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| Deveria ser assim! |
Publicado no Jornal Folha Regional, ano IX, nº 215, maio/2013, p. 4, Taiobeiras/MG.
Ganhar a eleição em Taiobeiras/MG não é coisa fácil. Válido para prefeitura e vereança. Aqui imperam o clientelismo e todos os defeitos eleitorais dele originados. Não há sombra dos votos ideológicos ou de protesto.
Sufrágios ideais, em candidatos de esquerda e direita, ou ligados a bandeiras temáticas (negros, mulheres, meio ambiente, cultura, educação, religião), são chamados de ideológicos. Como exemplos, podem ser citados: o dep. Rogério Correia (PT/MG), movimentos sociais e educação; o dep. Zé Silva (PDT/MG), campo, trabalho e emprego; o dep. Jean Wyllys (PSOL/RJ), movimento LGBT; o dep. pastor Marco Feliciano (PSC/SP), evangélicos; a senadora Kátia Abreu (PSD/TO), ruralistas; dentre outros. Já as eleições de figuras como o falecido dep. Enéas Carneiro (PRONA) ou o palhaço Tiririca (PR/SP) são classificadas como voto de protesto, justificadas pelo descontentamento do eleitorado com a classe política convencional. Tanto no ideológico quanto no de protesto, o voto é espontâneo e livre. O eleitor vota porque confia no candidato ou repudia uma situação. Ocorre, principalmente, onde o contato do eleitor com o político se dá por meio midiático ou em associações, sindicatos e grupos organizados.
Já os votos de clientela – e sua pior forma, o voto vendido – são comuns nos lugares em que o contato do eleitor com o político é direto e pessoal, individualizado e informal. Trata-se daquele tipo encabrestado pelo que se convencionou chamar de “serviços prestados”, ou seja, pela concessão de benesses públicas, de direito legal estendido a todos os cidadãos, mas que são levadas ao povo por intermediários políticos que se auto-promovem com tais atitudes. Exemplo clássico desse tipo de formação de “currais eleitorais”, o sujeito que, no lugar do cidadão, vai à secretaria de saúde, busca a ficha de consulta ou o remédio e os entrega in loco de mão em mão. O intermediário dos direitos torna-se beneficiário da gratidão popular. Em todos estes casos, o clientelismo é possível porque o grau de cidadania dos indivíduos é precário. Ao invés de sujeitos, as pessoas se transformam em objetos de submissão. Contribui para isto a pouca filiação ou participação dos trabalhadores e das pessoas comuns em entidades sociais, sindicais e políticas, além da baixa escolarização. Os indivíduos são atomizados ao máximo, estimulados a não se organizar e a ter medo. Geralmente, são “alimentados” pela política do “pão e circo” e pela falsa ideia de proximidade em relação aos políticos detentores de mandato (vereadores e prefeito). Além do mais, o povo é manipulado, desde jovem, a enxergar o político e os órgãos do Estado como entes eternos, insondáveis e dotados de poderes supremos.
O passo seguinte na “linha evolutiva” do clientelismo é a venda do voto ao político. Uma vez sabendo que a eleição é um jogo de interesses poderosos, as pessoas imbuem-se da lógica capitalista mais selvagem: “o salve-se quem puder” ou “o mundo é dos espertos”. Negociam o voto com todos os candidatos que estão dispostos a pagar. Vendem-no por dinheiro, serviços ou produtos: combustível, remédio, pagamento de contas, cimento, alimentos, etc. Estes indivíduos, cada dia em maior número, a despeito das leis rigorosas contra a captação ilícita do sufrágio, deseducados pela lerdeza ou complacência do Poder Judiciário, descaracterizam o ideal democrático. Ironicamente, formam uma “maioria” robusta de seres humanos individualistas e míopes em relação ao sentido de “bem comum”.
Na ausência dos votos ideológicos ou de protesto, predominam em Taiobeiras a formação de clientelas e dos similares de baixa reputação ética. Candidatos a vereador ideológicos, defensores de bandeiras civilizatórias, dificilmente se elegem, independente de estar na situação ou na oposição. Em 2012, nenhum representante da educação, do esporte, da cultura ou do meio ambiente foi eleito para a Câmara Municipal de Taiobeiras. Até as mulheres, maioria do eleitorado, estão há cinco eleições seguidas sem emplacar uma vereadora. Sinal de que não há nem mesmo ideologia de gênero. No caso majoritário, vence o grupo mais rico e bem entranhando na administração municipal. Qualquer discurso relativo à eficiência na gestão é mera maquiagem ou decoração para iludir desinformados e incautos. No jogo político taiobeirense, ganha quem consegue reunir clientela maior. E não há futuro promissor para nosso paradigma civilizacional se isto predominar pelas eleições seguintes.
Mas, se nem mesmo o consagrado direito ao voto é bem compreendido e estimulado, haverá quem venha a se importar com o PARADIGMA CIVILIZACIONAL de Taiobeiras?