Tag: Papa Francisco

  • Dom Oscar Romero das Américas

    Dom Oscar Romero

    “Não é um prestígio para a Igreja estar bem com os poderosos. Prestígio para a igreja é sentir que os pobres a sentem como sendo sua, sentir que a igreja vive uma dimensão na terra, chamando todos, também os ricos, à conversão e à salvação a partir do mundo dos pobres, porque eles são unicamente os bem-aventurados.” (Dom Oscar Romero 17/02/1980).

    Motivo de muita alegria. O Papa Francisco reconheceu o martírio de Dom Oscar Romero, arcebispo de El Salvador, assassinado pela ditadura militar salvadorenha, em 1980, enquanto celebrava a missa, por se posicionar do lado dos mais pobres e perseguidos. É o primeiro passo para a canonização.

  • Feliz 2014

    A você que ora acessa este meu espaço virtual (Blog), desejo-lhe que 2014 seja um ano alegre, feliz e cheio de igualdade e soberania! Desejo isto a você, ao Brasil e aos povos oprimidos de todo o mundo!

    E, aproveito a oportunidade, respeitando a sua crença, para relembrar um fato de 2013 que, para mim, foi muito motivador e contribuiu para resgatar minha fé no Deus da Vida: a eleição do latino-americano Jorge Mario Bergoglio para o “trono” de São Pedro – Papa Francisco (foto).

  • 50 anos do Vaticano II: Bispos Casaldáliga, Pires e Balduíno escrevem aos demais bispos do Brasil

    Uma das seções do Concílio Ecumênico Vaticano II, iniciado há 50 anos
    no papado do bem-aventurado João XXIII
    Queridos irmãos no episcopado,

    Somos três bispos eméritos que, de acordo com o ensinamento do Concílio Vaticano II, apesar de não sermos mais pastores de uma Igreja local, somos sempre participantes do Colégio episcopal, e junto com o Papa, nos sentimos responsáveis pela comunhão universal da Igreja Católica.

    Alegrou-nos muito a eleição do Papa Francisco no pastoreio da Igreja, pelas suas mensagens de renovação e conversão, com seus seguidos apelos a uma maior simplicidade evangélica e maior zelo de amor pastoral por toda a Igreja. Tocou-nos também a sua recente visita ao Brasil, particularmente suas palavras aos jovens e aos bispos. Isso até nos trouxe a memória do histórico Pacto das Catacumbas.

    Será que nós bispos nos damos conta do que, teologicamente, significa esse novo horizonte eclesial? No Brasil, em uma entrevista, o Papa recordou a famosa máxima medieval: “Ecclesia semper renovanda”.

    Por pensar nessa nossa responsabilidade como bispos da Igreja Católica, nos permitimos esse gesto de confiança de lhes escrever essas reflexões, com um pedido fraterno para que desenvolvamos um maior diálogo a respeito.

    1. A Teologia do Vaticano II sobre o ministério episcopal
    O Decreto Christus Dominus dedica o 2º capítulo à relação entre bispo e Igreja Particular. Cada Diocese é apresentada como “porção do Povo de Deus” (não é mais apenas um território) e afirma que, “em cada Igreja local está e opera verdadeiramente a Igreja de Cristo, una, santa, católica e apostólica” (CD 11), pois toda Igreja local não é apenas um pedaço de Igreja ou filial do Vaticano, mas é verdadeiramente Igreja de Cristo e, assim a designa o Novo Testamento (LG 22). “Cada Igreja local é congregada pelo Espírito Santo, por meio do Evangelho, tem sua consistência própria no serviço da caridade, isto é, na missão de transformar o mundo e testemunhar o Reino de Deus. Essa missão é expressa na Eucaristia e nos sacramentos. Isso é vivido na comunhão com seu pastor, o bispo”.

    Essa teologia situa o bispo não acima ou fora de sua Igreja, mas como cristão inserido no rebanho e com um ministério de serviço a seus irmãos. É a partir dessa inserção que cada bispo, local ou emérito, assim como os auxiliares e os que trabalham em funções pastorais sem dioceses,todos, enquanto portadores do dom recebido de Deus na ordenação são membros do Colégio Episcopal e responsáveis pela catolicidade da Igreja.

    2. A sinodalidade necessária no século XXI
    A organização do papado como estrutura monárquica centralizada foi instituída a partir do pontificado de Gregório VII, em 1078. Durante o 1º milênio do Cristianismo, o primado do bispo de Roma estava organizado de forma mais colegial e a Igreja toda era mais sinodal.

    O Concílio Vaticano II orientou a Igreja para a compreensão do episcopado como um ministério colegial. Essa inovação encontrou, durante o Concílio, a oposição de uma minoria inconformada. O assunto, na verdade, não foi suficientemente amarrado. Além disso, o Código de Direito Canônico, de 1983 e os documentos emanados pelo Vaticano, a partir de então, não priorizaram a colegialidade, mas restringiram a sua compreensão e criaram barreiras ao seu exercício. Isso foi em prol da centralização e crescente poder da Cúria romana, em detrimento das Conferências nacionais e continentais e do próprio Sínodo dos bispos, este de caráter apenas consultivo e não deliberativo, sendo que tais organismos detêm, junto com o Bispo de Roma, o supremo e pleno poder em relação à Igreja inteira.

    Agora, o Papa Francisco parece desejar restituir às estruturas da Igreja Católica e a cada uma de nossas dioceses uma organização mais sinodal e de comunhão colegiada. Nessa orientação, ele constituiu uma comissão de cardeais de todos os continentes para estudar uma possível reforma da Cúria Romana. Entretanto, para dar passos concretos e eficientes nesse caminho – e que já está acontecendo – ele precisa da nossa participação ativa e consciente. Devemos fazer isso como forma de compreender a própria função de bispos, não como meros conselheiros e auxiliares do papa, que o ajudam à medida que ele pede ou deseja e sim como pastores, encarregados com o papa de zelar pela comunhão universal e o cuidado de todas as Igrejas.

    3. O cinquentenário do Concílio
    Nesse momento histórico, que coincide também com o cinqüentenário do Concílio Vaticano II, a primeira contribuição que podemos dar à Igreja é assumir nossa missão de pastores que exercem o sacerdócio do Novo Testamento, não como sacerdotes da antiga lei e sim, como profetas. Isso nos obriga colaborar efetivamente com o bispo de Roma, expressando com mais liberdade e autonomia nossa opinião sobre os assuntos que pedem uma revisão pastoral e teológica. Se os bispos de todo o mundo exercessem com mais liberdade e responsabilidade fraternas o dever do diálogo e dessem sua opinião mais livre sobre vários assuntos, certamente, se quebrariam certos tabus e a Igreja conseguiria retomar o diálogo com a humanidade, que o Papa João XXIII iniciou e o Papa Francisco está acenando.

    A ocasião, pois, é de assumir o Concílio Vaticano II atualizado, superar de uma vez por todas a tentação de Cristandade, viver dentro de uma Igreja plural e pobre, de opção pelos pobres, uma eclesiologia de participação, de libertação, de diaconia, de profecia, de martírio… Uma Igreja explicitamente ecumênica, de fé e política, de integração da Nossa América, reivindicando os plenos direitos da mulher, superando a respeito os fechamentos advindos de uma eclesiologia equivocada.

    Concluído o Concílio, alguns bispos – sendo muitos do Brasil – celebraram o Pacto das Catacumbas de Santa Domitila. Eles foram seguidos por aproximadamente 500 bispos nesse compromisso de radical e profunda conversão pessoal. Foi assim que se inaugurou a recepção corajosa e profética do Concílio.

    Hoje, várias pessoas, em diversas partes do mundo, estão pensando num novo Pacto das Catacumbas. Por isso, desejando contribuir com a reflexão eclesial de vocês, enviamos anexo o texto original do Primeiro Pacto.

    O clericalismo denunciado pelo Papa Francisco está sequestrando a centralidade do Povo de Deus na compreensão de uma Igreja, cujos membros, pelo batismo, são alçados à dignidade de “sacerdotes, profetas e reis”. O mesmo clericalismo vem excluindo o protagonismo eclesial dos leigos e leigas, fazendo o sacramento da ordem se sobrepor ao sacramento do batismo e à radical igualdade em Cristo de todos os batizados e batizadas.

    Além disso, em um contexto de mundo no qual a maioria dos católicos está nos países do sul (América Latina e África), se torna importante dar à Igreja outros rostos além do costumeiro expresso na cultura ocidental. Nos nossos países, é preciso ter a liberdade de desocidentalizar a linguagem da fé e da liturgia latina, não para criarmos uma Igreja diferente, mas para enriquecermos a catolicidade eclesial.

    Finalmente, está em jogo o nosso diálogo com o mundo. Está em questão qual a imagem de Deus que damos ao mundo e o testemunhamos pelo nosso modo de ser, pela linguagem de nossas celebrações e pela forma que toma nossa pastoral. Esse ponto é o que deve mais nos preocupar e exigir nossa atenção. Na Bíblia, para o Povo de Israel, “voltar ao primeiro amor”, significava retomar a mística e a espiritualidade do Êxodo.

    Para as nossas Igrejas da América Latina, “voltar ao primeiro amor” é retomar a mística do Reino de Deus na caminhada junto com os pobres e a serviço de sua libertação. Em nossas dioceses, as pastorais sociais não podem ser meros apêndices da organização eclesial ou expressões menores do nosso cuidado pastoral. Ao contrário, é o que nos constitui como Igreja, assembleia reunida pelo Espírito para testemunhar que o Reino está vindo e que de fato oramos e desejamos: venha o teu Reino!

    Esta hora é, sem dúvida, sobretudo para nós bispos, com urgência, a hora da ação. O Papa Francisco ao dirigir-se aos jovens na Jornada Mundial e ao dar-lhes apoio nas suas mobilizações, assim se expressou: “Quero que a Igreja saia às ruas”. Isso faz eco à entusiástica palavra do apóstolo Paulo aos Romanos: “É hora de despertar, é hora e de vestir as armas da luz” (13,11). Seja essa a nossa mística e nosso mais profundo amor.

    Abraços, com fraterna amizade,

    Dom José Maria Pires, arcebispo emérito da Paraíba.
    Dom Tomás Balduino, bispo emérito de Goiás.
    Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia.

    15 de agosto de 2013.
  • Artigo do Levon: Rumo a Jesus, com Francisco, nas areias de Copacabana

    * Levon Nascimento
    Artigo publicado originalmente na edição impressa do Jornal Folha Regional, Taiobeiras/MG, agosto de 2013, ano IX, n. 218.

    Entre os dias 24 e 29 de julho participei da 28ª Jornada Mundial da Juventude na cidade do Rio de Janeiro, juntamente com outras pessoas da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras.

    Foram dias especiais, de aprendizado, oração e partilha. A presença do Papa Francisco, sempre gentil, afetuoso e firme na mensagem do Evangelho, a todos nós encantou, educou e fortaleceu na fé e nos valores cristãos.

    Especialmente, nos chamou a atenção a enorme “Babel” de povos do mundo espalhados pelo Rio de Janeiro. Gente de todos os países a falar em seus idiomas. Muitos argentinos barulhentos e alegres, conterrâneos do Papa Francisco. No entanto, a “Babel” carioca, ao contrário da bíblica, parecia-se mais com o Pentecostes, no qual os apóstolos e Maria receberam o Espírito Santo. Apesar dos diferentes povos e línguas faladas, no Rio todos se entendiam, se confraternizavam e compartilhavam as experiências com carinho e admiração. Fez-se ali uma pequena demonstração do que deve ser o desejo de Deus para o seu povo: união, amor, misericórdia, compaixão, partilha.

    Aprendemos que é preciso cultivar a fé sem deixar de estar atentos à realidade vivida. Como nos ensinou Francisco, a fazer eco ao Evangelho de Cristo, não é possível que julguemos o diferente ou o excluamos. A todos sem exceção, temos de amparar, acolher, respeitar e promover o diálogo ecumênico e inter-religioso. Precisamos “ir às ruas”, abraçar, acolher, “globalizar a solidariedade e combater a indiferença”.

    Seguindo o ensinamento de Francisco, já não é mais possível uma Igreja com mentalidade “de príncipes”. É hora dos católicos avançarem e “fazerem a Igreja nas ruas”, compartilhando da pobreza concreta ou espiritual dos destinatários da mensagem cristã. Destinatários que devem ser encontrados não mais nos centros civilizacionais ou econômicos do mundo, mas nas periferias do planeta, periferias existenciais e geográficas.
    Devido à dinâmica acelerada dos eventos da Jornada e da dificuldade de locomoção pelo Rio, uma vez que muitas vias estavam interditadas por causa do evento, não pudemos subir o Corcovado para ver a estátua do Cristo Redentor. Muitos de nossos companheiros de viagem lamentavam. Só ao final de tudo, quando fizemos um momento de oração e partilha, é que entendemos. Na verdade, o Redentor esteve pedagogicamente conosco durante toda a viagem, assim como no “desconhecido” Jesus ressuscitado que acompanhou e explicou as escrituras aos dois discípulos que se dirigiam a Emaús na tarde do domingo de Páscoa. Amedrontados com a crucificação do mestre e ainda sem saber do ocorrido naquela manhã, eles não eram capazes de ver naquele estranho o Senhor que ressuscitara. Somente tomaram conhecimento disso quando Ele partiu o pão em sua casa.

    Assim foi conosco. Não vimos de perto a estátua do redentor. Nem por isso o Redentor (de fato) deixou de compartilhar conosco todo o seu amor e ensinamento durante a JMJ Rio 2013.
    As areias e o asfalto de Copacabana, tomados por quase 4 milhões de pessoas na manhã do domingo 28 de julho de 2013, demonstraram ao mundo que ainda há uma enorme sede de fé e uma grande fome de união universal; um enorme espaço para que a mensagem do jovem carpinteiro de Nazaré da Galileia, de amor e fraternidade, permaneça mais viva e útil do que em qualquer outro momento da história humana.

  • Meu retiro em Copacabana

    Manhã de domingo, pós-vigília
    da JMJ Rio 2013 em Copacabana

    A minha ida à Jornada Mundial da Juventude 2013, na cidade do Rio de Janeiro, ao encontro do Papa Francisco, foi como que um grande retiro espiritual. Eu já tinha essa intenção, queria fazer um retiro, um tempo de oração, de escuta mais atenta à Palavra de Deus, e de revigoramento dos valores mais íntimos da caminhada de fé.

    Geralmente, os retiros são silenciosos. Este, ao contrário, ocorreu em meio ao barulho, à festa, nas areias da Praia de Copacabana, no belo cenário da Cidade Maravilhosa. Nem por isso foi um retiro de menor oração e meditação.

    Pedi a Deus algumas capacidades:

    1. Perdoar a quem me ofende. E, olha que fui muito ofendido recentemente aqui em Taiobeiras (nas últimas eleições, por exemplo);
    2. Reconciliar-me com os irmãos e as irmãs (de todas as condições e circunstâncias);
    3. Voltar a crer numa Igreja-serva-servidora de Jesus e dos que sofrem;
    4. Renovar a fé e o ardor missionário;
    5. Aprender, sempre mais, a por em prática aquilo que de graça recebemos do Espírito Santo;
    6. Comprometer-me, ainda mais, com o Reino, com o próximo, com a nova sociedade onde imperará a justiça, o amor e a misericórdia;
    7. Caminhar sempre no respeito e na tolerância ao outro, ao diferente, ao que crê diferente de mim, ao que, muitas vezes até quer o meu mal, mas a quem eu devo sempre tratar com compaixão e misericórdia.

    Em suma, fui renovar minha essência de Ser Cristão, para estar sempre mais a serviço do Reino nos ambientes em que eu estiver caminhando.

    Essencialmente, o Papa Francisco cumpriu para comigo aquilo que é próprio do ministério dele, confirmou-me na fé, tal e qual Jesus ordenou a Pedro.

    Fui alimentar minha fé e retornei saciado!

  • Jornada Mundial da Juventude Rio 2013

    Vídeos promocionais da Jornada Mundial da Juventude Rio 2013. Assista. Ore. Emocione-se.

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  • A direita católica rejeita o lava-pés

    José Lisboa Moreira de Oliveira*
    Texto de José Lisboa Moreira de Oliveira no site Adital


    A mídia tem noticiado que grupos ultraconservadores da Igreja Católica Romana estão criticando o papa Francisco por ele ter incluído na cerimônia simbólica do Lava-pés, na última quinta-feira santa, duas mulheres, sendo uma delas mulçumana. Tais grupos defendem que neste ritual (que, diga-se claramente, não é sacramental, mas apenas simbólico) só devem ser admitidos “varões”, ou seja, pessoas do sexo masculino. Tal atitude é profundamente lamentável porque rompe clara e diretamente com o profundo significado de toda a simbologia do Lava-pés. Tais pessoas comportam-se como Pedro, o qual, compreendendo bem o que o gesto de Jesus significava, recusou-se terminantemente a ter os pés lavados pelo Mestre (Jo 13,6-8).

    Antes de tudo é preciso dizer que o gesto do lava-pés, que costuma ser repetido na missa da Ceia do Senhor da quinta-feira santa, não é um gesto sacramental, no sentido técnico da expressão, mas apenas algo meramente simbólico, apesar da profundidade do seu significado. Ao lavar os pés de seus discípulos, Jesus entendia comunicar por meio deste gesto uma mensagem profunda acerca da essência do seu seguimento. Ele quis se comportar como um escravo (em grego: doulos) que realizava um serviço (diakonia) considerado dentro do contexto cultural de então como humilhante e indigno de uma pessoa livre. Naquela época somente os escravos e as mulheres faziam esse tipo de serviço. Ao realizar aquele gesto Jesus entende claramente reverter a lógica cultural de então, deixando bem claro que todos aqueles e aquelas que queriam entrar no seu seguimento deviam “lavar os pés uns dos outros” (Jo 13,14). Quem quisesse ser seu discípulo ou discípula devia ser servidor ou servidora (diákonos) de todos os outros (Mc 10,44), de modo particular dos que estavam prostrados, cansados e abatidos (Mt 9,36).

    Dentro deste contexto, os discípulos (o texto não fala de apóstolos) representam a comunidade dos seguidores e das seguidoras de Jesus de todas as épocas e de todos os lugares. Não tem o menor sentido entender a simbologia do lava-pés como sendo um gesto sacramental que instituía naquela ocasião um ministério ordenado hierárquico androcêntrico (formado só por homens) no sentido restrito que se entende atualmente na Igreja Católica Romana. Isso seria violentar o texto e tirar-lhe todo o significado que Jesus quis lhe dar (Jo 13,12-17). A crítica ao papa Francisco não tem sentido, uma vez que a inclusão de duas mulheres (sendo uma mulçumana) na cena do lava-pés ajuda a entender, em pleno século XXI, a profundidade do gesto de Jesus e o que deve significar o cristianismo em nossos dias. O gesto do papa Francisco ajuda-nos a perceber com mais clareza que a Igreja Católica Romana, se quiser ser uma comunidade de discípulos e de discípulas de Jesus, deve inclinar-se diante da humanidade e lavar os pés doloridos e chagados de todos aqueles e de todas aquelas que são mantidos na exclusão, inclusive pelo próprio sistema religioso católico romano.

    Neste sentido o gesto do papa Francisco se conecta com outros gestos de Jesus: a acolhida e inclusão da mulher estrangeira (Mc 7,24-30) e o deixar-se tocar por outra que sofria de sangramento permanente (Mc 5,25-34). Jesus, no seu tempo, rompe com padrões e normas religiosas consideradas sacrossantas e chega a denunciar os chefes religiosos que, para manter leis humanas, deixavam de lado o mandamento divino (Mc 7,9), que pode ser resumido no cuidado com as pessoas sofridas (Mc 3,1-6). Lamentavelmente, vinte séculos depois, ainda existem cristãos que não entendem nada disso e continuam com práticas absurdas excludentes e sem mais nenhum sentido para o cristianismo. Com isso deturpam a verdadeira mensagem de Jesus e impedem à Igreja de anunciar a Boa Notícia do Evangelho.

    A crítica da direita ultraconservadora católica se fundamenta na hipótese, hoje cada vez mais insustentável, de que na última ceia Jesus se reuniu apenas com os doze apóstolos, ou seja, com seus discípulos varões. Digo insustentável porque cada vez mais estudos sérios vão revelando que esta hipótese não tem o menor cabimento e foge inclusive da lógica dos próprios evangelhos. Jesus, contrariando os costumes culturais de seu povo e de sua época, permitiu que no grupo de pessoas que o seguiam existisse certo número de mulheres (Lc 8,1-3). Segundo o relato de Lucas havia inclusive mulheres casadas (Joana, mulher de Cuza, alto funcionário de Herodes), o que era considerado absurdo para os padrões culturais da época. Digo absurdo porque, segundo os costumes de então, a mulher devia permanecer em casa e quando saísse em público devia passar despercebida. Não se admitia, por exemplo, que uma mulher, especialmente se casada, conversasse em público com um homem (Jo 4,27).

    Ora, se Lucas admite a presença de mulheres discípulas no grupo de Jesus e se todos os quatro evangelhos canônicos registram que estas mulheres discípulas estavam em Jerusalém no momento da morte e da ressurreição de Jesus, fica impossível, senão contraditório, afirmar que elas não estavam presentes no momento da última ceia. Não teria o menor sentido Jesus dispensá-las num dos momentos mais significativos de sua vida. Jesus não teria sido coerente com a sua prática subversiva de inclusão se, após utilizar-se do dinheiro das mulheres para montar a ceia (Lc 8,3), as tivesse proibido de sentar-se com ele naquele momento celebrativo tão importante.

    Além disso, sabemos pela história do judaísmo da época de Jesus que as mulheres tinham uma participação significativa na celebração da ceia pascal. Além de preparar as iguarias e as mesas, eram as mulheres que davam início à celebração, acendendo as luzes do ambiente, enquanto o chefe da casa recitava as famosas sete bênçãos. Cabia à mulher do dono da casa acender as luzes do Menorá, o famoso candelabro judaico formado por sete hastes e sete velas. Cabia ainda à mulher do dono da casa passar-lhe as taças de vinho para que o marido rendesse graças a Javé. Lucas, mesmo que indiretamente, acena para uma possível presença de mulheres no recinto da última ceia, pois ao narrar o episódio não diz que Jesus “tomou o cálice”, mas que “recebendo a copa de vinho, deu graças” (Lc 22,17). É lamentável que os tradutores machistas, inclusive da Bíblia Edição Pastoral e da versão protestante conhecida como de João Ferreira de Almeida, continuem usando o verbo “tomar” e não “receber”. A exceção é a Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB) na qual se lê a seguinte versão: “Ele recebeu então uma taça…”.

    A Igreja Católica Romana sempre chegou atrasada em muitas conquistas da humanidade. Ela, até pouco tempo atrás, foi contra a liberdade, a liberdade religiosa, a liberdade de consciência, a autonomia da pessoa etc. E hoje muitos membros da hierarquia aceitam estas conquistas mais por oportunismo do que por fidelidade ao Evangelho. Já está passando da hora de repensar com seriedade o lugar da mulher na Igreja. Continuar a tratá-la como “mão de obra barata”, como “pau para toda obra”, excluindo-a dos ministérios ordenados e dos cargos de coordenação mais altos na Igreja é, antes de tudo, ir na contramão do Evangelho e causar um grande estrago na missão evangelizadora. Não dá, pois, para continuar assim. Já passou da hora de mudar esta situação de exclusão, de discriminação e de preconceito.

    [* Autor de Viver em Comunidade para a Missão. Um chamado à Vida Religiosa Consagrada, por Paulus Editora. Mais informações: http://www.paulus.com.br/viver-em-comunidade-para-a-missao-um-chamado-a-vida-religiosa-consagrada_p_3083.html].
  • A oposição ‘silenciosa’ ao Papa Bergoglio

    Humildade: marca do Papa Francisco

    Do site IHU Unisinos

    A Cúria e os movimentos conservadores temem que Francisco “enterre” a involução pós-conciliar.

    A reportagem é de Jesús Bastante, publicada no sítio Religión Digital, 23-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

    Ele é papa há apenas uma semana, e parece que a história fez uma reviravolta. Francisco é o pontífice de que a Igreja precisava? Além disso, é o pontífice de que a sociedade globalizada do século XXI precisa? Em um mundo cada vez menor, onde qualquer notícia chega imediatamente aos lugares mais remotos do globo, os primeiros gestos e decisões de Bergoglio geraram uma onda de otimismo e apoio sem precedentes nos últimos pontífices. E, paralelamente, embora em silêncio ou sob o amparo do anonimato, começam a surgir as críticas à “humildade” do novo papa, que é acusado de querer “enterrar” a involução pós-conciliar desejada pelos dois pontífices anteriores.

    O chamado de Francisco a uma maior austeridade, seu sonho de que esta seja uma “Igreja pobre e para os pobres”, a ausência de enfeites em sua vestimenta e gestos como o de pedir a bênção do povo ou de ficar à porta da paróquia de Santa Ana para se despedir dos seus fiéis são gestos certamente revolucionários. E também indicativos de que certas coisas estão mudando. Para o desgosto de alguns. De quem?

    Em primeiro lugar, da Cúria. Jorge Mario Bergoglio não é o papa que eles elegeriam a partir da estrutura. Scola ou Scherer eram os homens destinados a uma “reforma tranquila”, que não tocaria no essencial e manteria o mistério em torno da figura papal e do papel dos órgãos vaticanos. Dar por encerrado o Vatileaks e aceitar pequenas mudanças, mas sem tocar no essencial: o poder nas mãos de alguns poucos.

    No entanto, Francisco foi claro. “O verdadeiro poder está no serviço”, afirmou, na linha das últimas palavras de Bento XVI, com quem irá almoçar neste sábado e que quis, em seus últimos dias, denunciar as tramoias de uma estrutura que ele não conseguiu ou não soube pôr na linha.

    Em segundo lugar, os novos movimentos. Viu-se isso na missa de início de pontificado de Bergoglio, por outro lado muito numerosa. Ali cabiam todos na Igreja. Não só os Kikos [membros do Caminho Neocatecumenal], o Comunhão e Libertação, os Legionários de Cristo e afins, cujas bandeiras, certamente, praticamente desapareceram da outrora conquistada Praça de São Pedro.

    Os “apóstolos da nova evangelização”, a quem João Paulo II havia conferido exclusivamente a capacidade de se considerarem Igreja, têm que se relocalizar e buscar o seu lugar em uma instituição em que parece que, finalmente, todos podem entrar. As congregações religiosas, autênticas vilipendiadas durante os últimos 30 anos, voltam a respirar e se sentem com a liberdade e a confiança para continuar realizando o seu trabalho, em alguns casos milenar. Também os fiéis “a pé”, que consideram o novo papa muito mais próximo em seus gestos e atitudes do que os papas anteriores.

    Em terceiro lugar, os apologetas. Muitos representantes da “caverna” eclesial, midiática, social e política se encontram diante da tessitura da obediência cega à figura papal e da sensação de que o novo pontífice pode “trair” alguns princípios irrenunciáveis. Se já foram muitos os que, mais ou menos abertamente, criticaram a renúncia de Bento XVI por ter “descido da cruz”, eles temem que a abertura sugerida por Bergoglio “acabe quebrando a Igreja”.

    De fato, os últimos cismas na Igreja Católica quase sempre ocorreram do lado dos ortodoxos, em momentos de papados reformistas. Os “progressistas” simplesmente se tornam indiferentes, não com relação ao fato religioso nem com relação à fé, mas sim com o funcionamento das estruturas.

    Em quarto lugar, muitos bispos, principalmente nos países da “velha Europa“, especialmente a Espanha, aos quais a nomeação pegou-os “no contrapé” e que, por enquanto, optaram por esperar para ver se Francisco freia os passos que está dando ou que o tempo passe e a Cúria consiga “atar” alguns dos seus movimentos. Em todo caso, essa estrutura está disposta a “morrer matando”.

    O prestigioso vaticanista Marco Politi (do jornal Il Fatto Quotidiano) também alertou para as resistências internas ao “papa dos pobres”, que provêm de setores tradicionalistas e conservadores da Cúria Romana e que já começaram.

    Para Politi, é precisamente a determinação mostrada por Francisco que gerou essas reações subterrâneas internas à estrutura eclesiástica. “Exigir uma Igreja pobre e eclesiásticos irrepreensíveis significa pôr em contradição estilos de vida e comportamentos, que envolvem milhares de ‘hierarquias’ grandes e pequenas”, escreveu.

    Essa exigência também pressupõe, nas palavras do vaticanista, “pôr em discussão palácios, carros, servidões, consumismo, carreirismo que proliferam no mundo eclesiástico, assim como em qualquer organismo social, convivendo lado a lado com existências totalmente desinteressadas dedicadas à missão”.

    Para Politi, pôr a pobreza no primeiro lugar da agenda “não equivale apenas a viver em duas peças como o Bergoglio arcebispo em Buenos Aires. Implica a impossibilidade para a hierarquia eclesiástica de negar a transparência”. Além disso, poderia significar também tornar público o próprio patrimônio imobiliário, estimado pelo jornal econômico Il Sole 24 Ore em 1 bilhão de euros somente na Itália; publicar, como fazem na Alemanha, os balanços das dioceses italianas, normalmente contrárias a isso; reformar drasticamente o IOR (Instituto para as Obras de Religião, o Banco do Vaticano), recentemente acusado de ter lavado dinheiro em operações pouco transparentes. O IOR poderia ser diretamente abolido e substituído por um banco ético, em conformidade com as normas internacionais.

    A resistência ao primeiro papa que se chama Francisco começa a ser percebida também entre algumas das penas de renome da Itália. Assim, Giuliano Ferrara, diretor do jornal Il Foglio, considerado um “ateu devoto”, que passou de jovem comunista a liberal de direita, escreveu uma carta aberta diretamente a Francisco, intitulada “Padre, tenho medo da ternura”, jogando com a homilia que o papa pronunciou na missa de inauguração do pontificado, em que convidou a não ter medo da ternura e da bondade.

    “Eu estou entre aqueles poucos que têm medo da ternura, e digo-o sem muita ostentação, e entre aqueles pouquíssimos que consideram parte da misericórdia divina também o juízo e o exercício da autoridade”, escreveu Ferrara, paladino da luta contra o aborto, que é legal na Itália dentro dos 90 dias de gravidez.

    “Para mim, seria instintivo escrever-lhe agora, com pouca humildade, que ‘bom almoço’ não é uma teologia, que o perdão, a paciência e a amizade de Deus pelo homem fazem parte de um projeto da criação […] iluminado por ingovernáveis liberdades que é preciso disciplinar severamente”, escreveu.

    Ferrara, que lembra que Bergoglio disse uma vez que “abortar é matar a quem não pode se defender”, afirmou ter ouvido de sua boca essas mesmas palavras, em uma atitude de “linearidade, clareza e verdade”.

    “Esperemos que o deixem trabalhar e que ele não acabe como o pobre João Paulo I“, é o desejo que se escuta em muitos âmbitos eclesiais, tanto em Roma quanto em Madri. Palavras que denotam uma certa intranquilidade diante das reservas que o “tsunami Bergoglio” despertou nos setores mais ultraconservadores. O tempo lhes dará ou não razão.

  • Francisco: reconstrói a Igreja junto aos que sofrem

    Aproveitando a deixa do nome do novo Papa, Francisco, aqui destaco o Cântico das Criaturas, de Francisco de Assis, escrito há 800 anos, mesmo assim, ainda urgente e ainda atual. Na versão do poeta católico popular brasileiro, Zé Vicente.



    Onipotente e bom senhor
    A ti a honra, glória e louvor
    Todas as bençãos de ti nos vêm
    E todo o povo te diz amém
    Louvado sejas nas criaturas
    Primeiro o sol lá nas alturas
    Clareia o dia, grande esplendor
    Radiante imagem de ti, Senhor

    Louvado sejas, pela irmã lua
    No céu criaste, é obra tua
    Pelas estrelas, claras e belas
    Tu és a fonte do brilho delas


    Louvado sejas pelo irmão vento
    E pelas nuvens, o ar e o tempo
    E pela chuva que cai no chão
    Nos dás sustento, Deus da criação
    Louvado sejas, meu bom Senhor
    Pela irmã água e seu valor
    Preciosa e casta, humilde e boa
    Se corre, um canto, a ti entoa

    Louvado sejas, ó meu Senhor
    Pelo irmão fogo e seu calor
    Clareia a noite, robusto e forte
    Belo e alegre, bendita sorte

    Sejas louvado, pela irmã terra
    Mãe que sustenta e nos governa
    Produz os frutos, nos dá o pão
    Com flores e ervas sorri o chão

    Louvado sejas, ó meu Senhor
    Pelas pessoas que em teu amor
    Perdoam, sofrem tribulação
    Felicidade em ti encontrarão

    Louvado sejas, pela irmã morte
    Que vem a todos, ao fraco e ao forte
    Feliz aquele que em ti amar
    A morte eterna não o matará

    Bem-aventurado quem guarda a paz
    Pois o Altíssimo satisfaz
    Vamos louvar e agradecer
    Com humildade ao Senhor bendizer

  • Boff: esperança na restauração da Igreja com o Papa Francisco

    Francisco de Assis, santo.

    O Papa Francisco, chamado a restaurar a Igreja
    * Leonardo Boff, teólogo de origem franciscana.

    Nas redes sociais havia anunciado que o futuro Papa iria se chamar Francisco. E não me enganei. Por que Francisco? Porque São Francisco começou sua conversão ao ouvir o Crucifixo da capelinha de São Damião lhe dizer: ”Francisco, vai e restaura a minha casa; olhe que ela está em ruinas” (S.Boaventura, Legenda MaiorII,1).

    Francisco tomou ao pé da letra estas palavras e reconstruíu a igrejinha da Porciúncula que existe ainda em Assis dentro de uma imensa catedral. Depois entendeu que se tratava de algo espiritual: restaurar a “Igreja que Cristo resgatara com seu sangue” (op.cit). Foi então que começou seu movimento de renovação da Igreja que era presidida pelo Papa mais poderoso da história, Inocêncio III. Começou morando com os hansenianos e de braço com um deles ia pelos caminhos pregando o evangelho em língua popular e não em latim.

    É bom que se saiba que Francisco nunca foi padre mas apenas leigo. Só no final da vida, quando os Papas proibiram que os leigos pregassem, aceitou ser diácono à condição de não receber nenhuma remuneração pelo cargo.

    Por que o Card. Jorge Mario Bergoglio escolheu o nome de Francisco? A meu ver foi exatamente porque se deu conta de que a Igreja está em ruinas pela desmoralização dos vários escândalos  que atingiram o que ela tinha de mais precioso: a moralidade e a credibilidade.

    Francisco não é um nome. É um projeto de Igreja, pobre, simples, evangélica e destituída de todo o poder. É uma Igreja que anda pelos caminhos, junto com os últimos; que cria as primeiras comunidades de irmãos que rezam o breviário debaixo de árvores junto com os passarinhos. É uma Igreja ecológica que chama a todos os seres com a doce palavra de “irmãos e irmãs”. Francisco se mostrou obediente à Igreja dos Papas e, ao mesmo tempo, seguiu seu próprio caminho com o evangelho da pobreza na mão. Escreveu o então teólogo Joseph Ratzinger: ”O não de Francisco àquele tipo de Igreja não poderia ser mais radical, é o que chamaríamos de protesto profético”(em Zeit Jesu, Herder 1970, 269). Ele não fala, simplesmente inaugura o novo.

    Creio que o Papa Francisco tem em mente uma Igreja assim, fora dos palácios e dos símbolos do poder. Mostrou-o ao aparecer em público. Normalmente os Papas e Ratizinger principalmente punham sobre os ombros a mozeta aquela capinha, cheia de brocados e ouro que só os imperadores podiam usar. O Papa Francisco veio simplesmente vestido de branco e com a cruz de bispo. Três pontos são de ressaltar em sua fala e são de grande significação simbólica.

    O primeiro: disse que quer “presidir na caridade”. Isso desde a Reforma e nos melhores teólogos do ecumenismo era cobrado. O Papa não deve presidir com como um monarca absoluto, revestido de poder sagrado como o prevê o direito canônico. Segundo Jesus, deve presidir no amor e fortalecer a fé dos irmãos e irmãs.

    O segundo: deu centralidade ao Povo de Deus, tão realçada pelo Vaticano II e posta de lado pelos dois Papas anteriores em favor da Hierarquia. O Papa Francisco, humildemente, pede que o Povo de Deus reze por ele e o abençoe. Somente depois, ele abençoará o Povo de Deus. Isto significa: ele está ai para servir e não par ser servido. Pede que o ajudem a construir um caminho juntos. E clama por fraternidade para toda a humanidade onde os seres humanos não se reconhecem como irmãos e irmãs mas reféns dos mecanismos da economia.

    Por fim, evitou toda a espetacularização da figura do Papa. Não estendeu os braços para saudar o povo. Ficou parado, imóvel, sério e sóbrio, diria, quase assustado. Apenas se via a figura branca que olhava com carinho para a multidão. Mas irradiava paz e confiança. Usou de humor falando sem uma retórica oficialista. Como um pastor fala aos seus fiéis.

    Cabe por último ressaltar que é um Papa que vem do Grande Sul, onde estão os pobres da Terra e onde vivem 60% dos católicos. Com sua experiência de pastor, com uma nova visão das coisas, a partir de baixo, poderá reformar a Cúria, descentralizar a administração e conferir um rosto novo e crível à Igreja.

    Leonardo Boff é autor de São Francisco de Assis: ternura e vigor, Vozes 1999.

    Comentário a este artigo de Leonardo Boff por Severino Fernandes, no Blog do Luis Nassif.

    Papa Francisco, eleito em 13/03/2013.

    Confesso que não compartilho do mesmo otimismo do irmão em Cristo e Francisco, o teólogo Leonardo Boff. Mas compartilho de sua esperança de que a Igreja sob o papado de Francisco I tome novos rumos, e que esses rumos se deem em torno de uma Igreja cuja centralidade não se dê em torno de um grupo de cardeais, mas sim em torno do Povo de Deus.

    Embora ressabiado com o passado ainda dúbio do cardeal Bergoglio e sua possível (espero que não) ligação com a cruel e desumana ditadura militar argentina, confesso que a humildade do novo papa chamou-me muito a atenção, lembrou-me a apresentação do papa João Paulo I, em 1978. O papa cujo sorriso irradiava esperança e que infelizmente morreu 33 dias depois, uma morte infelizmente até aqui mal esclarecida e sob circunstâncias pra lá de duvidosas, sabendo-se que João Paulo I apontava para a continuidade dos ventos liberalizantes do Concílio Vaticano II, ainda de forma mais radical e profunda.

    Depois vieram João Paulo II e Bento XVI, que ao contrário de seus antecessores (João XXIII, Paulo VI e o próprio João Paulo I) não deram continuidade ao espírito transformador do Vaticano II e das Conferências Episcopais de Puebla e Medellin.

    João Paulo II, carismático, mas ultra-conservador, tratou de esmagar a Teologia da Libertação e sua “opção preferencial pelos pobres”, em nome de um combate ao marxismo que tinha raízes na sua Polônia, então um satélite do bloco comunista liderado pela antiga União Soviética. Ao esmagar a TL, o papa polonês ajudou a perseguir todos os teólogos e religiosos comprometidos com as Comunidades Eclesiais de Base e com uma Igreja feita a partir da base e que apontava para o enfrentamento contra ditaduras de direita e modelos econômicos que condenavam milhões de seres humanos à fome e à miséria na América Latina, África e outros pontos do chamado Terceiro Mundo.

    O próprio Boff foi vítima dessa perseguição. O então religioso da Ordem dos Frades Menores de São Francisco de Assis se viu cara a cara com o cardeal alemão Joseph Ratzinger, que foi inflexível diante da teologia libertária e comprometida com os pobres do jovem frade franciscano.

    Boff acabou silenciado, e mais tarde teve que deixar o exercício do ministério sacerdotal para, como ele mesmo disse, continuar “católico” e “comprometido com os pobres” e não com a hierarquia da Igreja de Roma.

    Ratzinger, que comandou com mão de ferro a Congregação para a Doutrina da Fé (o antigo Santo Ofício ou Inquisição Católica), como sabemos, acabou sendo eleito papa, assumindo-se como Bento XVI. E deu continuidade ao ultra-conservadorismo pró-Curia Romana de seu antecessor (João Paulo II), de quem era braço direito em questões doutrinárias e dogmáticas.

    De qualquer forma como cristão e franciscano tenho esperança que Francisco I retome o caminho de onde ele foi paralisado no distante 1978, com o papa do sorriso, e aprofunde as mudanças necessárias para a construção de uma verdadeira Igreja Povo de Deus, e que seu destino não seja o desse papa do sorriso  (João Paulo I), de morte precoce (e suspeita para muitos).

    Que o Espírito Santo lhe ilumine e lhe dê forças e coragem para enfrentar a Curia Romana e todos os desvios doutrinários e morais que tem acometido a Igreja nos tempos atuais.

    Que ele, no espírito de São Francisco de Assis, seja de fato aquele que irá reconstruir a Igreja no momento em que ela precisa dessa reconstrução, que não será fácil, mas será tanto melhor, maior e mais efetiva, se ele alicerçar-se no Povo de Deus. O mesmo Povo de Deus para o qual ele humildemente pediu a benção e as orações no  momento de sua apresentação como Sumo Pontífice.

    Que as sandálias humildes do pescador Pedro lhe caibam nos pés, mais do que a pompa e antiga e pesada coroa que antigamente ornava a cabeça de poderosos e por vezes nada pios e muito menos cristãos papas.

  • Bem vindo, Papa Francisco!

    Argentino, Jorge Bergoglio, Papa Francisco,
    eleito bispo de Roma em 13/03/2013

    Um Papa que, ainda quando cardeal, andava de ônibus e metrô, no meio de seus fiéis, ou que preparava a própria comida, me anima e me dá esperanças de um reencontro salutar de nossa Igreja com o Nazareno, seu fundador e Mestre, que não titubeava de andar com agricultores, pescadores, mulheres, cobradores de impostos e outras pessoas de classe humilde da sua época.

    “Hoje temos padres de Fórmula 1, que celebram missa com carrão e voltam logo para casa. Quem sabe o novo papa vai animá-los a deixar de fazer pit stop nas bases para ficar uma semana no interior, na “aldeia indígena’ (na comunidade rural, na favela, na periferia, na família desestabilizada) onde pregam”. Teólogo Pe. Paulo Suess (Cimi).

    O Espírito Santo não se cansa de me surpreender! Graças a Deus! Bem vindo, Papa Francisco! Venha ajudar a reconstruir a Igreja de Jesus no coração das pessoas, especialmente dos mais necessitados!