Autor: Levon Nascimento

  • História de Taiobeiras: As missões franciscanas de 1951 (parte 2)

    História de Taiobeiras: As missões franciscanas de 1951 (parte 2)

    Apresento a segunda e última parte do Relatório das Santas Missões que os frades Frei Erardo, Frei Fabiano, Frei Alexandre e Frei Eduardo, a convite de Frei Jucundiano, realizaram em julho de 1951, em Taiobeiras. O texto, transcrito aqui abaixo, é retirado da edição de outubro de 1951 da Revista Santa Cruz, das páginas 170 a 172.

    Como na primeira parte, fiz alterações apenas na pontuação e na escrita de algumas palavras, de modo a adequar ao Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Igualmente, acrescentei breves notas explicativas entre colchetes ou grifadas em negrito, para melhor contextualizar as informações.

    Se você não leu a primeira parte, clique aqui primeiramente.

    Nesta segunda parte, me chamou a atenção algumas descrições sobre Taiobeiras, exatamente no meio do século XX, a partir de olhos de fora. Localizada em clima marcado por frio intenso e ventos gelados durante o período das missões, abrigava uma população estimada em cerca de 2.500 habitantes, distribuídos em aproximadamente 400 casas de estrutura modesta. Seu povo, profundamente religioso e generoso, destacava-se pela participação fervorosa em práticas católicas, como confissões, comunhões em massa (5.522 registradas) e procissões multitudinárias (com mais de 2.000 participantes), além de contribuir com doações de alimentos (leitoas, frangos, ovos) e recursos financeiros para sustentar as atividades paroquiais. Os costumes locais incluíam tradições como casamentos religiosos (quatro realizados durante as missões), visitas aos doentes (14 atendidos), romarias ao Bom Jesus da Lapa e eventos comunitários como leilões de prendas, refletindo uma vida social e espiritual centrada na igreja e na solidariedade coletiva. E ficam as perguntas para reflexão: O que mudou? O que permaneceu?

    Mais uma vez agradeço ao Rafael Mattos, responsável pelos arquivos da Província Franciscana de Santa Cruz, em Belo Horizonte, que tem muito prestativamente me cedido acesso aos originais.

    Desejo boa leitura e ótimo aprendizado sobre a nossa história taiobeirense.

    Vamos ao texto…

    Levon Nascimento, Professor de História. Taiobeiras, 02 de abril de 2025.

    TAIOBEIRAS

    Relatório das Santas Missões

    — II —

    11 de julho [de 1951], quarta-feira – Preparamos as crianças para a confissão e a comunhão. É impressionante como o bom vigário de Taiobeiras soube instruir as ovelhas confiadas aos cuidados dele. Quase todos, velhos e crianças, conhecem com perfeição uma boa parte do catecismo. Quando Frei Alexandre terminou o seu eloquente sermão da noite, puxamos os rapazes para a escola. Os bigodeiros, acanhados como criancinhas, perderam totalmente sua atitude recalcitrante diante das maneiras jeitosas do conferencista, e Frei Fabiano conseguiu, mediante palavras claras e conselhos suaves e paternais, levar quase todos aos pés de Cristo.

    Quando, no outro dia, Frei Eduardo quis procurar um cantinho para rezar com os fiéis durante as Missas, quase não conseguiu achar ruim. Oferecemos a bela cena da comunhão geral das crianças e dos rapazes à nossa padroeira, que tão visivelmente abençoou o nosso trabalho.

    Deixamos hoje o nosso rebanho no deserto para procurar as ovelhas desgarradas. Frei Eduardo escolheu os doentes não praticantes e Frei Alexandre os outros como teatro de suas operações. Também neste trabalho penoso a proteção da nossa padroeira das missões os antecedeu. E a maioria caiu nas redes do pescador divino. O afluxo popular crescia mais e mais em vulto, de modo que as pregações da noite, feitas por Frei Alexandre e Frei Fabiano sobre a educação, foram ouvidas por uma multidão comprimida na igreja como sardinhas em lata. O frio e o vento gelado não permitiam mais fazer os exercícios das missões à porta da igreja. À noite, dirigimos um fogo cerrado de graças divinas sobre os homens casados abrigados em dois salões da escola. O conferencista se colocara na abertura de uma porta que ligava os salões.

    Sexta-feira [13 de julho de 1951] é o dia dos doentes da paróquia. Acompanhado por dois homens no banco traseiro de um jeep, percorreu Frei Eduardo em todas as direções a vila e, graças ao mesmo carro, pôde ele, sem demasiado esforço, alcançar um enfermo a mais de uma légua de distância.

    Depois do catecismo, dado com grande mestria por Frei Eduardo, foram todos em procissão para o cemitério para a comemoração dos defuntos. De cima de um dos túmulos, fizemos a meditação sobre a morte diante de uma enorme aglomeração de povo. Por este motivo, não marcamos um sermão para a noite, somente uma doutrinação, feita por Frei Alexandre, que, em seguida, entregou os pontos, porque a voz dele deu baixa. Outra vez concentramos fogo sobre os homens casados numa segunda conferência, dada por Frei Fabiano. Só esta noite confessamos 451 homens casados.

    A assistência às Missas do outro dia era impressionante, e a comunhão geral dos homens deve ter sido um imenso prazer aos olhos de Deus e dos homens. Frei Eduardo cantou e rezou com o povo durante as Missas e preparava-o para a comunhão. Ainda durante o dia de hoje, fisgamos peixes gordos, quero dizer, pecadores endurecidos no mal e… prendas para o leilão. Enquanto os outros assim trabalhavam, estudava Frei Eduardo em voz alta e em todos os lugares da casa a sua prática para o último dia das missões. A qualquer preço, queria ele, ao menos uma vez, durante estas bonitas missões, fazer ouvir sua voz. Parabéns! Na outra manhã, pudemos ouvir e admirar a robusta voz do nosso novato neste trabalho, voz essa que ainda não tinha experimentado os estragos feitos pela luta para dominar o latir de cachorros que não acham seus donos, de criancinhas que em altos brados reclamam a mamadeira, de moleques que procuram distrações para suas energias e do constante murmúrio de uma igreja repleta até o telhado de um povo que puxa, empurra e cutuca para conseguir um lugar melhor.

    Quando começou a comunhão geral da paróquia, tínhamos ouvido 2.478 confissões, e ao todo foram distribuídas 5.522 comunhões.

    Na procissão da tarde, uma enorme massa de povo tinha-se reunido na praça. Calcula-se em número de mais de 2.000 as pessoas que tomaram parte nesta procissão em honra da Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Diante de toda esta multidão, foi pronunciado o último sermão e, em seguida, dada a bênção apostólica a todos os que tomaram parte nestas santas Missões. E depois… depois… a despedida. Quem quer que viesse despedir-se dos missionários e desse uma pequena esmola de agrado para pagar as despesas das Missões, ganhava uma lembrança das Missões e dos missionários.

    A voz de Frei Jacundiano fez-se ouvir até dentro das casas nos arredores da igreja, apregoando a boa qualidade das prendas do leilão. Apesar dos esforços empregados, não conseguiu tirar do leilão mais de 900 cruzeiros. A causa disto é a seca que arruinou, em parte, a colheita do ano passado.

    Depois das confissões que ainda foram atendidas ao fim da reza, passamos a noite comentando as missões, somando as comunhões e confissões para uma estatística do movimento, e contamos o dinheiro dos agrados que as pessoas gratas de Taiobeiras, em sua generosidade, nos tinham oferecido. Os missionários fizeram aparecer no rosto cansado do vigário, que teve um dia atarefado, um sorriso de satisfação, quando entregaram 3.700 cruzeiros para ajuda nas despesas. Ele ainda nos confiou que quase não gastou nada para nos manter em vida, porque, de todos os lados, tinha o povo durante estes dias ajudado, dando leitoas, frangos, ovos, doces, milho [farinha?] de trigo, biscoitos etc. Na doce convicção de ter feito uma boa obra, nos separamos, porque ainda nos restava, no outro dia, a despedida final.

    De fato, pareceu o outro dia que ainda estivéssemos nas missões. A comemoração das almas atraiu, pela última vez, o povo em massa para a igreja. Frei Alexandre celebrou a Missa das almas, e o Libera foi cantado pelos outros missionários. Na casa paroquial, havia um movimento intenso, despedida dupla: despediam-se do vigário os liguistas [membros da Liga Católica Jesus, Maria e José, uma irmandade leiga que até hoje existe em Taiobeiras], que hoje iam iniciar sua romaria ao Bom Jesus da Lapa, e os missionários. Às dez horas, almoçamos e, quase simultaneamente, apareceram os caminhões para os romeiros e o jeep para nós, outra vez com o hábil chofer Frei Artur ao volante, surgindo agora qual anjo de misericórdia. Nós tínhamos pedido condução para Salinas a todos os que possuíam um veículo a motor, mas um não tinha tempo, outro quebrou o carro na véspera, mais um queria cobrar 600 cruzeiros etc.; quando tudo já estava perdido, eis que surge o salvador Frei Artur com um telegrama: «Segunda-feira estarei com jeep».

    Os caminhões já estão buzinando, mas os romeiros não querem partir sem dizer adeus aos missionários. Nós quase imediatamente seguimos o rastro deles. Adeus, Taiobeiras!… Nós vamos, mas vamos levando as impressões mais agradáveis de todos os taiobeirenses, e não menos do seu vigário, que nestes dias se desdobrou para ser um hospedeiro no verdadeiro sentido franciscano.

    Aqui alguns números para os que gostam de estatística: ao todo, atendemos 2.478 confissões e distribuímos 5.522 S. Comunhões. O lugar é mais ou menos de 400 casas, e seus habitantes são estimados em 2.500, mais ou menos. Quatro casais amasiados fizeram seu casamento religioso. Quase todos são casados no religioso, excetuando alguns protestantes e pagãos modernos. Catorze doentes foram visitados, a saber: um rapaz que tinha quebrado uma perna e treze velhos entre 72 e 100 anos.

    Os missionários

    Fonte consultada:

    TAIOBEIRAS: Relatório das Santas Missões (II). Revista Santa Cruz, Belo Horizonte, I, 170-172, outubro de 1951.

  • Padre Júlio Lancellotti: o profeta do Pão da igualdade

    Padre Júlio Lancellotti: o profeta do Pão da igualdade

    “Se calarem a voz dos profetas
    As pedras falarão”
    — Cecília Vaz, Pão da Igualdade

    Na esquina entre a cruz e a rua, entre a fé e o asfalto, caminha um homem que carrega nas mãos o pão da igualdade. Padre Júlio Lancellotti não se contenta com orações que não se misturem à poeira das calçadas. Sua voz, ecoando os versos de Cecília Vaz, é a dos profetas que não se calam: denuncia a fome, a exclusão e as pedras pontiagudas da indiferença.

    “Se fecharem os poucos caminhos
    Mil trilhas nascerão”

    Em uma cidade onde bancos públicos se tornaram armadilhas contra corpos cansados, Lancellotti ergueu-se como o desenhista de novas trilhas. Lutou contra a arquitetura hostil – aquela que espreita em formas de concreto feito para machucar – e venceu. A lei que leva seu nome, aprovada após um veto derrubado, transformou-se em ferramenta de reconstrução: “Não queremos cidades que expulsem, mas que abracem”, declarou, ecoando o verso que anuncia: “Deus criou o infinito pra vida ser sempre e mais”.

    “No banquete da festa de uns poucos
    Só rico se sentou
    Nosso Deus fica ao lado dos pobres
    Colhendo o que sobrou”

    Enquanto alguns pregam a prosperidade de púlpitos dourados, Lancellotti serve café e dignidade debaixo de viadutos. Suas homilias são atos: distribuir comida, denunciar a exploração dos invisíveis, enfrentar até mesmo os que usam a fé como arma política. “Comungar é tornar-se um perigo”, diz a canção – e ele, de fato, virou risco para os que preferem o silêncio. Quando tentaram calá-lo com pedidos de CPI ou críticas veladas, ministros e entidades saíram em sua defesa, lembrando que “o poder tem raízes na areia/ O tempo o faz cair”.

    “O Espírito é vento incessante
    Que nada há de prender
    Ele sopra até no absurdo
    Que a gente não quer ver”

    Sua pastoral é ventania. Durante a pandemia, enquanto o medo paralisava o país, ele andava de máscara e galocha, desafiando a lógica do “cada um por si”. O Conselho Nacional de Saúde reconheceu: sua solidariedade não era caridade, mas comunhão – palavra que, na canção de Cecília Vaz, significa “com a luta sofrida do povo/ Que quer ter voz, ter vez, lugar”. Para ele, como nos versos, a missa só faz sentido se celebrada nas ruas: “Viemos pra incomodar/ Com a fé e a união nossos passos/ Um dia vão chegar”.

    Muito tempo não dura a verdade
    Nestas margens estreitas demais”

    Lancellotti sabe que a justiça não cabe em pequenezas. Criticou até a própria Igreja quando esta hesitou, lembrando que o Evangelho não é patrimônio de instituições, mas “pão de igualdade” partilhado. Quando uma TV católica propagou discursos de ódio, ele respondeu com a dureza dos que não negociam princípios: “União é a rocha que o povo/ Usou pra construir”.

    “Toda luta verá o seu dia
    Nascer da escuridão
    Ensaiamos a festa e a alegria
    Fazendo comunhão”

    Padre Júlio Lancellotti não é santo de altar – é profeta de calçada. Sua história se entrelaça com a canção que canta “Jesus, pão da igualdade”, porque ele sabe: fé sem luta é farisaísmo. Enquanto houver grades sob marquises e fome disfarçada de estatística, ele seguirá sendo a voz que as pedras não precisarão substituir. Afinal, como diz Cecília Vaz, “com a fé e a união nossos passos/ Um dia vão chegar” – e ele já está a caminho.

  • Poesia com Nair

    Poesia com Nair

    Nair Marques Freitas transforma os clássicos da poesia brasileira em momentos de pura emoção. Em seu canal do YouTube Ópcevê a poesia!, ela declama versos com uma naturalidade que faz a poesia se tornar uma conversa íntima.

    Hoje professora aposentada, com vasta experiência no magistério público, Nair foi minha professora na 8ª série (atual 9º ano do Ensino Fundamental) e no 1º ano do Ensino Médio, na Escola Estadual Oswaldo Lucas Mendes, em Taiobeiras, Norte de Minas Gerais. Ela também prefaciou meu primeiro livro, Palavras da caminhada (Editora O Lutador, 2006), deixando sua marca na minha trajetória literária.

    No canal, ganham vida obras como “As Pombas”, “Meus oito anos”, “O Pato”, “Poema Pimentinha” e “Oração do Milho”, de Cora Coralina. Cada declamação é um convite para sentir a musicalidade dos versos e a força da nossa cultura.

    Agora, Nair se prepara para lançar seu livro, Buscando fios, que explora as raízes históricas e pitorescas de sua família norte-mineira. Tive a honra de ser convidado por ela para escrever a apresentação e digo que essa obra promete revelar, sem dar spoilers, a beleza dos fios que unem histórias e memórias, conectando passado e presente em cada poema.

    Através de sua voz e sensibilidade, Nair nos convida a redescobrir a poesia como um elo que une vidas, transformando cada verso em uma celebração da nossa identidade.

  • Conversão ecológica: um chamado quaresmal (Quarto Domingo da Quaresma, 2025)

    Conversão ecológica: um chamado quaresmal (Quarto Domingo da Quaresma, 2025)

    A Quaresma nos convida à conversão, um retorno ao essencial. Em 2025, a Campanha da Fraternidade, com o tema Ecologia Integral, desafia-nos a ampliar essa conversão para nossa relação com a criação. As leituras do quarto domingo da Quaresma (30/03/2025) oferecem um mapa espiritual para essa jornada, unindo fé e cuidado com a Casa Comum.

    Primeira Leitura (Josué 5,9a.10-12): Ao entrar na Terra Prometida, os israelitas celebram a Páscoa e substituem o maná pelos frutos da terra. O fim do maná simboliza a transição de uma dependência passiva para uma gestão ativa dos recursos. Deus confia a eles a terra, mas exige responsabilidade. Hoje, a Ecologia Integral nos chama a reconhecer que a Terra é um empréstimo sagrado. Como afirma o Papa Francisco em Laudato Si’ (LS 67), “cada comunidade pode tomar da bondade da terra aquilo de que necessita para a sua sobrevivência, mas tem também o dever de protegê-la”. A colheita sustentável de Canaã é um modelo para nosso uso consciente dos bens naturais.

    Salmo 33(34): “Provai e vede quão suave é o Senhor!” [Sl 33(34),9]. O salmo celebra a bondade de Deus, experimentada na criação. Se “o Senhor ouve o clamor dos pobres” [Sl 33(34),7], também escuta o grito da Terra, explorada por um sistema que privilegia o lucro sobre a vida. A Ecologia Integral nos convida a “saborear” a natureza não como consumidores, mas como contemplativos, reconhecendo nela um sacramento da presença divina. A gratidão deve traduzir-se em ações que preservem a biodiversidade e garantam justiça socioambiental.

    Segunda Leitura (2 Coríntios 5,17-21): “Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura” (2Cor 5,17). Paulo fala de uma reconciliação que transcende o humano: Cristo veio “reconciliar consigo mesmo tudo o que existe” (Cl 1,20). A “nova criação” inclui a restauração dos ecossistemas. Como embaixadores de Cristo, somos chamados a sanar rupturas: entre humanos e Deus, entre povos e entre a humanidade e a Terra. A Ecologia Integral, como propõe a Laudato Si’ (LS 91), lembra que “tudo está interligado”, exigindo uma conversão que una justiça social e ambiental.

    Evangelho (Lucas 15,1-3.11-32): A parábola do filho pródigo ilustra o drama humano: o jovem esbanja recursos e só reconhece seu erro na escassez. Sua volta à casa paterna é metáfora da conversão ecológica: é preciso frear a exploração desmedida e retornar ao equilíbrio. O pai, que corre ao encontro do filho, reflete a misericórdia divina, ansiosa por restaurar relações. Já o irmão mais velho, que critica a festa, simboliza a resistência à mudança, como aqueles que negam a crise climática. A Quaresma nos convida à festa da reconciliação, incluindo a Terra na celebração.

    Neste tempo de penitência, as leituras nos desafiam a jejuar do consumismo, orar pela criação e agir como embaixadores da reconciliação. A Ecologia Integral não é opção, mas imperativo evangélico. Como o filho pródigo, precisamos dizer: “Pai, pequei contra o céu, contra ti e contra a Terra”. E ouvir, no perdão, um chamado à renovação. Que o quarto domingo da Quaresma nos encontre, como diz o salmo, “procurando a paz e seguindo seu caminho” [Sl 33(34),15], rumo a uma ecologia de comunhão, onde tudo seja cuidado como dom divino.

  • História de Taiobeiras: As missões franciscanas de 1951 (parte 1)

    História de Taiobeiras: As missões franciscanas de 1951 (parte 1)

    Fiel ao meu compromisso como historiador e em celebração aos 90 anos de fundação da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras (20 de maio de 1935), trago nesta matéria mais um recorte da história taiobeirense.

    Com o apoio de Rafael Mattos, responsável pelo Arquivo da Província Franciscana de Santa Cruz, em Belo Horizonte, que gentilmente me concedeu acesso às fontes originais, apresento a seguir a transcrição das páginas 147 a 151 da Revista Santa Cruz, edição de setembro de 1951. Nelas, o cronista Frei Eduardo narra o episódio das Santas Missões realizadas em Taiobeiras – então ainda não emancipada –, iniciadas em 5 de julho de 1951.

    A transcrição respeita integralmente o texto original, preservando sua estilística e realizando apenas ajustes mínimos na pontuação e na grafia de algumas palavras, conforme o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Além disso, inseri informações adicionais entre colchetes para proporcionar maior clareza histórica.

    O relato, no entanto, não está completo, sendo interrompido com um continua entre parênteses. Seguirei com a pesquisa para localizar a sequência e publicá-la posteriormente.

    Vamos ao texto…

    Levon Nascimento, Professor de História, em 29 de março de 2025.

    TAIOBEIRAS

    Jornada Apostólica

    Relatório extraído do diário das santas Missões pregadas na paróquia de Taiobeiras por quatro missionários da nossa Província

    “Para descansar, carapina carrega pedra”. Conforme esta sabedoria popular, emergimos da atmosfera carregada de provas parciais, aulas, horários escolares, etc. para procurar o ar livre das imensas chapadas do Norte de Minas, a fim de levar para Taiobeiras o fogo sagrado do ideal cristão.

    Os big four eram: Frei Erardo, nomeado Padre Mestre, Frei Fabiano como tesoureiro, Frei Alexandre como fotógrafo e Frei Eduardo como cronista…

    Terça-feira, dia 3 de julho de 1951, às 11 horas, decolamos num avião da Nacional do aeródromo da Pampulha, que em 90 minutos nos levou a Montes Claros, percurso que de trem custa 18 horas de viagem. Para dois dos quatro era o primeiro voo e parece que os outros podiam ler do nosso rosto a impressão. Os panoramas nos deram uma boa ideia da vastidão deste belo país. À 1:30 [13h30] em ponto estávamos no campo de aviação de Montes Claros. Chegando ao palácio do Snr. Bispo [Dom Antônio de Morais Júnior], ouvimos que S. Excia. estava em viagem e que devíamos esperar a chegada do Vigário Geral. Uma vez que o Padre Mestre estava amarelo de fome e dor de cabeça, e já passava muito da hora do almoço, dissemos à irmã do Snr. Bispo que íamos procurar um restaurante. O sacristão da catedral nos mostrou um lugar, que parecia um armazém, mas no terreiro havia um caramanchão convidativo e bem arejado. O gerente, homem risonho e poliglota, se esgotava em gentilezas e nomes complicados de pratos desconhecidos. Foi um almoço substancioso e muito bem feito. Na hora de pagar contou-nos, o mesmo gerente, que o Snr. Bispo já pagou. No palácio ninguém sabia disso. Parece-nos que o próprio gerente fez o papel de Bispo. Deus lhe pague a bondade.

    Frei Fabiano, com seu conhecido zelo e espírito prático, nos deu o programa da tarde: primeiro procurar condução e passagens e depois um telegrama ao vigário de Taiobeiras. Após um bom passeio pela cidade e uma visita à catedral, quase terminada, e um bom jantar no palácio do bispo, puxamos as nossas cadeiras para a frente da porta e batemos uma prosa animada até tarde com o Padre Geraldo, um sacerdote brasileiro, que no percurso de sua conversa ainda nos deu sem saber instruções úteis sobre o belo trabalho das missões nestas zonas.

    4 de julho [de 1951] — Apesar do zelo apostólico do Padre Mestre, custou-lhe muitos esforços, atender ao sinal do despertador. Mas graças ao Frei Fabiano saiu tudo às maravilhas. Um de nós celebrou na catedral e os outros na capela particular do Snr. Bispo. Outra vez tivemos sorte. A dona de casa tinha neste tempo preparado um café forte e quando chegamos à agência, esperava-nos uma jardineira Ford, novinha em folha, para levar os 335 quilos (o nosso peso em conjunto) sobre montes e vales, prados e chapadas sem fim. Sentados em amplas poltronas, às vezes correndo com uma velocidade de 100 Km, apreciamos intensamente as belezas destes panoramas desconhecidos ainda para nós. A viagem ganhou um caráter especial graças aos nossos companheiros joviais e um velho, que gostava de brincadeiras, mesmo se ele próprio fosse a vítima. Foi deveras uma viagem agradável. Honra à estrada e ao carro! Certo momento todos saíram para se refrescar num córrego que cruzava a estrada. O nosso fotógrafo entrou pela primeira vez em ação para tirar uma chapa do nosso grupo. Já de seis léguas de distância podíamos ver o entroncamento de Taiobeiras. Ao parar encontramo-nos com a adiposa figura de Frei Jucundiano, que veio buscar-nos de caminhonete e às 4 horas [16h] entramos acompanhados por moleques e curiosos em Taiobeiras.

    5 de julho [de 1951], quinta-feira — É hoje o dia da bonança. Um sol brilhante numa bela manhã acordou os missionários, que puderam ainda dormir à vontade.

    A igreja de Taiobeiras, de linha simplicíssima, sem deixar de ser elegante, era uma impressão pitoresca à ampla praça em que está situada [grifo nosso]. “As obras do novo altar de mármore terminarão amanhã”, disse o vigário-construtor, satisfeito. O altar, de estilo menos simples, com seu jogo de mármore verde e marrom, ornado de pequenas colunas, é uma profissão de fé no Cristo Eucarístico, que achou digna morada no meio dos taiobeirenses.

    Depois do jantar fizemos as preparações para a abertura das santas Missões. O povo tinha-se reunido perto da velha matriz [na Praça Joaquim Teixeira, demolida na década de 1960]. Cantando e sob um fogo mortífero de foguetes e bombinhas andamos lentamente na direção da nova igreja [atual matriz de São Sebastião]. Enquanto progredíamos aumentava a multidão. Nos degraus da igreja foram dadas as boas-vindas aos missionários com um pequeno discurso de uma das professoras e com declamações de algumas crianças. Ofereceram-nos flores, as quais depositamos aos pés de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, padroeira de nosso grupo de missionários e das nossas Missões. Depois de uma palavrinha de agradecimento precipitaram-se todos para dentro da igreja para ouvir o sermão de abertura: “Nunc est temps acceptable” [“Eis agora o momento favorável” (2 Cor. 6,2 em referência a Is. 49,8)].

    Já na primeira noite começamos o nosso trabalho principal e ouvimos 80 confissões.

    É sexta-feira hoje [6 de julho de 1951], primeira sexta-feira do mês, nosso primeiro dia de trabalho missionário. Hoje a experiência nos mostrou que todo começo é difícil e que ninguém nasce missionário. Fomos por razões práticas obrigados a adiar a Missa das crianças para as 8 horas. Nas Missas a frequência era satisfatória, nada mais. Frei Eduardo já começou a tarefa especial dele, a visita aos doentes e velhos e o catecismo. Muitas crianças estavam na aula de catecismo do mesmo, que as levou cantando e brincando para o cruzeiro, onde uma pequena prática fez voltar os pensamentos dos pequeninos para o único necessário.

    A ideia das Missões já começou a fermentar nas massas, porque a frequência do povo aumentou consideravelmente durante os exercícios espirituais da noite, e apesar de ser o primeiro dia tivemos 73 confissões.

    A transferência da Missa das crianças para as 8 horas foi uma solução feliz, pois assim o ambiente nas duas primeiras Missas, das 6 e das 7 horas, tornou-se mais sossegado, de modo que o doutrinador, Frei Fabiano, podia desenvolver o seu assunto com calma.

    Sábado à noite [7 de julho de 1951], a ampla igreja era insuficiente para dar abrigo às turbas que vieram assistir aos exercícios da noite. E Nossa Senhora da Imaculada Conceição fez sentir a sua proteção, levando só esta noite 397 pessoas, a maioria homens, para o confessionário e no outro dia muitos para a mesa da comunhão.

    Esta manhã de domingo [8 de julho de 1951] o espetáculo era consolador para os trabalhadores na vinha do Senhor. A turma estava animada e resolveu cantar a última Missa. Sem livros, mas sob a firme batuta de Frei Fabiano conseguimos chegar sem erros ao fim.

    O catecismo atraía sempre mais crianças, talvez encantadas pela bondosa figura de Frei Eduardo, que logo depois do catecismo levava a turminha barulhenta para fora de Taiobeiras, onde sempre encontrava um lugarzinho para brincar e rezar ou cantar com esses pequeninos.

    Domingo à noite fizemos pela primeira vez os exercícios da Missão ao ar livre. Apesar de todos os obstáculos — púlpito improvisado e falta de luz — fizeram-se ouvir os pregadores Frei Alexandre e Frei Fabiano até os mais remotos recantos da praça.

    Hoje, segunda-feira, dia 9 de julho [de 1951] — As missões estão tomando seu curso normal. De dia em dia aumenta o número das confissões e das comunhões. Frei Eduardo, zeloso para cumprir a incumbência com que foi encarregado, foi hoje visitar os doentes mais afastados, um passeio bom e cansativo pelas subidas e descidas. Graças a Deus, o frio nesta zona tropical impediu que ele precisasse regar o seu percurso apostólico com o suor de costume e voltou às 10 horas, encantado pelas belezas da paisagem das sonolentas chapadas de Taiobeiras.

    A sociedade taiobeirense quer oferecer um almoço aos missionários. Veio como de encomenda, pois teremos hoje a visita do Vigário com seu Coadjutor de Salinas. Vieram alguns homens invadir a nossa casa e no terreno construíram uma coberta, pois esta solenidade devia ser ao ar livre. Quando o almoço já estava esfriando na mesa e nossos estômagos já reclamavam em alta voz (sic) e nem havia ainda sombra dos dignitários de Salinas, foi resolvido o ataque geral da mesa sobrecarregada de produtos que a arte culinária das taiobeirenses soube criar. Parabéns às Martas daqui, que não se esqueceram do uno necessário. O nosso fotógrafo oficial teve depois deste lauto banquete a ideia luminosa de tirar um chapa. Triste espetáculo de uma mesa vazia. De repente, fez-se ouvir o ronco de um motor e com Frei Artur no volante, veio um jeep encostar-se à casa do vigário. Uma alegria já inesperada, que devia ser interrompida, pois o nosso dever nos chamou; as missões não podiam esperar: catecismo, conferência para senhoras casadas, confissões das mesmas para a comunhão geral. Às 3 horas [15h] despediram-se os nossos visitantes e as Missões continuam… Ao concluir os trabalhos de hoje, no quarto iluminado à luz de querosene, somamos o número total das confissões: 649.

    Já iniciaram as conferências especiais e a tarde de terça-feira [10 de julho de 1951] atraiu um bom número de moças à igreja e ainda alguns moços curiosos. Frei Alexandre fez a sua conferência, sem se impressionar pela presença dos olhos masculinos de alguns assistentes clandestinos, mas Frei Fabiano bancou o papão temível, não com palavras, mas com um piscar de olhos soube ele tirar os importunos deste meio…

    Uma vez que o Padre Mestre sofria ameaça de rouquidão, ofereceu-se o tesoureiro do grupo para fazer o sermão da noite sobre a pureza. De coração grato aceitou Frei Erardo a gentil oferta. O número de confissões está querendo passar para a casa dos milhares.

    (continua)

    P.S.: A segunda parte foi acrescentada em 02/04/2025 e pode ser conferida ao se clicar aqui.

    Fonte consultada:

    TAIOBEIRAS: Jornada Apostólica. Revista Santa Cruz, Belo Horizonte, I, 147-151, setembro de 1951.

  • A violência da extrema-direita no Brasil

    A violência da extrema-direita no Brasil

    Nos últimos anos, o Brasil tem visto o crescimento preocupante do extremismo de direita, que usa a violência como ferramenta política e espalha discursos de ódio para conquistar e manter poder.

    Episódios como o assassinato de Marcelo Arruda por um bolsonarista em 2022 e os ataques de 8 de janeiro de 2023 mostram que esse extremismo deixou de ser apenas discurso para se tornar uma ameaça real. Por trás desses eventos, há uma rede que alimenta o medo, espalha desinformação e incentiva a violação dos direitos humanos.

    Esse movimento raivoso não surgiu do nada. Ele é resultado de problemas históricos e estruturais, como a herança autoritária da ditadura militar, a desigualdade social e a sensação de injustiça que leva parte da população a buscar soluções radicais.

    O bolsonarismo é só uma parte desse problema maior, refletindo como alguns grupos canalizam suas frustrações culpando minorias, movimentos sociais e a própria democracia (TELLES, 2023).

    As redes sociais têm um papel central nesse processo, servindo como palco para a propagação de fake news e discursos de ódio, que acabam resultando em ataques contra LGBTQIA+, indígenas e militantes de esquerda (BRASIL DE FATO, 2024).

    O discurso religioso ao pé-da-letra dos textos sagrados, sem exegese, também tem sido usado para fortalecer essa intolerância. Alguns influenciadores da religião ajudam a espalhar mensagens fundamentalistas que incentivam homofobia, misoginia e até feminicídio (OBSERVATÓRIO DO EXTREMISMO RELIGIOSO, 2023).

    A violência política se tornou uma realidade assustadora. O caso de Marcelo Arruda, assassinado por um bolsonarista que gritava o nome do ex-presidente, é um símbolo do perigo dessa radicalização.

    Quando políticos e líderes religiosos defendem frases como “bandido bom é bandido morto” ou “a mulher deve obediência ao homem”, eles estão dando aval para linchamentos e assassinatos, perpetuando um ciclo de violência que muitas vezes fica impune (UNESP, 2023).

    Os ataques de 8 de janeiro de 2023, com a invasão do Congresso e do STF, mostram que esses grupos não respeitam a democracia. Para eles, o sistema democrático é um obstáculo a ser destruído pela força. O discurso de “lei e ordem” que defendem, na prática, só protege os mais privilegiados enquanto comunidades marginalizadas sofrem com violência policial e criminalização de movimentos sociais.

    A mídia e outras instituições também têm sua parcela de responsabilidade. Durante muito tempo, o extremismo de direita foi tratado como “opinião polêmica”, em vez de ser denunciado como uma ameaça real. Quando Bolsonaro exaltava torturadores ou espalhava desinformação sobre vacinas, parte da imprensa minimizava essas falas como “exageros”, contribuindo para a normalização do ódio (BBC, 2022). Enquanto isso, empresários financiavam acampamentos golpistas, igrejas espalhavam teorias da conspiração e setores da polícia agiam com viés político, aprofundando a crise.

    Para mudar esse cenário, é preciso agir em várias frentes. Primeiro, responsabilizar os financiadores e organizadores da violência, indo além dos executores diretos para investigar os mandantes. Segundo, investir na educação: as escolas devem ensinar sobre direitos humanos, combater o racismo e capacitar os jovens a identificar fake news. Por fim, o combate ao extremismo deve envolver toda a sociedade, não só a esquerda e os movimentos sociais, mas também líderes religiosos, artistas e políticos moderados.

    Ignorar o extremismo é um risco grave. Se não enfrentarmos essa realidade agora, mais vidas serão perdidas e nossa democracia ficará ainda mais fragilizada. O assassinato de Marcelo Arruda é um lembrete doloroso de que o ódio político pode matar. A resposta deve ser a união e a coragem para construir um Brasil onde todos possam viver com dignidade, respeito e segurança.


    Referências

    BRASIL DE FATO. Como vivem os monstros: um panorama da extrema direita. Brasil de Fato, 26 jan. 2024. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2024/01/26/como-vivem-os-monstros-um-panorama-da-extrema-direita/. Acesso em: 28 mar. 2025.

    BBC NEWS BRASIL. Como discursos de ódio e ataques a instituições foram minimizados antes das eleições de 2022. BBC, 2022. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c8xp9l4qxxjo. Acesso em: 28 mar. 2025.

    FUNDAÇÃO HEINRICH BÖLL. Bolsonarismo e extrema direita no Brasil: uma reflexão sobre origens e destinos. Boletim Brasil, 18 jul. 2023. Disponível em: https://br.boell.org/pt-br/2023/07/18/bolsonarismo-e-extrema-direita-no-brasil-uma-reflexao-sobre-origens-e-destinos. Acesso em: 28 mar. 2025.

    INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS (IHU). “Há uma demanda no Brasil por extremismos de direita que é maior que o bolsonarismo”. Entrevista especial com Pedro Telles. IHU, 2023. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/159-entrevistas/645918-ha-uma-demanda-no-brasil-por-extremismos-de-direita-que-e-maior-que-o-bolsonarismo-entrevista-especial-com-pedro-telles. Acesso em: 28 mar. 2025.

    OBSERVATÓRIO DO EXTREMISMO RELIGIOSO. Discurso e Violência: a Face do Extremismo Religioso no Brasil. Observatório do Extremismo Religioso, 2023. Disponível em: http://www.observatorioextremismoreligioso.org/2023/discurso-e-violencia. Acesso em: 28 mar. 2025.

  • O que é ecofascismo?

    O que é ecofascismo?

    O ecofascismo é uma ideologia que instrumentaliza as crises ambiental e climática para promover agendas autoritárias, xenófobas e excludentes. Sob o pretexto de “proteger a natureza”, ele associa preocupações ambientais legítimas, como a preservação de biomas ou a redução de emissões, a ideias de supremacia racial, nacionalismo extremado e controle populacional. Essa distorção não apenas desvia o foco das verdadeiras causas da degradação ambiental, mas também reforça desigualdades históricas e violências estruturais.

    A vinculação entre proteção ambiental e pureza racial remonta ao regime nazista. Em 1935, a Alemanha aprovou a Lei de Proteção à Natureza, que associava a conservação de florestas à eugenia, como se a “saúde da terra” dependesse da “purificação racial” (BIEHL; STAUDENMAIER, 1995). Essa lógica ecoa em movimentos contemporâneos. Como aponta o pesquisador Douglas Garcia (JORNAL USP, 2022), o ecofascismo atualiza o mito do “sangue e solo”, vinculando identidade nacional à posse exclusiva de territórios, enquanto estigmatiza migrantes e povos tradicionais.

    Na Europa, partidos de extrema-direita como o Alternative für Deutschland (AfD), na Alemanha, e o Rassemblement National, na França, propagam narrativas que culpam imigrantes pela “escassez de recursos” ou “superpopulação” (DEUTSCHE WELLE, 2019; LE MONDE, 2020). Francesca Santolini (IHU UNISINOS, 2021) alerta que esse discurso mascara uma estratégia para ganhar apoio eleitoral entre jovens preocupados com o clima, ao mesmo tempo em que ignora o papel das corporações transnacionais, responsáveis por 71% das emissões globais desde 1988 (OXFAM, 2020).

    O ecofascismo promove uma visão distorcida de que “todos são igualmente culpados” pela crise ambiental. No entanto, os 10% mais ricos do planeta emitem 52% do CO₂ global, enquanto os 50% mais pobres geram apenas 7% (OXFAM, 2020). Campanhas como a da “pegada de carbono individual”, muitas vezes apoiadas por grandes empresas, transferem a responsabilidade para o cidadão comum, enquanto bilionários e indústrias poluidoras seguem impunes.

    Como destaca o Papa Francisco na encíclica Laudato Si’ (2015), “não há duas crises separadas, uma ambiental e outra social, mas uma única e complexa crise socioambiental” (n. 139). Essa conexão é visível no Brasil: comunidades indígenas e quilombolas, que preservam 80% das florestas remanescentes (IPAM, 2021), enfrentam invasões de grileiros e mineradoras financiadas por conglomerados internacionais. Para o sociólogo Boaventura de Sousa Santos (2020), a crise ambiental é um “apartheid”: os pobres sofrem as consequências, mas não são os causadores.

    A retórica ecofascista frequentemente defende medidas como controle migratório radical, esterilização forçada e até genocídio como “soluções” para a crise climática. No documento Ecofascismo: uma crítica marxista (NIEP MARX, 2021), os autores destacam que essa ideologia naturaliza a ideia de que certos grupos são “dispensáveis” para o “equilíbrio ecológico”, reforçando práticas necropolíticas.

    Na Índia, o governo expulsou tribos ancestrais de suas terras sob o argumento de “proteção florestal”, beneficiando corporações de mineração (THE GUARDIAN, 2022). Na Europa, políticas de austeridade são vendidas como “sacrifícios verdes”, cortando direitos trabalhistas em nome da sustentabilidade. Essas medidas, como observa Santolini (IHU UNISINOS, 2021), aprofundam o racismo ambiental: quem menos polui é punido, enquanto os responsáveis seguem lucrando.

    Combater o ecofascismo exige denunciar sua falsa dicotomia entre “proteger a natureza ou as pessoas”. É possível enfrentar a crise climática sem sacrificar direitos humanos. Movimentos como o dos geraizeiros ou das vítimas dos crimes da Samarco (Mariana, 2015) e da Vale (Brumadinho, 2019) evidenciam a força do ambientalismo de base, que une lutas por reparação, soberania popular e justiça socioambiental.

    Amplificar vozes indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais é essencial. Como lembra o relatório do IPAM (2021), esses grupos são guardiões de saberes ancestrais que harmonizam preservação e subsistência. Na contramão do ecofascismo, iniciativas como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) defendem que “não há ecologia sem demarcação de terras”.

    As crises ambiental e climática não se resolvem com nacionalismo ou exclusão, mas com cooperação global e redistribuição de riqueza. Proteger a Terra significa proteger quem a defende: povos originários, trabalhadores rurais e periferias urbanas. Como afirma Garcia (JORNAL USP, 2022), o ecofascismo é uma armadilha: sob o discurso de “salvar o planeta”, esconde o projeto de eliminar os indesejados. A verdadeira ecologia é antirracista, anticapitalista e feita de muitos mundos, não de muros.

    Este texto é a síntese do artigo ECOFASCISMO: A CONVERGÊNCIA INSUSTENTÁVEL ENTRE AUTORITARISMO E SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL, escrito para a disciplina de “Direito, Economia e Ambiente”, ministrada pelo Prof. Dr. Lyssandro Norton Siqueira, no Doutorado em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável da Escola Superior Dom Helder Câmara.

    Fontes consultadas

    BIEHL, Janet; STAUDENMAIER, Peter. Ecofascism Revisited. [S.l.]: [s.n.], 1995.

    DEUTSCHE WELLE. AfD politician links climate change to migration. Bonn: Deutsche Welle, 2019. Disponível em: https://www.dw.com/en/afd-politician-links-climate-change-to-migration/a-50414619. Acesso em: 27 mar. 2025.

    FRANCISCO (Papa). Laudato Si’. Brasília: Edições CNBB, 2015. Disponível em: http://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html. Acesso em: 27 mar. 2025.

    GARCIA, Douglas. Pensamento ecofascista convive com noções eugenistas e um nacionalismo extremado. Jornal da USP, 2022. Disponível em: https://jornal.usp.br/radio-usp/pensamento-ecofascista-convive-com-nocoes-eugenistas-e-um-nacionalismo-extremado/. Acesso em: 27 mar. 2025.

    IPAM. Terras indígenas e quilombolas são as que mais preservam florestas. Brasília: IPAM, 2021. Disponível em: https://ipam.org.br/. Acesso em: 27 mar. 2025.

    LE MONDE. Le Rassemblement National et l’écologie. Paris: Le Monde, 2020. Disponível em: https://www.lemonde.fr/idees/article/2020/02/07/le-rassemblement-national-et-l-ecologie_6028565_3232.html. Acesso em: 27 mar. 2025.

    NIEP MARX. Ecofascismo: uma crítica marxista. In: Anais do Marxismo Memorial, 2021. Disponível em: https://www.niepmarx.blog.br/MM/MM2021/AnaisMM2021/MC10_1.pdf. Acesso em: 27 mar. 2025.

    OXFAM. Confronting Carbon Inequality. Oxford: OXFAM, 2020. Disponível em: https://www.oxfam.org/en/research/confronting-carbon-inequality. Acesso em: 27 mar. 2025.

    SANTOLINI, Francesca. Também a extrema-direita ama o meio ambiente: assim nasce e se desenvolve o ecofascismo. IHU Unisinos, 2021. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/638715-tambem-a-extrema-direita-ama-o-meio-ambiente-assim-nasce-e-se-desenvolve-o-ecofascismo-artigo-de-francesca-santolini. Acesso em: 27 mar. 2025.

    SANTOS, Boaventura de Sousa. A cruel pedagogia do vírus. São Paulo: Boitempo Editorial, 2020.

    THE GUARDIAN. India’s forest rights act. Londres: The Guardian, 2022. Disponível em: https://www.theguardian.com/global-development/2022/mar/15/india-forest-rights-act. Acesso em: 27 mar. 2025.

  • Escola, Democracia e Igualdade: Os riscos do homeschooling para o futuro do Brasil

    Escola, Democracia e Igualdade: Os riscos do homeschooling para o futuro do Brasil

    A Constituição de 1988 garante que a educação é um direito de todos e um dever do Estado e da família, ajudando no desenvolvimento integral das pessoas e preparando-as para a vida em sociedade e para o trabalho. Nesse cenário, o homeschooling – ou ensino em casa – é apresentado como uma “liberdade educacional”. Mas, por trás dessa ideia, existem riscos sérios para a socialização das crianças, a sua proteção e até para o funcionamento do nosso Estado Democrático de Direito.

    A nossa Constituição fala sobre a importância de uma educação que envolva toda a sociedade, mostrando que a escola é um espaço coletivo e plural. Em 2018, o Supremo Tribunal Federal (STF) deixou claro que o ensino domiciliar não é um direito garantido automaticamente, e que o Congresso precisa regulamentar essa prática – algo que ainda não aconteceu. Enquanto isso, as famílias que optam por esse modelo podem até ser acusadas de “abandono intelectual”, já que a lei atual exige que as crianças estejam matriculadas em uma escola reconhecida.

    Especialistas apontam que, sem regras definidas, fica mais fácil que conteúdos inadequados sejam ensinados em casa – seja a negação de fatos científicos ou doutrinação religiosa – o que contraria a ideia de um Estado laico. Mesmo quando se cita a Declaração Universal dos Direitos Humanos para defender o homeschooling, isso não tira a responsabilidade do Estado de garantir uma educação com padrões universais.

    Vários educadores e organizações, como o Movimento Todos pela Educação, defendem que a escola é um espaço único onde as crianças entram em contato com diferentes pessoas, culturas e ideias. Tirar esse ambiente do cotidiano dos pequenos pode aumentar o risco de isolamento, dificultar a identificação de situações de violência doméstica – que muitas vezes passam despercebidas – e limitar o desenvolvimento do senso crítico.

    Durante a pandemia, por exemplo, o aumento das denúncias de abuso contra crianças mostrou que nem sempre a casa é um lugar seguro. Além disso, professores e especialistas apontam que o homeschooling pode aprofundar as desigualdades, já que ele demanda recursos financeiros e culturais que muitas famílias, especialmente em um país onde uma grande parte das crianças vive na pobreza, não possui.

    Há também a questão de que o ensino domiciliar muitas vezes sugere que “qualquer pessoa com ensino superior” possa ensinar, ignorando a complexidade e a importância do papel dos professores. Esses profissionais não apenas transmitem conhecimento, mas também ajudam a resolver conflitos, incluem alunos com necessidades especiais e estimulam o pensamento crítico.

    Sem uma grade curricular bem definida, o ensino em casa pode acabar fragmentando o conhecimento, privilegiando visões pessoais e limitadas. Em alguns casos nos Estados Unidos, por exemplo, já foram registrados episódios em que determinados temas – como a evolução biológica ou aspectos importantes da história – foram omitidos, o que representa um retrocesso, especialmente num país que ainda luta contra discursos anticientíficos.

    Outro ponto crucial a ser considerado é que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) estabelece as competências e habilidades essenciais para todos os estudantes brasileiros. Essa padronização, que visa garantir um ensino de qualidade e equitativo, só pode ser assegurada por meio do ambiente escolar, onde há uma estrutura formal de ensino, fiscalização e suporte pedagógico. No contexto do homeschooling, a descentralização e a ausência de regulação efetiva colocam em risco o cumprimento integral dos requisitos da BNCC, podendo comprometer a formação crítica dos alunos e sua preparação para os desafios contemporâneos.

    Muitas vezes, o homeschooling está ligado a grupos religiosos que preferem uma educação alinhada com suas crenças e que não abre espaço para a diversidade de ideias. O próprio STF já alertou que o Estado não pode se sujeitar a projetos que impõem visões religiosas na educação. Quando os pais escolhem ensinar os filhos de acordo com suas crenças, sem a presença de outras perspectivas, eles correm o risco de ferir o princípio da neutralidade do Estado e, por consequência, comprometer a educação pública.

    O ensino domiciliar não resolve os problemas que enfrentamos na educação brasileira. Pelo contrário, ele pode aumentar as desigualdades e os riscos para as crianças. É fundamental que as crianças tenham a oportunidade de crescer e aprender em um ambiente onde possam interagir com diferentes pessoas e ideias, de forma estruturada e alinhada com a BNCC. Investir na escola pública, melhorar a formação dos professores e combater a evasão escolar são medidas essenciais para garantir que a educação continue sendo um direito de todos – um pilar da nossa democracia e do nosso futuro coletivo.

  • Análise: Por que Bolsonaro é réu e deve ser preso?

    Análise: Por que Bolsonaro é réu e deve ser preso?

    A decisão unânime do Supremo Tribunal Federal (STF) de tornar Jair Bolsonaro réu por tentativa de golpe de Estado, organização criminosa e atentado à democracia não é um capricho político. Trata-se do resultado de uma investigação com provas sólidas, que revelam um plano estruturado para desestabilizar as instituições. O ex-presidente não apenas levantou dúvidas sobre as urnas eletrônicas, mas também incentivou e coordenou ações para alimentar insurreições e dificultar a transição de poder após sua derrota em 2022.

    Os documentos analisados pelo STF e pela Procuradoria-Geral da República (PGR) mostram que Bolsonaro e aliados promoveram reuniões com militares para espalhar a falsa narrativa de fraude eleitoral, sem apresentar qualquer evidência. O ministro Alexandre de Moraes, ao aceitar a denúncia, foi direto: havia uma “intenção explícita de golpe”. Isso incluiu um “decreto ilegal” para interferir no processo eleitoral e a mobilização de grupos radicais, culminando nos ataques de 8 de janeiro de 2023.

    A CPMI dos Atos Golpistas reforçou essa tese, apontando que o objetivo era criar um clima de caos para justificar uma intervenção militar. Como explicou o jurista Carlos Ari Sundfeld ao ICL Notícias, “as provas são contundentes: há registros de reuniões, mensagens e documentos que comprovam a coordenação entre o núcleo bolsonarista e grupos que vandalizaram as sedes dos Três Poderes”.

    A Primeira Turma do STF, composta por ministros de diferentes perfis ideológicos, tomou uma decisão unânime, o que mostra a força do caso. Em seu voto, a ministra Cármen Lúcia ressaltou que “a democracia não se negocia: ou se defende ou se perde”. Já Flávio Dino, ao apoiar a denúncia, lembrou que “golpe de Estado mata”, alertando para os riscos da violência política.

    A unanimidade também desmonta a tese de “perseguição”. Como destacou a CartaCapital, Bolsonaro passou de “incentivador de golpistas a réu” em 838 dias, um percurso traçado por suas próprias escolhas. Até mesmo antigos aliados, segundo o Brasil 247, admitiram em delações que a intenção era “criar condições para uma ruptura”.

    Curiosamente, algumas defesas dos acusados já não negam a existência de um plano golpista. Advogados citados pelo Brasil 247 reconhecem que “houve articulação, mas não consumação”, tentando minimizar as penas. Esse argumento, no entanto, só reforça a tese da acusação: a tentativa de golpe já configura crime.

    Lá fora, a repercussão tem sido intensa. Bolsonaro buscava apoio de figuras como Donald Trump, mas acabou constrangido. Em artigo no UOL, Leonardo Sakamoto lembrou que Trump “constrangeu Bolsonaro ao validar as urnas que ele tanto atacou”, esvaziando o principal argumento da suposta fraude.

    A questão agora não é apenas jurídica, mas também ética e política. Se a Justiça reconhece que um ex-presidente atentou contra a democracia, permitir sua impunidade abriria um precedente perigoso. Como alertou o ministro Alexandre de Moraes, “a organização criminosa não se dissolve sozinha”. A prisão de Bolsonaro não seria uma vingança, mas uma forma de garantir que novos ataques à ordem constitucional não se repitam.

    Além disso, a sociedade brasileira, que viu tanques nas ruas e discursos inflamados, precisa acreditar que a lei se aplica a todos. Como escreveu Reinaldo Azevedo no UOL, “Bolsonaro encontrou o destino que escolheu”. Se a democracia deve ser protegida, isso inclui consequências para quem tentou destruí-la.

    Num país com um passado marcado por autoritarismo, prender um ex-presidente golpista não é apenas uma questão de justiça, mas um sinal claro de que o Brasil não aceita mais aventuras contra a Constituição. O STF, ao menos desta vez, parece disposto a deixar esse recado na história.

  • Quem cuida de Francisco não dorme

    Quem cuida de Francisco não dorme

    A escalada do extremismo de direita entre católicos, em objetiva contradição com Jesus e o Evangelho, e também com o Concílio Vaticano II, a Doutrina Social da Igreja e o pontificado de Francisco, é uma chaga dolorosa no corpo místico de Cristo.

    Preferem seguir ídolos autodenomidados “influencers” em vez dos planos pastorais tão teologicamente bem engendrados pela colegialidade da Igreja.

    Cegam-se para a palavra e os exemplos de coragem e profetismo do Papa Francisco, negando-lhe até mesmo a caridade da oração pela cura na internação recente.

    Outros, avançam no mar das trevas, enquanto oram o rosário sem meditar nas palavras de Maria no Magnificat (Lucas 1,46-55). Com desassombro, chegam a desejar a morte do vigário de Cristo na Terra.

    Perseguem ao Padre Júlio Lancellotti, que acode o povo em situação de rua de São Paulo; difamam ao Frei Lorrane, que testemunha Francisco de Assis na prática pelas ruas de Salvador; renegam ao Frei Sérgio Görgen, que ensina teologia nos fazeres da lida diária; e tentam apagar a memória do martírio de Irmã Dorothy Stang.

    Estão doentes de ódio. Trocaram o verdadeiro Messias por aquele outro, de pés de barro.

    O que me anima, como disse um amigo que nem católico é, ao comentar minha postagem de felicidade no dia em que o papa recebeu alta hospitalar, é que “para tristeza de muitos, quem cuida da vida de Francisco não dorme nunca”.

    “Coragem, eu venci o mundo” (João 16,33b) – disse-nos Jesus.

  • História: o 1º Concílio Paroquial de Taiobeiras

    História: o 1º Concílio Paroquial de Taiobeiras

    Em 2025, celebramos os 90 anos de fundação da Paróquia São Sebastião de Taiobeiras, um marco significativo na história da Igreja Católica no Norte de Minas Gerais. Dentro dessa trajetória, um dos momentos mais relevantes foi o 1º Concílio Paroquial de Taiobeiras, realizado entre os dias 30 de novembro e 2 de dezembro de 2007. Essa grande assembleia foi fruto de um extenso processo de discernimento que envolveu todas as comunidades eclesiais ao longo daquele ano. O evento aconteceu em um momento de transição importante, com a saída da Ordem dos Frades Menores (franciscanos), após 72 anos de presença, e a chegada dos sacerdotes diocesanos da Arquidiocese de Montes Claros à administração da paróquia.

    O 1º Concílio Paroquial de Taiobeiras, até hoje o único realizado, teve um papel inovador ao produzir um documento pastoral abrangente, que consolidou uma avaliação profunda da realidade local e estabeleceu diretrizes e compromissos pastorais fundamentais para a caminhada da paróquia. Na época, eu integrei a equipe de coordenação e, no atual momento celebrativo e jubilar, entrego esta síntese daquele documento, que foi estruturado em duas grandes partes:

    1. Caracterização da Paróquia e Desafios Sociais:

    • A Paróquia São Sebastião abrange 35 comunidades rurais e seis comunidades urbanas, todas organizadas em núcleos para facilitar a ação pastoral.
    • Foi destacada a importância do compromisso dos leigos e leigas em diversos serviços e ministérios da Igreja, reforçando a unidade eclesial.
    • A Igreja em Taiobeiras também se posicionou sobre desafios sociais, como a pobreza, a prostituição infantil e a necessidade de maior participação dos fiéis na vida política com base nos valores do Evangelho.
    • Incentivou-se a valorização da educação como instrumento de transformação social, recomendando-se a criação de uma Pastoral da Educação.

    2. Diretrizes Pastorais e Evangelizadoras:

    • A catequese foi apontada como um pilar essencial da formação cristã, destacando-se a necessidade de torná-la mais dinâmica e ligada à realidade dos fiéis.
    • A juventude recebeu atenção especial, com o reconhecimento de que era preciso uma abordagem mais atrativa para os jovens, utilizando linguagem acessível e promovendo eventos voltados para essa faixa etária.
    • A Pastoral Familiar foi fortalecida para acolher realidades como casais em segunda união e mães chefes de família, promovendo um trabalho pastoral mais inclusivo.
    • Houve também a reafirmação do compromisso com os mais pobres, reforçando a “opção preferencial pelos pobres” e buscando ações concretas para melhorar a qualidade de vida da população local.
    • A gestão financeira da paróquia foi discutida, enfatizando a importância do dízimo para a sustentabilidade das ações pastorais.
    • A liturgia foi avaliada e houve um apelo para maior zelo na preparação das celebrações, garantindo que fossem momentos vivos de encontro com Deus.

    Ao final do Concílio, foram elencadas prioridades para o biênio 2008-2009, incluindo o fortalecimento da Pastoral da Juventude, a reestruturação da Pastoral Familiar, o retorno das Irmãs da Divina Providência e a criação da Paróquia de Santo Antônio de Taiobeiras.

    O 1º Concílio Paroquial de Taiobeiras foi um marco na história da paróquia, consolidando diretrizes que continuam inspirando a caminhada pastoral até os dias de hoje. A celebração dos 90 anos da Paróquia São Sebastião é uma oportunidade para recordar esse momento histórico e reafirmar o compromisso com uma Igreja mais unida, evangelizadora e presente na vida da comunidade. Que o espírito de comunhão e missão, fortalecido naquele Concílio, continue guiando os passos da Igreja em Taiobeiras nos anos vindouros.

  • Célia Egídio

    Célia Egídio

    Alguns poderiam, em tom de desaprovação, chamá-la de “irreverente”. No entanto, não me agrada esse adjetivo, cujo antônimo implicaria prestar reverência, curvar-se em rapapés e riquififes, entregar-se a veleidades e puxassaquismos ou sucumbir à subserviência e à submissão. Mas, seria Célia Egídio reverente? É justamente em se opor a essa mediocridade que reside o seu valor.

    Célia Egídio, a educadora de Rio Pardo de Minas, vai muito além da irreverência; ela é inteligente, dotada de uma inteligência orgânica. É inconformada com a pasmaceira, a mesmice e o pensamento tacanho — um verdadeiro orgulho para qualquer sociedade que deseje transcender a hipocrisia.

    Ela preenche a lacuna que se nota no sertão, onde a crítica cultural se faz ausente, ao se fazer presente para apontar as contradições dos costumes conservadores. É a voz solitária que orienta o caminho para os anseios de uma vida mais legítima.

    Inconformada, ela sente, tanto no corpo quanto no espírito, as dores de não se encaixar na pequenez do conformismo. Está à frente de seu tempo, definindo os critérios de justiça em uma época marcada por contínuas injustiças, e sinaliza os ponteiros de uma nova era de empoderamento dos historicamente marginalizados, em meio a um ambiente que insiste em regredir para um patriarcado sufocante.

    Célia Egídio é gigante! Merece um respeito que os tempos atuais ainda não conseguiram delinear; seu valor é atemporal, pois o tempo, por si só, não pode medir a sua existência.

    Ao contrário de seus detratores, que agem com ruindade e inveja, o que ela possui de mais marcante é acuidade — uma notável capacidade de percepção, finura e sutileza, que intimida aqueles que se opõem a ela.

    Cuide-se, amiga Célia Egídio. Você é grandiosa e essencial demais para a boa luta! Estamos com você.

  • Sarça e Figueira: sinais de uma conversão que renova o coração e a Terra (3° Dom/Quaresma 2025)

    Sarça e Figueira: sinais de uma conversão que renova o coração e a Terra (3° Dom/Quaresma 2025)

    A Quaresma deste ano é um convite para redescobrirmos a mão de Deus agindo na natureza. Não se trata apenas de um momento de oração, mas de um chamado para vivermos uma fé que abraça não só o espírito, mas também o chão que pisamos, o ar que respiramos e todas as formas de vida que nos rodeiam. A Campanha da Fraternidade 2025, com seu tema Ecologia Integral, chega como um lembrete urgente: como estamos cuidando da nossa Casa Comum?

    Vamos mergulhar nas leituras do Terceiro Domingo da Quaresma (23/03/2025) para encontrar respostas que unem céu e terra.

    Na passagem da sarça ardente (Êxodo 3,1-8.13-15), Moisés se surpreende com um mistério divino que arde no meio do deserto. A sarça não é consumida pelo fogo, revelando um Deus que está presente na vida que persiste, mesmo em meio à aridez. Não é bonito pensar que o Criador escolheu uma planta para revelar seu nome? Isso nos desafia: será que hoje reconhecemos Sua voz nos rios, nas florestas e até nas pequenas ações de cuidado com a criação?

    Já São Paulo, em 1 Coríntios 10,1-6.10-12, nos alerta com a força de quem conhece as fraquezas humanas. Ele lembra que uma fé desconectada da prática vira algo vazio, como água que escorre sem nutrir a terra. Quantas vezes caímos na armadilha de rezar sem agir, de criticar sem cuidar, de consumir sem pensar nas consequências? O apóstolo nos sacode: não basta crer; é preciso transformar.

    O Evangelho de Lucas 13,1-9 traz a parábola da figueira estéril. Imagine a cena: uma árvore que não dá frutos está prestes a ser cortada, mas ganha uma última chance. O agricultor pede tempo para cavar a terra, adubá-la, dar-lhe atenção. Essa é a paciência de Deus conosco! Ele não desiste de nós, mas nos chama a dar frutos de justiça e cuidado. A pergunta é: o que estamos fazendo com o “tempo extra” que recebemos para mudar nossos hábitos, reduzir desperdícios ou defender os mais vulneráveis?

    Quando unimos essas lições bíblicas aos ensinamentos da Doutrina Social da Igreja e da encíclica Laudato Si’, vemos que a Ecologia Integral não é só um conceito, mas um estilo de vida. O Papa Francisco nos lembra que “tudo está interligado”. Não há amor a Deus sem respeito à Sua criação, nem justiça social sem equilíbrio ambiental.

    Que tal começar hoje? Pequenos gestos contam: evitar o plástico descartável, apoiar projetos comunitários, ou simplesmente contemplar um pôr do sol com gratidão. A conversão ecológica não é um peso, mas um caminho de esperança — porque, assim como a sarça ardente e a figueira renovada, nós também podemos ser sinais de que um mundo mais fraterno e verde é possível.

    E você? Qual “terra seca” em sua vida precisa ser adubada para florescer? 🌱

  • Estado e Sociedade: os limites do iluminismo diante da crise climática

    Estado e Sociedade: os limites do iluminismo diante da crise climática

    Vivemos tempos em que a sensação de desconforto e insegurança, tão bem descrita por Freud, parece se espalhar pelas nossas instituições e pela sociedade. Hoje, nos perguntamos: serão os modelos políticos e jurídicos, forjados nos ideais do Iluminismo e do liberalismo clássico, capazes de enfrentar desafios tão enormes como as mudanças climáticas? Para responder, precisamos olhar criticamente para as estruturas que moldaram o mundo moderno e questionar se elas estão preparadas para transformar-se diante dessa crise global.

    O Estado moderno surgiu no século XVIII, fundamentado em ideias iluministas como a racionalidade, os direitos individuais e o contrato social. Para John Locke, por exemplo, a propriedade privada era um direito natural, e o papel do Estado era justamente protegê-la. Já Jean-Jacques Rousseau defendia a ideia de soberania popular, mas sempre em uma escala mais próxima e local. Como aponta o historiador Dipesh Chakrabarty, “a crise climática força a humanidade a pensar como espécie, não como indivíduos ou nações” (The Climate of History in the Anthropocene, 2009). Essa ênfase no indivíduo e na soberania nacional, base do liberalismo, acaba colidindo com a necessidade urgente de ações coletivas para, por exemplo, reduzir emissões de carbono e proteger áreas naturais que ultrapassam fronteiras.

    O modelo de acumulação capitalista, tão central ao projeto liberal, tem contribuído para agravar a crise ambiental. Naomi Klein defende que “o sistema econômico baseado em extração ilimitada e crescimento perpétuo é incompatível com a sustentabilidade ecológica” (This Changes Everything, 2014). Relatórios do IPCC (2022) mostram que, mesmo para manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C, precisamos de reduções drásticas nas emissões, algo que vai de encontro à lógica de mercados desregulados. Enquanto muitos Estados continuam priorizando o crescimento do PIB em detrimento dos ecossistemas, Kate Raworth propõe a ideia da “economia donut” como uma alternativa para repensar o progresso (Doughnut Economics, 2017).

    A democracia representativa, uma herança valiosa do Iluminismo, enfrenta grandes desafios diante da complexidade dos problemas ambientais. Colin Crouch, em Post-Democracy (2004), observa como os interesses corporativos conseguem, muitas vezes, dominar as decisões governamentais, reduzindo a participação popular. Nos EUA, por exemplo, a influência da indústria de combustíveis fósseis tem sido apontada como um fator que bloqueia políticas climáticas mais ambiciosas (Harvard Kennedy School, 2020). Além disso, a ativista Vanessa Nakate ressalta que “as vozes mais afetadas pelas mudanças climáticas — comunidades periféricas e países pobres — são as menos ouvidas nas conferências globais” (A Bigger Picture, 2021).

    O direito internacional, estruturado em torno dos Estados-nações, luta para encontrar formas eficazes de lidar com problemas que ultrapassam fronteiras. David Boyd, relator da ONU para Direitos Humanos e Meio Ambiente, afirma que “reconhecer o direito a um ambiente saudável é um primeiro passo, mas é insuficiente sem mecanismos coercitivos” (2021). Embora iniciativas pontuais, como a inclusão dos direitos da natureza na Constituição do Equador (2008) e a sentença STC4360-2018 da Corte Suprema da Colômbia, que reforça a proteção ambiental, sejam importantes, elas ainda são exceções em um cenário mais amplo.

    Repensar o modelo liberal, para muitos, passa por reavaliar a relação entre seres humanos e natureza. O jurista Jedediah Purdy propõe que é necessário “repensar a relação entre humanos e natureza no direito constitucional” (After Nature, 2015). Ao mesmo tempo, propostas como o Green New Deal, tanto nos EUA quanto na UE, buscam unir justiça social e ambiental. Movimentos como o Buen Vivir na América Latina também oferecem visões alternativas, que se distanciam do capitalismo tradicional. Ulrich Beck, em Sociedade de Risco (1986), já alertava para a necessidade de uma “política cosmopolita” que vá além das fronteiras nacionais diante dos riscos ambientais.

    A encíclica Laudato Si’ (2015), do Papa Francisco, nos convida a ver a Terra como nossa casa comum, um lar compartilhado que exige cuidado, respeito e solidariedade. Essa perspectiva reforça a ideia de que os problemas ambientais não são apenas questões técnicas ou econômicas, mas também éticas e espirituais. Ao enxergar a Terra como Casa Comum, somos chamados a repensar nosso modo de viver, a reconhecer a interconexão entre todas as formas de vida e a assumir a responsabilidade de proteger nosso planeta para as futuras gerações.

    O mal-estar que sentimos nas instituições não é acidental. Ele reflete a persistência de modelos que valorizam o indivíduo em detrimento do coletivo, o crescimento econômico em vez da sustentabilidade e a soberania nacional em vez de uma responsabilidade compartilhada com o planeta. Como Bruno Latour coloca, “precisamos de novas instituições para habitar a Terra” (Down to Earth, 2018). Isso não significa rejeitar os ideais do Iluminismo, mas sim superar seu antropocentrismo e nacionalismo. Enfrentar a crise climática exige um novo contrato social que reconheça a profunda interdependência entre humanos e ecossistemas, uma ideia que ressoa com o chamado de ver a Terra como nossa Casa Comum. Caso contrário, continuaremos presos a estruturas que, infelizmente, se mostram incapazes de evitar o desastre iminente.

  • Fiasco do ato pela anistia aos terroristas do 8 de janeiro

    Fiasco do ato pela anistia aos terroristas do 8 de janeiro

    Até a tentativa de inflar os números revelou desespero. O UOL citou que PMs teriam sido orientados a “aumentar artificialmente” a presença, evitando “frustrar” a expectativa de força. Já o ICL Notícias lembrou que o governo federal, hoje sob outras lideranças, ignora as pautas bolsonaristas. A manipulação de imagens e a insistência em narrativas conspiratórias só ampliam o descrédito.Os atos de 2025 comprovam que Bolsonaro deixou de ser um ator central na política nacional. Sem apoio popular maciço, sem respaldo institucional e com uma agenda que não dialoga com urgências sociais, seu projeto reduz-se a um eco do passado. Resta saber se ele aceitará esse lugar marginal ou seguirá alimentando crises que, cada vez mais, só interessam a uma minoria.

    Os recentes atos públicos convocados por Jair Bolsonaro, em São Paulo e no Rio de Janeiro, confirmaram uma crise de apoio que vai além da queda nas ruas. Com público estimado em 3 mil pessoas na Avenida Paulista e metade do comparecimento de 2024 no Rio, os eventos foram definidos como “fiasco” por veículos como Brasil 247 e Cartacapital. O objetivo de pressionar por uma anistia a processos contra o ex-presidente fracassou, evidenciando a perda de relevância de sua narrativa.

    A deserção do Centrão explica parte do colapso. Como aponta o ICL Notícias, lideranças dessa base evitaram aderir ao projeto de anistia, temendo associar-se a um “projeto derrotado”. Sem o respaldo de partidos-chave, Bolsonaro ficou isolado. “Não existe frente ampla pela anistia”, resumiu o UOL, destacando que até aliados históricos preferiram distância. A estratégia de usar o Congresso como escudo mostrou-se inviável.

    O discurso de “perseguição do STF”, repetido em Copacabana, já não mobiliza como antes. A Revista Fórum destacou que o ex-presidente segue “com explicito medo da prisão”, mas sua retórica soa anacrônica. Para o público geral, a insistência em vitimismo não esconde a falta de autocrítica sobre erros passados. Como observou a Cartacapital, o tema da anistia interessa mais a bolhas ideológicas do que ao eleitorado médio.Até a tentativa de inflar os números revelou desespero. O UOL citou que PMs teriam sido orientados a “aumentar artificialmente” a presença, evitando “frustrar” a expectativa de força. Já o ICL Notícias lembrou que o governo federal, hoje sob outras lideranças, ignora as pautas bolsonaristas. A manipulação de imagens e a insistência em narrativas conspiratórias só ampliam o descrédito.

    Os atos de 2025 comprovam que Bolsonaro deixou de ser um ator central na política nacional. Sem apoio popular maciço, sem respaldo institucional e com uma agenda que não dialoga com urgências sociais, seu projeto reduz-se a um eco do passado. Resta saber se ele aceitará esse lugar marginal ou seguirá alimentando crises que, cada vez mais, só interessam a uma minoria.

  • Terra Transfigurada: aliança e esperança na Ecologia Integral (2° Dom/Quaresma)

    Terra Transfigurada: aliança e esperança na Ecologia Integral (2° Dom/Quaresma)

    Por Levon Nascimento

    A Quaresma não é só um tempo de mudança interior, mas também de transformação do mundo ao nosso redor. Em 2025, a Campanha da Fraternidade traz o tema Ecologia Integral, nos convidando a olhar para as leituras do segundo domingo da Quaresma e perceber a conexão profunda entre humanidade e criação. Nos textos de Gênesis 15, Filipenses 3-4 e Lucas 9, há um chamado claro para reconciliarmos nossa relação com a Terra, ecoando a mensagem do Papa Francisco na Laudato Si’: “Tudo está interligado”.

    A aliança da Terra (Gênesis 15,5-12.17-18). Deus leva Abrão para a Terra Prometida, um lugar fértil e cheio de vida, a “Casa Comum” de nossos primitivos pais na fé, onde sua descendência poderá viver (Gn 15,5-7). Mas essa promessa não se limita a um povo — ela inclui a própria terra como um dom para todos. O ritual dos animais partidos (Gn 15,9-10) sela uma aliança firme: a Terra é presente de Deus, não um recurso para exploração desenfreada. No entanto, hoje quebramos esse pacto quando desmatamos florestas e poluímos rios. A Ecologia Integral nos lembra que cuidar da criação não é uma escolha opcional, mas um compromisso sagrado.

    Cidadania celeste e responsabilidade na Terra (Filipenses 3,17–4,1). Paulo alerta: “O destino deles é a perdição; o deus deles é o ventre” (Fl 3,19). Quando transformamos a natureza em simples mercadoria, perdemos de vista nossa verdadeira missão. Nossa cidadania está no céu (Fl 3,20), mas isso não significa que devemos ignorar a Terra — pelo contrário, somos chamados a cuidar dela. A esperança na ressurreição inclui também a “libertação da criação” (Rm 8,21). Por isso, a Ecologia Integral é um ato de fé: protegemos a Terra porque esperamos “um Salvador que transformará nosso corpo” (Fl 3,21) e renovará toda a criação.

    A glória que transforma o mundo (Lucas 9,28-36). No Monte Tabor, Jesus se transfigura diante dos discípulos, e Moisés e Elias falam sobre seu sacrifício, que trará redenção a toda a criação (Lc 9,31). A voz do Pai ordena: “Escutai-o!” (Lc 9,35). E o que Jesus faz depois? Ele desce da montanha para alimentar multidões (Lc 9,10-17), curar os doentes e lutar contra a injustiça. A Transfiguração não é uma fuga da realidade, mas um convite a enxergar que o mundo pode ser transformado. A Ecologia Integral nos desafia a ouvir esse chamado e buscar mudanças reais, adotando modelos econômicos e sociais que promovam a vida, não a destruição.

    A Quaresma de 2025 nos propõe um jejum diferente: abrir mão da ganância para que a Terra possa respirar. A Campanha da Fraternidade, à luz dessas leituras, nos convida a sair do egoísmo e abraçar uma aliança de cuidado com a criação. Que a promessa feita a Abrão (Abraão) — uma Terra onde corre leite e mel — nos inspire a construir, hoje, um mundo onde a glória de Deus se manifeste em cada gesto de justiça e cuidado com a vida.

  • Vlade Patrício: o contador de histórias do Alto Rio Pardo

    Vlade Patrício: o contador de histórias do Alto Rio Pardo

    Em um mundo onde tudo corre depressa e as memórias parecem escorregar pelo tempo, surge um contador de histórias que faz questão de resgatar e eternizar as lembranças do seu povo. Esse é Vlade Patrício, um mineiro de Rio Pardo de Minas, que transforma o cotidiano em literatura e nos convida a mergulhar no universo rico e simples do Norte de Minas Gerais.

    Com dois livros na bagagem – “Um olhar no passado” e “Retalhos de Prosas” – Vlade se firma como um verdadeiro artesão das palavras. Ele não apenas escreve, mas transporta o leitor para um tempo em que as histórias eram contadas ao redor do fogão a lenha, passadas de geração em geração. Seu olhar sensível para as pessoas e os detalhes transforma cada cena em um retrato vivo da cultura popular.

    Seus textos são um convite para conhecer figuras pitorescas, reviver tradições e se encantar com a simplicidade cheia de significados da vida interiorana. O humor e a poesia caminham lado a lado em sua escrita, criando um equilíbrio entre o real e o imaginário. Ele nos faz rir, refletir e, acima de tudo, sentir.

    Em “Um olhar no passado”, Vlade nos presenteia com crônicas que capturam a essência de Rio Pardo de Minas, retratando personagens e situações que marcam a história local. Já em “Retalhos de Prosas”, ele afina ainda mais sua arte, costurando lembranças e ficção de maneira tão realista que quase podemos ouvir as vozes dos personagens. Sua escrita é cinematográfica: quem lê, enxerga, sente, vive.

    O grande trunfo de Vlade é dar alma às suas histórias. Seus personagens são gente de verdade, com alegrias e dilemas, virtudes e defeitos. Nada é idealizado, tudo é profundamente humano. Além disso, ele desempenha um papel essencial na preservação da memória cultural de sua terra, garantindo que essas histórias não se percam no tempo.

    Vlade Patrício é um tesouro da literatura do Norte de Minas. Seu trabalho é um presente para quem aprecia boas histórias, cheias de alma e identidade. Que suas palavras continuem ecoando, levando consigo o calor, a sabedoria e o encanto do nosso povo.

    Disponível também em https://levonnascimento.blogspot.com/2025/03/vlade-patricio-o-contador-de-historias.html

  • Ecologia Integral: cuidar dos idosos é dever das gerações mais novas

    Ecologia Integral: cuidar dos idosos é dever das gerações mais novas

    A família, núcleo fundamental da sociedade, carrega consigo uma responsabilidade ética e afetiva para com seus membros mais vulneráveis: os idosos e aqueles adoecidos. Essa responsabilidade transcende obrigações legais ou culturais; trata-se de uma questão de dignidade humana e justiça intergeracional. A “Ecologia Integral”, conceito proposto pelo Papa Francisco na encíclica Laudato Si’, reforça essa ideia ao defender que todas as dimensões da vida — social, ambiental, econômica e humana — estão interligadas. Assim, cuidar dos idosos não é apenas um ato individual, mas parte de um ecossistema relacional que sustenta a vida em comunidade.

    A dignidade humana dos idosos está intrinsecamente ligada ao modo como são acolhidos e valorizados. Em uma sociedade que muitas vezes idolatra a produtividade e a juventude, idosos e enfermos podem ser marginalizados, como se sua existência perdesse valor. Cabe à família, como primeiro espaço de pertencimento, garantir que esses indivíduos não sejam reduzidos a “custos” ou “problemas”. Isso inclui oferecer apoio emocional, acesso a cuidados médicos adequados e, sobretudo, preservar sua autonomia e voz. A Ecologia Integral nos lembra que negligenciar essa responsabilidade é romper o tecido social, gerando uma “cultura do descarte” que desumaniza tanto quem é abandonado quanto quem abandona.

    É urgente repensar o cuidado familiar sob uma perspectiva integral. Isso significa combater o individualismo e reorganizar prioridades, seja dividindo tarefas entre familiares, buscando políticas públicas de apoio ou simplesmente cultivando a presença afetiva. Cuidar de quem cuidou de nós não é um favor, mas um compromisso com a justiça e a compaixão. Afinal, uma sociedade só é verdadeiramente sustentável quando reconhece que a dignidade dos idosos é reflexo direto de sua própria humanidade.

  • A religião pode cegar tanto quanto pode libertar? Análise histórica e não teológica

    A religião pode cegar tanto quanto pode libertar? Análise histórica e não teológica

    Ao longo da história, a religião tem sido uma força paradoxal: enquanto em alguns contextos serviu como instrumento de dominação e segregação, em outros foi catalisadora de avanços sociais e culturais. Essa dualidade não reside na essência do sagrado, mas na forma como as estruturas de poder manipularam suas narrativas. Analisando exemplos históricos, é possível identificar como a fé tanto cegou sociedades a aceitarem opressões quanto libertou-as para construir legados humanistas.

    A religião, quando institucionalizada, frequentemente legitimou hierarquias e justificou violências. Na Mesopotâmia, por exemplo, os governantes eram vistos como intermediários diretos dos deuses, consolidando um poder absoluto. Como apontam estudos, “o rei geralmente atuava como agente da divindade”, e questionar sua autoridade equivalia a desafiar o próprio sagrado. Esse mecanismo de controle perpetuou desigualdades, como na sociedade egípcia, onde a religião moldou até mesmo a arquitetura e as leis para reforçar a centralização faraônica.

    Na Europa medieval, a Igreja Católica utilizou seu poder espiritual para silenciar dissidências. A Inquisição (séculos XII–XV) perseguiu hereges, mulheres acusadas de bruxaria e minorias, usando a fé como justificativa para torturas e execuções. A imposição de dogmas, como destacado por teóricos, transformou a religião em “um fenômeno social coercitivo”, onde a obediência era imposta pela ameaça de condenação eterna. No Brasil, a intolerância religiosa contra cultos afro-brasileiros, como o candomblé, persiste até hoje, reflexo de um passado colonial que associou tais práticas ao “mal”, conforme registrado em debates sobre a Lei nº 11.635/2007, que instituiu o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa.

    Atualmente, cresce o fundamentalismo religioso amparado pelas tecnológicas ferramentas de comunicação, como a internet, demonstrando que os interesses do megacapitalismo mundial das big techs se utiliza da religião para ampliar o seu poder político e econômico.

    Por outro lado, a religião também foi veículo para transformações positivas. Na Idade Média, os mosteiros cristãos preservaram manuscritos antigos e fundaram as primeiras universidades, como a de Bolonha (1088), tornando-se “reservatórios culturais e intelectuais” . A caridade religiosa, inspirada em preceitos como “amar ao próximo”, deu origem a hospitais e sistemas de assistência social, antecedentes diretos de instituições modernas como o SUS.

    No segundo milênio cristão, Francisco de Assis, imitando Jesus Cristo, instituiu o pensamento de defesa da natureza dentro dos princípios religiosos do cristianismo, inaugurando o que hoje é chamado de Ecologia Integral.

    Movimentos de resistência também se apoiaram na fé. O budismo, por exemplo, na Índia antiga, desafiava o sistema de castas ao pregar a igualdade espiritual. Já o cristianismo primitivo, embora posteriormente cooptado pelo Império Romano, inicialmente congregou escravos e marginalizados, oferecendo-lhes uma comunidade baseada na dignidade humana. Como observa Clifford Geertz, a religião pode ser um “sistema de símbolos que estabelece motivações poderosas”, capazes de unir grupos em torno de ideais emancipatórios.

    A secularização, teorizada por Max Weber como o “desencantamento do mundo”, prometeu reduzir a influência religiosa nas estruturas de poder. No entanto, o século XXI testemunhou o ressurgimento de fundamentalismos, como o Estado Islâmico, que distorce textos sagrados do islamismo para legitimar terrorismo, e o neopentecostalismo protestante e católico, que no Brasil manipula política e religião para ampliar influência ideológica. Paralelamente, a religião segue sendo ferramenta de resistência: as comunidades indígenas latino-americanas, por exemplo, revitalizam tradições espirituais para defender seus territórios contra a exploração capitalista. A teologia da libertação, com teólogos católicos e protestantes, ensina a “evangélica opção preferencial pelos pobres”. O Papa Francisco tem se tornado um ícone da Ecologia Integral.

    A religião, como produto humano, reflete as contradições de suas sociedades. Seu potencial para “cegar” ou “libertar” depende de quem detém seu controle e de como suas narrativas são instrumentalizadas. Como escreveu Marc Bloch, “tudo que o homem toca pode informar sobre ele” — inclusive sua espiritualidade. Cabe às sociedades modernas resgatar o aspecto ético das tradições religiosas, como a defesa da dignidade humana, enquanto rejeitam seu uso como arma de opressão. A história nos ensina que, quando a fé se alia à razão crítica, ela pode iluminar caminhos para a justiça; quando se entrega ao dogmatismo, torna-se sombra que obscurece a liberdade.

    Levon Nascimento é professor de História e Sociologia, mestre em Estado, Governo e Políticas Públicas e doutorando em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável

  • Dia Internacional da Mulher 2025

    Dia Internacional da Mulher 2025

    Em um mundo marcado por guerras, como em Gaza, na Palestina, na República Democrática do Congo (RDC), e pelo avanço de governos de extrema-direita que ameaçam direitos femininos, o Dia Internacional da Mulher ganha um significado urgente: não é apenas sobre celebrar conquistas, mas sobre reafirmar a luta coletiva pela dignidade.

    Mulheres em zonas de guerra enfrentam violências específicas: estupros como arma de conflito (como na RDC), deslocamentos forçados (em Gaza) e a perda de redes de apoio. Celebrar, hoje, é amplificar suas vozes. Doar para organizações locais lideradas por mulheres ou pressionar governos por políticas humanitárias, são gestos concretos. A solidariedade global fortalece a ideia de que nenhuma mulher está isolada.

    A extrema-direita ataca direitos reprodutivos, igualdade no trabalho e a própria noção de autonomia feminina. Combater isso exige união entre movimentos sociais. Vote em candidatas que defendam pautas feministas, participe de protestos e use as redes sociais para denunciar discursos de ódio. Lembre-se: a Marcha das Mulheres de 2017, contra Trump, mostrou que ocupar espaços públicos ainda é uma arma poderosa.

    Não há feminismo universal. Mulheres negras, refugiadas, indígenas ou LGBTQIA+ enfrentam opressões distintas. Incluir suas demandas é essencial. No Brasil, por exemplo, a luta de lideranças como Maria da Penha ou Sônia Guajajara ilustra como justiça de gênero se conecta a combates raciais e ambientais.

    Em tempos de polarização, informação é resistência. Promova debates em escolas, comunidades ou online sobre como guerras e autoritarismos afetam mulheres. Histórias como a da ativista palestina Ahed Tamimi ou das congolesas que criam cooperativas em meio à guerra revelam coragem e inspiram ação.Celebrar o 8 de Março, hoje, é honrar as que resistem nos escombros e as que combatem o fascismo cotidiano. É reconhecer que, mesmo na escuridão, a luta feminina acende fogueiras. Como escreveu a poeta palestina Najwan Darwish: “Não há vitória sem que o chão inteiro se torne nossa pátria”. Que nossa pátria seja a justiça — e que nenhuma mulher fique para trás.

    Celebrar o 8 de Março, hoje, é honrar as que resistem nos escombros e as que combatem o fascismo cotidiano. É reconhecer que, mesmo na escuridão, a luta feminina acende fogueiras. Como escreveu a poeta palestina Najwan Darwish: “Não há vitória sem que o chão inteiro se torne nossa pátria”. Que nossa pátria seja a justiça — e que nenhuma mulher fique para trás.