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| Jovita Rego |
Artigo publicado originalmente no Jornal Folha Regional, Taiobeiras/MG, em 22 de novembro de 2013, edição número 222, ano X, página 3.
“Eita, mataram mais um ali!”– teria exclamado a matriarca Jovita Secundina Rêgo no entardecer de 23 de setembro de 1911, quando ouvira mais um corriqueiro estampido de espingarda. Minutos depois, ela se daria conta de que aquele tiro adentrara a sala de estar e atingira certeiramente o peito de seu marido Martinho Rêgo, desfechando-lhe a vida. Martinho, líder político e homem próspero, foi o primeiro vereador eleito pelo povoado de Bom Jardim das Taiobeiras para a Câmara Municipal de Rio Pardo de Minas, visto que o distrito de Taiobeiras só passaria à jurisdição de Salinas em 7 de setembro de 1923. Aquele assassinato fora encomendado por um bandoleiro a quem Martinho havia preso e recolhido à cadeia de Rio Pardo por prática de arruaça na feira do povoado. Jurara vingança.
Por pior que fosse aquela morte, a julgar pela frase de constatação conformada proferida por Jovita, por certo não era fato isolado e extraordinário no cotidiano do pequenino arraial de taiobas nativas e abundantes. Infelizmente, assim como também não tem sido “fatos incomuns” os muitos assassinatos cometidos em Taiobeiras pouco mais de um século depois daquele.
A escalada da violência em Taiobeiras a partir do final de 2007, estendendo-se e ampliando-se até o momento em que escrevo este artigo, nos estertores de 2013, convoca a sociedade e as autoridades constituídas para uma reflexão mais profunda, para além da atávica propensão de tornar superficial e simplista o entendimento de um fenômeno que nos provoca e amedronta.
Não é possível buscar soluções no topo das árvores, nas pontas dos galhos e nas folhas secas que caem. Isto seria o mesmo que começar a construir uma casa pelo telhado. Reconheço que o tema é complexo e que ninguém tem uma solução definitiva. No entanto, deve ser tratado a partir das raízes, das origens, das questões de fundo e não apenas do já deblaterados jargões de “senso comum”, segundo os quais os problemas são as “leis permissivas” associadas aos “menores impunes”.
Defender bordões de redução da maioridade penal ou da instituição da pena de morte, somente mascaram um falsa vontade de resolver os problemas. Configura uma espécie de voluntarismo preguiçoso que se recusa a sacudir as mentes empoeiradas pela incapacidade de pensar no bem comum e em saídas humanizadas para os problemas sociais.
É fato que a atual onda de violência encontra terreno fértil na juventude pobre, cotidianamente confrontada, humilhada e desafiada pela sociedade consumista e de ostentação. Na cara destes meninos e meninas que aderiram ao tráfico, todos os dias, lhes são aguçados os desejos mais profundos e irracionais da alma humana, tal e qual ocorre também com adolescentes e jovens das classes média e alta. A diferença é que com aqueles primeiros, geralmente excluídos das oportunidades mais básicas, inclusive da convivência familiar saudável, ainda lhes faltam os recursos financeiros para a satisfação dos desejos de consumo.
Somam-se a isto a falência da família tradicional, a inoperância filosófica das instituições religiosas (mais ciosas de seus dogmas do que do entendimento honesto das necessidades do novo ser humano da era globalizada) e a incapacidade da educação formal (pública e sucateada ou privada e mercantil) de ser atraente e edificante na vida desses jovens.
Em contraposição a tudo isto, traficantes e criminosos, nem sempre aqueles estereotipados com trejeitos de morros e favelas; muitas vezes bem vestidos e antenados com os valores de mercado, expandem seus negócios com uma psicologia e marketing capazes de dar inveja aos melhores estrategistas e profissionais diplomados e pós-graduados. Atuam pelas margens, estimulando “cheiros e sons”, satisfazendo as “sedes” e as “fomes” de atenção, possibilitando o “status” e a “valorização” que o Estado e a comunidade são incapazes de atender. Seduzem, compram, abduzem, dominam, incorporam, enviam, possuem.
E a cada morte, a cada crime, a sociedade se esconde de medo. As autoridades rugem, mas nada fazem de efetivo. Debatem como reprimir. Convenientemente se esquecem de que a repressão é apenas um medicamento paliativo ou um mero placebo que é dado à comunidade em crise histérica. A culpa, então, é do menor – este “monstro” que se formou sozinho – ladrão, violento, assassino – que precisa ser tirado do convívio das pessoas “normais” e “saudáveis”. Não se questiona de onde vem esta pessoa que mata ou que morreu. Aliás, comemora-se a morte de mais um “safado” e criminoso. “Fosse boa pessoa não teria se metido nisto!” – exclamam com “justa” autoridade moral. Mas, e quando a morte atinge o “inocente”, como em muitos casos ainda não desvendados pela polícia? Quem formou este menor? Qual a sua história? O que foi feito por ele para que não se tornasse mais um? Perguntas complexas para as quais não temos respostas. Nenhum de nós. Até quando?
Nossa resposta não pode ser simplificadora ou vazia. Não pudemos sucumbir ao senso comum do “pega, esfola e mata” ou do “prende e arrebenta”. Precisamos ir além do “Eita, mataram mais um ali” pronunciado por Jovita há mais de 100 anos em nossa Taiobeiras. É hora de nos perguntarmos: “o que podemos fazer de bom para que mais um não seja morto ali?”.