, onde visitantes pagam por hospedagem, trilhas, passeios e produtos locais (QUEIROZ & PERALTA, 2006; DIAS et al., 2007).

    Essas atividades geram benefícios econômicos diretos e indiretos, como aponta o estudo de Peralta (2002) sobre a RDS Mamirauá, no Amazonas. Lá, a autogestão comunitária aumentou a renda familiar sem comprometer a floresta.

    4. A importância das RDS para a natureza e as pessoas

    As RDS são espaços de convivência equilibrada entre seres humanos e o meio ambiente. Elas ajudam a proteger espécies ameaçadas, restaurar florestas, manter rios limpos e conservar solos férteis. A RDS Mamirauá, por exemplo, abriga mais de 400 espécies de aves, 45 de mamíferos e cerca de 300 espécies de peixes, além de ser um exemplo de modelo participativo de gestão (WIKIPÉDIA, 2024).

    Além do impacto ecológico, as RDS têm um papel social e cultural importante. Elas valorizam identidades locais, línguas, rituais e práticas tradicionais, protegendo comunidades que muitas vezes sofrem com a exclusão social. Como destacam Lima-Ayres e Alencar (1993), as populações locais passam a ter voz ativa nas decisões sobre o território, o que fortalece a cidadania ambiental.

    Essas reservas também funcionam como barreiras ao desmatamento, controlam queimadas e reduzem o avanço do agronegócio predatório, mantendo corredores ecológicos essenciais para o equilíbrio climático (KITAMURA, 2001).

    5. Por que políticos e empresários resistem às RDS?

    Apesar de seus benefícios, a criação de RDS costuma enfrentar forte resistência de setores políticos e empresariais. Isso ocorre por diversos motivos:

    • Restrição à expansão econômica convencional: a criação de uma RDS impede o avanço de grandes empreendimentos como soja, pecuária ou mineração (MATTOS et al., 2011);
    • Conflitos fundiários e políticos: prefeitos e parlamentares muitas vezes representam interesses de fazendeiros e investidores locais, que temem perder espaço e influência (RIBEIRO, 1994);
    • Lobby empresarial no Congresso: grupos ligados ao agronegócio pressionam por leis que flexibilizem o uso da terra, criando um ambiente de insegurança jurídica para as RDS (MATTOS et al., 2011).

    Esse cenário faz com que a demarcação de novas reservas enfrente atrasos, judicializações e campanhas de desinformação, mesmo quando o território já cumpre função ambiental e social essencial.

    Conclusão

    As Reservas de Desenvolvimento Sustentável representam uma alternativa viável ao modelo predatório de desenvolvimento, pois unem proteção ambiental, valorização cultural e justiça social. No entanto, seu sucesso depende da vontade política e do reconhecimento do direito das comunidades locais de viver com dignidade e autonomia.

    A resistência que enfrentam revela o conflito entre dois projetos: o do lucro rápido, concentrado e destrutivo, e o do futuro comum, sustentável e partilhado.

    Referências

    BRASIL. Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000. Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC).

    DIAS, A. et al. (2007). Aspectos socioeconômicos e ambientais em RDS Ponta do Tubarão. Gaia Scientia.

    KITAMURA, P. C. (2001). Biodiversidade na Amazônia: por uma abordagem regional das unidades de conservação.

    LIMA-AYRES, D.; ALENCAR, E. (1993). Ocupação humana na área da RDS Mamirauá. Anais da ABEP.

    MATTOS, P. P. et al. (2011). Reserva de Desenvolvimento Sustentável: avanço na concepção de áreas protegidas? Sociedade & Natureza.

    PERALTA, N. (2002). Implantação do Programa de Ecoturismo na RDS Mamirauá. OLAM – Ciência e Tecnologia.

    QUEIROZ, H. L.; PERALTA, N. (2006). Manejo integrado e gestão participativa em RDS. Gaia Scientia.

    RIBEIRO, N. F. (1994). Um novo modelo de proteção ambiental para Mamirauá.

    WIKIPÉDIA (2023). Reserva de Desenvolvimento Sustentável.

    WIKIPÉDIA (2024). Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.

  • Sertão: o mito do progresso e a realidade que engole o futuro

    Sertão: o mito do progresso e a realidade que engole o futuro

    Por Levon Nascimento

    Há dez anos, o Papa Francisco lançou a encíclica Laudato Si’, um grito de alerta: o “paradigma tecnocrático” – essa crença cega na tecnologia como solução para tudo – está destruindo o planeta e esmagando comunidades. Hoje, no semiárido brasileiro e em Minas Gerais, essa profecia se realiza diariamente. A mineração, travestida de “progresso” e “eficiência”, impõe uma lógica perversa: natureza é estoque, gente é obstáculo.

    Os desastres de Mariana e Brumadinho não foram acidentes. Foram a materialização desse pensamento. Barragens “estáveis” segundo laudos técnicos viraram túmulos porque ignoraram a vida humana rio abaixo. A técnica, supostamente neutra, serviu ao lucro rápido. O resultado? Lama tóxica, 272 mortos, rios assassinados.

    No semiárido, o drama é mais lento, mas não menos cruel. Empresas perfuram poços profundos com bombas de alta vazão para extrair minério, enquanto comunidades veem suas cacimbas e cisternas secarem. No Vale do Rio Peixe Bravo (Norte de Minas Gerais), a comunidade historicamente enraizada é constrangida por políticos e grandes empresários; seus saberes tradicionais são ridicularizados e desqualificados pelo “paradigma tecnocrático” denunciado pelo Papa Francisco; e o discurso de que “o progresso está chegando” suplanta os princípios de prevenção e precaução para com o frágil ambiente local, um dos últimos ainda razoavelmente preservado. Na Bahia e em Sergipe, o lençol freático baixou, secando fontes essenciais. Aqui, a guerra não é por ouro ou ferro: é por água. Quem perde são quilombolas, geraizeiros, agricultores familiares – tratados como “atraso” ao projeto de “modernidade” das mineradoras e dos políticos de província.

    A tecnocracia tem um rosto concreto:

    • Saberes locais apagados: Conhecimentos ancestrais sobre o manejo da terra e da água são desprezados em audiências públicas cheias de jargões técnicos incompreensíveis.
    • Natureza reduzida a números: Estudos de impacto medem água em “metros cúbicos afetados”, não em vidas humanas ou culturas destruídas.
    • Democracia esvaziada: Licenças são aprovadas em “fast-track”, comunidades são removidas à força ou manipuladas pelo poder do dinheiro, e recursos da CFEM (compensação financeira) desviados da saúde e educação.

    Laudato Si’ não é um tratado teórico. É um chamado à revolução ética: a “ecologia integral”. Isso significa:

    1. Colocar a vida acima do lucro: Proteger nascentes, restringir mineração em áreas frágeis, priorizar água para pessoas, não para britadores.
    2. Ouvir quem sabe cuidar: Incluir comunidades no planejamento, valorizar saberes tradicionais junto ao conhecimento técnico.
    3. Exigir responsabilidade real: Fim da impunidade corporativa. Quem polui, paga e repara. Auditorias independentes e controle público.

    Não basta tecnologia “verde” se a lógica for a mesma: extrair até esgotar. O semiárido clama por um novo paradigma, onde a técnica sirva à vida, não ao mercado. Dez anos depois da Laudato Si’, é hora de escolher: ou rompemos com essa engrenagem que transforma terra em commodity e gente em estorvo, ou seremos cúmplices da próxima tragédia anunciada. A água que falta no sertão hoje é o mesmo futuro que seca para todos nós.

  • Novo livro de Levon e o 10° ano da Laudato Si’, do Papa Francisco

    Novo livro de Levon e o 10° ano da Laudato Si’, do Papa Francisco

    O novo livro de Levon Nascimento, Quando o chão e o céu se encontram (3i Editora, 2025), a ser lançado em 18 de junho, às 19h, na Biblioteca Pública de Taiobeiras, conversa diretamente com os 10 anos da encíclica Laudato Si’ (2015), do Papa Francisco. Mais que uma homenagem, a obra atualiza e encarna os princípios da ecologia integral, conectando fé, justiça e cuidado com a vida em três caminhos principais:

    1. Ecologia integral como base de tudo

    Inspirado na ideia de que tudo está interligado — pessoas, natureza, espiritualidade — Levon propõe uma visão em que cuidar do planeta é também lutar por justiça social. Capítulos como “A Quaresma e a Campanha da Fraternidade 2025: um chamado à conversão ecológica” e “Tudo está interligado” mostram como o consumismo, o agroextrativismo predatório e o descarte de vidas humanas fazem parte do mesmo sistema que destrói a Terra. Aqui, ecoa a crítica do Papa ao “paradigma tecnocrático” e à cultura do descarte.

    2. Espiritualidade que pisa o chão da realidade

    A espiritualidade que o livro propõe não é desconectada da vida real. É encarnada — feita de gestos concretos, como os de Frei Jucundiano de Kok, que dedicou sua vida ao sertão mineiro, e de Padre Júlio Lancellotti, símbolo de resistência nas periferias. A peça sobre Frei Jucundiano, por exemplo, mostra como a simplicidade franciscana e o cuidado com os pobres são formas reais de viver a fé. O livro também provoca: “É possível salvar as almas sem se importar com os corpos?” — uma pergunta que cutuca qualquer fé que fuja da responsabilidade social.

    3. Brasil no centro: denúncia e esperança

    Levon traz a crise climática global para o nosso quintal. Fala das queimadas no cerrado, da violência contra os povos geraizeiros, da exploração do Alto Rio Pardo. E vai além: denuncia o ecofascismo e o tecnofeudalismo, nomes difíceis que representam sistemas que concentram poder e espalham injustiça. O autor mostra que lutar por justiça ambiental no Brasil é também lutar pela vida de quem mais sofre. E reafirma o legado do Papa Francisco: fé, ecologia e fraternidade como farol em tempos sombrios.

    Quando o chão e o céu se encontram é mais do que um livro. É um grito de esperança e um chamado à ação. Dez anos depois da Laudato Si’, Levon Nascimento mostra que os ensinamentos da encíclica estão mais vivos do que nunca — não como teoria, mas como prática que nasce no sertão, nas lutas populares e na coragem de quem insiste em cuidar da Casa Comum.

  • Minha Casa Minha Vida em Rio Pardo

    Minha Casa Minha Vida em Rio Pardo

    Por Levon Nascimento

    Da esquerda para a direita: deputado Leleco Pimentel (PT), eu, vereador Gean Marcos (PT/Rio Pardo de Minas) e Romário Rohm, assessor dos deputados Leleco e Padre João, com a bandeira de Rio Pardo de Minas em destaque.

    Sempre admirei Rio Pardo: povo gentil e guerreiro, cidade-mãe da nossa região. Sem ela, não existiriam Salinas, Taiobeiras, São João do Paraíso e tantos outros.

    Agora, a admiração cresce com esta conquista: 150 famílias assinaram contratos para a construção de moradias rurais (Faixa 1) do Minha Casa Minha Vida, do presidente Lula. Resultado da luta do vereador Gean, do assessor Romário, das lideranças das comunidades de Ilha das Cabras, Raiz e Sobrado, com apoio fundamental dos deputados Padre João e Leleco.

    Na foto, aponto para a bandeira como símbolo da luta coletiva. Não foi presente de prefeito, foi fruto da organização das comunidades e do PT. Um exemplo da importância de eleger vereadores e deputados do PT, comprometidos com o povo.

    As 150 moradias serão na zona rural, e outras 50 já estão previstas para a área urbana. Parabéns, Rio Pardo!

  • A celebração dos 90 anos da Paróquia de Taiobeiras

    A celebração dos 90 anos da Paróquia de Taiobeiras

    Por Levon Nascimento

    A cuidadosa e significativa seleção dos cantos litúrgicos entoados na missa em ação de graças pelo Jubileu de 90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras, realizada na noite de 20 de maio de 2025, merece aplausos. Canções como “Quem disse que não somos nada” (Zé Vicente) e “Se calarem a voz dos profetas” (Cecília Vaz), entre outras, são verdadeiras músicas da caminhada. Elas expressam com profundidade as origens e a trajetória de uma evangelização encarnada, construída com fé e compromisso pelo nosso Povo de Deus em Taiobeiras.

    Outro momento marcante foi a exibição, ao final da celebração, de vídeos com mensagens de ex-párocos e religiosas que exerceram suas vocações e ministérios neste chão. Um gesto simples, mas repleto de memória, gratidão e reverência à história da comunidade.

    De modo especial, foi profundamente comovente para mim ouvir e ver Frei João José de Jesus, OFM, com seu hábito franciscano, e Irmã Nilza Cascaes, vestindo a camiseta que homenageia nossa querida Irmã Neusa Nascimento. Eles me remetem ao tempo precioso do meu chamado vocacional — o ser leigo batizado, engajado na evangelização libertadora, a serviço da vida e da justiça social, no coração do Norte de Minas.

    Viva a Paróquia São Sebastião de Taiobeiras! Viva o Povo de Deus que caminha com esperança e fé pela história!

  • Inédito: Foto da 1ª Coroação de N. Sra. de Fátima em Taiobeiras

    Inédito: Foto da 1ª Coroação de N. Sra. de Fátima em Taiobeiras

    A fotografia, em sépia, foi obtida graças à pesquisa de Levon Nascimento junto ao Arquivo da Província Franciscana de Santa Cruz, em março de 2025, e registra uma grande concentração de fiéis reunidos em frente à Igreja Matriz de São Sebastião de Taiobeiras, MG, no dia 13 de maio de 1957, por ocasião da primeira coroação de Nossa Senhora de Fátima naquele município. Ao centro e em destaque, sobre a carroceria de um caminhão adaptado como andor móvel, ergue-se a imagem de Nossa Senhora de Fátima em tamanho natural, talhada e pintada com vestidos longos e mantos drapeados. Quatro crianças, vestidas de anjos — com túnicas claras e auréolas delicadas — posicionam-se aos pés da estátua, enquanto outras coroam simbolicamente a Virgem com guirlandas de flores ou pequenas coroas.

    Imediatamente atrás do grupo que sustenta a imagem, o altar improvisado exibe toalhas brancas e estandartes; hasteadas, duas bandeiras tremulam levemente ao vento. Atrás do caminhão, logo à entrada da porta principal da matriz, encontra-se Dom José Alves Trindade, bispo de Montes Claros, em sua primeira visita pastoral a Taiobeiras, trajando sua batina escura e a cruz peitoral, em atitude solene e contemplativa, abençoando a assembleia.

    Em primeiro plano, a multidão de homens, mulheres e crianças — muitos vestidos com trajes do cotidiano dos anos 1950, como saias rodadas e camisas sociais — preenche toda a praça em frente ao templo. Observa-se também um grupo de senhoras com vestidos florais e mangas curtas, enquanto acompanham reverentes o rito religioso. Ao longe, casas simples de alvenaria branca com portas e janelas escuras formam o pano de fundo, e algumas árvores esparsas marcam o início da principal praça do pequeno centro urbano, recém-emancipado (1953).

    O registro capta não apenas o momento litúrgico — a coroação sacra de uma devoção mariana que atraiu fiéis de toda a região —, mas também o ambiente festivo e comunitário que deu origem, naquele exato dia, à tradicional Festa de Nossa Senhora de Fátima e, depois, à secular Festa de Maio de Taiobeiras. A cena transpira religiosidade popular, fervor piedoso e o entrelaçamento de fé e identidade cultural local, em plena praça pública diante do edifício-matriz, erguido pela liderança de Frei Jucundiano de Kok, OFM.

    Ficha descritiva
    Identificador: 11869
    Descrição do registro: Primeira Coroação de Nossa Senhora de Fátima, em Taiobeiras, MG, em 13/05/1957
    Data de produção: 13/05/1957
    Lugar de produção: Taiobeiras, MG
    Entidade custodiadora: BR MGOFMPSC – Arquivo da Província Santa Cruz
    Grupo Religioso: OFM ― Ordem dos Frades Menores
    Grupo Religioso – Instituição: OFM – Província Santa Cruz
    Notas sobre este registro fotográfico: Primeira Coroação de Nossa Senhora de Fátima, em Taiobeiras, MG, em 13/05/1957

  • 13 de maio: Por que Maria é importante para a humanidade?

    13 de maio: Por que Maria é importante para a humanidade?

    A figura de Maria, mãe de Jesus, transcende fronteiras religiosas e temporais, consolidando-se como um dos pilares mais complexos e inspiradores da espiritualidade ocidental. Sua relevância histórica não se restringe ao papel biológico de dar à luz o Cristo, mas se expande em camadas teológicas, sociais e culturais que a tornam um arquétipo universal. No contexto do 13 de maio de 2025, data que celebra Nossa Senhora de Fátima, refletir sobre sua importância exige um olhar que integre tradição e contemporaneidade, dogma e humanidade.

    1. A teologia clássica: mãe de Deus e nova Eva

    Na teologia cristã, Maria é definida como Theotokos (Mãe de Deus), título consolidado no Concílio de Éfeso (431 d.C.), que enfatiza sua centralidade no mistério da Encarnação (Arquidiocese de Uberaba). Os Padres da Igreja, como Irineu de Lyon, a viram como a “Nova Eva”, cujo “sim” ao anjo Gabriel reparou a desobediência da primeira mulher (Rosary Center). Essa perspectiva a coloca não apenas como protagonista da salvação, mas como mediadora graciosa, ponte entre o divino e o humano. Dom Leonardo Steiner, citado pelo IHU, reforça que em Maria “encontramos respostas” para inquietações existenciais, pois sua disponibilidade a Deus a torna modelo de fé ativa.

    2. A mariologia feminista: entre a revolução e a tradição

    A teologia feminista, porém, desafia visões tradicionais que reduziram Maria a um ícone passivo de pureza. Analisando criticamente sua figura, teólogas recuperam sua agência: ela foi uma mulher judia que enfrentou riscos sociais ao aceitar uma gravidez fora dos padrões (James Tabor, IHU). Para Michele Giulio Masciarelli (IHU), Maria é “mais jovem do que o pecado”, não por negação da realidade, mas por sua coragem em abraçar um projeto disruptivo. Essa releitura a transforma em símbolo de resistência, especialmente em contextos onde mulheres são marginalizadas. Como afirma o IHU, “num momento da história, o centro de tudo está numa mulher”, ecoando a ideia de que Maria personifica a força do feminino sagrado.

    3. Maria pós-Vaticano II: humanidade e universalidade

    O Concílio Vaticano II (1962-1965) reposicionou Maria como “membro eminente da Igreja”, evitando excessos devocionais que a divinizavam. O Papa Francisco, conforme destacado pelo IHU, lembra que “Maria é mãe, não deusa”, reafirmando sua humanidade. Essa abordagem ressalta sua trajetória terrena: uma mãe judia que viveu dúvidas, dores e alegrias, como qualquer pessoa. Leonardo Boff, em A Porção Feminina de Deus, assinala que Maria revela a face materna do Divino, integrando o feminino na compreensão do sagrado. Sua história, assim, torna-se acessível a todos, independentemente de credo.

    4. Maria na pós-modernidade: respostas a uma crise de sentido

    Em meio à fragmentação pós-moderna, Maria emerge como figura de reconciliação. Artigos do IHU (Instituto Humanitas Unisinos) destacam que sua “glorificação” não a distancia da realidade, mas a aproxima das crises humanas. A poesia de Pedro Casaldáliga, que a transforma em “todas as mulheres”, ilustra como sua imagem transcende o religioso, simbolizando esperança para os oprimidos. Ela é, nas palavras de Casaldáliga, a mãe dos sem-terra, das viúvas, dos excluídos — uma metáfora da compaixão ativa.

    Maria: espelho do humano e do divino

    Maria não é importante apenas por quem gerou, mas por quem ela foi: uma mulher que encarnou paradoxos — humilde e revolucionária, silenciosa e profética, humana e transcendente. Sua história desafia dogmas estéreis e convida a uma espiritualidade encarnada, onde o divino se manifesta no cotidiano. No 13 de maio de 2025, celebrá-la é reconhecer que, em sua trajetória, encontramos um mapa para navegar as complexidades da existência, unindo céu e terra, tradição e renovação. Como síntese do feminino sagrado e da disponibilidade ao mistério, Maria permanece, afinal, uma resposta viva aos anseios mais profundos da humanidade.

    Referências
    ARQUIDIOCESE DE UBERABA. A Virgem Maria na Teologia. Arquidiocese de Uberaba, [s.d.]. Disponível em: https://arquidiocesedeuberaba.org.br/a-virgem-maria-na-teologia/. Acesso em: 12 maio 2025.
    CASALDÁLIGA, Pedro. Poesia de Pedro Casaldáliga transforma Maria em todas as mulheres. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/605492-poesia-de-pedro-casaldaliga-transforma-maria-em-todas-as-mulheres. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Como Maria, a mãe judia de Jesus, se tornou a virgem que deu à luz a Deus. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Entrevista com James D. Tabor. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/602004-como-maria-a-mae-judia-de-jesus-se-tornou-a-virgem-que-deu-a-luz-a-deus-entrevista-com-james-d-tabor. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Contemplação do encontro de Maria com o Ressuscitado. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/597943-contemplacao-do-encontro-de-maria-com-o-ressuscitado. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Dom Leonardo: Em Maria, encontramos respostas; nos tornamos pessoas mais disponíveis. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/categorias/615135-dom-leonardo-em-maria-nos-encontramos-respostas-nos-nos-tornamos-pessoas-mais-disponiveis. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Francisco encerra polêmicas seculares sobre Nossa Senhora: “Maria é mãe, não deusa”. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/607814-francisco-encerra-polemicas-seculares-sobre-nossa-senhora-maria-e-mae-e-nao-deusa-expressoes-as-vezes-exageradas. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Maria, a glorificada, e a crise pós-moderna. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/185-noticias/noticias-2016/559142-maria-a-glorificada-e-a-crise-pos-moderna. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Maria de Nazaré à luz da mariologia desenvolvida a partir do Concílio Vaticano II. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/598632-maria-de-nazare-a-luz-da-mariologia-desenvolvida-a-partir-do-concilio-vaticano-ii. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Maria, a mulher mais jovem do que o pecado. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Artigo de Michele Giulio Masciarelli. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/185-noticias/noticias-2016/563199-maria-a-mulher-mais-jovem-do-que-o-pecado-artigo-de-michele-giulio-masciarelli. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Não façam isso com a mãe de Jesus. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/78-noticias/589385-nao-facam-isso-com-a-mae-de-jesus. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. Para Maria, por Jesus: A virgem na teologia feminista. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/categorias/615453-para-maria-por-jesus-a-virgem-na-teologia-feminista. Acesso em: 12 maio 2025.
    IHU UNISINOS. “Num momento da história, o centro de tudo está numa mulher”. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), [s.d.]. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/sobre-o-ihu/78-noticias/574634-num-momento-da-historia-o-centro-de-tudo-esta-numa-mulher. Acesso em: 12 maio 2025.
    BOFF, Leonardo. A porção feminina de Deus. Leonardo Boff, 30 ago. 2014. Disponível em: https://leonardoboff.org/2014/08/30/a-porcao-feminina-de-deus/. Acesso em: 12 maio 2025.
    ROSARY CENTER. Maria na Teologia dos Padres – Parte 2. Rosary Center, [s.d.]. Disponível em: https://rosarycenter.org/pt/ll73n2-mary-in-the-theology-of-the-fathers-part-2. Acesso em: 12 maio 2025.
    REVISTA CULTURA TEOLÓGICA. Maria de Nazaré: Perspectivas teológicas. Revista Cultura Teológica, [s.d.]. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/culturateo/article/download/14360/11834/38580. Acesso em: 12 maio 2025.

  • 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial: lições para 2025

    80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial: lições para 2025

    Por Levon Nascimento

    Há oito décadas, em 8 de maio de 1945, o mundo celebrava o fim do conflito mais devastador da história: a Segunda Guerra Mundial. Marcada por mais de 70 milhões de mortos, holocaustos, bombardeios atômicos e a destruição de nações inteiras, a guerra deixou cicatrizes que ainda hoje exigem reflexão. Em 2025, quando completamos 80 anos desse marco, o contexto geopolítico global parece ecoar perigosamente os erros do passado. Diante de tensões bélicas, ascensão de extremismos e crises humanitárias, quais lições podemos resgatar para evitar repetir tragédias?

    A criação da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1945, simbolizou a esperança de que a cooperação internacional impediria novos conflitos em escala global. No entanto, como aponta o artigo “Europa se rearma, mas não se encontra” (BRASIL 247), o continente europeu, outrora pioneiro na integração pós-guerra, enfrenta hoje uma onda de rearmamento e divisões internas. A invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 e as crescentes tensões entre blocos geopolíticos revelam a fragilidade das instituições multilaterais. Como alertou o presidente Lula em discurso recente: “A paz só é possível com diálogo, nunca com mais armas” (VERMELHO, 2025).

    A ordem mundial pós-1945, construída sobre a liderança dos EUA e a cooperação transatlântica, está sob ameaça. Analistas destacam que a política externa de Donald Trump, com sua retórica isolacionista e questionamento da OTAN, desestabiliza alianças históricas. O historiador Norbert Frei afirma que a Europa, dependente da proteção americana por décadas, agora enfrenta um dilema: buscar autonomia militar ou renegociar sua relação com os EUA em bases incertas. A fala do chanceler alemão Friedrich Merz sobre a necessidade de a União Europeia “existir sem os EUA” reflete esse impasse.

    A Alemanha, principal nação responsável pelo conflito, segue lidando com o legado da guerra. Segundo reportagem do Estadão (2024), o país ainda busca restos de soldados mortos, um esforço simbólico que reflete a necessidade de enfrentar o passado. A reconciliação, porém, exige mais que gestos: demanda educação e combate ao revisionismo histórico. Como destacado no evento “80 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial” (JUSGOV, 2025), a distorção de fatos, como a negação do Holocausto ou a glorificação de regimes totalitários, ameaça a coesão social.

    Na Rússia, o “Dia da Vitória” em 9 de maio — diferente do 8 de maio, devido ao fuso horário russo em relação ao horário da rendição alemã de 1945 — é celebrado como um marco da resistência soviética, mas também instrumentalizado para justificar ações geopolíticas atuais. Durante evento na Assembleia Legislativa de São Paulo, o embaixador russo Alexey Labestskiy enfatizou a “missão de glorificar os heróis”, enquanto críticos apontam para o risco de revisionismo que omite os crimes stalinistas.

    O genocídio de seis milhões de judeus durante a guerra permanece como um alerta sobre as consequências da intolerância. Contudo, como questiona o artigo “O Holocausto justifica um novo Holocausto?”, do sociólogo Jessé Souza (ICL NOTÍCIAS, 2024), instrumentalizar essa tragédia para legitimar violências atuais — como o genocídio em Gaza pelo governo sionista de Israel — é um erro grotesco. A lição do Holocausto não é a de que “um povo deve sofrer para que outro sobreviva”, mas sim a de que a desumanização do outro é o primeiro passo para a barbárie.

    Em 2025, essa reflexão é urgente, principalmente diante de discursos que normalizam a violência étnica. A retórica expansionista de Trump, que sugere anexar territórios como a Groenlândia ou o Canadá, e a invasão russa da Ucrânia violam o princípio pós-1945 de integridade territorial. Como alerta Stefan Wolff, da Universidade de Birmingham, a erosão das normas internacionais abre espaço para que potências alterem fronteiras pela força, replicando os erros do passado.

    A Guerra Fria (1947-1991) dividiu o mundo em blocos liderados por EUA e URSS. Hoje, a bipolaridade ressurge com EUA e China, enquanto a Rússia busca reafirmar influência. A guerra comercial de Trump contra a China, porém, paradoxalmente fortalece Pequim como alternativa econômica para aliados europeus e asiáticos. Elisabeth Braw, do Atlantic Council, destaca que a China emerge como “país responsável” em contraste com a política protecionista americana.

    Para o Brasil, a nova ordem traz desafios. Com forças armadas que se deixaram auto-desmoralizar pela tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, e dependência de rotas marítimas controladas por potências, o país enfrenta dilemas sobre sua soberania, especialmente em relação à Amazônia. A pergunta do articulista da DefesaNet — “seremos senhores ou vassalos?” — ecoa a necessidade de uma estratégia clara em um mundo onde “a lei do mais forte” parece retornar.

    Os 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial coincidirão com um cenário de incertezas: guerras na Europa e no Oriente Médio, polarização ideológica e mudanças climáticas. No entanto, a história nos oferece um guia. Como escreveu o filósofo George Santayana, “aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”.

    Além de tudo isso, duas outras guerras são travadas pela humanidade: a degradação ambiental sem precedentes e as mudanças climáticas provocadas pela ação dos sistemas econômicos humanos no chamado antropoceno. Tanto quanto o nazifascismo provocou a Segunda Guerra Mundial, os negacionismos ambientais e climáticos atuais podem ter efeito ainda mais devastadores sobre o planeta.

    A lição central para 2025 é clara: ou investimos em diplomacia, justiça social, preservação da memória e cumprimento das metas ambientais-climáticas, ou permitiremos que o ciclo de violência se perpetue. A ordem pós-1945, embora imperfeita, evitou guerras globais por décadas. Sua erosão, acelerada por nacionalismos e alianças voláteis, nos coloca à beira de um precipício. Como alertam historiadores, a atual turbulência lembra os anos entre 1914 e 1939, quando a incapacidade de diálogo levou ao colapso. A escolha, como em 1945, ainda é nossa.

    Referências citadas

    BBC. As 4 mudanças de Trump que estão criando uma nova ordem mundial. 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cj68rxg28j1o. Acesso em: 7 maio 2025.
    BRASIL 247. Europa se rearma, mas não se encontra. 2025. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/europa-se-rearma-mas-nao-se-encontra. Acesso em: 7 maio 2025.
    DEFESANET. 2025 – o Ano D – Trump, Putin, o Brasil e a nova ordem internacional. 2025. Disponível em: https://www.defesanet.com.br/ecos/apos-80-anos-a-ordem-mundial-do-pos-guerra-esta-desabando/. Acesso em: 7 maio 2025.
    DEUTSCHE WELLE. Ordem mundial do pós-guerra se esfacela, 80 anos depois. 2025. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/ap%C3%B3s-80-anos-a-ordem-mundial-do-p%C3%B3s-guerra-est%C3%A1-desmoronando/a-72416053. Acesso em: 7 maio 2025.
    ESTADÃO. 80 anos após a 2ª Guerra Mundial, Alemanha ainda procura por soldados mortos. 2024. Disponível em: https://www.estadao.com.br/internacional/80-anos-apos-a-2-guerra-mundial-alemanha-ainda-procura-por-soldados-mortos/. Acesso em: 7 maio 2025.
    ICL NOTÍCIAS. O Holocausto justifica um novo Holocausto? 2024. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/o-holocausto-justifica-um-novo-holocausto/. Acesso em: 7 maio 2025.
    JUSGOV. 80 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. 2025. Disponível em: https://www.jusgov.uminho.pt/pt-pt/event/80-anos-depois-do-fim-da-segunda-guerra-mundial/. Acesso em: 7 maio 2025.
    UOL NOTÍCIAS. Ordem mundial do pós-guerra se esfacela 80 anos depois. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2025/05/03/ordem-mundial-do-pos-guerra-se-esfacela-80-anos-depois.htm. Acesso em: 7 maio 2025.
    VERMELHO. Lula, Xi e Putin celebram os 80 anos da vitória na 2ª Guerra Mundial. 2025. Disponível em: https://vermelho.org.br/2025/05/06/lula-xi-e-putin-celebram-os-80-anos-da-vitoria-na-2a-guerra-mundial/. Acesso em: 7 maio 2025.

  • Antiga matriz de Taiobeiras (90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras)

    Antiga matriz de Taiobeiras (90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras)

    Por Levon Nascimento

    A história da presença católica em Taiobeiras remonta ao final do século XIX, quando a região ainda pertencia à Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Rio Pardo de Minas. Em 1897, o pároco daquela cidade, Esperidião Gonçalves dos Santos, benzeu e inaugurou o Santo Cruzeiro dos Martírios, no dia 2 de julho, marco importante da religiosidade local. Nessa época, Taiobeiras era apenas um povoado, mas já contava com uma comunidade católica ativa.

    Foi nesse contexto que surgiu a primeira capela do lugar, construída por Vitoriano Pereira Costa, proprietário do Sítio Bom Jardim. Ela foi erguida no local onde hoje se encontra a Praça Joaquim Teixeira, nos fundos do atual Mercado Municipal. Essa capela simples, mas significativa, seria o embrião da futura Paróquia São Sebastião de Taiobeiras.

    Em 1924, com o distrito já instalado e passado a pertencer ao município e paróquia de Salinas, diante do crescimento da comunidade e da dedicação dos moradores, a capela passou por sua primeira ampliação, graças aos esforços liderados por dona Raquel Torres, que organizou campanhas para arrecadação de recursos. Como era de costume nas capelas particulares da época, pessoas de destaque social eram sepultadas em seu interior. Ainda se viam, no piso da igreja, as lápides de figuras notáveis como Martinho Antônio Rêgo — o primeiro vereador de Taiobeiras para a Câmara de Rio Pardo de Minas, falecido em 1911 —, Aleixo Martins de Oliveira, Conrado José da Rocha e sua esposa, Maria Quintina da Rocha.

    Com o passar dos anos, a população do povoado aumentou e a capela original já não comportava os fiéis. Em 1939, uma segunda ampliação foi realizada, promovida por Frei Acário Heuvel, então administrador da recém-criada paróquia de Taiobeiras, mas ainda residente em Salinas. Essa estrutura permaneceu até 1962, quando foi lamentavelmente demolida.

    A Paróquia São Sebastião de Taiobeiras seria oficialmente criada em 20 de maio de 1935, por decreto do bispo diocesano de Montes Claros, Dom João Antônio Pimenta, sendo desmembrada da Paróquia Santo Antônio de Salinas. Mas foi apenas em 1941, com a chegada de Frei Jucundiano de Kok, primeiro pároco efetivo de Taiobeiras, que se iniciaria a construção da nova e atual matriz de São Sebastião, localizada na praça de mesmo nome.

    Fontes
    1. Taiobeiras: Seus Fatos Históricos. Volumes I e II. Autor: Avay Miranda.
    2. Efemérides Riopardenses. Volumes I e IV. Autor: Cônego Padre Newton de Ângelis.
    3. Arquivo da Arquidiocese de Montes Cla
    ros.

  • Os oito lados da Igrejinha de Taiobeiras (90 anos da Paróquia São Sebastião)

    Os oito lados da Igrejinha de Taiobeiras (90 anos da Paróquia São Sebastião)

    Professor Levon Nascimento

    Em 20 de maio de 2025, a Paróquia São Sebastião de Taiobeiras completa 90 anos de fundação. Um de seus vários patrimônios de espiritualidade e cultura é a Capela Octogonal de Nossa Senhora de Fátima, também chamada de Igrejinha.

    Em setembro de 1954, os missionários capuchinhos Frei Bernardino de Vilas Boas, Frei Lauro de Cacique Doble e Frei Alceu do Paraí passaram pela região do Alto Rio Pardo levando a imagem visitadora de Nossa Senhora de Fátima a várias cidades. O vigário de Salinas, à época, onde a missão passou entre os dias 14 e 19 de setembro, ficou impressionado com a receptividade do povo da região para com a relíquia da mãe de Jesus. Ele anotou no livro do tombo da Paróquia de Santo Antônio de Salinas: “Fátima em Salinas foi um assombro. Tomou de assalto a cidade; [até] o pastor protestante quis receber explicação do imenso acontecimento.”

    Na verdade, essa missão era algo mais amplo. Fora solicitada pelo então bispo de Montes Claros, Dom Luís Victor Sartori, à Província dos Capuchinhos de Caxias do Sul. E, desde abril de 1954, percorrera todas as cidades da diocese montes-clarense. Assim como seu colega de Salinas, o cônego Padre Newton de Ângelis, em seu livro Efemérides Riopardenses, descreve impressionado o sucesso do acontecimento em Rio Pardo de Minas: “A população, num misto de patriotismo e fervor religioso, todos enfim, vibravam de alegria e entusiasmo. [..] A multidão fervorosa, em prantos e alaridos, continua do lado de fora [da igreja], em delírios de aclamação”. A imagem missionária esteve ali entre os dias 5 e 9 de setembro.

    De Rio Pardo, a santa missionária chega a Taiobeiras na noite de 9 de setembro, permanecendo até o dia 13, quando se dirigiu a Salinas, e produziu semelhante ou superior comoção do povo. Foi então que Frei Jucundiano de Kok, já morador da recém-emancipada cidade há 14 anos, mas novato na função oficial de pároco, teve a ideia de adquirir uma réplica da imagem de Nossa Senhora de Fátima e construir um pequeno santuário para resguardá-la.

    Nos dois anos seguintes, 1955 e 1956, muitas quermesses, leilões e atividades diversas foram realizadas para alcançar o sonho, que virou realidade em 13 de maio de 1957, quando foi finalmente inaugurada a “Igrejinha” e coroada a imagem, adquirida em Portugal, já na presença do novo bispo de Montes Claros, Dom José Trindade. Iniciava-se assim a maior tradição religiosa, popular e cultural de Taiobeiras: a já longeva Festa de Nossa Senhora de Fátima, da qual também derivou a festividade social conhecida atualmente como Festa de Maio.

    Mas o projeto da Igrejinha, por si só, é um capítulo à parte e todo especial dessa história. O pequeno templo tem linhas simples, mas se destaca por ser octogonal. Circula uma lenda urbana de que só existem três templos assim em todo o mundo. Não é verdade. Há muitas igrejas de oito lados. É uma arquitetura religiosa muito comum nos países nórdicos, como Noruega e Dinamarca. No Rio de Janeiro, o Outeiro da Glória também é octogonal. Em Belo Horizonte, na Praça da Assembleia Legislativa, há um santuário também dedicado à Virgem de Fátima, com planta em octógono.

    Mas, sem dúvidas, o mais significativo templo cristão de oito lados é a Igreja do Monte das Bem-Aventuranças, na Terra Santa, onde se presume que Jesus pregou o Sermão da Montanha, descrito no Evangelho de São Mateus a partir do capítulo 5. Aliás, segundo Frei Feliciano van Sambeek, OFM, já falecido, que foi pároco de Taiobeiras entre 1994 e 1996, foi nas Bem-Aventuranças que Frei Jucundiano se inspirou para projetar a Igrejinha. Vejamos quais são elas:

    Mateus 5,3-10:

    1. “Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos Céus!
    2. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados!
    3. Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra!
    4. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados!
    5. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia!
    6. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus!
    7. Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus!
    8. Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus!”

    Dessa forma, mais do que um ponto turístico — que por si só é muito bonito —, a Igrejinha Octogonal de Nossa Senhora de Fátima, em Taiobeiras, pode ser um excelente roteiro de itinerário espiritual, onde as pessoas poderão meditar os requisitos necessários para chegarem à beatitude (bem-aventurança) proposta por Jesus.

    A seguir, apresento o caminho…

    • Entre pela porta principal, faça o Sinal da Cruz e recite a primeira bem-aventurança:
      Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos Céus!
      Reze um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
    • Siga para o lado direito, recite a segunda bem-aventurança:
      Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados!
      Reze um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
    • Vá para o terceiro ponto, do lado da porta do velário, e diga a próxima bem-aventurança:
      Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra!
      Reze um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
    • Siga para o quarto ponto, à direita, e recite:
      Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados!
      Reze um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
    • Caminhe para o quinto lugar, atrás da imagem de Nossa Senhora de Fátima, e fale:
      Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia!
      Reze um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
    • Avance para o sexto lado, à direita, e reze:
      Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus!
      Reze um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
    • Direcione-se para o sétimo lugar, junto à porta leste, e fale:
      Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus!
      Reze um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
    • Caminhe para o oitavo e último lugar e recite:
      Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus!
      Reze um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.

    Agora, suba os degraus, vá em frente à imagem de Nossa Senhora de Fátima, apresente suas intenções, ore uma Salve-Rainha e encerre com o Sinal da Cruz.

    P.S.: Após a publicação original deste texto, minha amiga Elizabeth Mendes Corrêa — a Beth Mendes — me contou que, quando era criança, perguntou ao Frei Jucundiano por que a igrejinha tinha oito lados. Ele respondeu que era o formato de uma coroa. Faz sentido. A capela abriga, bem no centro do edifício, a imagem de Nossa Senhora de Fátima. Como Rainha do Céu, o formato octogonal sugere que o templo inteiro a envolve e a coroa com simplicidade e dignidade.

    Fontes consultadas:
    1. Efemérides Riopardenses, Volume III, de autoria do Cônego Newton de Ângelis;
    2. Taiobeiras: Seus Fatos Históricos, Volume II, de autoria de Avay Miranda;
    3. Livro do Tombo da Paróquia Santo Antônio de Salinas;
    4. Relatos populares e memória do autor.

    Leia também:

    90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras: leigos em missão!

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  • 90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras: leigos em missão!

    90 anos da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras: leigos em missão!

    Em 20 de maio de 1935, 90 anos atrás, nascia em Taiobeiras uma experiência de fé cristã que se tornaria símbolo de resistência, esperança e protagonismo leigo: a Paróquia São Sebastião. Seu jubileu, em 2025, não é apenas uma marca temporal, mas um testemunho vivo de como os batizados, quando assumem sua vocação com ardor missionário, podem transformar a Igreja e o mundo.

    Raízes em um solo fértil: a Igreja pós-Concílio

    A história desta paróquia se entrelaça com os ventos renovadores do Concílio Vaticano II (1962–1965), que desafiou os leigos a saírem da plateia e se tornarem assembleia, para serem “sal da terra e luz do mundo”. Essa chamada ecoou na América Latina por meio dos encontros de Medellín (1968) e Puebla (1979), documentos que denunciaram estruturas de opressão e propuseram uma Igreja encarnada, na qual os pobres são sujeitos de sua própria história.

    Em Montes Claros, esse espírito que já vinha animando a vida da Igreja com Dom José Trindade, que participou do Vaticano II, ganhou corpo na 3ª Assembleia Diocesana de Pastoral (1990), sob o pastoreio de Dom Geraldo Majela de Castro, O.Praem. O documento Compromissos Eclesiais e Diretrizes Pastorais (1990) não foi apenas um texto: tornou-se um grito profético que ressoou em Taiobeiras. Ali, Frei João José de Jesus, OFM, então pároco, no espírito franciscano que já vinha de Frei Jucundiano de Kok e vários outros confrades, compreendeu que a renovação eclesial dependia de descentralizar o poder e confiar aos leigos espaços de participação e decisão.

    Conselheiros Paroquiais: rostos de uma Igreja ministerial

    A história da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras é marcada por leigos que, em diferentes contextos, traduziram sua fé em ação missionária. A seguir, a lista cronológica dos Conselheiros Paroquiais, com suas respectivas vinculações pastorais, representantes dos milhares de leigos e leigas taiobeirenses que, ao longo dessas nove décadas, vivenciaram ardorosamente o seu batismo:

    NomeMandatoGrupo / Comunidade / Pastoral
    Elísio Valter dos Santos1990–1993;
    1998–1999
    Liga Católica Jesus, Maria e José / CEBs
    Vitor Hugo Teixeira1994–1998Legião de Maria
    Neide Ferreira de Souza2000Catequese (1ª Comunhão e Crisma)
    Rosa Croccoli2001–2004Comunidades Eclesiais de Base (CEBs)
    Levon Nascimento2005–2008Pastoral da Juventude / CEBs
    Welton Silveira Mendes2009–2010Catequese (1ª Comunhão e Crisma)
    Jurailde Ferreira de Souza2010–2021Catequese (1ª Comunhão e Crisma)
    José Maria Alves Sucupira2021–2023Renovação Carismática Católica (RCC)
    Edvaldo Nogueira dos Santos2023–atualRCC / Liturgia

    Cada conselheiro, inserido em seu tempo, encarnou a missão de “ser Igreja” além dos muros do templo, conforme as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da CNBB, que destacam a formação integral do leigo nas dimensões humana, sociopolítica e espiritual. “Os leigos, por seu batismo, são chamados a participar da missão sacerdotal, profética e real de Cristo” (Lumen Gentium, 31).

    90 anos: um legado que interpela o futuro

    A lista dos conselheiros não é um arquivo poeirento, mas um mapa vivo da sinodalidade. Ela revela:

    1. Adaptação aos desafios temporais: da implantação do Concílio Vaticano II ao legado do Papa Francisco frente à crise climática;
    2. Continuidade na formação: mantendo viva a transmissão da fé às novas gerações, atendendo ao chamado conciliar por “formação permanente”;
    3. Ecumenismo prático: a presença de movimentos diversos — Liga Católica, Legião de Maria, Vicentinos, RCC, Pastorais Sociais e CEBs — mostra como a paróquia abraçou a pluralidade, antecipando o apelo do Sínodo sobre a Sinodalidade (2021–2024) por “relações autênticas e não tóxicas”.

    Este legado interroga o futuro: como os próximos conselheiros responderão a desafios como a crise ecológica (tema da Campanha da Fraternidade 2025 e da Laudato Si’, do Papa Francisco) ou à crescente secularização? A resposta está na semente plantada por esses leigos: fidelidade criativa, que une tradição e ousadia, tal como propõem as Diretrizes da CNBB ao falar em “traduzir o Evangelho em orientações pastorais ajustadas”.

    Parabéns, Paróquia São Sebastião! Seu jubileu é um convite a continuar escrevendo história — com as mãos dos pequenos, como sempre fez o Deus do Evangelho.

    Fontes:
    – Documentos da 3ª Assembleia Diocesana de Montes Claros (1990)
    – Concílio Vaticano II
    – Documentos de Medellín (1968) e Puebla (1979)
    – Registros paroquiais de Taiobeiras

  • Fátima: “Um verdadeiro assombro” na região!

    Fátima: “Um verdadeiro assombro” na região!

    Em 3 de maio de 2025 tem início mais uma edição da tradicional Festa de Nossa Senhora de Fátima, em Taiobeiras. Essa celebração, tão enraizada na cultura local, teve início em maio de 1957, fruto de dois eventos marcantes.

    Em setembro de 1954, a recém-emancipada cidade recebeu a visita da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, trazida pelos missionários capuchinhos. Segundo relato do então vigário de Salinas, “Fátima […] foi um verdadeiro assombro” na região — passando por Rio Pardo, depois por Taiobeiras e, finalmente, por Salinas.

    Em 1955, tocada pela intensidade daquela missão, a comunidade taiobeirense decidiu manter viva a experiência. Foi então que Frei Jucundiano de Kok idealizou e iniciou a construção da Capela Octogonal, planejada para abrigar a imagem da Virgem que seria adquirida em 1957. Nesse mesmo ano, foi inaugurado o pequeno santuário mariano e realizada a primeira edição da festa, em 13 de maio — data que se tornaria a principal celebração religiosa da cidade.

    A imagem que ilustra esta postagem pertence ao arquivo da Província Franciscana de Santa Cruz, em Belo Horizonte. Trata-se de uma singela homenagem feita pela Paróquia São Sebastião de Taiobeiras ao seu primeiro pároco, um ano após sua morte — o mesmo que lançou as bases da fé e da cultura que hoje marcam profundamente a identidade do nosso povo.

    Gentilmente cedida pela Província Franciscana de Santa Cruz, Belo Horizonte.
  • Domingo de Ramos: a simplicidade do jumentinho também nas relações de consumo

    Domingo de Ramos: a simplicidade do jumentinho também nas relações de consumo

    A Campanha da Fraternidade de 2025 traz um convite urgente: como mudar nossa maneira de pensar e agir para cuidar melhor do planeta, nossa Casa Comum? Inspirados pelas leituras do Domingo de Ramos e pela encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, somos chamados a uma transformação profunda — não só de atitudes externas, mas do nosso coração. É preciso ouvir o grito da Terra e dos mais pobres como um chamado de Deus.

    Escutar para mudar (Isaías 50,4-7) – O profeta Isaías fala de um servo que, mesmo sofrendo, continua ouvindo a voz de Deus. Esse ouvir atento é o primeiro passo para cuidar melhor do mundo. O Papa Francisco lembra: “Esquecemos que também somos Terra”. O servo que acorda todo dia para escutar nos mostra que precisamos estar atentos todos os dias à vida ao nosso redor. Em um mundo onde o consumo e a exploração são comuns, é preciso ter coragem para dizer não à indiferença e sim ao cuidado.

    Humildade que liberta (Filipenses 2,6-11) – São Paulo fala de Jesus, que se esvaziou de todo orgulho para servir. Esse “esvaziamento” é o contrário da ideia de querer dominar tudo, inclusive a natureza. Para cuidar do planeta, precisamos ser humildes, reconhecer que fazemos parte de uma grande rede de vida. Como diz o Papa: “Tudo está conectado”. A verdadeira grandeza está em servir — inclusive a criação.

    Simplicidade que fala alto (Lucas 19,28-40) – Jesus entra em Jerusalém montado num jumento — um símbolo de simplicidade, bem diferente dos cavalos usados por reis e guerreiros. Cuidar do meio ambiente também exige simplicidade: consumir menos, usar energias limpas, viver de forma mais consciente. Quando os fariseus pedem que Jesus mande os discípulos se calarem, ele responde: “Se eles se calarem, as pedras gritarão”. Hoje, quem grita são os rios poluídos, as florestas destruídas, o ar contaminado. A criação está clamando por socorro.

    Da dor à esperança (Salmo 21/22) – O salmo começa com um grito de dor: “Meu Deus, por que me abandonaste?”, mas termina com esperança e louvor. Esse caminho também é o da conversão ecológica: perceber o sofrimento da Terra e, mesmo assim, ter fé e agir. Mesmo em meio a problemas como ganância, poluição e injustiça, Deus não nos abandona. A Páscoa nos lembra que a vida pode renascer — há esperança de renovação.

    A conversão é uma resposta – Cuidar do planeta não é só uma questão técnica, mas espiritual. Converter-se é escutar como o servo, ser humilde como Jesus, viver com simplicidade e transformar a dor em esperança. A Campanha da Fraternidade nos convida a transformar nossa fé em ação. Se ficarmos calados, a própria natureza vai gritar. Mas se respondermos, seremos parte do canto da criação, que proclama: “Jesus Cristo é o Senhor”. Que neste Domingo de Ramos, ao estendermos nossos mantos no caminho, este gesto de partilha nos inspire a construir um mundo onde a paz do céu se reflita aqui na Terra.

  • Nascimento: origens e usos de um sobrenome brasileiro

    Nascimento: origens e usos de um sobrenome brasileiro

    Eu sempre me interessei pela história do sobrenome Nascimento, especialmente porque meu nome é Levon Nascimento. Tem, obviamente, origem em Portugal e surgiu como uma homenagem religiosa ao nascimento de Jesus Cristo, sendo utilizado originalmente para batizar crianças nascidas em 25 de dezembro. Essa prática, enraizada na etimologia latina nascere (“nascer”), acabou se difundindo entre diversas famílias, independentemente de laços consanguíneos, e consolidando-se como um marcador cultural e religioso.

    Acompanhando a expansão do Império Português, o sobrenome foi levado para as colônias – particularmente ao Brasil – onde as práticas onomásticas se transformaram em instrumentos de identificação e domínio. No ambiente colonial brasileiro, a imposição de nomes cristãos ocorreu de forma forçada, especialmente no processo de batismo dos africanos escravizados. Essa imposição eliminava suas identidades originais e substituía-as por nomes que reforçavam a dominação cultural.

    A complexidade histórica do sobrenome Nascimento ficou ainda mais evidente ao constatar que, mesmo após a abolição, os descendentes de africanos escravizados mantiveram esses sobrenomes, carregando uma herança ambígua que mistura opressão e resistência. Assim, percebo que o Nascimento não é exclusivo de famílias de origem europeia, mas também faz parte da identidade afro-brasileira, sendo um legado que revela tanto a tradição religiosa quanto os mecanismos de controle colonial.

    Meu interesse pessoal nesse assunto é ainda mais intenso, pois meu pai e minha mãe pertencem, individualmente, a famílias que adotaram o sobrenome Nascimento – sem parentesco pré-nupcial entre si – e ambos são de origem afro-indígena-lusa na Bahia. Essa singularidade em minha linhagem, com apenas um sobrenome, diferentemente do duplo que identifica a maioria das pessoas no Brasil, me impulsiona, juntamente com o desejo de compreender os processos históricos fundantes, a explorar os meandros culturais que moldaram minha identidade familiar.

    Em síntese, o sobrenome Nascimento representa uma trajetória onde devoção, dominação e resistência se entrelaçam. Ao revisitar sua origem, desde os rituais de batismo em Portugal até a imposição do nome nos processos de escravização e sua perpetuação na sociedade brasileira, sinto que descubro parte da minha própria história. Essa reflexão pessoal não só valoriza a memória dos meus antepassados, mas também me convida a compreender as complexidades das identidades formadas em meio a fluxos culturais e de dominação tão diversos.

    Referências

    DICIONÁRIO DE NOMES PRÓPRIOS. Nascimento. Disponível em: https://www.dicionariodenomesproprios.com.br/nascimento/. Acesso em: 8 abr. 2025.

    FOREBARS. Nascimento – Forebears. Disponível em: https://forebears.io/pt/surnames/nascimento. Acesso em: 8 abr. 2025.

    SOARES, Edson; PATRÍCIO, Pétrus David Sousa. Renomear para recomeçar: lógicas onomásticas no pós-abolição. DADOS – Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, v. 61, n. 2, p. 311-340, 2018. Acesso em: 8 abr. 2025.

  • Felipe Neto incentiva a ler livros e a usar o senso crítico na pegadinha da candidatura

    Felipe Neto incentiva a ler livros e a usar o senso crítico na pegadinha da candidatura

    Felipe Neto surpreendeu geral ao fazer uma pegadinha que, à primeira vista, parecia o anúncio real de sua pré-candidatura à Presidência, mas que, na verdade, era uma jogada de marketing super bem elaborada. Em seu vídeo, o influenciador usou referências fortes ao livro 1984, de George Orwell, como “Ministério da Verdade”, “novafala” e até a ideia do “Grande Irmão” – todos termos que remetem ao controle da informação e à censura. A ideia era chamar a atenção da galera para as fraquezas das narrativas midiáticas tradicionais, que muitas vezes aceitam qualquer notícia sem conferir muita informação, e, ao mesmo tempo, incentivar todo mundo a ler livros que ajudam a pensar de forma crítica.

    Na prática, Felipe simulou a candidatura para provocar debates e expor como a mídia pode ser facilmente levada pela primeira impressão, reforçando que se você acreditou na pegadinha ou curtiu demais as falas autoritárias, talvez seja hora de dar uma chance para a leitura e para o pensamento crítico. Para ele, os livros são uma ferramenta poderosa para enfrentar o autoritarismo – como mostra 1984, onde o controle da informação é a arma de um governo totalitário.

    Além de desmontar as manchetes sensacionalistas que foram espalhadas logo após o vídeo, a ação serviu de alerta para que as pessoas não aceitem as notícias sem refletir. Felipe fez questão de dizer que o que falou era justamente o oposto do que acredita, e que a leitura pode ajudar a entender melhor os mecanismos de manipulação que, muitas vezes, dominam os meios de comunicação.

    No fim das contas, a jogada do Felipe Neto mostrou que misturar humor, crítica e incentivo à leitura pode ser uma forma divertida e eficaz de fazer as pessoas refletirem sobre política e sobre o papel da mídia na sociedade. Em vez de tomar tudo como verdade absoluta, essa ação nos convida a pensar: será que estamos lendo tudo direito e buscando entender a fundo o que está por trás das notícias?

    Referências
    BIMBATI, A. P. Anúncio de candidatura à Presidência de Felipe Neto era ação de marketing. UOL, 04 abr. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2025/04/04/anuncio-de-candidatura-a-presidente-de-felipe-neto-era-acao-de-marketing.htm. Acesso em: 08 abr. 2025.

    VERENICZ, M. Real ou fake? Felipe Neto lança pré-candidatura à Presidência com referência a Orwell. InfoMoney, 04 abr. 2025. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/politica/felipe-neto-anuncia-pre-candidatura-a-presidencia-da-republica-em-2026/. Acesso em: 08 abr. 2025.

    CAPARROZ, L. Felipe Neto anunciou sua “pré-candidatura à Presidência da República” – mas era só uma ação de marketing. Você S/A, 04 abr. 2025. Disponível em: https://vocesa.abril.com.br/sociedade/felipe-neto-anunciou-sua-pre-candidatura-a-presidencia-da-republica-mas-era-so-uma-acao-de-marketing/. Acesso em: 08 abr. 2025.

    PODER360. Talvez vocês precisem ler mais, diz Felipe Neto ao negar candidatura. Poder360, 04 abr. 2025. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-gente/talvez-voces-precisem-ler-mais-diz-felipe-neto-ao-negar-candidatura/. Acesso em: 08 abr. 2025.

    MEIO & MENSAGEM. Candidatura de Felipe Neto é ação de marketing da Audible. Meio & Mensagem, 04 abr. 2025. Disponível em: https://www.meioemensagem.com.br/comunicacao/candidatura-de-felipe-neto-e-acao-de-marketing-da-audible. Acesso em: 08 abr. 2025.

  • Ainda é possível falar em democracia, trabalho e socialismo

    Ainda é possível falar em democracia, trabalho e socialismo

    Acabei de terminar a leitura de Curso livre Marx-Engels: a criação destruidora, organizado por José Paulo Netto e publicado pela Boitempo em 2015. Como o nome indica, o livro é um curso em forma de livro: cada capítulo é uma aula (ou várias, dada a densidade) ministrada por grandes especialistas brasileiros em marxismo. Resolvi compartilhar aqui um resumo dessas aulas, começando justamente pelo fim: o capítulo Democracia, trabalho e socialismo, de Ruy Braga (p. 163-183), que fecha a obra com um debate urgente sobre os dilemas do nosso tempo.

    Braga, sociólogo conhecido por estudar a precarização do trabalho, vai além das fórmulas batidas. Seu texto é um chamado à reflexão: como pensar um projeto emancipador em meio à crise da democracia liberal, ao avanço da exploração no trabalho e ao esvaziamento do horizonte socialista? A chave, segundo ele, está em reinventar o marxismo — não como uma doutrina rígida, mas como ferramenta viva de análise e ação.

    A democracia liberal, exaltada como símbolo máximo da liberdade, carrega uma contradição de origem: promete igualdade política, mas perpetua desigualdades econômicas. O voto é universal, mas o poder segue nas mãos de quem controla o dinheiro. Milhões — informais, desempregados, imigrantes — seguem à margem da “cidadania”, excluídos pelas regras do mercado. A Comuna de Paris (1871) já mostrava isso: uma tentativa radical de democracia direta, esmagada pela repressão, mas ainda hoje referência para quem busca uma democracia real — onde o povo decide, e não só escolhe quem decide.

    Se a democracia liberal é limitada, o trabalho sob o capitalismo é alienado. Retomando Marx, Braga mostra como o trabalhador, isolado e precarizado, não se reconhece como parte de uma força coletiva. A lógica do lucro transforma gente em peça descartável. O neoliberalismo, com sua avalanche de terceirizações, “pejotizações” e plataformas digitais, só agravou isso. Mas nem tudo é derrota. Nas frestas, surgem lutas: greves de entregadores, ocupações de fábricas, cooperativas autogestionadas — como as da Argentina — revelam que a resistência existe e, mais do que isso, aponta caminhos para além do imediato. A luta por direitos pode (e deve) se conectar a um projeto maior: o socialismo.

    Para Braga, socialismo não é um modelo engessado, mas um processo em constante construção. Ele retoma Marx: “Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo; o que importa é transformá-lo”. Democracia socialista, nesse sentido, vai além de estatizar empresas: significa distribuir o poder. Conselhos operários, orçamentos participativos, movimentos de base são pistas de como isso pode acontecer na prática. Mas o desafio é grande: como fugir tanto das reformas cosméticas quanto dos autoritarismos disfarçados de vanguarda? É aí que entra a ideia de “criação destruidora” — demolir o que oprime, para abrir espaço ao novo.

    Num mundo marcado pela ascensão da extrema direita, colapso ambiental e a reconfiguração do trabalho via inteligência artificial, o marxismo continua essencial. Braga não oferece soluções fáceis, mas lembra que teoria sem prática é inócua. Democracia de verdade exige mais do que votar; trabalho digno vai além da CLT; socialismo é mais que discurso. É preciso coragem para destruir o que nos oprime e construir o que nos liberta. O capítulo de Braga não fecha o livro — ele abre um convite: que essas aulas transbordem das páginas e ganhem vida nas ruas, nas fábricas, nas praças. Onde, de fato, o futuro é decidido.

    Referência

    BRAGA, Ruy. Democracia, trabalho e socialismo. In: NETTO, José Paulo (org.). Curso livre Marx-Engels: a criação destruidora. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2015. p. 163-183.

  • Todo mundo tem ideologia e isso é muito bom

    Todo mundo tem ideologia e isso é muito bom

    Em um cenário político atual marcado por acusações de “doutrinação ideológica” contra educadores, imprensa e até líderes religiosos, é fundamental esclarecer um ponto central: a ideologia não é um desvio, mas uma condição inerente à experiência humana. Baseando-se inteiramente no livro Ideologia e Cidadania, de João Batista Libanio (1995), este artigo explica por que todos somos ideológicos e como esse entendimento é vital para o diálogo democrático.

    A ideologia, em seu sentido original, não é um instrumento de manipulação, mas um sistema de ideias e valores que organiza nossa interpretação da realidade. Libanio retoma a origem do termo, cunhado no século XVIII por Destutt de Tracy, para designar o estudo das ideias em sua relação com a cultura, a história e as instituições. No livro, esse conceito ganha vida por meio de um debate entre professores que representam visões de mundo distintas: o espiritualismo grego (professor Ariosto), a integração judaico-cristã de corpo e alma (professor Samuel), o materialismo científico (professor Jefferson) e a harmonia cósmica oriental (professor Pannikar). Cada perspectiva reflete um “mirante intelectual”, como define Libanio — um ponto de vista particular que estrutura nossa compreensão da vida, da morte, da sociedade e do transcendente.

    A acusação de “doutrinação ideológica” parte de um equívoco: a ideia de que é possível ser neutro. Libanio deixa claro que todos somos ideológicos, pois mesmo a rejeição a sistemas de pensamento configura uma postura ideológica — como o ceticismo ou o materialismo radical. A ideologia organiza nossa experiência, integrando ética, práticas sociais e interpretações da realidade, e é dinâmica, influenciada por cultura, religião e relações de poder. O problema, portanto, não está em ter uma ideologia, mas em impô-la como única verdade, negando o diálogo. É essa rigidez dogmática — e não a ideologia em si — que caracteriza a doutrinação.

    Curiosamente, grupos que acusam outros de doutrinação frequentemente operam sob uma ideologia dominante não reconhecida. O neo-conservadorismo, por exemplo, defende valores tradicionais e hierarquias sociais como se fossem “naturais”, enquanto o negacionismo científico disfarça interesses específicos sob o rótulo de “liberdade de pensamento”. Libanio alerta que o perigo reside justamente na naturalização de certas visões, que passam a ser vistas como óbvias e incontestáveis. A solução, porém, não é eliminar as ideologias (algo impossível), mas reconhecê-las e submetê-las ao debate público, como ocorre no diálogo entre os professores do livro.

    Nesse contexto, a escola tem papel crucial. A educação crítica não é “neutra” — neutralidade é uma ilusão —, mas ensina a pensar. Ao apresentar múltiplas perspectivas (como a aula descrita por Libanio), ela permite que alunos analisem contradições e construam suas próprias visões. A doutrinação, por outro lado, impõe respostas prontas e silencia questionamentos. A diferença está no método: uma forma autoritária de transmitir ideias ou um convite à reflexão autônoma.

    Conclui-se, assim, que a ideologia é um pilar da cidadania. Reconhecer que todas as visões são parciais e ideológicas é o primeiro passo para uma democracia saudável. Como afirma Libanio, a cidadania surge quando tomamos consciência de nosso “mirante” e nos abrimos à complexidade do mundo. Em tempos de polarização, a resposta às acusações de doutrinação não deve ser o silêncio, mas a ampliação do debate. Afinal, só quando admitimos que todos temos ideologia — inclusive os que nos acusam — podemos construir uma sociedade plural e verdadeiramente democrática.

    Referência:
    LIBANIO, João Batista. Ideologia e Cidadania. 4. ed. São Paulo: Editora Moderna, 1995. p. 7-16.

  • O que são direita e esquerda, de forma simplificada?

    O que são direita e esquerda, de forma simplificada?

    Você já ouviu alguém dizer que “direita e esquerda não existem mais” ou que são rótulos ultrapassados? Ou que a sociedade está polarizada entre esquerda e direita? O filósofo italiano Norberto Bobbio, em seu livro Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política (Editora Unesp, 2011), discorda da primeira questão. Para ele, essa divisão ainda é útil para entender as ideologias que moldam o mundo. Vamos descomplicar.

    A origem dos termos é histórica: durante a Revolução Francesa (1789), os revolucionários que defendiam mudanças sociais radicais sentavam-se à esquerda da assembleia, enquanto os conservadores, que apoiavam os privilégios da burguesia, da nobreza e do clero, ficavam à direita. Bobbio, no entanto, vai além da anedota: o cerne da diferença está em como cada lado enxerga a igualdade.

    Para a esquerda, reduzir desigualdades sociais e econômicas é prioridade. Isso não significa “tornar todos iguais”, mas garantir que as diferenças de riqueza, acesso à saúde, educação e oportunidades não sejam fruto de injustiças estruturais, como o racismo e a espoliação da força de trabalho da maioria. A esquerda tende a defender políticas redistributivas (como impostos progressivos — menos para os mais pobres e mais para os muito ricos), serviços públicos universais e a intervenção do Estado para proteger os mais vulneráveis.

    Já a direita entende que certas desigualdades são naturais ou até necessárias. Seu foco está no individualismo e na competição, com papel limitado do Estado na regulação econômica. A ideia é que, se o mercado e a competição funcionarem livremente, o progresso econômico beneficiará a todos, mesmo que alguns acumulem mais riqueza. Para a direita, a igualdade formal — todos com os mesmos direitos perante a lei — é suficiente; tentar igualar os resultados seria interferir na liberdade abstrata.

    Bobbio reconhece que há nuances. Existem esquerdas moderadas e radicais, direitas liberais e autoritárias. Além disso, temas como ambientalismo, racismo, feminismo, direitos LGBTQIA+ e imigração ganharam destaque nas últimas décadas. Ainda assim, o eixo central continua sendo a relação entre igualdade e liberdade. Enquanto a esquerda prioriza a igualdade (mesmo que isso exija limitar certas liberdades econômicas, como taxar grandes fortunas), a direita enfatiza a liberdade individual (mesmo que isso acentue a pobreza extrema e super-riqueza de poucos indivíduos).

    Muitos criticam essa divisão por considerá-la simplista, mas Bobbio argumenta que ela continua útil para organizar o debate político. Quando um partido propõe aumentar os gastos com educação pública (esquerda) ou aumentar a idade mínima de aposentadoria (direita), estamos vendo essa dicotomia em ação. Entendê-la não é engessar o pensamento, mas ter um mapa para navegar pelas escolhas que definem sociedades mais justas e livres.

    A distinção entre direita e esquerda não é perfeita, mas permanece válida. Como cidadãos, reconhecer essas visões nos permite refletir: queremos um Estado que corrija desigualdades ou que priorize a autonomia individual? A resposta varia, mas o importante é que o debate continue vivo. Afinal, como lembra Bobbio, a política é, no fundo, a luta por qual mundo queremos construir.

    Este texto trata dos conceitos de direita e esquerda exclusivamente sob a ótica da democracia clássica, tal como estabelecida durante o Iluminismo. Dessa forma, não abrange as manifestações da extrema-direita de caráter nazifascista e antidemocrático, tampouco as correntes da esquerda socialista de orientação marxista-leninista. No cenário político atual do Brasil, a direita tradicional foi em grande parte absorvida pela extrema-direita de viés protofascista, representada pelo bolsonarismo. Por sua vez, a esquerda politicamente viável — como o lulismo e o petismo — caracteriza-se, na prática, como social-democrata, com traços nacional-desenvolvimentistas e inspiração keynesiana. Já a esquerda comunista permanece restrita a pequenos agrupamentos políticos, como o PCO, PSTU, PCB, entre outros.

    Fonte:

    BOBBIO, Norberto. Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política. 3. ed. São Paulo: Editora Unesp, 2011.

  • Apedrejar a Terra adulterada ou cuidar da Casa Comum? (5º Domingo / Quaresma 2025)

    Apedrejar a Terra adulterada ou cuidar da Casa Comum? (5º Domingo / Quaresma 2025)

    A Campanha da Fraternidade 2025, com o tema “Fraternidade e Ecologia Integral” e o lema “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31), convida-nos a uma reflexão profunda sobre nossa relação com a criação, em sintonia com a espiritualidade quaresmal. As leituras do 5º Domingo da Quaresma (06/04/2025) oferecem um horizonte teológico e prático para essa conexão, unindo conversão pessoal, justiça social e cuidado com a Casa Comum.

    Isaías 43,16-21: Deus faz novas todas as coisas

    O profeta Isaías anuncia um futuro transformador: “Eis que eu farei coisas novas” (v. 19). A imagem de rios brotando no deserto simboliza a capacidade divina de restaurar a vida em meio à aridez. Essa promessa ressoa com a urgência da Ecologia Integral, que clama por ações concretas para reverter a crise socioambiental. A Campanha da Fraternidade 2025, inspirada nas palavras do Papa Francisco na encíclica Laudato Si’ e na COP-30, propõe justamente essa renovação: abandonar modelos predatórios e abraçar um novo paradigma de harmonia, onde a natureza não é explorada, mas reverenciada como dom sagrado. O convite a “não olhar para o passado” (v. 18) desafia-nos a superar a inércia e assumir responsabilidades, como sugere o texto-base da CF 2025 ao denunciar “falsas soluções” ambientais.

    Salmo 125(126): A alegria da colheita após o deserto

    O salmo celebra a alegria da restauração: “Os que lançam as sementes entre lágrimas, ceifarão com alegria” (v. 5). A metáfora agrícola remete à ecologia como trabalho paciente e coletivo. A Campanha da Fraternidade enfatiza que a sustentabilidade exige esforço contínuo, desde práticas pedagógicas em escolas até a defesa de comunidades afetadas por crimes ambientais. A “colheita” de um mundo mais justo só virá se semearmos hoje gestos de cuidado, como propõe a CF 2025 ao incentivar projetos de hortas comunitárias, consumo consciente e redução de emissões de gases de efeito estufa.

    Filipenses 3,8-14: Correr para a meta, esquecendo o que ficou para trás

    Paulo afirma: “Esquecendo o que fica para trás, eu me lanço para o que está na frente” (v. 13). Essa dinâmica de conversão integral ecoa o objetivo da Campanha: superar o pecado da indiferença ecológica e adotar um estilo de vida coerente com a fé. A Ecologia Integral, como eixo transversal da CF 2025, exige uma mudança radical no modelo econômico e no consumo. Paulo nos lembra que a meta, a “ressurreição” (v. 11), só é alcançada quando abandonamos o que nos afasta do projeto de Deus, incluindo a exploração desmedida dos recursos naturais.

    João 8,1-11: Misericórdia e responsabilidade coletiva

    O episódio da mulher adúltera revela a pedagogia de Jesus: condena o julgamento hipócrita e convida à transformação pessoal (“Não peques mais”, v. 11). A CF 2025, ao denunciar a “crise antropológica” por trás da degradação ambiental, recorda que a ecologia começa com o reconhecimento de nossa fragilidade. Não basta apontar culpados; é preciso, como Jesus, agir com misericórdia e compromisso. A mulher, restaurada em sua dignidade, simboliza a Terra ferida que clama por justiça, um apelo central da Campanha, que defende vítimas de catástrofes e crimes ambientais e climáticas.

    Quaresma, tempo de reconstruir a aliança

    As leituras deste Domingo iluminam a Quaresma como jornada de renovação da aliança: com Deus, com os irmãos e com a criação. A Campanha da Fraternidade 2025, ao vincular fé e ecologia, convida-nos a ser artífices dessa reconciliação. Se Isaías fala de “rios no deserto”, a CF propõe gestos concretos — da compostagem às mobilizações políticas. Se o Salmo canta a colheita, a Campanha nos lembra que “tudo está interligado” (Laudato Si’). E se o Evangelho nos liberta da condenação, a Ecologia Integral exige que, como Paulo, corramos sem hesitar rumo a um futuro onde a vida, em todas as suas formas, seja celebrada como “muito boa”.

    Neste Ano Jubilar, a Quaresma é tempo de ouvir o grito da Terra e dos pobres, e responder com ações que traduzam o lamento em louvor. Como escreveu São Francisco no Cântico das Criaturas, há 800 anos, a criação é espelho do Criador. Cabe a nós preservar esse reflexo, transformando cinzas em esperança.