Apresento a segunda e última parte do Relatório das Santas Missões que os frades Frei Erardo, Frei Fabiano, Frei Alexandre e Frei Eduardo, a convite de Frei Jucundiano, realizaram em julho de 1951, em Taiobeiras. O texto, transcrito aqui abaixo, é retirado da edição de outubro de 1951 da Revista Santa Cruz, das páginas 170 a 172.
Como na primeira parte, fiz alterações apenas na pontuação e na escrita de algumas palavras, de modo a adequar ao Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Igualmente, acrescentei breves notas explicativas entre colchetes ou grifadas em negrito, para melhor contextualizar as informações.
Se você não leu a primeira parte, clique aqui primeiramente.
Nesta segunda parte, me chamou a atenção algumas descrições sobre Taiobeiras, exatamente no meio do século XX, a partir de olhos de fora. Localizada em clima marcado por frio intenso e ventos gelados durante o período das missões, abrigava uma população estimada em cerca de 2.500 habitantes, distribuídos em aproximadamente 400 casas de estrutura modesta. Seu povo, profundamente religioso e generoso, destacava-se pela participação fervorosa em práticas católicas, como confissões, comunhões em massa (5.522 registradas) e procissões multitudinárias (com mais de 2.000 participantes), além de contribuir com doações de alimentos (leitoas, frangos, ovos) e recursos financeiros para sustentar as atividades paroquiais. Os costumes locais incluíam tradições como casamentos religiosos (quatro realizados durante as missões), visitas aos doentes (14 atendidos), romarias ao Bom Jesus da Lapa e eventos comunitários como leilões de prendas, refletindo uma vida social e espiritual centrada na igreja e na solidariedade coletiva. E ficam as perguntas para reflexão: O que mudou? O que permaneceu?
Mais uma vez agradeço ao Rafael Mattos, responsável pelos arquivos da Província Franciscana de Santa Cruz, em Belo Horizonte, que tem muito prestativamente me cedido acesso aos originais.
Desejo boa leitura e ótimo aprendizado sobre a nossa história taiobeirense.
Vamos ao texto…
Levon Nascimento, Professor de História. Taiobeiras, 02 de abril de 2025.
TAIOBEIRAS
Relatório das Santas Missões
— II —
11 de julho [de 1951], quarta-feira – Preparamos as crianças para a confissão e a comunhão. É impressionante como o bom vigário de Taiobeiras soube instruir as ovelhas confiadas aos cuidados dele. Quase todos, velhos e crianças, conhecem com perfeição uma boa parte do catecismo. Quando Frei Alexandre terminou o seu eloquente sermão da noite, puxamos os rapazes para a escola. Os bigodeiros, acanhados como criancinhas, perderam totalmente sua atitude recalcitrante diante das maneiras jeitosas do conferencista, e Frei Fabiano conseguiu, mediante palavras claras e conselhos suaves e paternais, levar quase todos aos pés de Cristo.
Quando, no outro dia, Frei Eduardo quis procurar um cantinho para rezar com os fiéis durante as Missas, quase não conseguiu achar ruim. Oferecemos a bela cena da comunhão geral das crianças e dos rapazes à nossa padroeira, que tão visivelmente abençoou o nosso trabalho.
Deixamos hoje o nosso rebanho no deserto para procurar as ovelhas desgarradas. Frei Eduardo escolheu os doentes não praticantes e Frei Alexandre os outros como teatro de suas operações. Também neste trabalho penoso a proteção da nossa padroeira das missões os antecedeu. E a maioria caiu nas redes do pescador divino. O afluxo popular crescia mais e mais em vulto, de modo que as pregações da noite, feitas por Frei Alexandre e Frei Fabiano sobre a educação, foram ouvidas por uma multidão comprimida na igreja como sardinhas em lata. O frio e o vento gelado não permitiam mais fazer os exercícios das missões à porta da igreja. À noite, dirigimos um fogo cerrado de graças divinas sobre os homens casados abrigados em dois salões da escola. O conferencista se colocara na abertura de uma porta que ligava os salões.
Sexta-feira [13 de julho de 1951] é o dia dos doentes da paróquia. Acompanhado por dois homens no banco traseiro de um jeep, percorreu Frei Eduardo em todas as direções a vila e, graças ao mesmo carro, pôde ele, sem demasiado esforço, alcançar um enfermo a mais de uma légua de distância.
Depois do catecismo, dado com grande mestria por Frei Eduardo, foram todos em procissão para o cemitério para a comemoração dos defuntos. De cima de um dos túmulos, fizemos a meditação sobre a morte diante de uma enorme aglomeração de povo. Por este motivo, não marcamos um sermão para a noite, somente uma doutrinação, feita por Frei Alexandre, que, em seguida, entregou os pontos, porque a voz dele deu baixa. Outra vez concentramos fogo sobre os homens casados numa segunda conferência, dada por Frei Fabiano. Só esta noite confessamos 451 homens casados.
A assistência às Missas do outro dia era impressionante, e a comunhão geral dos homens deve ter sido um imenso prazer aos olhos de Deus e dos homens. Frei Eduardo cantou e rezou com o povo durante as Missas e preparava-o para a comunhão. Ainda durante o dia de hoje, fisgamos peixes gordos, quero dizer, pecadores endurecidos no mal e… prendas para o leilão. Enquanto os outros assim trabalhavam, estudava Frei Eduardo em voz alta e em todos os lugares da casa a sua prática para o último dia das missões. A qualquer preço, queria ele, ao menos uma vez, durante estas bonitas missões, fazer ouvir sua voz. Parabéns! Na outra manhã, pudemos ouvir e admirar a robusta voz do nosso novato neste trabalho, voz essa que ainda não tinha experimentado os estragos feitos pela luta para dominar o latir de cachorros que não acham seus donos, de criancinhas que em altos brados reclamam a mamadeira, de moleques que procuram distrações para suas energias e do constante murmúrio de uma igreja repleta até o telhado de um povo que puxa, empurra e cutuca para conseguir um lugar melhor.
Quando começou a comunhão geral da paróquia, tínhamos ouvido 2.478 confissões, e ao todo foram distribuídas 5.522 comunhões.
Na procissão da tarde, uma enorme massa de povo tinha-se reunido na praça. Calcula-se em número de mais de 2.000 as pessoas que tomaram parte nesta procissão em honra da Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Diante de toda esta multidão, foi pronunciado o último sermão e, em seguida, dada a bênção apostólica a todos os que tomaram parte nestas santas Missões. E depois… depois… a despedida. Quem quer que viesse despedir-se dos missionários e desse uma pequena esmola de agrado para pagar as despesas das Missões, ganhava uma lembrança das Missões e dos missionários.
A voz de Frei Jacundiano fez-se ouvir até dentro das casas nos arredores da igreja, apregoando a boa qualidade das prendas do leilão. Apesar dos esforços empregados, não conseguiu tirar do leilão mais de 900 cruzeiros. A causa disto é a seca que arruinou, em parte, a colheita do ano passado.
Depois das confissões que ainda foram atendidas ao fim da reza, passamos a noite comentando as missões, somando as comunhões e confissões para uma estatística do movimento, e contamos o dinheiro dos agrados que as pessoas gratas de Taiobeiras, em sua generosidade, nos tinham oferecido. Os missionários fizeram aparecer no rosto cansado do vigário, que teve um dia atarefado, um sorriso de satisfação, quando entregaram 3.700 cruzeiros para ajuda nas despesas. Ele ainda nos confiou que quase não gastou nada para nos manter em vida, porque, de todos os lados, tinha o povo durante estes dias ajudado, dando leitoas, frangos, ovos, doces, milho [farinha?] de trigo, biscoitos etc. Na doce convicção de ter feito uma boa obra, nos separamos, porque ainda nos restava, no outro dia, a despedida final.
De fato, pareceu o outro dia que ainda estivéssemos nas missões. A comemoração das almas atraiu, pela última vez, o povo em massa para a igreja. Frei Alexandre celebrou a Missa das almas, e o Libera foi cantado pelos outros missionários. Na casa paroquial, havia um movimento intenso, despedida dupla: despediam-se do vigário os liguistas [membros da Liga Católica Jesus, Maria e José, uma irmandade leiga que até hoje existe em Taiobeiras], que hoje iam iniciar sua romaria ao Bom Jesus da Lapa, e os missionários. Às dez horas, almoçamos e, quase simultaneamente, apareceram os caminhões para os romeiros e o jeep para nós, outra vez com o hábil chofer Frei Artur ao volante, surgindo agora qual anjo de misericórdia. Nós tínhamos pedido condução para Salinas a todos os que possuíam um veículo a motor, mas um não tinha tempo, outro quebrou o carro na véspera, mais um queria cobrar 600 cruzeiros etc.; quando tudo já estava perdido, eis que surge o salvador Frei Artur com um telegrama: «Segunda-feira estarei com jeep».
Os caminhões já estão buzinando, mas os romeiros não querem partir sem dizer adeus aos missionários. Nós quase imediatamente seguimos o rastro deles. Adeus, Taiobeiras!… Nós vamos, mas vamos levando as impressões mais agradáveis de todos os taiobeirenses, e não menos do seu vigário, que nestes dias se desdobrou para ser um hospedeiro no verdadeiro sentido franciscano.
Aqui alguns números para os que gostam de estatística: ao todo, atendemos 2.478 confissões e distribuímos 5.522 S. Comunhões. O lugar é mais ou menos de 400 casas, e seus habitantes são estimados em 2.500, mais ou menos. Quatro casais amasiados fizeram seu casamento religioso. Quase todos são casados no religioso, excetuando alguns protestantes e pagãos modernos. Catorze doentes foram visitados, a saber: um rapaz que tinha quebrado uma perna e treze velhos entre 72 e 100 anos.
Os missionários
Fonte consultada:
TAIOBEIRAS: Relatório das Santas Missões (II). Revista Santa Cruz, Belo Horizonte, I, 170-172, outubro de 1951.



















