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| Visita de Lula a Salinas em 1981 |
* Levon Nascimento é professor de História e mestrando em Estado, Governo e Políticas Públicas pela Fundação Perseu Abramo. Mora em Taiobeiras/MG, uma das cidades do Alto Rio Pardo, desde os três anos de idade.
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| Visita de Lula a Salinas em 1981 |
A atenção do povo está em vídeos de WhatsApp que falam de moralidade e pedofilia nas artes.
Enquanto isso, as elites lésa-pátria vendem as hidroelétricas e partes da Petrobrás para os estrangeiros, aumentando o preço dos combustíveis, do gás de cozinha e da energia elétrica; devastam as florestas, matam os índios e consomem o cerrado, agravando a seca e fazendo faltar a água; cometem abusos acima da lei nas lava-jatos estatais, violando ainda mais a nossa frágil ou inexistente democracia; retiram os direitos trabalhistas, de seguridade e previdenciários, transformando este mesmo povo em semi-escravos; aprovam leis inconstitucionais, retroagindo o país à Idade Média e a uma teocracia canhestra; perante a mudez do povo, que só enxerga a imoralidade… nas artes.
Nunca o termo “alienação” foi tão bem empregado. É como aqueles tapa-olhos colocados em animais que puxam carga, de modo a fazê-los não se desviarem do trajeto ao impedi-los de ver o capim das margens, o que poderia lhes alimentar na longa jornada. Só veem a estrada árida.
Triste é o povo que dá valor à voz do opressor e despreza o chão que pisa. Não lhe sobrará beleza nem capim.
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| A Negra e Abaporu, obras de Tarsila do Amaral |
Em janeiro de 1985 – com oito anos de idade – vi pela TV, sem entender direito, a eleição indireta no Congresso que elegeu Tancredo Neves e pôs fim à ditadura militar (1964-1985).
Em 1986, a professora da 3ª série trabalhou uma revista em quadrinhos publicada pelo Governo de Minas Gerais que falava sobre Democracia, Assembleia Constituinte e Constituição. Encantei-me com as três expressões e elas nunca mais saíram de minha vida.
Depois fui compreendendo mais, diferenciando “ditadura” de “democracia”, da 5ª à 8ª série, com uma excelente professora de História.
O Ensino Médio e a militância na Pastoral da Juventude me ajudaram a consolidar as intenções democráticas e as utopias da participação política e da igualdade social.
A graduação em Ciências Sociais me deu fundamentos para o caminho.
Entre 2003 e 2014, o Brasil viveu o seu melhor momento histórico: superação do flagelo da fome por força de políticas públicas de distribuição de renda, criação de muitas novas universidades, triplicação do número de estudantes em cursos superiores e pós-graduações, com inclusão de jovens pobres, negros e indígenas, programas habitacionais massivos, política externa altiva e ativa e as menores taxas de desemprego desde que se começou a medir, tudo isso sem retirar direitos, antes pelo contrário. Brasil, ator global de relevo.
Mas ingenuamente eu era um evolucionista social. Acreditava piamente que o atraso do arbítrio ditatorial estava sepultado e que nunca mais 1964 ou o nazifascismo se repetiriam. Ledo engano!
Vieram 2016 e um outro golpe, desta vez jurídico-midiático-parlamentar, contra a suposta corrupção de uns, preservando os de sempre, novamente depondo da presidência alguém que fora eleita com a maioria dos votos dos brasileiros sem que ela houvesse cometido crime de responsabilidade, conforme reza a Constituição de 1988. Como em todos os outros momentos, para interromper a macha do país ao desenvolvimento, à diminuição das desigualdades históricas e ao seu posicionamento como grande partícipe no palco mundial.
Foi assim também em 1889, 1937, 1945, 1954, 1964…
E depois dos golpes, sempre as ditaduras. Esta, não mais militar, mas novamente arbitrária, judiciária e fascista.
Seu estágio, no momento, é o do Estado de Exceção, dos julgamentos-linchamentos ideológicos conduzidos por agentes do Estado em conluio com a grande mídia (como o que levou o reitor Cancellier ao suicídio e o que pode impedir o maior estadista da história brasileira de disputar 2018), de escandalização da arte por moralistas sem moral, para desvio do foco da esbórnia neoliberal, e da venda de todo o patrimônio do Brasil por lésa-pátrias que se vestem da Bandeira Nacional e se fingem de patriotas e nacionalistas exaltados, enquanto condenam o povo, os pobres e os trabalhadores à eterna senzala, pena a qual estes tristes trópicos estão sempre a pagar.
Mas eu continuo a acreditar em Democracia, na Constituição e na Igualdade Social.
Sobre a tragédia de Janaúba, algumas postagens de desespero na rede social.
Vi muitos servidores públicos felizes com o impeachment da Dilma.
Não tinha argumento meu que os ajudasse a pensar diferente.
Falei que o golpe contra Rousseff era só uma manobra para acabar com os nossos direitos de trabalhadores.
Chamaram-me de fanático, partidarista, petralha, mortadela, esquerdopata, blá blá blá. Essas idiotices de gente que nunca se dedicou a ler mais do que um “meme” do Ilisp sobre política.
Hoje, a turma que “impichou” a presidenta aprovou o fim da estabilidade para servidor público numa comissão do Senado. Logo-logo vota no plenário. Tudo isso, enquanto desvia a atenção dos despreparados para se indignarem com exposições em museus.
Eu não sei se rio porque estava certo ao alertar os colegas ou se choro junto com os coitados que me mandaram estupidamente “Tchau, Querida” pelo Whatsapp na noite de 17 de abril de 2016.
Por Levon Nascimento
À medida que se avança nas experiências da vida, aprende-se a conhecer o espírito humano e a diferenciar quem nos usa de quem nos aprecia.
São raros os contatos, as ligações e os convites para oportunidades, reconhecimentos e solidariedade com as lutas que travamos.
Ao contrário, quase sempre somos “intimados” a fazer, a servir, a nos expor e a obedecer. Geralmente para colocarmos a cara a tapa em contextos nos quais os que nos convocam não têm a coragem de o fazer, muito menos de seguir nossos passos ou de serem solidários conosco.
Nada contra servir solidariamente. Aliás, a formação em pastorais sociais da Igreja Católica progressista me envia para isso. É pelo Ressuscitado e pelos pobres.
Mas se aprende, nas dificuldades da caminhada, o porquê da luta, por quem e com quem lutar: por uma sociedade mais justa, para aqueles que nada podem nos oferecer de retorno, uma vez que nada possuem, e com quem nos é parceiro, amigo e fraterno na militância.
Os que nos usam e “escravizam” não merecem nossas energias.
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| Beatriz Cerqueira, Tânia Ladeia e Levon Nascimento durante a Plenária Regional de Educação do Sind-UTE/MG em Salinas/MG |
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| Mosaico com capas de livros do Alto Rio Pardo |
Tendo a porção mineira do Vale do São Francisco a oeste, o Vale do Jequitinhonha a sul e leste e o Sudoeste baiano a norte, a microrregião do Alto Rio Pardo, no Norte de Minas Gerais, produz cultura literária com muito empenho.
De variados estilos, livros têm sido publicados cada vez com mais frequência.
Taiobeiras, Salinas e Rio Pardo de Minas lideram a produção de literatura da região que engloba ainda as cidades de São João do Paraíso, Berizal, Ninheira, Montezuma, Santo Antônio do Retiro, Vargem Grande do Rio Pardo, Águas Vermelhas, Divisa Alegre, Santa Cruz de Salinas, Rubelita, Novorizonte, Fruta de Leite, Indaiabira e Curral de Dentro.
São estudos acadêmicos, memórias, artigos de opinião, crônicas, contos, poesias, cordel e relatos históricos.
Veja abaixo uma lista dos exemplares que detenho em minha biblioteca pessoal, de vários autores, incluindo os que eu mesmo já publiquei até o momento. Mas tem outras publicações, às quais espero em breve garimpar e compartilhar com os leitores do Blog.
– Cônego Newton de Ângelis
O cônego premonstratense Padre Newton de Ângelis, natural de Rio Pardo de Minas, publicou uma coletânea de textos extraídos de livros da Igreja, da Câmara Municipal e de cartórios de sua cidade natal, em quatro volumes que se constituem em preciosos registros históricos e fontes de pesquisa para toda a região do Alto Rio Pardo. O título: Efemérides Riopardenses (1698 – 1972).
– Avay Miranda
O juiz aposentado Avay Miranda, natural de Taiobeiras, escreveu primeiramente o livro Crônicas: Desenvolvimento, Política e Folclore em 1986, no qual elenca uma série de artigos de opinião publicados originalmente na imprensa de Montes Claros. Ao final deste livro, publica um breve ensaio sobre a história de Taiobeiras, que desenvolveria anos mais tarde.
Em 1997, Avay publica em dois volumes a obra Taiobeiras: seus fatos históricos pela editora Thesaurus, de Brasília. Nestes livros ele relata documentos, memórias e informações recolhidas em entrevistas que ilustram a formação e o desenvolvimento do município de Taiobeiras.
Nesta volume II dessa mesma obra, Avay Miranda cedeu espaço para a professora Maria Antônia Gomes dos Santos escrever um ensaio sobre a história de Berizal, distrito de Taiobeiras que foi emancipado em 1996. Uma dos pontos altos da escrita de Maria Antônia são suas lembranças e relatos de como os jovens berizalenses conseguiam informação crítica sobre o país durante a ditadura militar (1964-1985).
Como suplemento de Taiobeiras: seus fatos históricos, Avay Miranda também produziu a publicação do livreto Santo Cruzeiro dos Martírios (1997), poema em sextilhas, literatura de cordel, escrito por seu tio Hermínio Miranda Costa, relatando em fantasia os acontecimentos que levaram à edificação de um importante monumento histórico de Taiobeiras.
– Milton Santiago
O poeta salinense Milton Santiago, membro da Academia de Letras de Salinas é autor de vários títulos Força da Expressão, Eternas Lições e Poemas para o Mundo.
Em 2014, Milton lançou Miltonalidades, livro de poemas com capa da artista plástica Lizz Campos (Elisiana Alves). A proposta da obra foi a de explorar os tons (cores) e os sons da poesia.
Em 2016, Milton Santiago enveredou pelo lado da história da região, para ele uma senhora com muitos rostos, nuances e pontos de vista. Lançou Os Mil Tons da História. A capa novamente foi de Lizz Campos.
Neste ano, novamente Milton voltou a publicar poemas. Um livro mesclando fantasia, mística e poesia foi lançado: A menina e o poeta. Também com capa produzida por Lizz Campos. Nesta obra, o autor evoca ainda o conceito de Salinidade, expressão que representaria o modo de viver e ser do povo de Salinas.
– Vladimir Mendes Patrício (Vlade)
Vladimir Mendes Patrício estreou como autor de livros na última semana (16/09/2017), publicando o livro de memórias e crônicas Um olhar no passado, em que registra suas lembranças da infância e juventude na Rio Pardo de Minas dos anos 1970 até por volta de 2000.
– Isaías Costa (Zazau)
O radialista, humorista e poeta taiobeirense Isaías Costa tem publicado vários títulos, entre livros de poesia, de piadas e de “conselhos”.
Simplesmente Zazau (2013), trás no título a sua síntese: poemas, mensagens, pensamentos e conselho.
Só rindo e meditando com Zazau (2014), como o nome já indica, une elementos bem distintos como humor e meditação.
– Fabiano Alves Pereira
No livro livro Um convite à reflexão, o professor Fabiano Alves Pereira junta artigos de opinião e relatos históricos da contemporaneidade de Taiobeiras, além de descrever suas experiência em educação e música.
– Lázaro Gomes
Em obra lançada em 2012, o taiobeirense Lázaro Gomes relata as memórias vibrantes de um jovem que foi estudar no internato da antiga Escola Agrotécnica Federal de Salinas, o atual campus Salinas do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais. Experiência pessoal contada com emoção e vigor juvenil. O título: Longe de Casa: Sonhos e Saudades.
– Alex Saraiva
Como estudo acadêmico, o publicitário taiobeirense Alex Saraiva escreveu e publicou Madonna e a Construção da Imagem no Universo da Polêmica Midiática.
– Levon Nascimento
Publiquei o primeiro livro em 2006, Palavras da caminhada: superando a falta de memória pública com artigos e ensaios, no qual tornei público textos sobre Taiobeiras e a região que começaram a ser escritos dez anos antes. A proposta foi a de dar munição à memória do povo, propositalmente sempre esquecida do passado, para tornar o presente e o futuro mais humanos e justos.
Em 2009 veio Blogosfera dos Gerais: Opinião, Testemunho e Outras Reflexões, livro contendo textos críticos, também correlacionados à sociedade contemporânea de Taiobeiras, os quais eu publiquei originalmente em meu Blog na internet.
Em seguida, minha esposa Flaviana Costa Sena Nascimento e eu publicamos Memorial da Juventude de Taiobeiras (2010), um relato histórico-fotográfico sobre os movimentos organizados de jovens de Taiobeiras, especialmente a Pastoral da Juventude. O livro foi resultado de uma pesquisa financiada pelo Mais Cultura Projetos do Ministério da Cultura.
A obra Sexagenaius: Reflexões pelos 60 anos de Taiobeiras, contendo artigos de opinião e entrevistas que retratam criticamente a cidade no período em que completava seis décadas de emancipação, era para sair em 12 de dezembro de 2013, data exata da efeméride. Por motivos diversos, foi lançada oficialmente em abril do ano seguinte. A capa de Sexagenarius é assinada por Lizz Campos.
Meu último trabalho publicado, neste em junho de 2017, é Crer e Lutar, um livro em que uno mística e crítica política, contos, crônicas e memórias para denunciar a crescente onda de neofascismo que assola a sociedade brasileira. Lizz Campos também é a autora da capa de CRER E LUTAR.
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| Vlade Patrício (de gravata, ao centro) no lançamento de UM OLHAR NO PASSADO |
* Levon Nascimento
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| Astromar Junqueira (Rui Rezende), pernóstico de dia e lobisomem à noite, com Mocinha (Lucinha Lins), a filha da aristocracia. |
* Por Levon Nascimento
Respondam-me: o que consegue ser mais brega, atrasado e pé-no-saco (assim mesmo, sem firulas) do que os floreios, as citações em latim, os rapapés, as togas e os vocativos mofados de “vossa excelência” prá cá e “doutor” prá lá, na boca da maioria dos “ilustres” operadores do direito no Brasil? Remontam à cultura bacharelista da colônia e do império (muito latim e pouco trabalho).
No caso das autoridades judiciárias, guardadas as devidas e merecidas exceções, utilizam-se de um linguajar pernóstico e pomposo, tipo “embromation”, para esconderem que nos custam caro e produzem pouco.
Quem viveu a década de 1980 – eu tinha uns 10 anos quando passou – se lembra perfeitamente dos discursos sonolentos do professor Astromar Junqueira, papel interpretado pelo ator Rui Rezende na festejada telenovela Roque Santeiro, de Dias Gomes.
Como nosso Judiciário, de dia Astromar fazia discursos rebuscadíssimos e cortejava a mão de dona Mocinha (Lucinha Lins), filha do prefeito Florindo Abelha (Ary Fontoura); pela noite, virava lobisomem.
Vamos deixar que aconteça a mesma coisa com o cristianismo do século 21?
Quando, no final de 2015, a significativa imagem de Nossa Senhora de Fátima, abrigada na histórica capela octogonal em Taiobeiras, Norte de Minas, foi destruída por um homem supostamente com problemas mentais (veja aqui), que bradava frases típicas de grupos religiosos cristãos anti-católicos – aliás, episódio que nunca ficou bem explicado -, uma luz de alerta se acendeu sobre a manifestação da intolerância religiosa através de formas mais agressivas.
Também em Montes Claros/MG, a Igreja Matriz foi alvo de uma ação desse tipo, dessa vez por um jovem identificado como membro da Universal, igreja dona da Record (veja aqui).
As religiões afro sempre sofreram este tipo de ataque, vítimas de intolerância associada ao secular racismo. Os indígenas viram suas crenças serem ridicularizadas e demonizadas pelo colonizador europeu. É preciso ressaltar ainda que no passado as religiões de origem protestante, atualmente evangélicas ou neopentecostais, sofreram muito preconceito e perseguição num Brasil majoritariamente católico.
Hoje os terreiros, amanhã as igrejas, as casas espíritas, as sinagogas, as mesquitas, a liberdade religiosa e a vida das pessoas. Vamos esperar novas fogueiras inquisitoriais se acenderem?
Cristão intolerante com a religião dos outros não é verdadeiro seguidor de Jesus Cristo. É blefe, é terrorista.
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| Inquisição queimava “os diferentes” na fogueira |
“Posso não concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lá”. Frase atribuída a Voltaire, um filósofo iluminista (século XVIII).
Uma exposição foi fechada em Porto Alegre porque religiosos conservadores e militantes do grupo fascista MBL apelaram contra ela.
Vi algumas imagens da exposição. Não gostei. Ofendem minha fé. Para mim, obras de mal-gosto e desnecessárias. Mas não me cabe definir o que é arte ou o que é necessário.
Quem produziu as obras tem o direito de se manifestar e de expor livremente, porque a sociedade deveria ser livre e o Estado, laico.
Na Idade Média, havia o “index” dos livros proibidos e os hereges eram queimados em fogueiras. Na Alemanha nazista, livros fora do “padrão ariano” também pararam no fogo, e os judeus, em campos de concentração.
Hoje fecham essa exposição dizendo que ela contem heresias e sacrilégios. Amanhã prendem a você ou a mim por conta da nossa fé e das nossas ideias.
Não dê alimento ao monstro enquanto ele lhe é útil e destrói aquilo que esteticamente você acha estranho. Lembre-se de que é um monstro. Amanhã ele pode lhe devorar.
Melhor seguir a máxima de Voltaire, pelo menos até não ameaçar o direito à vida.
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| Os operário (1933), de Tarsila Amaral |
* Levon Nascimento
Levadas pela overdose patrocinada pela mídia comercial, as pessoas pensam que o principal problema do Brasil é a corrupção. É “a tolice da inteligência brasileira ou como o país se deixa manipular pela elite”, título de um dos estudos basilares do pensador social brasileiro e ex-presidente do IPEA Jessé Souza. Mais adiante ele diz: “a classe média é feita de imbecil pela elite”.
A corrupção, mesmo grave e escandalosa, é consequência de um problema muito maior, histórico e estrutural: a desigualdade social.
Sim, o Brasil é campeão em desigualdade social. Herança dos quase quatrocentos anos de escravidão.
Muitos poderão dizer que houve escravidão em outros países e que eles não são tão desiguais ou corruptos quanto o Brasil e estarão falando a verdade. Mas a nossa escravidão teve algumas particularidades bem decisivas e cruéis.
Desde que os portugueses começaram a plantar cana-de-açúcar no Nordeste, uns trinta anos depois de Cabral por os pés em Porto Seguro, que a escravidão se tornou o negócio mais lucrativo do país.
Primeiro foram os índios. Escravidão que persistiu até o século XVIII. E até agora em 2017 vemos fazendeiros, grileiros e garimpeiros matando tribos inteiras para ficar com suas terras. É um genocídio pior do que o nazista, porém escondido, marcado pela indiferença, acontecendo por desprezo das autoridades e das sociedades brasileira e mundial.
Depois, os povos negros foram capturados na África, trazidos nas piores condições em navios negreiros e transformados em bens semoventes. Bem semovente é boi, cavalo, cabra, porco. Pois era assim que se registravam nos documentos públicos a propriedade dos escravos humanos pertencentes a outros homens, os senhores brancos, como se fossem animais.
Essa escravidão toda durou quase quatro séculos e marcou a estrutura econômica, social, cultural e mental do povo brasileiro. Durante muito tempo, a maioria da população era composta de escravos. Em outras palavras, pouquíssimas pessoas tinham direitos de acordo com a lei. Não havia cidadãos. Existiam os privilegiados e os animalizados.
Essa realidade criou um país onde as pessoas não ambicionam a cidadania, onde não impera o sujeito de direitos. Queriam (e querem) se parecer com os senhores de escravos, os quais possuíam (e continuam a ter) privilégios.
Como se sabe, os privilégios de alguns e a vontade de os possuir, por outros, são as portas escancaradas para a subversão dos bens públicos e privados, ou seja, a corrupção e a desonestidade. Isto acontece no mundo inteiro, mas no Brasil é agravado por nossa secular estruturação de classes, fundada no escravismo colonial e na ausência de cidadania.
Enquanto durou a escravidão, era comum que o branco pobre ou o negro que conquistava a liberdade reproduzissem a estrutura social, fazendo de tudo para comprar um escravo para si, de modo a representar o status quo que consideravam a única possibilidade para a sociedade existir como tal.
Nos dias atuais, a classe média – também ela assalariada e explorada pela elite financeira – é conduzida pela lavagem cerebral midiática a querer se diferenciar dos demais trabalhadores, seja através da contratação “infra-legal” de empregados domésticos, pelo consumismo exagerado ou no culto à superioridade do mercado sobre o Estado (do privado sobre o público), típico de sociedades vazias de essência e subdesenvolvidas.
Pois esta mesma classe média tornou-se vassala e tributária das idéias mais atrasadas, antissociais e perpetuadoras de nossa histórica desigualdade. Foi a classe média que saiu às ruas vestindo a camisa amarela da corrupta CBF, ajudando a destruir a democracia, clamando contra programas sociais e políticas públicas que ajudam a diminuir a desigualdade social brasileira (Bolsa Família, cotas, valorização do salário mínimo, etc.), supostamente agindo em nome da moralidade, dos bons costumes e do combate à corrupção. Foi enganada, mas não se deu conta disso até o momento.
É também uma classe média que acha um horror pagar direitos trabalhistas a quem lhe serve, busca jeitinhos para empregar os filhos em prefeituras sem concurso público, burla filas e licitações e acha natural o nepotismo em órgãos públicos. Movida pelo mesmo espírito dos brancos pobres ou dos negros alforriados que compravam escravos, clama por intervenção militar, endurecimento da lei, pena de morte, por idéias fascistas e salvadores da Pátria machistas, misóginos e homofóbicos, de modo a lhe salvar do que ela pensa ser o principal problema do país: a corrupção… dos outros.
A classe média não percebe na desigualdade gritante a razão de nossos problemas. Acha que ao se diferenciar dos pobres favelados, roceiros e analfabetos funcionais (que mimetizam os antigos escravos da senzala), faz parte da elite nacional (simbolicamente os habitantes da velha casa grande). “Yes, nós temos bananas!”
E o país caminha aceleradamente a destruir direitos e democracia, conquistas de séculos, de sangue e de vidas de milhares de brasileiros. Por conta da preguiça mental de uma classe média indigente em termos de visão de mundo e de uma elite brutal, predatória, apátrida e colaborada com os interesses do imperialismo mundial.
Quem compreende essa realidade precisa se aproximar do povo pobre, trabalhador e lhe ajudar a compreender e a lutar por DIREITOS e DIGNIDADE HUMANA. Não é mais tolerável ouvir pobres como ventríloquos, culpando os que mais combateram a desigualdade social e acusando-os por todos os problemas seculares e atuais da Nação.
* Levon Nascimento é professor de História e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Flacso/Fundação Perseu Abramo.
Durante o tradicional desfile comemorativo da Independência do Brasil em Taiobeiras, neste 7 de setembro de 2017, a Escola Estadual Presidente Tancredo Neves apresentou o tema “Justiça & Paz”. Quando os alunos da escola passaram diante do palanque oficial, foi lido o texto a seguir, de minha autoria.
A Escola Estadual Presidente Tancredo Neves, nestes 195 anos da conquista da independência política e administrativa do Brasil, apresenta o tema JUSTIÇA E PAZ.
O Salmo 85, reverberando a sabedoria dos antigos hebreus e se constituindo num belo poema que expressa a confiança dos homens na misericórdia de Deus, nos afirma em seu versículo 10, “O amor e a fidelidade se encontrarão; a justiça e a paz se abraçarão”.
Passados mais de dois mil e quinhentos anos desde que este poema foi escrito, nós nos encontramos numa sociedade global e nacional em marcha acelerada para a destruição das conquistas civilizatórias dos últimos dois séculos. Perdeu-se a fé no diálogo. O uso das armas e a vontade de liberar a sua venda para todos os cidadãos tornaram-se a nova religião dos que não mais acreditam no progresso humano, uma idolatria nova, um falso deus. É como se o iluminismo estivesse se apagando e o fascismo se reacendendo.
Mais do que nunca, a batalha dos seres humanos esclarecidos e amorosos é concentrar forças para que se reencontrem os ideais de Justiça e Paz.
Só existirá uma sociedade pacífica, honesta, fraterna e cooperativa onde prevalecer a justiça social, a igualdade racial e de gênero, o pleno acesso à cultura e ao trabalho e a justa distribuição dos bens da terra. A desigualdade absurda, a miséria tétrica, a fome e a negação dos direitos humanos, como os trabalhistas, são situações de injustiça. Onde isto ocorre, assim como em nosso Brasil deste conturbado momento, não haverá pacificação, nem ordem, nem progresso.
É preciso que homens e mulheres, negros, indígenas, vítimas de homofobia e todos os oprimidos se organizem e lutem para alcançar a JUSTIÇA VERDADEIRA, despida dos privilégios de casta, atenta aos clamores dos necessitados, de modo que as armas da guerra e do ódio sejam aposentadas e destruídas. Assim, o brilho e o fulgor da PAZ resplandecerão. Só há PAZ onde a JUSTIÇA impera!
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| Capa de “A menina e o poeta”, novo livro de Milton Santiago |
Na noite de quarta, 6 de setembro de 2017, no Bar Chalezinho Belvedere em Salinas, norte de Minas Gerais, o escritor e poeta Milton Santiago lançou o livro “A menina e o poeta”.
A proposta do livro é realizar a “travessia poética pelos vales”, numa clara referência de Milton Santiago à cultura dos Vales do Rio Pardo, Rio Salinas e Rio Jequitinhonha, resgatando, ressignificando e transformando as sociedades dessas regiões através da arte, da cultura e do engajamento político.
A obra tem poemas como “SALINAS” (2017, p. 97)
Salinas é uma palavra,
que o sonho salinense alimenta,
não há ninguém que explique,
e ninguém que não entenda.
A capa d’A menina e o poeta e ilustrações internas são assinadas pela artista plástica taiobeirense Lizz Campos.
O lançamento contou ainda com a presença de escritores, artistas plásticos, músicos, educadores e militantes sociais, servindo como espaço para o lançamento do Manifesto Pró-Cultura do Alto Rio Pardo, conduzido por Marileide Alves Pinheiro e Felipe Cortez.
* Julgamentos-espetáculos conduzidos debaixo dos holofotes da grande mídia, desrespeitando as vias corretas do direito. Os interesses da mídia nunca foram os da maioria do povo brasileiro. É possível acreditar nas boas intenções da Globo, por exemplo? Juízes que seguem o que a mídia quer estão praticando justiça de verdade?
* Criminalização apenas de um partido político – aquele que quando esteve no poder governou com um olhar mais voltado para os interesses dos pobres e trabalhadores, diminuindo a gravíssima e escandalosa concentração de renda brasileira – enquanto o modus operandi denunciado é na verdade de todo o sistema político nacional desde tempos imemoriais. Seletividade? Militância ideológica do judiciário?
* Crédito a delações premiadas, só de palavras, sem apresentação de provas concretas, de quem já está preso e fragilizado psicologicamente, em troca de benefícios e redução de pena. Aprimoramento dos métodos de tortura? Consultoria internacional? Quais os interesses?
* Vista grossa a malas de dinheiro, a helicópteros carregados de cocaína e a gravações explícitas de cometimento de crimes praticados por políticos ligados ao campo ideológico das elites. Impunidade generalizada entre os que fazem o jogo da mídia e do capital.
* Destruição da imagem da política como caminho para a solução de conflitos junto à opinião pública mediana, abrindo espaço para possíveis aventureiros ou para perspectivas autoritárias de poder, como já demonstraram as experiências da Itália fascista e da Alemanha nazista.
* Este é o quadro grave do Brasil pós-golpe de 2016. Fugir para as montanhas ou manter a esperança?